A «Cheia Grande» no Guadiana, 7 Dezembro de 1876

Gerofil

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Recordar a «Cheia Grande» no Guadiana, 130 anos depois - (7 Dezembro de 1876)

Ainda hoje, quem percorre as povoações ribeirinhas do “grande rio do Sul” encontra uma série de placas que atestam a altura, quase inacreditável, que as águas do Guadiana tomaram naqueles dias, seja em Mértola, Alcoutim ou na margem Espanhola. A imprensa da época, através de correspondentes locais, não deixou de noticiar tão nefasta tragédia.
A «Gazeta do Algarve», jornal publicado em Lagos, na edição de 13 de Dezembro de 1876, citando o correspondente de Alcoutim, em carta datada do dia 6 daquele mês, refere que «O Guadiana há 3 dias que traz uma corrente assustadora e devastadora – mede a velocidade de 11 milhas por hora e tem alagado completamente todos os campos marginais». Aquele periódico menciona igualmente que «o Pomarão desapareceu. Todas as casas foram arrasadas, e nem se conhece o lugar onde existiam. A estação telegráfica desapareceu também, indo a mesa dela dar às margens de Ayamonte. Em Alcoutim houve perdas consideráveis, os campos estão debaixo de água, que entra dentro da vila em muitas casas e quintais. As carreiras a vapor foram interrompidas».
Também o «Correio do Meio Dia», publicado na então Vila Nova de Portimão, na edição de 17 de Dezembro, foca a grande tragédia, transcrevendo do «Comércio do Sul» (Faro) a narração dos acontecimentos: «No dia 7 recebemos a seguinte comunicação de José Francisco Bravo de Alcoutim, “uma exposição singela, mas verdadeira dos horríveis estragos e imensas apreensões de que todos nós por aqui nos achamos possuídos pelos efeitos do extraordinário temporal que há bastantes dias nos tem perseguido, chegando agora a um grau mais elevado. O rio saiu fora do seu leito. Desde ontem das 10 horas da noite por diante, seguiu a passos agigantados e assustadores que já hoje ás 10 horas da manhã chega, mas de um modo aterrador, à praça pública desta vila (Alcoutim) – 30 metros senão mais por diante do princípio das habitações dela. Tudo aqui se vê em desarranjo, todos deixam ver no semblante o medo pela tempestade que ameaça sorver-nos. Espessas nuvens toldam o horizonte e todos os sinais nos parecem anunciar próxima e mais grossa nova tormenta».
E de facto assim foi. «Em data de 8 nos dizem da mesma vila o seguinte: São 10 horas da manhã e a maior parte desta vila está debaixo de água. Não há por aqui notícia do Guadiana ter engrossado tanto como nesta ocasião. A igreja matriz está já meia coberta e a linha telegráfica está submergida. Têm abatido grande número de casas, embora estas ainda não se vejam na totalidade. Todas as repartições foram a terra, a alfândega foi a que sofreu mais porque não se poude salvar um único papel e supõe-se que não ficarão nem vestígios dela. Em Mértola também a cheia foi assustadora fazendo desabar bastantes casas e causando subidos prejuízos».
De alguns pontos, salienta ainda aquele jornal, «foram vistos arrastados pelas águas alguns cadáveres humanos – uma mulher agarrada a um tronco de uma árvore, uma criança de tenra idade num berço e um homem». A estas perdas de vidas humanas, juntaram-se ainda as tripulações de várias embarcações, que foram arrastadas pela corrente e naufragaram (11 mortos).
A gravidade dos acontecimentos dominou ainda a Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 21 de Dezembro de 1876, também ela privada de edifício próprio, que reuniu em sala provisória, onde «o Sr. Presidente José Joaquim Madeira relatou os tristes acontecimentos ocasionados pela extraordinária cheia do Rio Guadiana nos dias 6 e 7 do corrente que fez desabar mais de 60 prédios nesta vila e montes do rio, tornando também infrutíferas todas as fazendas marginais por lhe haver arrebatado o arvoredo, não deixando mais do que montes de areia. Neste aflitivo estado é de toda a urgência empregar os meios ao nosso alcance para que sejam minorados tão tristes efeitos em assunto de tanta magnitude. Na Sessão foi por todos reconhecida a necessidade de elevar um brado ante o trono de Sua Majestade fazendo-lhe sentir os nossos infortúnios e pedindo lenitivo às nossas desgraças».
Foi então determinado representar ao governo, «pedindo um empréstimo para se poderem levantar os prédios que se abateram pela inundação, bem como pedir o dinheiro existente no cofre de viação municipal e que a ele possa pertencer durante os dez anos seguintes para a edificação dos novos Paços do Concelho». E finalmente «que não sendo conveniente a edificação no local em que se achavam por estarem sujeitos às cheias do rio se representasse pedindo o castelo, onde sem receio das enchentes se podem construir não só os Paços do Concelho como as demais repartições e escolas». Estes pedidos de ajuda acabariam por surtir efeito, e em Sessão de 17 de Março de 1877 foram concedidos os primeiros apoios para a reconstrução das habitações, num total de 9 926 000 réis. Estas não deveriam ser reconstruídas em taipa, «causa principal da maior parte dos desmoronamentos» durante a inundação.
Na Sessão de 24 de Abril do mesmo ano são atribuídos mais 19 470 000 réis aos agricultores das margens do Guadiana, num total de 147, cujos nomes e quantias se encontram discriminados na Acta daquela Sessão. Foram ainda concedidos 500 000 réis «para matar a fome e o frio aos inundados». Apesar das consequências terríveis da cheia, esta permitiu pôr a descoberto inúmeros vestígios arqueológicos ao longo do rio, particularmente em Mértola, Montinho das Laranjeiras e Álamo, locais pouco depois escavados pelo arqueólogo algarvio Estácio da Veiga.
Volvidos 130 anos, a memória da cheia reparte-se essencialmente pelos documentos de então, sejam jornais ou Actas de Vereação, impregnadas de desolação e terror, e pelas placas de mármore facilmente observáveis um pouco por todo o vale do Guadiana. Na memória dos homens, a grande cheia não passa hoje de um facto passado e inatingível para muitos, nos nossos dias.
Contudo, e se é verdade que a Barragem do Alqueva permitiu, em conjunto com as suas congéneres espanholas, dominar de certa forma o Guadiana, convém não esquecer que, se estiverem completamente cheias, a inundação a jusante será inevitável. Afinal, as muitas barragens do Douro não debelaram as cheias das zonas ribeirinhas de Gaia e do Porto...
Por estas razões, as margens do Guadiana não deverão ser ocupadas, sob pena de virmos a lamentar uma nova da catástrofe. Tal como as secas, as inundações são fenómenos cíclicos normais no nosso clima, quer queiramos quer não.
Aurélio Nuno Cabrita

Fonte: Barlavento
 
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Em Badajoz, telegrama expedido pelo alcaide para o seu ministro em Madrid, dizia:
"El Guadiana se fué: há llegado el oceano."


(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 3 DE DEZEMBRO DE 1976)

...
A velha, pequena e histórica vila de Alcoutim, pagou caro, há um século, aquilo que outrora lhe deu vida e importância, fazendo-a ombrear com as principais vilas algarvias de então: a sua posição na margem direita do Guadiana (Ana Flumen dos romanos e a que os árabes chamaram Uádi Ana), no preciso lugar onde a navegação à vela, condicionada pelo regime fluvial e dos ventos, fazia ponto (paragem forçada de seis horas aguardando o virar da maré).

A razão principal da sua existência e da importância e que desempenhou, fez passar, há um século, aquela a quem os árabes chamaram Alcatiã, por dias de verdadeira preocupação e angústia. É a esse acontecimento que nos vamos referir, baseado em documentos vários e na tradição oral.

Na época invernosa, os rios engrossam os caudais e muitas vezes transbordam, inundando os terrenos marginais. Nas regiões planas, chuvadas e degelos originam inundações que atingem grandes superfícies. Quando correm junto a terrenos montanhosos, possuem leito mais profundo e consequentemente suportam maiores volumes de água; contudo ainda que com menor frequência, também saltam para os terrenos marginais, fertilizando-os mas causando pânico e prejuízos.

Alcoutim, na margem direita do caudaloso Guadiana, que por aqui corre entre cerros, servindo de linha divisória dos dois países ibéricos, definitivamente acordada em 1297, no Tratado de Alcanises, e na confluência da ribeira de Cadavais, sempre sofreu o efeito das cheias, recentemente insignificantes e mais espaçadas, para o que tem contribuído a construção de barragens no país vizinho.

De todas, uma alcançou nível bastante elevado, a tal ponto que a sua altura ficou gravada em duas placas de mármore: uma na fachada principal da Igreja da Misericórdia e que tem a inscrição: A esta altura chegou a enchente do Guadiana no dia 7 de Dezembro de 1876. E a outra no edifício que serviu de cadeia, conhecido por Cadeia Velha e que diz: C. M. A. – 1876. Placas da mesma natureza encontrámos na vila de Mértola e em Vila Real de Santo António.

Ficou esta enchente conhecida entre a população por Cheia Grande.

É com frequência que os visitantes, principalmente estrangeiros, prendem o seu olhar nesses marcos indicativos de tão grande e nefasto acontecimento, admirando e chegando mesmo a pôr em dúvida a veracidade do facto.

Se ficou gravado na pedra, muito mais ficou na memória por quem passou por dias tão preocupantes.

Transmitiram-no aos filhos, em noites frias de Inverno, junto das lareiras local aproveitado então para dissertações de carácter educativo e prática de vida, pondo em relevo os maus e bons momentos e reacções consequentes. Alguns desses dados estarão deturpados pelo decorrer dos anos e pela fragilidade da memória de quem já ronda as oito décadas.

O “Portugal Antigo e Moderno”, refere-se ao facto, da seguinte maneira: O Guadiana subiu a uma altura de que não há memória. Em Espanha destruiu as pontes de Mérida e de Badajoz, datando a primeira do tempo dos romanos; em Mértola entrou no andar nobre dos Paços do Concelho a uma prodigiosa altura e, até ao mar, causou grandes prejuízos, nomeadamente no Pomarão, onde arrasou todo o povoado que ali tinha feito a empresa da Mina de S. Domingos.
No “Diária da Manhã” de 17 de Dezembro daquele ano, lê-se o seguinte: Foi medonha a cheia do Guadiana. Alcoutim está quase submergida, abatendo muitas casas. Ficou destruída a Alfândega e muitas repartições públicas.
Fonte: Alcoutim Livre



Cheias do Guadiana. Horrível, tenebrosa e inolvidável noite

1976.gif


...a maior cheia conhecida foi a de 1876, que em Mértola inundou a praça, a mais de 25 m do nível médio do rio, onde subsiste uma lápide no actual tribunal (antigo edifício dos Paços do Concelho) e que reza assim: “Aqui mesmo chegou/ a enchente diluvial/ do Guadiana/ na terrível noite de/ sete de Dezembro de 1876.”Em Dezembro de 1907 o Mertolense, semanário progressista recorda ainda esta cheia:
O tempo estava bom, não obstante nos dias anteriores ter chovido alguma coisa, mas pouco.
(...)
Pelas 8 horas da noite o rio chegava apenas ao quartel que os soldados da guarda fiscal teem edificado ao pé do porto de desembarque (...) d’ahi a poucas horas havia galgado a grande muralha que cerca a villa, fazendo da rua D. Pedro V um canal e da praça Luiz de Camões um lago!
Na margem esquerda as casas cahiam pelos alicerces, e, ás vezes ― suprema força da natureza ― as paredes arrancadas inteiras redemoinhavam e afastavam-se boiando na corrente como se fossem simples bocados de cortiça (...)
Horrivel, tenebrosa, inolvidavel noite.[1]
[1] O Mertolense, 15 Dez 1907
in SIMAS, João Francisco Baeta Rebocho. O Rio e os Homens: a comunidade ribeirinha de Mértola, Mértola, Câmara Municipal de Mértola, 2007, pág. 16
Fonte: Rua de Alconxel




cheia.jpg

Nateiras, zona do moinho da Abóbada
(c) Foto Alandroalandia
 

David sf

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Absolutamente incrível, 25 m em Mértola é um caudal inacreditável. Não haverá cartas sinópticas dessa data?

De qualquer modo deve ter havido algum contributo extra meteorologia, o colapso de um açude ou pequena barragem, pois só por si era necessária uma quantidade de precipitação impensável para provocar uma cheia destas.
 

Chingula

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As cheias nas bacias hidrográficas dos grandes rios Portugueses, são provocadas por precipitações elevadas (superiores ao normal) persistentes no tempo.
O Outono de 1876 foi extremamente chuvoso e num registo de três meses (Outubro, Novembro e Dezembro) de precipitação acumulada, que procurei há alguns anos (no século passado...anos 80/90) em registos do I.M., de estações disponíveis (Porto, Lisboa e Évora) obtive como precipitação acumulada para esse período:
Porto (Geofísico) - 1281 mm/ 3 meses
Lisboa (Geofísico) - 818 mm/ 3 meses
Évora - 734 mm/ 3 meses

A obtenção de dados da mesma época de estações meteorológicas Espanholas, junto à fronteira, seria um reforço de informação...
Cumpts
 

Aurélio

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As cheias nas bacias hidrográficas dos grandes rios Portugueses, são provocadas por precipitações elevadas (superiores ao normal) persistentes no tempo.
O Outono de 1876 foi extremamente chuvoso e num registo de três meses (Outubro, Novembro e Dezembro) de precipitação acumulada, que procurei há alguns anos (no século passado...anos 80/90) em registos do I.M., de estações disponíveis (Porto, Lisboa e Évora) obtive como precipitação acumulada para esse período:
Porto (Geofísico) - 1281 mm/ 3 meses
Lisboa (Geofísico) - 818 mm/ 3 meses
Évora - 734 mm/ 3 meses

A obtenção de dados da mesma época de estações meteorológicas Espanholas, junto à fronteira, seria um reforço de informação...
Cumpts

Não foi só nesse ano ... há tempos consultei uma cartas em que vinha os registos da NAO, e no final do séc.XIX encontrei registos absolutamente incriveis com valores na ordem dos -4, -5 e -7 no final desse século !!
 

Vince

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Badajoz, 1876

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El Guadiana se fue: ha llegado el océano. Estas fueron las palabras del telegrama con las que informaba el alcalde de Badajoz a Madrid sobre la terrible inundación que tuvo lugar durante los días 6 y 7 de diciembre de 1876.

Cuatro días consecutivos de lluvia a mares, hasta el punto de creer que era otro diluvio universal; cuatro días lloviendo incesantemente. Las calles desiertas, los comercios cerrados a las primeras horas de la noche, las gentes presagiando grandes catástrofes, las sombras de la noche aumentándose con las sombras de la desgracia, las tímidas luces de las farolas parecían cirios funerarios que iluminaban un gran cadáver, el cadáver de la ciudad.

Tres años de sequía y de malas cosechas, y cuando viene el agua, que tantas esperanzas prometía, se convierte en calamidad.

Badajoz parecía un puerto de mar, incomunicada excepto por Puerta Pilar. Desde el castillo, hasta donde la vista alcanzaba, todo era mar. El Guadiana llegó a alcanzar los 11 kilómetros de anchura en algún sitio. El “insignificante” Rivillas cubría hasta las copas de los árboles de la carretera inmediata a la muralla. El agua había rebasado las murallas de Badajoz. Los más ancianos no habían visto una inundación igual.

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El agua, entrando por la puerta Trinidad, ha inundado la calle de este nombre y la que por entonces se llamaba de Peñas, actualmente Eugenio Hermoso, convirtiéndolas en un río, cubriendo casi las puertas de las casas. Se tenían que salvar con barcas a muchas familias, desplomándose varias casas y están próximas a caerse algunas más. Algunos vecinos estaban tan obcecados en no salir de sus casas a pesar de estar inundadas, que fue necesario vencer su resistencia a la fuerza.

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En la parte del río y en la calle de este nombre, ha subido el agua hasta cerca del convento de Santa Ana, inundándose muchas casas, de las cuales se han derrumbado tres y otras están en peligro de venirse al suelo. En la calle de San Agustín se han hundido dos casas y otras tres en la de Morales.

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El puente de Palmas ha desaparecido en parte; siete arcos han sido arrollados por la corriente. Puestos sobre la muralla contigua a la perta de Palmas, cuanto la vista alcanza en dirección a Portugal, es agua.

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Son más de 100 las personas que habiendo quedado aisladas en los cortijos y casas de campo de esta ciudad que han podido salvarse gracias al esfuerzo de los barqueros y pescadores. De los molinos harineros del Guadiana situados más abajo del puente, sólo han quedado ruinas. Únicamente quedó el que construyó Mr. Passot.

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Ante la imposibilidad de comunicarse con la estación de Badajoz, al otro lado del río, el gobernador hizo anunciar que entregaría una suma de consideración a los que se prestasen a cruzar a la estación, a fin de saber si existían comunicaciones con Madrid. Un padre y un hijo que hicieron la travesía, después de mil penalidades, fueron recompensados el padre con 50 duros y el hijo con 10.

Toda la línea férrea desde Badajoz a Don Benito estaba cubierta de culebras de agua y otros reptiles y de tortugas, hasta el punto de constituir una capa por encima de la que tuvieron que pasar lo trabajadores.

Mucho tiempo tardaría Badajoz en volver a la normalidad, ya que a pesar de las promesas iniciales, el puente de Palmas estuvo inutilizado durante años. Estaba así incomunicada la estación con la población, haciéndose el servicio por medio de barcas, al precio de 2 reales las personas. Incluso Alfonso XII, en su visita a Badajoz, del 4 de febrero de 1879, tuvo que atravesar el río en una barca con toldo de cristal y empavesado con los colores nacionales, unida por una maroma con la otra orilla.
Fonte: Historias de Badajoz
 

Vince

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los días 6, 7 y 8 de diciembre de 1876 este gran río
padeció la mayor crecida de todos los tiempos, al menos
desde el año 1603 en que se conocen mejor las referencias
históricas. Todavía se encuentran en diversos
edificios de Badajoz, Mértola y Sanlúcar del Guadiana
placas indicativas de la insólita altura de agua alcanzada
en esas fechas que, como se pudo comprobar en
un estudio realizado por el CEDEX superó en 6,6 m a la
de 1997 y en 2,5 m a la de marzo de 1947, que fue la
mayor del siglo XX. Loureiro (Ref. 7) cita el expresivo telegrama
que envió en esas fechas el Gobernador Civil
de Badajoz a su Ministro: “El Guadiana se fué, ha llegado
el Océano”.
Las crecidas del Tajo guardan estrecha relación con
las del Guadiana y así sucedió en 1997 y en 1876.

...

Según los datos de la referencia
nº 8, la mayor crecida conocida es la de 1876 que
en el puente de Alcántara (Cáceres) tuvo una altura
del orden de 35m (5 m para salvar las citaras).
Fonte: Las catástrofes hidrológicas españolas y el cambio climático
 

Vince

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Não foi só nesse ano ... há tempos consultei uma cartas em que vinha os registos da NAO, e no final do séc.XIX encontrei registos absolutamente incriveis com valores na ordem dos -4, -5 e -7 no final desse século !!

Os anos que precederam esta enchente do Guadiana (e Tejo) foram de grave seca no sudoeste da Península. Ver este tópico "A Seca no Algarve na década 70 do séc.XIX" ou o PDF espanhol do post anterior que também aborda esses anos.
 

Vince

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As cheias nas bacias hidrográficas dos grandes rios Portugueses, são provocadas por precipitações elevadas (superiores ao normal) persistentes no tempo.
O Outono de 1876 foi extremamente chuvoso e num registo de três meses (Outubro, Novembro e Dezembro) de precipitação acumulada, que procurei há alguns anos (no século passado...anos 80/90) em registos do I.M., de estações disponíveis (Porto, Lisboa e Évora) obtive como precipitação acumulada para esse período:
Porto (Geofísico) - 1281 mm/ 3 meses
Lisboa (Geofísico) - 818 mm/ 3 meses
Évora - 734 mm/ 3 meses

A obtenção de dados da mesma época de estações meteorológicas Espanholas, junto à fronteira, seria um reforço de informação...
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Obrigado pela informação adicional. Também concordo que terá sido a acumulação de várias semanas de bastante chuva, neste caso concreto seria talvez mais relevante saber a que caiu do lado espanhol, mas esses dados interessantes que referes mostram que mesmo do lado português choveu bastante.
 

frederico

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As cheias nas bacias hidrográficas dos grandes rios Portugueses, são provocadas por precipitações elevadas (superiores ao normal) persistentes no tempo.
O Outono de 1876 foi extremamente chuvoso e num registo de três meses (Outubro, Novembro e Dezembro) de precipitação acumulada, que procurei há alguns anos (no século passado...anos 80/90) em registos do I.M., de estações disponíveis (Porto, Lisboa e Évora) obtive como precipitação acumulada para esse período:
Porto (Geofísico) - 1281 mm/ 3 meses
Lisboa (Geofísico) - 818 mm/ 3 meses
Évora - 734 mm/ 3 meses

A obtenção de dados da mesma época de estações meteorológicas Espanholas, junto à fronteira, seria um reforço de informação...
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Impressionante :surprise: Em 3 meses choveu no Porto o que normalmente chove num ano, e no caso de Lisboa e Évora, até choveu mais do que chove num ano normal :surprise:
 

Vince

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De qualquer modo deve ter havido algum contributo extra meteorologia, o colapso de um açude ou pequena barragem, pois só por si era necessária uma quantidade de precipitação impensável para provocar uma cheia destas.

Eu pensei nisso, mas não encontrei qualquer referência a um evento dessa natureza. Penso que em tempos li algures que o Guadiana (e também o Tejo) era um rio mais instantâneo a reagir a cheias, ou talvez os seus leitos não aguentavam tão bem os caudais perante o mesmo volume de precipitação, não sei, qualquer coisa do género, isto nos tempos pré barragens e transvases, mas posso estar equivocado. De qualquer forma, realmente custa a crer, mas aparentemente pelos textos que coloquei mais acima, terá sido a maior enchente desde pelo menos inícios do século XVII.


Não haverá cartas sinópticas dessa data?

Quanto às cartas, é o que se pode arranjar

15 Outubro - 15 Dezembro 1876:
(terá chovido muito entre 5 e 8 de Outubro)




Pelas cartas de reanálise não podemos ver algo que explique isso, pelo menos nitidamente, mas percebe-se que foi um Outono muito instável, desde cutoff's a cavados/depressões potentes. De qualquer forma, reanálises desta época devem ser bastante falíveis, importa referir.
 

David sf

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8 Jan 2009
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Oeiras / VN Poiares
Mas existem sempre contributos extra meteorológicos. Na grande cheia na região saloia, creio que em 1983, a ribeira de Cheleiros subiu na aldeia do Carvalhal, junto a Mafra, 8 m. Sei isto porque fiz um trabalho sobre as zonas inundáveis no concelho de Mafra, e o que o presidente da junta me explicou foi que naquele dia uma sucessão de pontes a montante foram colapsando do seguinte modo: Os troncos e pedras trazidos pelo rio obstruiam o vão das pontes. A certa altura a ponte não resistia e era levada, juntamente com os troncos, pedras, etc. Ao chegar a outra ponte acontecia o mesmo, e por aí fora, criava-se uma onda de cheia, de água e outros materiais que era muito superior à altura dada pela curva de vazão naquela secção para o caudal que passava. Pode ter sido isso que se passou, porque o rio subir 25 m em Mértola é algo extraordinário.
 
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Vince

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Mas existem sempre contributos extra meteorológicos. Na grande cheia na região saloia, creio que em 1983, a ribeira de Cheleiros subiu na aldeia do Carvalhal, junto a Mafra, 8 m. Sei isto porque fiz um trabalho sobre as zonas inundáveis no concelho de Mafra, e o que o presidente da junta me explicou foi que naquele dia uma sucessão de pontes a montante foram colapsando do seguinte modo: Os troncos e pedras trazidos pelo rio obstruiam o vão das pontes. A certa altura a ponte não resistia e era levada, juntamente com os troncos, pedras, etc. Ao chegar a outra ponte acontecia o mesmo, e por aí fora, criava-se uma onda de cheia, de água e outros materiais que era muito superior à altura dada pela curva de vazão naquela secção para o caudal que passava. Pode ter sido isso que se passou, porque o rio subir 25 m em Mértola é algo extraordinário.


Não tinha pensado nessa hipótese, quem sabe...
Num outro texto que não tinha colocado aqui, referem que essas cheias deixaram a descoberto as ruínas do Montinho das Laranjeiras (origem romana, visigótica e islâmica) a sul de Alcoutim, ou seja, dá ideia de algo mais extremo, do tipo enxurrada, do que uma cheia mais gradual. Mas estou meramente a especular.


ruinas012009.jpg


As ruínas desta Villa ficaram a ser conhecidas após a grande cheia do Guadiana, no ano de 1876.
Situa-se junto à estrada municipal nº 507 que segue junto ao rio Guadiana, a cerca de 6 Km a sul de Alcoutim.

http://www.cm-alcoutim.pt/portal_au...ltura/patrimonio_cultural/ruinas_laranjeiras/



De qualquer forma, toda aquela sequência de curvas que há no Guadiana a par de algum estreitamento das margens, afunilamentos, etc, também deve poder gerar fenómenos tipo "onda" ou "maré", mas não percebo nada disso, talvez alguém por aqui saiba mais.
Num dos textos espanhois referem que o Guadiana chega a ter 11 quilómetros de largura, ou a água do Tajo (Tejo) na ponte de Alcántara (Cáceres) chega aos 35m. Ou seja, muita água havia naquelas regiões de Espanha, para escoar quer pelo Guadiana quer pelo Tejo.
 
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