Olá a todos
Tenho vindo também a acompanhar as saídas dos modelos para este eventual cenário de neve da próxima sexta/sábado no que concerne a neve a cotas baixas e para já o que parece é que temos aqui uma situação que tem muitas variáveis que ainda podem descambar com pequenas alterações.
Contextualizando e olhando às cartas temos então um padrão de bloqueio de alta latitude com o AA naquela região da Islândia/Gronelândia que favorece de facto o desvio do fluxo zonal para latitudes mais baixas. Decorre assim a evolução de uma depressão a Noroeste da PI, associada a ar bem frio de origem polar, mas com uma extensa componente marítima. É uma depressão que de resto possui um cavamento muito significativo, o que é particularmente bom porque a manter-se e a intensificar-se, favoreceria o estreitamento da espessura da atmosfera para valores junto dos famosos 530 dam. Isto faria baixar a altitude da ISO 0º e aumentaria também a vida dos flocos de neve. Pegando neste último ponto, a altitude da ISO 0º modelada na saída das 18z do ECMWF poderia ainda ser generalizadamente mais baixa, mas anda algures entre os 350/600m (pontualmente mais baixa) em regiões do interior norte e centro o que realmente é muito interessante e terá certamente a ver com a intensidade dos aguaceiros (precisamos dos modelos de mesoescala para apurar melhor isto).
Por outro lado se olharmos às temperaturas tanto aos 500hPa (-33ºC) como aos 850hPa (-3ºC), não são extraordinárias. Lembro-me de eventos passados, por exemplo em 26/27 de fevereiro de 2016, onde havia ISOs modeladas a rondar os -4ºC aos 850hPa e -35hPa aos 500hPa e também 530dam e a montanha pariu um rato em termos de cotas baixas, particularmente abaixo dos 400m.
Não são eventos comparáveis de um ponto de vista sinótico, até porque a bolsa de ar frio embora mais intensa era bem mais estreita na época, mas é só para fazer esta ressalva prévia de que nestes eventos de entradas fortemente oceânicas há muita coisa em jogo. Apesar de não serem temperaturas por aí além, claro que comparativamente às temperaturas existentes nas camadas mais baixas da atmosfera as temperaturas modeladas em altitude são mais que suficientes para gerar um forte gradiente térmico vertical e acentuar a instabilidade, juntamente com a própria divergência provocada pelo Jet Stream. Algo positivo é que o timing da passagem da bolsa de ar frio coincide com a madrugada, o que ajuda bastante à descida de temperatura à superfície.
Ao analisar as cartas de HR aos 700hPa verifica-se que apesar de haver uma massa de ar polar marítimo, parece haver uma
intrusão de ar seco pós-frontal a Noroeste, associada à dinâmica de subsidência na retaguarda do núcleo depressionário (favorecida também pelo grande cavamento). Esta língua seca, visível nestes tons castanhos da carta abaixo, parece ser potenciada pela própria curvatura do Jet Stream
(que já está a ocorrer) favorecendo a intrusão de ar estratosférico nos níveis médios com a provável rotura da tropopausa. Deste modo, o ar seco dos níveis altos é puxado violentamente para baixo. Mas a análise não culmina aqui, repare-se que na saída das 00z de ontem, durante a madrugada de sábado o vento adquire aos 850hPa uma componente algo de norte, isto pode ajudar também o ar a perder alguma humidade que ficaria retida nas cadeias montanhosas.
Ora, em termos práticos, significa isto que parecem ocorrer alguns fenómenos de arrefecimento evaporativo em certos níveis da atmosfera (ocorre a aproximação à temperatura do bolbo húmido) facilitando o processo de formação dos flocos e que podem explicar estas cotas.
Ver anexo 28896
Repare-se naquela região a preto intensa do Jet Stream e na curvatura que ele assume:
Ver anexo 28895
Este ar seco não sendo extenso nas diferentes camadas da atmosfera, parece não impactar a intensidade do pós frontal.
Na verdade, acabaria é até por intensificar a intensidade das correntes descendentes que me parecem ser mais uma vez o ingrediente chave deste tipo de entradas, porque será justamente isso que pode fazer forçar a descida temporária da ISO 0º para altitudes mais baixas. O ar ao descer mais violentamente pode atuar como uma cunha à superfície, forçando a ascensão de novas parcelas de ar mais húmido. Neste processo acabaria por desencadear-se um ciclo de regeneração de células, organizado também pelo deep-layer shear bastante generoso em alguns locais, o que permitiria que o arrefecimento dinâmico da coluna de ar fosse mais persistente. Apesar disto, note-se que as células tendem a perder alguma intensidade à medida que cruzam o interior, desde logo porque não há tanto CAPE disponível (o habitual, devido ao calor latente oceânico). Aliás os valores de LI modelados não são estupendos, mas diria que são o suficiente e o possível numa atmosfera gelada com esta, denunciando, portanto, convecção moderada. As regiões montanhosas mais paralelas à linha da costa parecem sair beneficiadas em termos de intensidade de precipitação, atendendo à predominância de ventos ser de O/NO, já que seriam barreiras naturais de forçamento vertical, embora o efeito de Foehn seja bastante aumentado.
Ver anexo 28900
Ver anexo 28898
A run das 12z do ECMWF, no entanto, veio contrariar isto um pouco, parece-me que a sinótica se mantém no geral. Não obstante, o ECMWF retirou a instabilidade durante a madrugada diria que pela mudança de direção do vento. Repare-se como nesta última saída o vento passa a ter uma maior componente de SO e se torna muito fraco, delapidando de algum modo, a progressão das células para o interior, anulando o efeito orográfico. Reparem que basta a ondulação do jato ser de tal modo intensa que injete demasiado ar seco ou o cavamento ocorrer numa posição menos favorável para que tenhamos um desfasamento entre o frio e a precipitação.
Ver anexo 28897
Vou agora passar a uma parte da análise por recurso ao Skew-T do Windy, aqui para Tondela e que tem por base a saída das 18z do ECMWF, mas que podemos extrapolar para outros pontos do interior norte e centro a altitudes baixas.
Ver anexo 28894
Começando logo pelo que disse atrás, são imediatamente visíveis duas regiões onde a linha da temperatura e a do ponto de orvalho se afastam com alguma expressão representando as ditas regiões de ar seco/mais seco favoráveis, , a primeira entre os 150hPa e 370hPa sensivelmente e a segunda já mais baixa entre os 430hPa e os 810hPa. O teto de nuvens está muito baixo aos 418m, mas como a convecção é robusta esta ocorrerá nas regiões da coluna mais secas e potenciará aí a formação de neve.
Note-se que um teto de nuvens aos 400m, apesar de representar uma atmosfera mais saturada junto à superfície acaba por ser útil, dado que diminui a coluna da atmosfera onde os flocos circulariam completamente desprotegidos caso não existisse nuvem nenhuma, o que poderia conduzir à sua destruição. Todavia convém entender que neste cenário em específico de Tondela, nem tão pouco temos nuvens com um perfil total capaz de gerar flocos, os últimos cerca de 150m do corpo da nuvem já têm temperaturas positivas dado que a ISO 0º andará algures pelos 549m.
Ou seja, quer isto dizer que é crucial que os downdrafts sejam poderosos para combater este fator e empurrar o frio o mais possível para baixo, permitindo que os flocos sobrevivam. Dito isto, parece-me claramente que o ECMWF está a exagerar na temperatura que coloca aqui à superfície, nunca na vida teríamos 0ºC, negligenciando talvez até o efeito de Foehn do Caramulo.
Analisando agora a linha roxa da trajetória da elevação da parcela de ar (com desvio à direita), percebe-se que a atmosfera está instável e há forçamento vertical numa região onde qualquer gota/partícula terá uma espécie de canal gelado para descer, porém não me satisfaz muito a forma como esta inclinação se faz, revelando talvez uma quantidade de libertação de calor latente avolumada, dado que a linha não cresce paralelamente às adiabáticas secas.
Relativamente ao perfil de ventos, a última saída continua a dar conta da rotação nos níveis baixos, com o vento a passar de O (280º) em altitude para SSO (200º) aos 950hPa. Esta rotação deverá gerar alguma advecção quente superficial que tentará diluir o frio e talvez atenue o arrefecimento evaporativo, mas como a intensidade do vento à superfície é baixa pode ser que não traga problemas de maior. De qualquer forma parece ser o suficiente para continuar a gerar alguns cortes na precipitação. Apesar dos cortes, o ensemble continua bastante bom.
Ver anexo 28901
Em suma a manter-se a precipitação parece-me neste momento consensual a maior probabilidade acumulação de neve acima dos 500m/600m (ainda que possa ser residual nestas altitudes de 500m/600m apenas pela falta de precipitação). Para altitudes inferiores tenho muitas dúvidas, porque são regiões que estão muitíssimo dependentes do poder das células para fazer descer a altitude da ISO 0º. Já nas regiões entre os 200m e os 300m não acredito em acumulação, na verdade veremos se é possível ultrapassar a barreira do água neve, mas claramente as próximas saídas serão bem decisivas. O sleet parece-me que poderá ser o elemento que pode acabar por aparecer mais facilmente. Claramente que as regiões entre os 200/300m mais no litoral podem ser mais favorecidas em detrimento das regiões à mesma altitude, mas mais no interior em termos de possibilidade de neve, apenas pela maior robustez das células.