É preciso ter cuidado quando se aborda o tema da emigração dos enfermeiros e dos dentistas.
O país forma por ano quase o dobro dos enfermeiros que precisa. Isto sucede porque há um excesso de escolas privadas e públicas de enfermagem. Se todas as privadas encerrassem já formaríamos o número de enfermeiros por ano que precisamos e gradualmente acabaria o desemprego. Contudo, enquanto as privadas tiverem procura, não encerrarão. Sendo assim, um jovem quando escolhe enfermagem deve assumir o risco de que muito provavelmente não terá emprego em Portugal. No dia que os jovens começarem a assumir esse risco em vez de irem atrás de modas, as privadas de enfermagem encerrarão por falta de alunos.
O mesmo sucede na Medicina Dentária. O país forma por ano o dobro ou o triplo dos dentistas que precisa. E isto sucede porque tem um excesso de cursos, 3 públicos e 4 privados. Apesar do desemprego ser elevadíssimo, e de acabarem quase todos por emigrar, a procura continua elevada e enquanto houver alunos as privadas não encerrarão e continuará a haver desemprego.
A Medicina virou moda nos anos 80 porque houve um congelamento de vagas, o país precisava e precisa de 1200 a 1400 médicos formados por ano e durante uns anos houve apenas 200 vagas. Por haver poucos médicos e poucas vagas a empregabilidade era garantida, a procura tornou-se elevada e as médias dispararam. Como o acesso ficou muito difícil muitos jovens optaram pela Enfermagem, Medicina Dentária, Fisioterapia ou Ciências Farmacêuticas na esperança de um dia ingressarem em Medicina nas vagas para licenciados, conseguirem equivalências a cadeiras e fazerem o curso num menor número de anos. As privadas perceberam que a procura na área da Saúde era muito elevada e fizeram negócio abrindo cursos e mais cursos de Enfermagem, Medicina Dentária, Psicologia, Nutrição, Fisioterapia, Análises Clínicas, Ciências Farmacêuticas, Farmácia, etc. Com o passar dos anos, o mercado de trabalho ficou esgotado, como era previsível.
O Rui Ramos escreveu há semanas um artigo muito interessante que deveria ser lido por todos os jovens, pais e professores de Portugal.
Deixem os jovens seguir os seus talentos, ponto. Não os obriguem a ser médicos porque dá status. Não os obriguem a ir estudar Medicina Dentária para uma privada por capricho, mesmo sabendo que o desemprego está ao virar da esquina, apenas para dizerem que têm doutor na família. Não os obriguem a ser enfermeiros porque não tiveram média para Medicina. Não os obriguem a ser advogados, arquitectos ou engenheiros contra a sua vontade, apenas porque é a profissão do pai ou do avô. Não deixem os jovens escolher os cursos apenas pelas modas, apenas pelos dados imediatos da empregabilidade. Vi ao longo dos anos muitos colegas com alguma frustração por não estarem no curso que pretendiam. Como eram alunos de 18 ou 19, foram «empurrados» pela família, colegas e professores para Medicina. Mas os sonhos eram outros: História, Economia, Matemática, Ciências Políticas, Física Nuclear. Muitas famílias portuguesas são excessivamente controladoras, deixem os jovens seguir a sua vocação, o seu talento, e veremos o problema do desemprego acabar gradualmente.
É curioso constatar que os problemas de desemprego na área da Saúde são típicos de Espanha, Itália ou Grécia, e agora de Portugal. E não ocorrem nos países protestantes...