Entrevista de Tomé Feteira

Tópico em 'Off-Topic' iniciado por frederico 29 Out 2011 às 17:16.

  1. frederico

    frederico
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    Cumulonimbus

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    Uma entrevista extraordinária, que nos dá outra visão da História portuguesa do século XX, diferente da propaganda oficial implementada pelos comunistas e pelos socialistas da Terceira República. É sempre bom recordar os crimes hediondos do PREC e a má fé dos «heróis» de Abril.

    Um homem brilhante
    Todas as opiniões ouvidas sobre Lúcio Tomé Feteira, natural de Vieira de Leiria, convergem no sentido de o considerar um homem brilhante, visionário, generoso, perspicaz, inteligente e sensível. A sua faceta de excelente contador de histórias também é destacada por todos os que privaram de perto com ele. O seu percurso por vários países do mundo abriu-lhe ainda mais os horizontes e possibilitou que se relacionasse com grandes figuras da História, como a ministra britânica Margareth Thatcher ou o banqueiro norte-americano David Rockfeller. Apesar disso, era uma pessoa simples e acessível.



    Lúcio,
    o benemérito

    “O meu maior prazer na vida era fazer bem.” A afirmação proferida por Lúcio Tomé Feteira, aos 98 anos, é confirmada pelo seu percurso de vida, marcado pelo apoio não só à família como a instituições e pessoas desfavorecidas.
    Na entrevista que o JORNAL DE LEIRIA publica hoje, Lúcio Tomé Feteira refere os dois milhões que doou à Ordem de S. João de Deus para apoiar o tratamento de doentes, instituição onde o filho Lucito, que sofria de esquizofrenia, recebeu assistência médica até falecer com 30 anos. O empresário garante ainda que sempre que morria um operário, continuava a pagar o ordenado à viúva.

    Rui Venâncio Pedrosa, director da Biblioteca de Instrução Popular, conta que, a partir de 1934, Lúcio passou a entregar 100 contos (cerca de 500 euros) por mês àquela instituição até morrer, quando qualquer sócio pagava apenas 100 escudos (50 cêntimos), como forma de reconhecimento por o então presidente da biblioteca lhe ter oferecido uma actuação privada do rancho folclórico na residencial onde estava hospedado.
    Paulo Vicente, ex-presidente da Junta de Freguesia da Vieira, recorda que Lúcio apoiou ainda os bombeiros, a construção da Igreja (onde existe um busto dele e do irmão João, que geria a fábrica de aços), o jardim dos pequeninos, a cantina escolar e o rancho. “Mas nunca quis o nome dele nas instituições que financiava, mas o da mãe ou da irmã”, acrescenta Joaquim Tomé Vidal, actual presidente da junta.

    Segundo Paulo Vicente, era ainda frequente Lúcio oferecer apartamentos. O ex-autarca diz que o empresário deu dois a Rosalina, um dos quais doou à sobrinha-bisneta que era companheira do músico Jorge Palma. O ex-presidente da Câmara da Marinha Grande, Álvaro Orfão, destaca ainda o facto de ter sido presidente da junta entre 1934 e 1939, apesar de não ter necessidade disso. “Foi um gesto amigo.”

    Alexandra Barata


    |Testemunho|

    “Foi a entrevista da minha vida”
    Quando entrevistei Lúcio Tomé Feteira, com a idade de 98 anos, foram quatro horas de convívio electrizante, tanto era a energia irradiada pelo entrevistado. Amigo de reis e presidentes de repúblicas, tratava por tu os barões do dinheiro de Wall Street e era um dos homens mais ricos do mundo. Entrevistei-o no seu modesto apartamento em Lisboa. E a determinada altura Lúcio Tomé Feteira teve que se deslocar ao médico. Mesmo assim nunca deixou de falar em quando se dirigia para o tratamento no seu Mercedes com o motorista particular. E enquanto falava eu não largava o gravador de braço sempre esticado para não perder nada do que ouvia. Foi a entrevista da minha vida. O 25 de Abril, durante o período revolucionário, prejudicou imenso este grande empreendedor que muito amava a sua Vieira de Leiria. Um facto curioso: quando entrevistei Tomé Feteira, quem me abriu a porta no apartamento foi a sua secretária, Rosalina Ferreira, recentemente assassinada no Brasil, que já nessa altura confessou que havia muita inveja da família Feteira em relação a si.n
    Damião Leonel

    Lúcio Tomé Feteira, industrial, 98 anos, natural de Vieira de Leiria
    Um homem do século

    Considera Salazar o maior estadista da História de Portugal. Mas repudia a burocracia do Estado Novo, uma barreira à sua "mania" de construir. Financia, por isso, uma tentativa de revolta, em 1947.Em 1987 recusa o convite do Presidente da República, Mário Soares, para integrar o Conselho das Ordens Honoríficas. Gesto que marca o seu distanciamento ao regime saído do 25 de Abril. Dez anos depois, o JORNAL DE LEIRIA volta a publicar uma das últimas entrevistas do Tomé Feteira, se não a última

    Fundador de um império financeiro, que aproximou línguas e culturas dis tintas, condecorado por reis e pre sidentes, amigo de ditadores e democratas, Lúcio Tomé Féteira simboliza o espírito criativo e universalista do português neste século.

    A sua família é mesmo originária de Vieira de Leiria?
    O meu avô era natural de S. Tomé de Mi ra, abaixo da Figueira da Foz. Veio pa ra a Praia da Vieira numa carroça. Na quele tempo o rio Lis era navegável. O meu pai, Joaquim Tomé Féteira, que nas ceu na Vieira, criou uma indústria, em 1868. Os seus produtos tornaram-se conhe cidos no mundo inteiro. Havia paí ses que desconheciam a existência de Por tugal, mas co nheciam as limas portuguesas. Tive a ocasião de verificar isso em Sai gão. Um dia houve um incêndio que de vo rou as ca sas da Praia da Vieira. As casas eram barracas. Foi por isso que o meu pai veio para Vieira de Leiria. Era um homem com gran de paixão pelas ciências. Possuía um poder de argumentação extraordinário. Tornou-se conhecido em to do o País. As maio res intelectualidades de Portugal iam visitá-lo. Havia mesmo um livro que dizia: - se um dia passares por Leiria não deixes de visitar o Tomé das limas.

    Que tipo de educação recebeu do seu pai?
    O meu pai cuidava dos seus 12 filhos com uma certa rigidez. Como era dantes! Obri gou-nos a andar descalços até aos quatro anos. Andar calçados só era permitido ao do mingo. Dizia que andar em contacto com a terra fazia bem. Isto passou-se na Viei ra, onde nasci. Começou a ensinar-me a ler aos 3 anos. Ainda era uma criança e já lia o jornal para o meu pai.
    Saía da escola primária e ia tomar banho para o rio Lis. Naquele tempo o Lis não era poluído. Aprendi a nadar muito cedo. Che guei a nadar durante duas horas sem ir a terra. Esse exercício físico revelou-se im por tante ao longo da minha vida. O meu pai foi sempre monárquico. Eu tinha um irmão, o Raul, que era republicano, apoiante do António José de Almeida. Discutiam política e outras coisas. Eu ouvia. Isso traduziu- -se, em mim, num certo saber. E tanto assim foi que quando entrei no liceu aquilo não foi nada para mim.

    Que ideia tem sobre a República?
    A passagem da Monarquia para a Repú blica foi uma desgraça. Os republicanos mataram padres, cometeram os crimes mais violentos, aquela coisa... a legião vermelha... matou três juízes e cinco jurados. Até o fundador da República, o Machado dos Santos, foi morto. Depois veio o Gomes da Costa, que fez o 28 de Maio... E a ordem determinante para que não se fizesse mal aos republicanos. O Bernar dino Machado, que estava exilado em Madrid, contou-me isto a chorar. Con videi-o a almoçar comigo. Comeu muito pouco. Chamei-lhe a atenção: - O senhor Presidente come tão pouco! - Vou dar-lhe um conselho -, respondeu. - A frugalidade conduz à longe*vidade. E contou-me quanto estava grato ao Gomes da Costa por ter protegido os republicanos. E que até tinha sido destacado um coronel para acompanhá-lo. Disse-me isto a chorar!

    Cumpriu o serviço militar?
    Andava no 5.º ano quando apareceu um rapaz com uns galões de oficial. Aquilo era um fascínio para as moças. Fiquei com muita inveja. Perguntei-lhe como era possível conseguir aquilo. - Aliste-se para a guerra. Faça o curso de oficiais, em Mafra, e terá uns galões como estes -, foi a resposta que obtive. Até me ajudou a fazer um requerimento ao minis tro da Guerra, general Norton de Matos, com quem trabalhei mais tarde. Mas para o requerimento ir avante, era necessário uma declaração assinada pelos meus pais, pois tinha 15 anos nessa altura. Andava esgotado. Estava no 5.º ano. E já tinha tido outro esgotamento. Naquele tempo estudava--se latim a partir do 3.º ano do liceu. Uma ocasião disse ao professor que no espaço de um mês meteria na cabeça toda a gramática do latim. E meti mesmo! Mas depois caí doente durante três meses.

    Homem notável

    Recorda-se de algum professor?
    Um dos meus professores era o pai do José Hermano Saraiva, aquele que faz programas de televisão sobre História de Por tugal. O seu irmão, o António José Sa rai va, foi um homem notável, um grande escritor. Deixou de ser comunista depois de ter feito uma viagem à Rússia.
    Entretanto, disse à minha mãe que queria ser oficial do exército. Isto aconteceu, em 1917, quando Portugal entrou na Grande Guerra Mundial. Tinha 15 anos. A minha mãe ficou aflita. Mandou--me falar com o meu pai. Lembro-me perfeitamente de ter dito que não. Era o medo, o respeito... Andei três dias a ganhar coragem para falar com o meu pai.

    E falou?
    Ao fim de três dias, depois de ganhar cora gem, fui ter com o meu pai. - O que é que o senhor deseja? -, perguntou, tratando- -me por senhor. - Nada, respondi. - Nada? O senhor gasta uma imensidade de latim para não querer nada? - Bem... queria que o pai assinasse isto. - É só? - É só. - Vou buscar a pena. A pena era a caneta daquela época. Apareceu com umas cordas dobradas. Dizia que com aquilo os ossos não quebravam...

    Pensou nalguma alternativa?
    Pensei em tirar o curso de piloto de na vios. Houve até um familiar meu que fa lou com o tenente da Marinha Francisco Cham pa limaud. Anos mais tarde até perguntei ao António |Champalimaud| se era parente daquele oficial da Armada. Res pondeu--me que não. - Costuma-se dizer que as pessoas ricas não têm parentes, disse-lhe. - Não é nada disso, acrescentou.

    Tem boas relações com António Cham pa limaud?
    Tratamo-nos por tu.

    Foram sócios?
    Nunca fomos sócios. Um dia o Jucelino de Oliveira (presidente do Brasil) disse-me que tinha uma jazida maravilhosa de cimento para mim. Respondi-lhe que não queria mais nada. E indiquei-lhe o An*tónio Champalimaud. Então o Cham pa limaud contraiu um empréstimo - era isso que deve ria ter dito no livro dele - de 12 mi*lhões de libras num banco da Ale manha, dando como garantia o Banco Pin to e Sot to Mayor. Quando se venceu a le tra foram pedir dinheiro ao Banco Pinto e Sotto Mayor. No banco disseram que era com o senhor Champalimaud. O Champa limaud disse que não. Conclusão: o Estado teve que pagar esses 12 milhões de libras. Portanto, ele ganhou esses 12 milhões. É isso que deveria ter dito. Às vezes há falta de sinceridade... Isso foi quatro anos antes do 25 de Abril.

    O que se passou após o seu familiar ter falado com o tenente Francisco Champalimaud?
    O tenente Champalimaud arranjou-me lugar, como aprendiz de pilotagem, num navio dos Transportes Marítimos do Es tado. Informaram-me logo que ia traba lhar como um simples marinheiro. E que ganharia 75 escudos por mês. O dólar valia então oito escudos. No dia seguinte apresentei-me no navio. O contra-mestre perguntou-me se sabia nadar. Disse-lhe que sim. - Então o seu serviço é numa escada de corda com uma lata de tinta e uma raspadeira. Vai pintar o navio. - Bom, disse eu -, pode ser que saia daqui um Malhoa [risos]. À noite, quando me deitei, não podia com os mosquitos. Eram milhões! No dia a seguir o Francisco Champali*maud disse--me que era mesmo assim. Então a mulher dele reagiu: - Não é bem assim. O praticante não faz esse serviço e dorme em segunda classe. Isto passou-se em Lisboa, em 1917, quando o navio do tenente Carvalho e Araújo foi afundado por um submarino alemão. Era amigo do irmão dele.
    Entretanto, fiz uma viagem à Madeira e à ilha do Corvo, nos Açores. Estive 17 dias no mar. Mas para entrar na Escola Náutica era preciso passar 365 dias no oceano.

    Ficou em terra...
    Pensei que só num barco à vela era possí vel ingressar na Escola Náutica. Até que encontrei, junto ao cais, uma galera de quatro mastros. O comandante era de Cabo Verde. Perguntei-lhe se precisava de um pra ticante de pilotagem. Disse-me que sim. Ia ganhar 150 escudos por mês. A partida para Baltimore estava marcada para o dia seguinte. Fui logo à Capitania para registar o meu nome. Mas estava lá muita gente. E não consegui resolver a minha situação. O barco partiu sem mim. Três dias depois foi afundado por um torpedo de um submarino alemão. Os tripulantes morreram todos.
    Verifiquei logo que não tinha vocação para a Marinha. Regressei a casa e pedi à minha mãe que me desse três tostões para pagar a pensão em Leiria. Fui para lá estudar como aluno externo. Os livros eram emprestados. Assim fiz o 6.º e o 7.º anos. A minha mãe ficou toda contente. Mais tarde, em 1922, após tirar, no Porto, o curso |incompleto| do Instituto Superior de Comércio, fui para Luanda como funcionário superior de finanças.

    Em Angola

    O que aconteceu após a morte do seu pai?
    O meu pai, quando morreu, deixou à minha mãe, em testamento, uns títulos brasileiros, emitidos pela Casa Roschild, em Londres. E também deixou a empresa de limas, com a condição de passar para os filhos 25 anos depois. Por isso, quando me formei, concorri ao Ministério das Coló nias. Fiquei em primeiro lugar e fui traba lhar com Norton de Matos - um homem extraordinário -, como oficial superior de finanças, em 1922. Norton de Matos era alto-comissário em Angola. Já tinha sido governador, em 1912.

    Como era a relação de Norton de Matos com o povo de Angola?
    O Norton de Matos criou um prestígio tão grande que depois foi vítima da inveja. A inveja, afirmavam os romanos, é a companheira inseparável da glória. Norton de Matos não consentia que houvesse um preto ocioso. Mas também não permitia que se tratasse mal um preto. Queria fazer uma confederação de estados portugueses. A sede dessa confederação, que seria no Huambo, passaria a chamar-se Nova Lisboa. Uma vez apareceu o Venâncio Guimarães, que negociava pretos. Norton de Matos avisou-o que não consentia aquele negócio. O Venâncio Guimarães pensava que tinha as costas quentes, pois era ami go do engenheiro Cunha Leal, o maior tribuno que havia na República. E prosse guiu com as suas actividades. Norton de Matos expulsou-o.

    Conheceu Alves dos Reis, considerado o maior falsário português do século?
    Conheci-o muito bem. Fiz um inquérito ao Alves dos Reis. Ele era responsável pelos caminhos de ferro que iam de Luanda a Malanje. Até vou contar uma coisa que tem graça. Estava com Alves dos Reis e mais dois amigos quando passou uma senhora muito bonita. Eu disse: - Bonita senhora. - É bonita mas é minha, retorquiu ele. Respondi: - Oh Alves dos Reis, eu também não a quero. Fica lá com a mulher [risos].
    Alves dos Reis era visto como um génio financeiro...
    Era um tipo muito inteligente. Foi para Angola com o primeiro ano do curso de Engenharia e apresentou-se como enge nheiro. Digo mais: deve-se a Alves do Reis o facto de Portugal não ter ido à falência. Graças àquelas notas falsas de 500 escu dos.

    O maior estadista

    Quem é, na sua opinião, o português mais ilustre deste século?
    Salazar foi o maior estadista da História de Portugal.

    Mas o senhor financiou uma tentativa de revolta contra o regime de Salazar. Por quê?
    É verdade. Foi em 10 de Abril de 1947. João Soares, pai do Mário Soares, era um dos implicados, assim como o almirante Mendes Cabeçadas, entre outros. Vieram ter comigo. Eu andava danado com a burocracia. A questão não era com o Salazar. Queria construir fábricas. Tinha a mania de construir. Ainda hoje não posso com a burocracia portuguesa. Na América consegui o quis, no Brasil também. Na Amé rica até criei uma fundação em 15 dias. Em Portugal também quis fazer uma fundação e não me deixaram. Entretanto, o pai do Mário Soares, com quem me dava muito bem, apareceu em minha casa...

    Salazar gostava de si?
    Gostava! Pediram-me para financiar o golpe, pois não tinham dinheiro. E financiei. O que dava ao Governo o direito de me confiscar os bens. E Salazar não o fez. Salazar afirmou a um ministro que sentia grande apreço por mim. - Tenho tanta admiração por este homem e ele não gosta de mim -, terá desabafado a meu respeito. Mas não era bem assim. Eu não gostava era da burocracia. Salazar nunca me quis mal.

    Salazar soube do seu envolvimento na tentativa de revolta?
    Soube de tudo. Fui o único que escapei. Os restantes, mais de três centenas, foram para a prisão, entre os quais o Manuel Cunha, meu cunhado.

    João Soares também foi preso?
    Também foi. Um pide mandou--me embora. Quando foram presos estava eu a cami nho do Rio de Janeiro. Fui o único dos im plicados a escapar. Mais tarde, em 1950, du rante o Ano Santo, o Papa Pio XII pediu uma amnistia para os presos políticos. Mas Sa lazar não deu. O único que precisava da amnistia era eu. Os outros, afinal, já ti nham* cumprido a pena. Depois apareceu o pro fessor Queiró, de Coimbra, a discursar: - Portugal não pode perdoar a esses trai dores da Pátria... Mas traidor era só um [risos]. E estava no Rio de Janeiro [risos].

    É verdade que acolheu opositores ao regime do Estado Novo na sua casa no Rio de Janeiro?
    Sim senhor! A todos prestei auxílio. E tanto foi assim que, uma ocasião, ao chegar a Lisboa, fui interpelado por um pide: - Nós sabemos que tem auxiliado certas pessoas... - Tenho, sim. Mas se amanhã o Salazar me aparecer desgarrado também não o abandono. - Está bem. Você é boa pessoa. Pode ir embora -, disse o pide.

    Salazar nunca prejudicou os seus negócios?
    A mim, não.

    Mas ao financiar a tentativa de revolta o senhor estava a rebelar-se contra Sala zar...
    Pois era... Estava danado com a burocracia. Evidentemente que o Salazar também era responsável por aquilo que não praticava. Era o chefe do Governo. De qualquer modo, poderia ter confiscado os meus bens e não o fez. Depois veio o 25 de Abril e roubaram- -me tudo...

    Qual é o seu património actual?
    É uma centésima parte do que tinha!

    Mário Soares sabe que o senhor era amigo de João Soares?
    Está ao corrente disso tudo. Ajudei o Má rio Soares quando ele estava no exílio. Mais tarde, quando era Presidente da Re pública, Mário Soares pediu ao Azeredo Perdigão para eu aceitar fazer parte do Conselho das Ordens Honoríficas, o máximo que há. E recusei.

    Milagre económico

    Em que ano foi para o Brasil?
    Em 1941, a conselho de Washington Luís, presidente do Brasil. Getúlio Vargas era ministro das Finanças. Comecei a abrir fábricas no Rio de Janeiro, S. Paulo, Ar gen tina, Uruguai, Venezuela... Eram fábricas de vidro, de cimento, de várias coi sas... Ainda hoje tenho uma fazenda no Brasil com 1300 cabeças de gado. Um dia conheci um antigo diplomata brasileiro que me falou numa propriedade com muitas areias para as minhas fábricas de cimentos. Ficava a 20 quilómetros de Ni te rói, no outro lado da baía do Rio de Ja neiro. Situa da à beira-mar, tinha seis la goas e 70 quilómetros de extensão. Era a coisa mais bela do mundo. Comprei a propriedade por 130 mil dólares. Fiquei des lumbrado. Cheguei a vender 25 toneladas de camarão por dia.

    Chegou a fundar a cidade de Olímpia, no Brasil, em homenagem à sua irmã?
    Gastei milhões de dólares nesse projecto. Mas o senhor |Leonel| Brizola embargou tudo. Seria a cidade mais linda do mundo. Isto é confirmado pelo Lúcio Costa, o arquitecto de Brasília.

    Quando regressou a Portugal?
    Em 1964 resolvi vender as minhas empresas. E depois pensei no melhor local para colocar o dinheiro. O dinheiro não tem pá tria, vai para onde há melhores garantias. Qual era o país que me oferecia melhores garantias? Portugal, que tinha o orçamento equilibrado e a moeda mais forte do mundo. É por isso que hoje não me deixam falar. Portugal tinha a inflação a zero e 980 toneladas de ouro. O Financial Ti mes escreveu: - Portugal, a continuar a sua ex pansão económica, atingirá o terceiro milagre económico do mundo em 1980. O que ultrapassaria muitas vezes os outros dois milagres económicos: o japonês e o ale mão.
    Trouxe o dinheiro para Portugal?
    Sim, onde já tinha outras coisas...

    E quanto dinheiro trouxe?
    Muitos milhões de dólares. Tinha cá a Co vi na e outras fábricas. Até fundei o Banco Comercial de Angola, em Luanda, em 1964. Em Angola encontrei o general Silvino Silvério Marques, de quem sou muito amigo. Comprei muitas coisas, incluindo acções de muitas companhias...

    O 25 de Abril

    Trouxe o dinheiro para Portugal. E depois?
    Deu-se o 25 de Abril...

    E os seus bens foram nacionalizados...
    Nacionalizados? Roubados! Nacio nalizar é um eufemismo que eles criaram. Há três países que roubaram o povo: Cu ba, Rússia e Portugal. A Inglaterra, a de ter minada altura, estatizou. Mas pagou por isso o dobro do valor. Mitterrand, quan do era presidente da França, fez o mesmo. Mas também pagou o dobro. As fábricas, nas mãos do Estado, nunca dão nada.


    Que património tem na Vieira?
    Uma quintasita...

    É verdade que tratou o almirante Rosa Coutinho como simples marinheiro?
    É verdade. Disse-lhe: senhor marinheiro: co mo toda a gente sabe, depois do tenebro so 25 de Abril, fez uma grande fortuna. Po de explicar à gente como a fez? Só disse que não era rico. Isso aconteceu durante um programa televisivo. Foi no vigésimo ani*versário do 25 de Abril. Foi a primeira vez que me deixaram falar sobre os roubos.


    É verdade que recebeu uma carta de Ezer Wei z man, ex-presidente de Israel, a agradecer a sua ajuda a refugiados judeus durante a Segunda Guerra Mundial?
    Escreveu-me uma carta a pedir que salvas se um cunhado seu, cientista... Eu era cônsul honorário do Paraguai. Fui à França ocupada, com o senhor Magalhães, cônsul português em Marselha, e conseguimos salvar o homem. Weizman, quando fez escala em Lisboa, a caminho da Nova Ior que, onde ia fazer um conferência, convidou-me para almoçar no Avis. Ofereceu-me um relógio de ouro. Weizman era professor em Inglaterra. Foi o inventor do radar. Mais tarde dei o relógio ao doutor Vas concelos Marques, grande cirurgião, o mesmo que tratou Salazar.

    Quem lhe ofereceu um Van Gogh?
    Outro judeu, chamado Van Bergh, veio ter comigo com um telegrama do Canadá diri gido a mim. Quando me viu começou a cho rar. Contou-me que tinha a mulher e as filhas debaixo da pata do Hitler. Van Ber gh, que era banqueiro, tinha a maior colec ção de quadros de Van Gogh. Era um ho mem muito rico. Pediu-me que lhe arran jas se um visto para a África do Sul. E ar ran jei. Quis oferecer-me a obra-prima de Van Gogh. Não aceitei. Convidei-o, juntamente com o embaixador do Paraguai, a jantar comigo. Então ele pediu ao embai*xador que me convencesse a aceitar a sua relíquia mais valiosa: uma caixa de rapé, em ouro, com uma coroa. Ainda hoje guar do esse objecto em minha casa. Uma oca sião, estava a almoçar num restaurante de Wall Street, em Nova Iorque, com direc tores do City Bank, quando um deles me dis se que Van Bergh perguntara por mim. Telefonei-lhe e o banqueiro disse-me que tinha uma obra para mim e que não a vendia por dinheiro ne nhum. Era a His tória de Por*tugal do Século XVIII. Tam bém a tenho comigo. Mais tarde, nu ma viagem de Londres para Paris, sou be que a obra-prima de Van Gogh tinha sido vendida por 56 milhões de dó lares. E também soube que o banqueiro morrera.

    Também arranjou um advogado a Ca louste Gulbenkian...
    Sim, apresentei-lhe o meu advogado, o Azeredo Perdigão...

    Fez alguma coisa pelo próximo?
    Fiz muito. Só à Ordem de S. João de Deus dei dois milhões de contos para o trata men to dos doentes. Fui o único industrial a dar assistência social aos operários. Por exem plo, morria um operário e a viúva con ti nuava a receber o ordenado do marido. O meu maior prazer na vida era fazer bem. Também Deus foi meu amigo. Corri riscos enormes e Deus pôs-me sempre a mão.

    Que conselhos daria à geração actual?
    Esta geração, coitada, anda toda envenenada. Contam-lhe a história mentirosa. Disse isso ao meu neto, quando se formou em Direito. n

    Amigo de reis
    e presidentes
    Nasce em Vieira de Leiria, em 1902, no reinado de D. Carlos. Com 21 anos vai para Angola como funcionário superior de finanças. Em 1924 passa para o Congo Belga, onde exerce cargos de direcção em importantes empresas, sendo condecorado pelo rei Alberto da Bélgica com a Ordem de Leopoldo II.
    Regressado a Portugal, em 1928, ingressa na Empresa de Limas União Thomé Fèteira, fundada pelo pai, donde parte à conquista dos mercados externos. Em 1933 funda, na Guia, a Companhia Industrial de Vidros. E, anos mais tarde, a Covina, dotada com o mais moderno processo de fabricação de chapa de vidro do mundo. Ao mesmo tempo que assegura aos operários os meios de subsistência, benefícios que estende aos traba lhadores inválidos e às viúvas.
    O governo, em reconhecimento, condecora-o com a Ordem de Mérito Industrial, no grau de Comendador, cujas insígnias são-lhe oferecidas pelo povo da sua terra numa homenagem pública, em 1939.
    A partir de 1941 cria várias empresas no Brasil, sendo considerado o português que maior obra industrial realizou na história daquele país.
    Do seu império industrial, que vendeu, em 1964, para regressar a Portugal, constavam cerca de quatro dezenas de empresas espa*lhadas pelo mundo. Cônsul do Paraguai em Lisboa durante muitos anos, também foi alvo de várias homenagens públicas em Portugal e no estrangeiro. Possui várias condecorações conferidas pelos governos de cinco países. Em 1987 recusa integrar o Conselho das Ordens Honoríficas, a convite do Pre sidente da República, Mário Soares. Lúcio Tomé Féteira vive em Lisboa.

    Damião Leonel


    2010-08-19

    http://www.jornaldeleiria.pt/portal/index.php?id=5109
     

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