A famosa depressão a SW do cabo de S. Vicente

Tópico em 'Aprendizagem e Formação' iniciado por Relâmpago 26 Set 2007 às 23:53.

  1. Relâmpago

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    Olá a todos


    Tenho ouvido falar nesta depressão que se forma com alguma frequência entre o Algarve e a Madeira, principalmente no Outono. É esta depressão que pode dar origem às grandes trovoadas na Madeira (das quais existem, aqui, fotografias excelentes) e também na parte sul do Continente (a sul da linha Montejunto-Estrela, mas mais notório no Algarve. Mais a norte pode dar origem a nevões nas serranias). Segundo me parece, esta depressão tem andado um tanto 'fugida' estes últimos tempos. Será que a vamos ter com mais frequência neste Outono?

    Quais são as características desta depressão? Não me parece que pertença à família das depressões polares ligadas ao sistema das fortes ondulações de W.
    Tem mais características de uma depressão tropical, com ausência de sistemas frontais.
     
  2. Vince

    Vince
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    Furacão

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    Olá Relâmpago, mais uma pergunta interessante :)

    Vou responder com aquilo que é a minha ideia sobre o assunto, mas que pode estar eventualmente errada ou pelo menos não correcta totalmente, pois também são coisas que tenho tentado aprender aos poucos. Como sempre, quem discordar, tenha outra opinião ou queira acrescentar algo, que participe também no tópico que estamos cá todos para aprender.

    Penso que há vários tipos de situações distintas:

    - As depressões nos niveis altos da Troposfera (ULL-Upper level Low) que quando completamente isoladas (COL-cutoff low) e intensas são chamadas por cá de gotas frias
    - As depressões resultantes da interacção das circulações polar e tropical
    - Qualquer das situações anteriores a interagir com uma depressão à superficie existente, associada ou não a uma massa de ar subtropical/tropical quente e humido.

    Quer umas quer outras são depressões fortemente convectivas (por oposição às superficies frontais associadas às outras depressões) devido à invasão de ar frio em altitude provocando um forte gradiente vertical da temperatura favorecendo a convecção.

    As primeiras não tem estado ausentes, temos falado bastante delas nas últimas semanas, e é precisamente quando se instalam no SW que costumam provocar maior instabilidade como aconteceu nas últimas 2 ou 3 sessões de trovoadas cá em Portugal (10-16 Setembro e 20 de Setembro)
    Nós temos este tipo de depressões ao longo do ano, mas é no Outono que elas se tornam mais virulentas pois o ar nos niveis altos é cada vez mais frio que nesta altura do ano encontra ainda nos niveis baixos e médios bastante calor e humidade, não só em Terra, mas sobretudo porque a temperatura da água do mar no Outono é ainda elevada. Por exemplo a última depressão nos niveis altos da última trovoada, ela cá não provocou nada de especial mas quando evolui para Leste e interagiu com a água mais quente do Mediterrâneo, provocou alguns eventos extremos no sul e leste de Espanha. É precisamente no Mediterrâneo que elas são muito mais perigosas do que cá.

    É também no Outono que há maior interacção das circulações polar e tropical devido ao enfraquecimento do AA, favorecendo estas invasões de ar frio em altura, quer isoladas em altura, quer reflectidas em todas os niveis, quer em vale depressionário e frio em altura, que quanto mais para sul penetra, mais perigoso se pode tornar. Os eventos mais extremos, responsáveis por algumas das piores flash floods em Portugal estão quase sempre relacionadas com algum tipo de incursão deste género quando associadas a advecções de ar quente subtropical/tropical, mas a sinóptica costuma por vezes ser complexa, com a conjugação de vários factores, por isso é que são raras por cá, felizmente.


    Já agora, nestes dias temos na Madeira precisamente uma dessas depressões nos niveis altos, e também tivemos há uns dias atrás os restos duma massa de ar tropical.

    300 mb
    [​IMG]

    Só que a bolha de ar frio associada a esta depressão é muito fraca e pouco fria. Provavelmente numa situação destas daqui a umas semanas teriamos uma incursão de ar mais frio que provocaria muito mais convecção do que a que está a ocorrer.

    500 mb
    [​IMG]

    Mas mesmo sendo bastante fraca, ontem ainda gerou algumas células entre a Madeira e as Canárias. (já agora, offtopic, nesta imagem podes ver os torreões/overshooting tops que falámos no outro dia)

    Ontem, 10:00
    [​IMG]

    Não, na minha opinião, não podiam ser mais diferentes:

    - A ULL é fria, a DT (depressão tropical) é quente.
    - A ULL começa por ter circulação em altura, a DT começa por ter à superfice (depois em altura até tem anti-ciclonica)
    - A ULL reflecte-se de cima para baixo, e a DT de baixo para cima.

    Uma e outra são geralmente incompativeis, as ULL's costumam destruir os ciclones tropicais, anda recentemente tivemos o caso da Tempestade Tropical INGRID aniquilada por uma ULL.

    Mas, e penso que venha daí a tua pergunta, há situações onde uma ULL (ou um vale depressionário e frio nos niveis altos) favorece a ciclogenese tropical ou subtropical. Numa fase inicial, em que existe uma depressão com circulação em superficie, o frio nos niveis altos e o windshear q.b. induzido por uma ULL não muito forte pode ajudar a fazer disparar a convecção numa depressão pré-existente à superficie, fazendo com que a pressão desta baixe e inicie a ciclogenese, por vezes explosiva (quan Ado essa depressão existente está embutida numa massa de ar tropical por exemplo). A mesma coisa é válida para os restos duma depressão tropical (como um ex.furacão por ex.) dissipada ou em dissipação.

    Mas numa situação de depressão já totalmente tropical, o mesmo windshear que pode ajudar numa fase inicial, geralmente é fatal à evolução normal e intensificação dum ciclone tropical, ou pelo menos, prejudica a sua intensificação, conforme a intensidade e localização de uma e outra.

    Mas nestes casos não é a ULL que é parecida com a depressão tropical, é a depressão à superficie ou a massa de ar associada que tem algumas caracteristicas tropicais ou hibridas. O frio nos niveis altos só serviu de ignição. Por isso é que há sempre algum risco quando os restos duma depressão tropical se encontra com uma ULL ou um vale depressionário muito intenso e frio nos niveis altos).


    Mas volto a repetir, isto é apenas a ideia que eu tenho, e pode não ser a mais correcta. Ainda há muitas zonas cinzentas que eu ainda não compreendo muito bem :)
     
  3. algarvio1980

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    Super Célula

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    Deixo aqui um exemplo:

    [​IMG]

    Esta depressão a SW do Cabo de São Vicente nesse dia, causou no Sotavento Algarvio a maior cheia desde 1989 até hoje, nesse dia, de manhã, o sol brilhava, nada previa o que aconteceu, apesar de ter dado o alerta na tv, tinha 9 anos fui para a primária na parte da tarde ainda com sol, a partir das 14 horas começou a ficar nublado, meia hora depois começou a chover brutalmente, cada trovoada metia medo, uma trovoada com o estrondo partiu um vidro na sala onde estava, nesse dia choveu 162mm em Faro nunca mais registou-se essa precipitação até hoje, em 4 horas ficou tudo inundado, eu para sair da escola, saí pela janela que se tinha partido do 1º andar para o carro de bombeiros que vieram levar-me a casa, fiquei com pavor a trovoadas, mas com o passar do tempo esse medo começou a desaparecer, mas o receio está sempre lá, mas ironia do destino era uma 6ªfeira dia 13 no próximo dia 13 faz já 18 anos.

    Peço desculpa pela história, mas alguém pode explicar-me este fenómeno que atigiu desde de Faro a Vila Real de Santo António, mas foi mais grave em Faro, Olhão e Tavira.
     
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  4. fsl

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    Um contributo pessoal de natureza empirica:

    Desde que há longos anos me interesso por Meteorologia , tenho notado que muito frequentemente o Verao "acaba" em Portugal quando em Setembro/Outubro/Novembro se for uma Depressao a W do cabo de S. Vicente e evolui para N, atingindo a regiao de Lisboa com grandes Precipitaçoes. Penso que as gandes inundaçoes(cerca de 300 mortos) de 26 de Nov de 1967 tiveram essa origem. Estarei certo?
     
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  5. Vince

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    Furacão

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    Correcto. Há até um tópico no forum dedicado a esse evento:
    -> Tempestade de 25 de Novembro de 1967

    É um dos casos "complexos", em que várias situações se conjugaram e provocaram uma tragédia.
     
  6. Relâmpago

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    Olá a todos

    Quero fazer um reparo à explicação clara, documentada e inteligível do Vince acerca deste fenómeno:thumbsup:. Sempre pensei que este tipo de depressão tivesse algo a ver com características tropicas/subtropicais. Mas, de facto, na zona temperada e na fachada Oeste dos continentes, este fenómeno é muito raro.

    Certo, fsl. Foi uma depressão situada a SW do cabo de S. Vicente que evoluiu para NE e passou sobre a região de Lisboa e, por cima, teve a 'ajuda' de uma superfície frontral fria que na altura passava também sobre Lisboa.
    Esteve a chover torrencialmente (visibilidade muito reduzida!!) durante 4/5 horas, por aí. Esta chuva fez-se acompanhar de trovoada intensa.

    Quanto aos mortos acho que rondaram os milhares:(, infelizmente, embora oficialmente se falasse em 500. Houve uma aldeia junto ao Tejo, para os lados de Vila Franca de Xira, que desapareceu por completo, num ápice, sem que os seus habitantes se pudessem ter defendido da enxurrada de pedras e lama. Morreram todos:(.

    Não me recordo bem, mas nesse dia, em Lisboa, caíram mais de 150 mm em 4/5 horas!! A quantidade de pecipitação correnpondente à total de um mês de Novembro chuvoso!
     
  7. Vince

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    Furacão

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    Relâmpago, relendo novamente a tua pergunta, se calhar interpretei mal o tipo de depressões que te estavas a referir. Penso que ficou mais ou menos bem explicado que as ULL são vulgares, e quando interagem com outra depressão ou mesmo apenas ar mais quente, e se existir fornecimento de humidade, temos a vulgar instabilidade e trovoadas garantidas. Isto é uma situação relativamente vulgar em toda a Europa, e se estacionarem no SW, temos mais hipoteses de ter calor e humidade, daí a termos normalmente trovoadas mais intensas em Portugal, ou se for no Mediterrâneo, temos as violentas tempestades que por vezes seguimos.

    Mas quando esta situação vulgar envolve uma depressão ou restos duma depressão associada a uma massa de ar tropical, temos a mesma instabilidade, mas muito ampliada obviamente. Mas isso são situações raras e anormais,acho que não se pode falar da depressão do SW como uma especie de evento regular ou assim.

    Portanto, se estavas afinal a falar desta conjugação rara de 3 (ou mais) factores, depressão à superficie, depressão fria em altura e ar quente e tropical, que tudo junto pode resultar numa depressão poderosa, sim, aí tens razão, estas depressões são parecidas com as tropicais, ou praticamente tropicais, como foi o caso da ciclogénese explosiva de Novembro de 1997

    -> Ciclogénese explosiva de 5 e 6 de Novembro de 1997
     
  8. Jota 21

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    Olá a todos! Após a leitura deste tópico (e sem saber se uma coisa está relacionada com a outra) pergunto ao Algarvio 1980 se se lembra da manhã de 31 de Dezembro de 1998 em Olhão. Explico porquê: passei a noite de 30 para 31 na ilha do Farol e iria a meio do dia 31 para Portimão passar o final de ano. Na manhã de 31 de Dezembro passou por todo o Algarve um enorme temporal que provocou vários estragos na região deslocando-se de Oeste para Leste. Foram cerca de 3 horas de animação total com muita chuva e muito, muito vento pondo as águas normalmente calmas da Ria Formosa numa agitação como nunca vi. As ligações das ilhas para Olhão e Faro foram cortadas sendo apenas restabelecidas ao fim da tarde. Um catamarã de nome Elena (não muito grande mas de tamanho razoável) foi completamente destruído contra o pontão em Olhão (estava do lado errado do dito cujo).
    Terá tido alguma relação com a famosa depressão a SW do Cabo de S. Vicente? Esta depressão tem altura especifica do ano para aparecer ou é quando calha?
    Em Novembro do ano passado um tornado seguindo um caminho estreito e aos sss destruiu vários telhados de casas no Farol e na Culatra. Tem relação com a tal depressão?
    Cumprimentos
     
  9. algarvio1980

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    Super Célula

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    Penso que não, Jota, as duas situações foram devidas à passagem de depressões cavadas, posso estar enganado
    deixo aqui a notícia do correio da manhã do tornado na ilha da Culatra devido a uma depressão cavada o ano passado em Novembro.

    http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=221365&idCanal=10

    Da manhã de 31 de Dezembro de 1998, lembro como fosse hoje, chovia forte, o vento era forte, tanto que a Ria Formosa que é normalmente calma nesse dia alagou a Avenida 5 de Outubro junto dos mercados, mas reparei numa coisa estranha que fez "o céu estava escuro, de repente, parece que vinha mais aberto nessa altura caiu uma tromba de água e o vento atingiu rajadas de 150km/h, via-se objectos voadores identificados, guarda-chuvas, caixas de cartão tudo a voar, telhados de chapa de zinco voaram como fosse folhas de papel, e lá se foi a passagem do ano nas ilhas para a gaveta:sad::sad:
     
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  10. Jota 21

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    Cumulus

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    Ainda consegui chegar a Olhão ás 6 da tarde e passar o fim de ano em Portimão. Estava tanta gente no cais para embarcar para a ilha que não sei se couberam todos...
     
  11. Dan

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    Eu também me lembro muito bem desse episódio. Nessa altura vivia em Serpa e lá o vento fez muitos estragos, arrancou imensas árvores e até algumas chaminés. Nesse dia estava em Bragança, mas cá não houve vento forte e até nevou de manhã.

    [​IMG]
     
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