Tempestade Hercules ou Tempestade Christine?

Paelagius

Nimbostratus
Registo
27 Set 2013
Mensagens
1,521
Local
Porto
Temos assistido durante esta semana a uma série de eventos de grande agitação marítima. Os media e demais portugueses referem que é a tempestade Hercules.

Mas a tempestade Hercules está a ser causada por um deslocamento do vórtice polar permitindo o ar frio fluir para latitudes mais baixas que o habitual afectando grande parte da América do Norte com temperaturas extremamente baixas. Esta região de baixa pressão estava em pleno e vasto interior do continente e não no mar. Como é que poderia despoletar uma storm surge positiva!? - Agradecia que me corrigissem se estiver errado.

Em contrapartida, os media estrangeiros sempre se referiram (e antecipadamente) à região de baixa pressão, mais tarde chamada tempestade Christine, ainda em oceano dizendo que iria afectar a Irlanda, Reino Unido, Portugal, Espanha e França.

Como é possível atribuirmos tanto tempo e importância nos boletins noticiosos ao acompanhamento do desenrolar do outro lado (América do Norte) como se não estivesse nada para acontecer por aqui… Os serviços de protecção civil nos outros países accionaram os devidos procedimentos junto das populações (e.g.: avisos prévios para evitar passear nas marginais, mobilizar pessoas para locais mais seguros, disponibilizar sacos de areia para reter a propagação da água…). Por aqui, a protecção civil, em vez de fazer cumprir o seu dever de prevenir para evitar a exposição da população ao perigo parece servir para emitir comunicados só depois dos acontecimentos se sucederem. Ainda há semanas falava-se da agitação marítima e a tragédia na Praia do Meco que levou a vida a diversas pessoas e que mobilizou para além dos habituais meios aéreos, um navio patrulha de guerra (manutenção, tripulação,…).

A aposta na prevenção e sensibilização pode parecer não mostrar resultados e ser dinheiro sem retorno mas é precisamente essa ausência (de incidentes) o objectivo que se pretende. Não é para fazer ver o resultado de tragédias acontecerem.

Cheguei a publicar com antecedência noutros tópicos do fórum, primeiro para dar a conhecer no seguimento do tempo na Europa [1] [2] mas não prestaram atenção, tendo mais tarde publicado no acompanhamento do tempo no país [3]. Fui questionado por alguns, um administrador inclusivé, ao ponto de duvidarem se não estaria a fazer confusão e sugerir ler outros tópicos para obter mais informação (que não consta em nenhum tópico do fórum).

Alguém disponível para poder esclarecer, de modo credível e minimamente fundamentado, a minha questão?

Obrigado.
 

Agreste

Furacão
Registo
29 Out 2007
Mensagens
10,004
Local
Aljezur (48m) - Faro (11m)
Como é possível atribuirmos tanto tempo e importância nos boletins noticiosos ao acompanhamento do desenrolar do outro lado (América do Norte) como se não estivesse nada para acontecer por aqui… Os serviços de protecção civil nos outros países accionaram os devidos procedimentos junto das populações (e.g.: avisos prévios para evitar passear nas marginais, mobilizar pessoas para locais mais seguros, disponibilizar sacos de areia para reter a propagação da água…). Por aqui, a protecção civil, em vez de fazer cumprir o seu dever de prevenir para evitar a exposição da população ao perigo parece servir para emitir comunicados só depois dos acontecimentos se sucederem. Ainda há semanas falava-se da agitação marítima e a tragédia na Praia do Meco que levou a vida a diversas pessoas e que mobilizou para além dos habituais meios aéreos, um navio patrulha de guerra (manutenção, tripulação,…).

A aposta na prevenção e sensibilização pode parecer não mostrar resultados e ser dinheiro sem retorno mas é precisamente essa ausência (de incidentes) o objectivo que se pretende. Não é para fazer ver o resultado de tragédias acontecerem.

Discutindo esta parte: Não houve pessoas afectadas a não ser aquelas que estavam demasiado em cima do acontecimento. Se não contarmos com as situações de erosão já identificadas, em muitos casos as estruturas destruídas não era permanentes e estavam abandonadas/encerradas. Face ao sucedido não vejo como seria possível impedir a destruição de muitas dessas estruturas - cafés, esplanadas, apoios de praia - pela quantidade de água que invadiu as praias. Talvez se pudesse ter retirado as máquinas de frio e outros pertences desses locais. Este tipo de ondulação não é novo no inverno português - ondas de 6-7-8 metros nas praias - mas pode haver qualquer coisa que tenha escapado. Não sou só eu a dizer que na Costa Vicentina vi fotografias que nunca tinha visto desde os anos 80 pra cá.

Em março de 2010 os molhes do Arade estavam debaixo de água durante as marés vivas... não sei se o restaurante destruído nesta leva já existia nesta altura.

fhiz.jpg


A situação do Meco: que discussão merecem 5 pessoas terem decidido tomar banho numa praia por volta da 01:00 em pleno inverno, portanto sem vigilância marítima?
 

CptRena

Nimbostratus
Registo
16 Fev 2011
Mensagens
1,510
Local
Gafanha da Encarnação, Aveiro
  • Gosto
Reactions: Gerofil

ecobcg

Cumulonimbus
Registo
10 Abr 2008
Mensagens
4,862
Local
Sitio das Fontes e Carvoeiro (Lagoa - Algarve)

algarvio1980

Furacão
Registo
21 Mai 2007
Mensagens
10,668
Local
Olhão (24 m)
Aparece sempre uma Cristina na vida de um Hércules. :D :lmao: O Hércules derrotado por uma mulher lá se foi a boa reputação do Hércules ao ar. :lmao: :D
 
  • Gosto
Reactions: PedroMAR

Gerofil

Super Célula
Registo
21 Mar 2007
Mensagens
9,755
Local
Estremoz (401 metros)
"(...) In fact the cold weather in the US can strengthen the jet stream and bring the UK milder and wetter weather, much as we have seen over the last few days."

MetOffice

O Vórtice Polar na América do Norte acaba por influenciar um tempo mais húmido e mais quente na orla ocidental do continente europeu.
 

Gerofil

Super Célula
Registo
21 Mar 2007
Mensagens
9,755
Local
Estremoz (401 metros)
A Wobble in the Polar Vortex

1483217_10152169042337139_1528232883_n.jpg


Our colleagues at NOAA created this set of images, which show how a wobble in the polar vortex—the high altitude low-pressure system that circulates in the Arctic in winter—triggered the recent cold spell in North America. When the polar vortex is strong (right), it acts like a spinning bowl balanced on the top of the North Pole. When it weakens (left), masses of cold air can slosh out of the bowl into the mid-latitudes.

NASA`s Earth Observatory
 

CptRena

Nimbostratus
Registo
16 Fev 2011
Mensagens
1,510
Local
Gafanha da Encarnação, Aveiro
Oficialmente

2014-01-10 (IPMA)

Temporal no Atlântico Norte (3 a 6 janeiro 2014)

Desde meados do mês de dezembro de 2013 que as depressões originadas na parte leste dos EUA têm sofrido processos de cavamento rápido - ciclogénese explosiva - na sua passagem pelo Atlântico Norte. Este intenso cavamento das depressões foi, essencialmente, devido ao forte contraste entre a massa de ar muito frio sobre a parte leste dos EUA e a massa de ar quente e húmido do Atlântico.

A carta meteorológica do Hemisfério Norte da Figura 1 mostra a análise do modelo de previsão do tempo do ECMWF (European Centre for Medium-Range Weather Forecast), de 03 de janeiro de 2014 às 00UTC (Tempo Universal Coordenado), da temperatura do ar aos 850 hPa (~1500m) (ºC, Cor) e das curvas de nível aos 500 hPa (~5500 m). Nesta Figura pode-se identificar os meandros do vórtice polar e bolsas de ar frio em que a temperatura do ar, a cerca de 1500 metros de altitude, era inferior a -32 ºC (assinalada a azul muito escuro).

A depressão centrada na costa leste dos EUA no dia 3 às 00 UTC, com cerca de 1000 hPa, atravessou o Atlântico durante os dias 4 a 6, e sofreu um processo de ciclogénese explosiva registando um valor mínimo de pressão de 936 hPa às 00UTC do dia 5 de janeiro (Figura 2a). Às 00UTC do dia 7 de janeiro localizava-se a noroeste da Escócia, com cerca de 965 hPa, tendo sido designada por tempestade Christina pela universidade de Berlim (Figura 2).

Esta depressão originou valores muito elevados de ondulação no Atlântico Norte, com altura significativa das ondas que ultrapassou 14 metros a noroeste dos Açores no dia 5, propagando-se para leste vindo a originar, no dia 6, ondas de altura significativa de cerca de 9 metros na costa ocidental do Continente (Figura 3).

As previsões de agitação marítima na costa portuguesa dos modelos numéricos de área limitada utilizados no IPMA: European Shelf Model (LAM) do ECMWF e o Simulating WAves Nearshore (SWAN), previam uma agitação marítima caracterizada por uma ondulação de longo período (período de pico acima dos 18 segundos) e com altura significativa (Hs – i.e., o valor médio do terço (1/3) mais elevado das ondas) superior a 7 m a norte do cabo da Roca e até 6.5 m entre o cabo da Roca e Sagres, para as 12UTC de 6 de Janeiro, com uma direção predominante de WNW, (Figura 4). Ainda segundo os modelos numéricos, a região a Sul do Cabo da Roca teria o seu intervalo temporal mais crítico (com Hs superior a 7 m) no final da tarde de dia 6.

Nesse sentido, na sequência do acompanhamento, vigilância e previsão das condições do estado do mar e de acordo com os critérios para emissão de avisos meteorológicos de agitação marítima, o IPMA emitiu no dia 5 de Janeiro um aviso vermelho – correspondente a ondas com alturas significativas (Hs) superiores a 7 m – que esteve vigente entre as 09 UTC de dia 6 e as 00UTC de dia 7 (posteriormente alargado até às 06UTC) para toda a costa oeste de Portugal continental.

Os valores previstos da agitação marítima pelos modelos numéricos assim como as previsões do Centro Operacional de Previsão do Tempo do IPMA foram corroboradas pelas observações in situ obtidas com bóias ondógrafo do Instituto Hidrográfico (http://www.hidrografico.pt/boias-ondografo.php) e pelas observações remotas obtidas com radar altímetro a bordo do satélite de órbita polar Jason-2.

Na boia de Leixões foram registadas ondas com Hs até 9m e altura máxima (Hmax) de 13,5 m e na bóia de Sines ondas com Hs até 9 m e Hmax até 15 m, entre as 14 e as 20 UTC. Adicionalmente, foram registadas ondas com um período médio de cerca de 12 e 15 segundos para Leixões e Sines, respetivamente, tendo sido atingidos períodos máximos superiores a 20 segundos em ambas as bóias.

A energia das ondas associada à sua rebentação é determinada pelos valores da altura e do período das ondas, bem como pela direção da ondulação face à orientação da linha de costa. Assim, no caso da costa ocidental portuguesa, para as ondas de WNW que se verificaram, a dissipação de energia por refração (i.e., por efeito de aproximação à costa) foi minimizada e consequentemente conduziu a maior grau de destruição nas zonas costeiras.

Adicionalmente, a maré-cheia de aproximadamente 3.15 m terá ocorrido perto das 18:30 UTC (18:28 UTC para Cascais), coincidindo com os relatos de inundações e destruição de estruturas balneares em diferentes zonas da costa Portuguesa, uma vez que a maré cheia potencia que a rebentação ocorra mais próxima da linha de costa.

Referência e mais informação (imagens dos modelos e outros):
->http://www.ipma.pt/pt/media/noticia...os/temporal-atlantico-norte-3-6-jan-2014.html
 
  • Gosto
Reactions: Paelagius

manchester

Cumulus
Registo
25 Ago 2007
Mensagens
264
Local
Ermesinde