Muito cuidado ao andarem de comboio (IC)!

Tópico em 'Off-Topic' iniciado por vitamos 1 Out 2008 às 11:36.

  1. vitamos

    vitamos
    Expand Collapse
    Staff

    Registo:
    11 Dez 2007
    Mensagens:
    4,564
    Local:
    Lisboa; Costa da Caparica
    “Senti as rodas do comboio a passarem junto à minha cabeça”

    Vítima do acidente ferroviário em Santa Comba conta como a porta se abriu e foi projectada para o exterior, com o comboio em andamento

    Maria Natália Costa da Silva Pereira Nunes está internada no Hospital de S. Teotónio, em Viseu, depois de ter sofrido a amputação das duas pernas, na sequência de um acidente ferroviário, na estação da CP de Vimieiro, Santa Comba Dão. A professora do ensino secundário, de 69 anos, reformada, ficou com a perna esquerda amputada 10 centímetros acima do joelho e a direita foi cortada 15 centímetros abaixo do joelho. Em perspectiva tem uma vida em cadeira de rodas. Todavia, por estranho que possa parecer, não se revoltou contra a má sorte. Serenamente e com uma coragem única, afirma que «tenho de aprender a viver de outra maneira». E quem passou uma vida inteira a ensinar, lembra que «aprendemos todos os dias», dando graças a Deus por «ter ficado com a cabeça a funcionar na perfeição».
    Natália Pereira Nunes, residente em Cabanas de Viriato, quer ainda lançar um alerta em nome da segurança de quem circula de comboio, uma vez que «foi um acidente imprevisível» que a deixou sem pernas. E a professora sublinha que, contrariamente ao que se pensou na altura do acidente, ocorrido na passada quarta-feira, não saiu do comboio em andamento, antes foi «projectada para a porta», acabando por cair entre o cais e a linha.
    A doente contou-nos que foi a Lisboa e embarcou, com destino a Santa Comba Dão, na estação do Oriente, às 12h00. Tomou o Intercidades e entrou para a carruagem 23. Levantou-se do seu lugar e quando o comboio chegou ao Vimieiro, preparou-se para sair. «Fui para a porta e esperei que o comboio parasse para mexer no manípulo de abertura da porta», afirma, recordando as recomendações visíveis no local, que alertam para não manipular a porta com o comboio em andamento. Cumpriu as indicações e quando, com o comboio parado, mexeu no manípulo, «a porta abriu cerca de 10 centímetros. Não era possível ninguém sair», sublinha. A professora reformada tentou alertar para a situação e colocou o braço de fora. Contou-nos que passou um homem «com uma camisa branca, mas talvez ele não tenha visto». Natália Pereira Nunes afirma que já tem uma vasta experiência em viagens de comboio e rapidamente percebeu que o tempo estava a passar e que não «conseguia sair naquela estação». Preparava-se, então, para regressar ao lugar e sair na próxima paragem, que seria Carregal do Sal. «Depois viria buscar o meu carro de táxi», contou-nos.


    Alerta para evitar
    outros acidentes


    Todavia, não foi isso que aconteceu. «Quanto subi o primeiro degrau – para ter acesso à carruagem propriamente dita – já com o comboio em andamento, a porta escancarou-se completamente. Os 10 centímetros transformaram-se numa porta aberta e a corrente projectou-me para fora», contou ao nosso Jornal. Natália diz que ainda se agarrou ao varão exterior e «fui sentindo os degraus a bateram-me nas pernas e a escorregar», tendo acabado por cair. «Pensei: vou morrer e encolhi-me entre a parede do cais e a linha. Sentia as rodas do comboio a passarem-me junto à cabeça». E assim ficou. Terão passado três carruagens, admite, sublinhando que «estou a ultrapassar tudo muito bem».
    Natália nunca perdeu a serenidade e deu aos bombeiros os contactos dos familiares, no sentido de serem avisados e hoje, internada na cama 1 da enfermaria de Ortopedia, não tem problemas em contar o que se passou. Serena, conta como sentiu as rodas a passarem próximas, «mas não me atingiram nem na cabeça, nem nos braços, só os degraus é que me partiram as pernas todas». «Tive uma sorte muito grande, pois fique com a minha cabeça a funcionar a perfeição», remata, optimista.
    Natália Pereira Nunes tem consciência que «não há testemunhas, porque ninguém mais saiu naquela porta e não sei se alguém viu o meu sinal para o perigo», e faz questão de lançar o alerta, no sentido de evitar que outros sofram acidentes desta natureza. A professora reformada já presenciou e ouviu falar de situações semelhantes, em que as portas de comboios rápidos bloquearam, impedindo os passageiros de sair. Ultimamente, de resto, tem viajado repetidas vezes para Lisboa e na semana passada aconteceu «uma situação semelhante com um rapaz que entrou no Entroncamento e também não conseguiu sair, em Santarém, porque a porta não abriu». Mas, «como era um rapaz novo, correu para a outra porta e lá conseguiu sair a tempo», afirma. «Tenho presenciado outras situações e sabido de vários casos», como o de um colega de profissão que «não conseguiu sair em Coimbra».
    Por comparação, Natália considera mais seguro o sistema de portas dos comboios regionais, uma vez que nos rápidos «muitas vezes não abrem». «Quero que as pessoas estejam avisadas para que não volte a acontecer. A mim já não me ajuda, tenho de aprender a viver de outra maneira», mas «é um perigo público», especialmente para as «muitas pessoas de idade e com problemas de mobilidade que circulam nos comboios», adverte.


    Família vai avançar
    com processo contra a CP


    O marido, Jorge Luís dos Santos Nunes, tenente-coronel do Exército reformado, sublinha a coragem da esposa, confessando que nem ele próprio, com uma vasta experiência em cenários de guerra, teria a capacidade de Natália para encarar a nova realidade como esta está a fazer. A vida do casal, reconhece, sofreu uma “reviravolta” e «vamos ter de nos adaptar» à medida que os tempos vão passando, refere, pensando na forma como terá de remodelar a vivenda onde vivem, em Cabanas de Viriato, para obviar as escadas e garantir a melhor mobilidade à esposa.
    Para além dessa perspectiva futura, o tenente-coronel tem como certa «a obrigação moral» de avançar com um processo contra a CP. «Estamos perante um serviço público que deveria garantir segurança e não garante», afirma. A família já constituiu advogado, que hoje mesmo reúne como o Ministério Público (MP) de Santa Comba Dão, no sentido de averiguar se este avança ou não com um processo-crime por ofensas corporais involuntárias. «Se o MP avançar, ao mesmo tempo nós avançamos com uma acção de responsabilidade civil», acrescenta, dando como certo que o processo vai avançar, por vontade da família, independentemente da decisão do MP.
    Para além da «deficiência que vai marcar o resto da vida da minha mulher, que vai ficar numa cadeira de rodas», Santo Nunes aponta um conjunto de deficiências ao serviço da CP, a começar pelo facto de ser o revisor quem dá o sinal de partida ao comboio e não alguém que esteja na estação e tenha uma visão ampla da composição. «Não há um elemento que fiscalize, a CP poupa em recursos humanos e põe em causa a segurança das pessoas», afirma. Refere ainda o sistema de funcionamento das portas, pouco seguro, que acabou por projectar a mulher para a linha e amputar-lhe as pernas.
    «Não há nada que possa resolver a situação, nem pagar os danos sofridos, mas tenho a obrigação moral de avançar com o processo para Tribunal, apontando a responsabilidade da CP neste acidente sem sentido», remata.



    In Diario de Coimbra (01/10/2008)
     
  2. trepkos

    trepkos
    Expand Collapse
    Nimbostratus

    Registo:
    10 Out 2008
    Mensagens:
    1,409
    Local:
    Eborae
    Esse tipo de acidentes é muito raro acontecer, o revisor vem cá fora e é ele que dá a partida do comboio, a porta pode ter encravado e ela consegiu abrir já com o comboio a arrancar e escapou à vista do revisor, já tinha lido noutro lado e no meu ver a culpa não é da CP.
     
  3. Vince

    Vince
    Expand Collapse
    Furacão

    Registo:
    23 Jan 2007
    Mensagens:
    10,624
    Local:
    Braga
    As portas dos IC's realmente são um quebra-cabeças para os idosos (e não só) e às vezes encravam, embora não costume ser dificil abrirem, dando o jeito correcto. Mas como não é um movimento habitual numa porta não é raro ver pessoas às voltas com a porta sem conseguirem abrir.

    O estranho é o comboio ter arrancado com a porta aberta, ou será que o acidente nasceu mesmo aí, a porta ao tentar fechar poderia detectar que estava lá alguém e algum mecanismo ter aberto repentinamente? Penso que a haver responsabilidade da CP terá a ver com este facto da porta aberta e o comboio arrancar.

    Coitado da senhora, e coragem para isto.
     
  4. trepkos

    trepkos
    Expand Collapse
    Nimbostratus

    Registo:
    10 Out 2008
    Mensagens:
    1,409
    Local:
    Eborae
    É por isso que disse que o acidente se deu depois do revisor ter dado a partida, que já não estava a controlar o exterior, as portas não se conseguem abrir em movimento, contudo é bastante estranho o acidente, a senhora não se terá apercebido que o comboio já estava em andamento?
     
  5. jPdF

    jPdF
    Expand Collapse
    Nimbostratus

    Registo:
    16 Jan 2007
    Mensagens:
    506
    Local:
    3560- 129 @ 500 msnm
    Desde Agosto que por motivos profissionais me mudei para Carregal do Sal, conheci a Professora Natália pouco tempo depois. Pessoa cheia de energia e que mesmo face a um problema recente mantinha forças para continuar a viver com a mesma vivacidade de sempre. Uma pessoa verdadeiramente espontânea e aberta.

    Na minha profissão, somos quase confidentes dos problemas da vida das pessoas que nos passam pelas mãos diariamente. Numa das suas visitas ela se queixara dos problemas dos comboios, e das portas do IC. Quase como presságio acabou por ser vítima desse seu receio...

    Desejo por este meio as melhoras a D. Natália de Cabanas de Viriato, e que continue a enfrentando a vida como o fez naquela tarde em S. Comba Dão.
     

Partilhar esta Página