Cheias de 25 de Novembro de 1967

Tópico em 'Eventos Meteorológicos' iniciado por Seavoices 8 Ago 2007 às 18:38.

  1. Seavoices Cirrus

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    Como no tópico da tempestade de 1941 se falou desta, esta aqui um testemunho dos B.V. de Odivelas sobre as inundações dessa data, não só para dar conhecimento da violência da tempestade bem como recordar todos aqueles que pereceram. Embora seja mais factual do que meteorológico, penso ser do interesse desta comunidade!

    Link: http://www.bvodivelas.com/sitemega/view.asp?itemid=123&catid=1

     
    #1
  2. Vince
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    #2
    Editado por um moderador: 21 Set 2014 às 03:52
  3. Vince
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    Re: Tempestade de 25 de Novembro de 1967

    Foi há 40 anos.

    (c) Diário Notícias



    (c) Portugal Diário

    (c) Jornal de Notícias
     
    #3
  4. olheiro Cumulus

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    Re: Tempestade de 25 de Novembro de 1967

    Tinha eu na altura 19 anos e frequentava a Faculdade de Direito de Lisboa, morando em Odivelas num quarto alugado e, para sobreviver, dava explicações a particulares de Filosofia e Latim numa sala de estudos ali para os lados da Calçada de Carriche, ainda, com o seu traçado antigo....

    Desci do Autocarro número 36 (Restauradores - Carriche) entre as 18 e as 19 horas e, como sempre ,fiz a pé o percurso entre o fim da Calçada de Carriche(em frente ao antigo restaurante "floresta do carriche" muito conhecido à época ) e o príncípio do Bairro que nascia junto ao velho Pelourinho de Odivelas onde então morava ... A esta distância parecia que andava uns três/quatro quilómetros...a Camioneta de Caneças da Arboricultora....que ligava directamente a freguesia de Odivelas a Lisboa vinda de Caneças e parava em Entrecampos era muito cara.....três vezes mais...uma insignificância hoje, mas que na altura davam para uma sandes, um bolo e um café....

    Chovia não com muita violência...mas com muita persistência desde o fim da manhã desse dia....e a a seguir a um estio prolongado.

    às seis da manhã acordei eu e outros residentes com os gritos que se ouviam sentir dos lados das Patameiras....a Chuva continuava a cair....acordámos e logo sentimos que algo de profundamente anormal tinha ocorrido...A várzea de Odivelas tinha deixado de existir....boiavam alguns carros e centenas de cadávares de cabeças de gado....

    Pelo meio dia, a garagem das viaturas da Associação dos Bombeiros Voluntários de Odivelas estava cheia de cadáveres nas posições mais grotescas, apanhadas pelo inesperado da morte de uma enxurrada....cerca de 200....a maior parte das Patameiras e de da Póvoa de Santo Adriao, Flamenga e Olival de Basto onde a as águas atingiram o segundo andar de algumas habitações....e onde esmagaram barracas de habitação...

    A Calçada do carriche tinha sido fatiada em dois segmentos, como um queijo flamengo, e tinha brechas descomunais...os automóveis boiavam virados do avesso...ou deixavam-se adivinhar pelos remoirnhos das águas....

    A ligação entre o Senhor Roubado e Odivelas desapareceu....a água cavou lagos profundos com três metros de profundidade onde 24 horas mais tarde um ciclista acabou por sucumbir...

    Odivelas a escassos 3 quilómetros de Lisboa ficou isolada da capital...

    O Cheiro a cadáveres fez-se sentir por cerca de dois dias mais....

    As notícias não aparececiam da forma esperada e as comunicações pelas vias mais tortuosas apareciam em Portugal e no estrangeiro...

    As Associações Académicas de Lisboa, de Coimbra e do Porto fizeram a sua aparição....e centenas de estudantes de Medicina, de Direito, de Ciências.....trabalharam duramente no terreno, desenterrando corpos....assistindo às crianças e acompanhando fundamentalmente as famílias desamparadas naquelas circunstâncias....Salazar tinha dificuldades em esconder o país, do bem estar onde tudo parecia estar bem..

    A PIDE vigiava....tudo e todos...desconfiada....

    Dias dolorosos....para todos e foram muitos .... os que acompanharam de pé esta tragédia....Sacavém...Alverca....Vila Franca.....Queluz.....Cacém....Paço de Arcos....Jamor....e dezenas de outras povoações periféricas.....

    Mas a a nossa história recente....não pode esquecer...seja política...seja meteorológica....
     
    #4
    Última edição: 25 Nov 2007 às 21:53
  5. Minho
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    Re: Tempestade de 25 de Novembro de 1967

    Obrigado olheiro por esse testemunho impressionante em primeira pessoa :shocking:
     
    #5
  6. AnDré
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    Re: Tempestade de 25 de Novembro de 1967

    Até me arrepiei ao ler este testemunho...
    Dou comigo a imaginar esses cenários devastadores de há 40 anos atrás... Olho em volta, penso em cada lugar que mencionaste, e tudo parece ser impossivel.
    Odivelas está agora muito diferente... Já não há gado e barracas, só mesmo umas quantas junto à ribeira que penso que nem de habitação servem, mas de lugar para guardar os materiais agricolas. (Há uma série de hortas junto à ribeira..)
    Tudo o resto são agora prédios e mais prédios. E até a ribeira foi recentemente limpa. E parece ter tanto espaço agora para onde se "esticar" que pensar numa cheia assim é praticamente inimaginavel. Mas ao mesmo tempo sei que cada vez que chove, toda a àgua corre para essa ribeira. A que vem de Famões, a que desce da serra da Luz, a que vem da calçada de carriche, a que desce a Ramada, e até a que vem de Caneças. Odivelas fica mesmo no buraco.
    Felizmente, para mim, vivo na zona alta da cidade - Arroja. Uma localidade que naltura nem sequer existia como zona habitacional. Era apenas o lugar plantado de moinhos de vento, que estão agora em ruinas..:(
    Hoje a presidente da Camara de Odivelas, Susana Amador, juntamente com o padre local, na eucaristia aqui do lugar onde vivo, fez questão de pedir que rezassemos por todas as vitimas dessa terrivel tragédia. Esteve bem a senhora presidente:)

    Resumindo: 40 anos depois as coisas estão bem melhores em Odivelas. Estamos agora mais preparados para eventuais chuvadas (aliás, o mês de Outubro do ano passado foi extremamente chuvoso e pos-nos à prova.. felizmente não houve danos a lamentar!:))... Mas ainda assim, paira em muitos dos habitantes da cidade o fantasma das Cheias de 1967...
     
    #6
  7. JAlves Cumulus

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    Re: Tempestade de 25 de Novembro de 1967

    Há algum tempo que sigo este fórum e ando de dia para dia para me registar, mas depois do testemunho do Olheiro, tive que o fazer para comentar o excelente testemunho na 1ª pessoa que aqui nos deixou.

    Acreditem que me arrepiei ao lê-lo pois embora tendo nascido na MAC, desde sempre (1972) que vivi em Caneças e actualmente na Ramada, pelo que conheço toda a zona descrita como a palma da minha mão.

    É de facto arrepiante o que se passou, quase inacreditável quando hoje olho pela janela e vejo o "vale" de Odivelas tão sereno.

    Embora tenha ouvido desde sempre os meus pais e os meus avós falarem dessa catástrofe, este descrição foi real demais.

    Grave é, nos dias de hoje, constatarmos os atentados que têm sido feitos, esquecendo-se o que aconteceu no passado. Falo naturalmente nos prédios que povoam toda a margem do rio entre Odivelas e Loures, alguns por incrível que pareça, acabadinhos de construir. Refiro-me á nova urbanização precisamente junto ao quartel dos BVO.

    Enfim, é o pais em que vivemos.

    Um Abraço
     
    #7
  8. AnDré
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    Re: Tempestade de 25 de Novembro de 1967

    "Grave é, nos dias de hoje, constatarmos os atentados que têm sido feitos, esquecendo-se o que aconteceu no passado. Falo naturalmente nos prédios que povoam toda a margem do rio entre Odivelas e Loures, alguns por incrível que pareça, acabadinhos de construir. Refiro-me á nova urbanização precisamente junto ao quartel dos BVO."

    É verdade... As coisas parecem mais seguras agora, a água tem mais espaço para fluir, mas daí até se contruir quase em cima das linhas de água..:s O JAlves tem toda a razão... Nem me lembrava disso...
    Prédios novinhos em folha, a 20 metros da ribeira :S
     
    #8
  9. Vince
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    Obrigado pelo testemunho. Pelas suas palavras percebe-se que esses acontecimentos estão bem presentes na memória de quem os viveu.
     
    #9
  10. Vince
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    (c) Geologia Ambiental - Cheias
     
    #10
  11. Mário Barros
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    Olha olha olha o IM lembrou-se

    40 anos das cheias de 1967

    Foi há 40 anos que a cidade de Lisboa e as localidades limítrofes, nomeadamente as da bacia do Rio Trancão, viveram 5 horas de chuvas torrencias que deixaram a área da Grande Lisboa à mercê da maior inundação que alguma vez conheceu. Durante o dia 25 de Novembro de 1967, o valor da quantidade de precipitação equivaleu a 1/5 do total anual, sendo que foram registados valores de 89,2 mm na estação de Lisboa/Geofísico e 112,5 mm na estação de Lisboa/Tapada.

    O acréscimo do número e do impacto dos desastres naturais, resultado de um aumento da vulnerabilidade das sociedades e das alterações climáticas são factores motrizes para um desenvolvimento das capacidades da previsão a curto e médio prazo dos Organismos responsáveis pelo desencadear de avisos meteorológicos que permitam aos Organimos responsáveis actuar no terreno na salvagurada de vidas e bens.

    Neste contexto, o Instituto de Meteorologia, I. P., Autoridade Meteorológica Nacional, para além de melhorar os seus mecanismos de vigilância e previsão do estado do tempo, implementou ainda melhores sistemas de comunicação quer com a Autoridade Nacional de Protecção Civil, quer com o público em geral, incluíndo na sua Página WEB um sistema de vigilância e Avisos.

    No seguimento do assinalar desta efeméride, realiza-se dia 26 de Novembro no Instituto de Meteorologia, I. P., uma homenagem ao Dr. Silvério Figueiredo Godinho, à epoca responsável pela área de hidrologia do então Serviço Meteorológico Nacional.

    http://www.meteo.pt/pt/media/noticias/40_anos_cheias_de_1967
     
    #11
  12. n00bcentozpt Cirrus

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    Boas,

    Será que alguém me podia dizer quais foram os factores agravantes das cheias que ocorreram a 18 de Novembro de 1983 e também a 6 de Novembro de 1997 ?

    Ficaria bastante agradecido

    Cumps
     
    #12
  13. Chingula Cumulus

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    Considerando a precipitação registada no Instituto Geofísico D. Luis (Lisboa), em 24 horas, os valores mais elevados registados foram em:

    18 de Fevereiro de 2008 - 118 mm
    5 de Dezembro de 1876 - 111 mm
    19 de Novembro de 1983 - 96 mm
    19 de Outubro de 1997 - 93 mm
    2 de Novembro de 1997 - 91 mm
    11 de Outubro de 1962 - 90 mm
    26 de Novembro de 1967 - 90 mm
    18 de Novembro de 1945 - 86 mm

    Notar:
    a) Que o espaço temporal das observações de 24 horas, corresponde ao período das 09 às 09 horas do dia seguinte (hora Universal).
    b) Que o Outono de 1997 foi particularmente fértil em episódios de chuvadas, com consequências mais graves nas regiões do Sul de Portugal Continental.
    c) Que as chuvadas de certa intensidade causam sempre problemas em meios urbanos, devido a um grande conjunto de factores (desde a quantidade de precipitação ocorrida, tempo de duração da precipitação, grau de impermeabilização do solo, escoamento de águas etc...).
    d) Que onde são registados os valores da quantidade de precipitação numa dada data/hora, esses valores não correspondem necessariamente ao máximo de precipitação ocorrido, nessa região (nessa data/hora).
    e) Para os valores da precipitação (elevados) não faz sentido as décimas de mm.
    Cumps
     
    #13
  14. Vince
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    Faz hoje 42 anos que sucedeu esta tragédia.
     
    #14
  15. vitamos
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    O dia de ontem será de recordar enquanto a memória dos Portugueses e, sobretudo, dos habitantes da Grande Lisboa perdurar.

    A efeméride serviu para rever alguns relatos e testemunhos da época que foram sendo postos aqui e, fica sempre um arrepio pela dimensão de tão grande tragédia. E sobretudo o receio de que algo assim possa voltar a repetir-se... Não com a mesma magnitude trágica (os tempos e os meios já são outros), mas a ladainha que já fomos repetindo por aqui mantém-se... Continuam a existir zonas de risco, sobretudo nos mesmos locais onde esta tragédia decorreu.

    Muito precisa ainda ser feito...
     
    #15

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