Árvores e Florestas de Portugal

Pedro1993

Super Célula
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7 Jan 2014
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Torres Novas(75m)
Outra espécie com elevadíssimo valor económico que não é explorado em Portugal: a murta ( Myrtus communis) . As suas bagas são riquíssimas em antioxidantes.

Na serra do Caldeirão a murta já foi abundante. No entanto, por causa dos incêndios, tornou-se espécie rara. Conheço apenas meia dúzia de arbustos a frutificar, na fronteira entre os concelhos de Tavira e de Castro Marim.

murtafr.jpg

A murta é uma das espécies que eu gosto muito, há 2 anos, plantei umas 30 unidades, para fazer uma sebe, e tem crescido bem, pois ainda para mais nem precisam de água, são lindas praticamente todo o ano, mas mais ainda quando estão em floração e depois na frutificação, aqui as murtas apenas se observam em algumas bermas de estradas rurais, por vezes com cerca de 5 a 10 metros de extensão. Tinha aqui um bosque lindo de carvalho-cerquinho com mais de 100 anos, numa zona de vale, que eram lindo de ver quando mudavam de cor, na sua folhagem, foi até vir um incendio, fez agora 1 ano, no verão passado, e está tudo queimado, que até mete pena, muitos deles estão agora a rebentar a partir da raiz, mas são preciso agora décadas para toda a zona recuperar novamente.
 

PedroNTSantos

Cumulus
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27 Dez 2008
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Covilhã [562m]/Algoz (Silves)[49m]
Vou tentar arranjar esse livro quando for a Espanha, talvez consiga mais barato. Sabes de mais alguns títulos que julgues pertinentes sobre o tema? Agradecia a partilha de títulos pois colecciono livros, especialmente sobre temáticas ambientais e botânica.


Sobre este tema, ou seja, sobre o tipo de associações botânicas existentes nos diferentes tipos de bosques autóctones de toda a Península, não deve haver obra que se lhe compare.
São 500 páginas, incluindo uma descrição muito completa sobre a evolução dos bosques peninsulares desde o final da última glaciação, com mapas climáticos; acresce que para além da descrição da flora lenhosa (árvores e arbustos) associada a um determinado tipo de bosque, descreve igualmente, de forma exasutiva, a flora herbácea associada.
Estamos a falar de uma obra que tem 12 autores identificados e, como se fosse pouco, inclui ainda no final um anexo sobre a fauna que podemos encontrar nos diferentes espaços florestais.

Estou-me agora a lembrar da coleção que o jornal Público lançou há uns anos sobre as principais formações florestais do país, não sei se conheces mas surpreendeu-me muito positivamente. O problema é que não deve ter tido nenhuma reedição.

Detesto o Facebook mas tenho conta para poder participar nalguns alguns grupos de discussão sobre este tipo de temas; há um em particular (Os carvalhos de Portugal, Quercus L.) que tem gente que percebe muito sobre este assunto (se calhar conheces e até és um dos administradores, pois parece-me que sabes bastante sobre a distribuição das quercíneas no Algarve).

(Nota: Não quero, convém sublinhar, passar por especialista na matéria. Tirei o curso de Biologia, mas sempre fui professor. Acontece que sempre tive o bichinho das árvores e das florestas (aprofundado pelo facto de ter tido a sorte de ter sido aluno do professpr Jorge Paiva) e, como também sou um meteolouco, também me agrada o tema da evolução na distribuição das espécies em função das diferentes condições climáticas ao longo do tempo.)
 

bandevelugo

Cumulus
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3 Jan 2008
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Se as autarquias pusessem estas espécies nativas nos espaços públicos, em vez de porem paus-de-ferro, jacarandás e eucaliptos, e se fizessem parques públicos em terra batida com espécies nativas, em vez de fazerem vastas áreas calcetedas com umas arvóres sem copa graças a podas radicais, já seria uma enorme ajuda.

Concordo, só acho que a culpa não há-se ser só dos autarcas, mas dos técnicos que fazem os projetos. Quando foi da reabilitação da Ribeira das Naus em Lisboa, entre o Cais do Sodré e a Praça do Comércio plantaram junto ao rio Tejo grandes... amieiros!!!! Não se pode pensar numa árvore mais desajustada, claro que já não resta nenhum, e isso não foi ideia do presidente da câmara ou dos vereadores...

Também acho que deva haver liberdade para usar espécies que sendo ornamentais, sejam exóticas (não infestantes), mas sempre preferindo autóctones que se adaptem (o problema é que muitas vezes as autóctones crescem demasiado lentamente para o desejo de todos, a começar pelos cidadãos que não percebem nada de plantas e ue votam nos autarcas). Aqui e acolá, porque não podem ser usados eucaliptos de flor vermelha? Não chateiam e aumentam a diversidade, sendo benéficos por exemplo também para os insetos polinizadores.
 

bandevelugo

Cumulus
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3 Jan 2008
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Nos séculos XIX e XX houve uma série de eventos que devastaram a biodiversidade em Portugal.

- Nacionalização e venda dos bens da Igreja após a guerra civil. As terras dos conventos preservavam muita floresta nativa, e os novos proprietários cortaram imediatamente as árvores para venderem a lenha.

- Registo das terras por altura da década de 40 do século XIX. Os advogados registaram muitos terras comunais e baldios, que eram das populações das aldeias, onde havia floresta nativa. Depois cortaram a lenha e venderam.

- Morte do castanheiro com uma doença fúngica. A árvores desapareceu da paisagem em vastas áreas do país onde era abundante e dominante, como a Serra da Lousã. A castanha era a base da alimentação e a batata só se popularizou no século XIX.

- Campanhas do trigo com início no final do século XIX e que se vão prolongar até ao início do Estado Novo.

- Reflorestação com pinheiro-bravo a partir do final do século XIX.

- Nova ocupação e pinheirização de baldios no Estado Novo.

- Eucaliptização maciça e mega incêndios a partir dos anos 80 do século XX.

Nunca vi um pinhal que não fosse bom para o aparecimento de outras espécies. Na minha terra (zona de Aveiro) havia dunas e areais sem qualquer vegetação e com a "pinheirização" encheram-se de outras espécies como camarinhas, zimbros, samoucos e infelizmente acácias, mas o balanço é positivo para biodiversidade. Há um site interessante: http://www.drapc.min-agricultura.pt/base/documentos/fixacao_dunas.htm. É pena que os incêndios tenham passado tudo a pente fino (Quiaios, Mira, etc.), pinheiros e companhia, mas já estão muitos a renascer.

Também por esta zona mesmo em muitos eucaliptais antigos, sobretudo se há luz, vê-se o aparecimento de pinheiros, carvalhos, etc., etc., de tal forma que fica uma brenha impenetrável. Tudo depende do objetivo com que se faz a gestão do terreno. Também não estou à espera de carvalhos num campo de milho.
 

bandevelugo

Cumulus
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3 Jan 2008
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No mês passado participei numa atividade, junto à N2, um pouco a norte de São Brás, e fotografei o que me parece ser um Q. faginea; com sorte ainda era da sub-espécie que referes!!...

Quanto ao sobreiro....concordo contigo, empiricamente também me parece que uma parte do problema no sul é o facto de existirem zonas de sobreiro que estão há muito em stress hídrico; por outras palavras, por estar em locais mais propícios à azinheira, ao carrasco ou até mesmo ao zambujeiro. Já levo tempo suficiente no Algarve (15 anos) para observar como a sucessão de anos secos está a debilitar a espécie...
Mas quando, por outro lado, vou a Braga (a minha mulher é de lá...) que maravilha de sobreiros, estão por todo o lado: viçosos, pujantes, magníficos... Vejo sobreiros a crescer até a poucos metros do mar, em Esposende e mesmo na Mata do Camarido, em Caminha, à sombra de austrálias!!...Não tenho dúvidas que o sobreiro é muito mais característico do Noroeste do que de grande parte do interior Sul.

Também me parece que tens razão quanto às tílias; acho que só mesmo nos Cantábricos elas encontram um cilma atlântico puro que lhes permite prosperar; e mesmo aí, do pouco que conheço, nunca são o elemento fundamental da floresta, sempre aquém dos carvalhos e das faias.

Apesar de tudo, em partes da Beira Interior, continua a ser possível ver imensidões de carvalhos; há poucos anos, fiz a estrada entre Vilar Formoso e o Sabugal e fiquei maravilhado com a enorme mancha, quase intocada, de Q. pyrenaica. Mesmo na Cova da Beira, onde os pomares e o regadio ainda não chegaram, parece-me haver mais carvalhos hoje do que me lembro de ver em criança (em parte também pelo crescente desinteresse pelo pinhal). Infelizmente, nas faldas da Estrela, como em muitas outras zonas, a exponencial progressão da Acacia dealbata tem interferido com a regeneração e progressão dos carvalhais.
E, claro, temos ainda o Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes, que será hoje a parcela do continente onde a paisagem, e a biodiversidade, estarão mais preservadas.

Na minha terra a planta que está na imagem chamam-lhe carvalhiço e não passa de meio metro, não é uma verdadeira árvore.
 
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frederico

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9 Jan 2009
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Concordo, só acho que a culpa não há-se ser só dos autarcas, mas dos técnicos que fazem os projetos. Quando foi da reabilitação da Ribeira das Naus em Lisboa, entre o Cais do Sodré e a Praça do Comércio plantaram junto ao rio Tejo grandes... amieiros!!!! Não se pode pensar numa árvore mais desajustada, claro que já não resta nenhum, e isso não foi ideia do presidente da câmara ou dos vereadores...

Também acho que deva haver liberdade para usar espécies que sendo ornamentais, sejam exóticas (não infestantes), mas sempre preferindo autóctones que se adaptem (o problema é que muitas vezes as autóctones crescem demasiado lentamente para o desejo de todos, a começar pelos cidadãos que não percebem nada de plantas e ue votam nos autarcas). Aqui e acolá, porque não podem ser usados eucaliptos de flor vermelha? Não chateiam e aumentam a diversidade, sendo benéficos por exemplo também para os insetos polinizadores.

Concordo. O problema em si é a falta de diversiicação, a monocultura.
 

bandevelugo

Cumulus
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3 Jan 2008
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O Sul de Espanha não tem muita tradição de jardim público. O que é típico do Sul de Espanha é isto:

- praças com palmeiras-das-Canárias
- pátios interiores com poço, fonte, vasos, canteiros
- um extenso pinhal, azinhal ou sobral ao lado do limite urbano da povoação com uma capela da Virgem
- em Sevilha há jardins privados em palácios mas têm um desenho diferente do que se encontra em Portugal, há ali muitas influências muçulmanas.

A partir do final dos anos 60 deu-se em Portugal uma explosão urbanística com total desprezo pela presença de árvores e jardins públicos.

Os artigos médicos mostram hoje em dia que a presença de áreas verdes com árvores e não impermeabilizadas em espaços urbanos é uma medida de saúde pública que ajuda até na prevenção de doenças auto-imunes.

Enquanto que Lisboa ainda tem Monsanto e Sintra, o Porto não tem uma única área de mata nativa pública que tenha uma área decente na sua área urbana.

Concordo, mas nota que Sintra não é Lisboa, e o Porto tem o parque da Cidade, que sempre que lá vou visito e que tem uma enorme diversidade de espécies de árvores e outras. Lisboa não tem nada que se compare.

As árvores têm é que crescer mais uns anitos...
 

frederico

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9 Jan 2009
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Concordo, mas nota que Sintra não é Lisboa, e o Porto tem o parque da Cidade, que sempre que lá vou visito e que tem uma enorme diversidade de espécies de árvores e outras. Lisboa não tem nada que se compare.

As árvores têm é que crescer mais uns anitos...

A Quercus há muitos anos tinha um projecto de criação de uma rede de espaços protegidos em torno do Porto. Serra de Freita, Barrinha de Esmoriz, Serra de Valongo. Mas nunca avançou. A ver se se eleva a Serra de Arga a área protegida.
 

bandevelugo

Cumulus
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No Algarve era tradição a plantação de palmeiras-das-Canárias (Phoenix canariensis) junto a casas rurais, especialmente as que pertenciam a famílias de classe elevada. O chalet com uma ou várias palmeiras que se avistavam ao longe era uma das características da paisagem Algarve do litoral e do barrocal. A maioria destas quintas foi abandonada nas décadas de 60/70. Quando era criança, nos anos 90, as casas já estavam em ruínas. Muitas tinham elevado valor estético e algumas eram centenárias. Em anos recentes, a maioria destas palmeiras morreu. Mas nas décadas de 80 e de 90 já tinham desaparecido dezenas de palmeiras em processos de urbanização do litoral. Muitas foram vendidas para Espanha a preços altíssimos.

Mas não era só no Algarve que se plantavam há séculos estas palmeiras. No Porto há vários exemplares em casas de «brasileiros» e chalets. E em Sintra, ou no Litoral Centro, junto em casas apalaçadas, em chalets de quintas ou casas de «brasileiros», e mesmo em espaços públicos. Era uma espécie de símbolo para dizer a quem passava, «aqui mora gente de classe social mais elevada»...

A sua utilização em praças e espaços públicos em geral, contudo, parece-me mais recente, e popularizou-se nos anos 60, 70, 80 e 90. No jardim da Foz há várias, mas não sei o ano em que foram plantadas.

passeio-alegres-foz.jpg


O jardim do Coreto de Tavira também tinha várias, mas infelizmente muitas morreram.

IMG_1066.JPG


As de Coimbra foram perdidas em 2013.

A Câmara Municipal de Coimbra começou esta quinta-feira a abater as palmeiras “históricas” do Parque da Cidade, “algumas quase centenárias”, no âmbito do combate ao escaravelho que destrói estas espécies.

O vereador Luís Providência, que detém o pelouro Ambiente, disse à agência Lusa que cabe à autarquia remover dos espaços públicos da cidade “todas as palmeiras afectadas pela praga” do Rhynchophorus ferrugineus, o nome científico do escaravelho-vermelho.

Algumas das árvores abatidas no Parque Manuel Braga tinham pelo menos 20 metros de altura e a sua plantação remonta aos anos 20 do século passado, quando foi construído aquele espaço público, também conhecido por Parque da Cidade.


https://www.publico.pt/2013/01/03/l...s-destruidas-pelo-escaravelhovermelho-1579388

Infelizmente a manutenção destas palmeiras é caríssima e a tendência é para irem desaparecendo da nossa paisagem como árvore ornamental.

No Forte da Barra (Gafanha), junto à estrada que levava para a antiga ponte da Barra existe um palmeiral muito interessante plantado pela antiga Junta Autónoma do Porto de Aveiro (JAPA) que tem sido alvo de "requalificação" pela Câmara (ou pelo Porto?). As palmeiras canarienses já haviam sido dizimadas pelo escaravelho (o mesmo está a acontecer na Costa Nova, mas aqui parece que estão a resistir melhor) e por acaso no até estão a substituir as outras que faltavam.
 

MSantos

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Azambuja / Rio Maior
A única obra que tenho sobre flora portuguesa e europeia é o Guia Fapas.

20200127-222829.jpg


Gostaria de arranjar uma obra mais completa sobre este tema..

Também tenho esse! :D

Há uma coleção de 9 livros do Jornal Público com muito bom conteúdo a "Árvores e Florestas de Portugal" infelizmente nunca mais fizeram uma nova edição. Para se conseguir tem que se comprar em segunda mão. Eu já li alguns livros desta coleção, mas não tenho nenhum exemplar. :(

Era esta::http://static.publico.pt/coleccoes/arvoresflorestasportugal/microsite.htm
 

frederico

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Boa tarde @frederico nas suas idas à Serra d'Ossa viu ou já encontrou referências a lódãos na serra? Encontrei uma espécie dependente de lódãos mas não conheço a árvore na serra e queria saber se seria um indivíduo errante ou uma população desconhecida...

Bom dia eu só vi lódãos em dois locais em Portugal, em estado selvagem, foi no Douro Internacional e foi numa ribeira do sotavento algarvio. Na serra da Ossa nunca os vi. Parte da serra foi muito alterada pela eucaliptização.
 
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frederico

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Costuma dizer-se que os freixos são árvores de galerias ripícolas. Não é bem assim. Os freixos também surgem em abundância em zonas com solos profundos e formam bosques, como se pode ver em algumas regiões do Alentejo (já muito, muito alterados pelo Homem).

Os freixos chegam a formar uma espécie de montado em alguns locais da Península Ibérica, como sucede na Comunidade de Madrid. Em Portugal vi vestígios deste tipo de paisagem em alguns pontos do Alentejo, nos concelhos da Vidigueira ou Évora, ou a Sul de Portalegre.

O Alentejo coberto de sobreiros e azinheiras é uma paisagem fabricada por elites que preenche o imaginário dos portugueses. Mas se fosse possível recuar 200 anos, encontraríamos um Alentejo com carvalhais, soutos, bosques de freixo, montado de carvalho, zambujais, densas galerias ripícolas... além, claro está, de sobrais e azinhais.

img_5266.jpg


Foto tirada daqui: https://arbolesdemadrid.wordpress.com/tag/fresno/
 
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