A Seca no Algarve na década 70 do séc.XIX

Vince

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A Seca no Algarve na década de 70 do séc. XIX

«Os infelizes filhos do Algarve perseguidos da maior adversidade de que não há memória»
(Câmara de Silves, 18 de Junho de 1878)


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A consulta dos livros de Actas de Vereações da Câmara Municipal de Silves da década de 70 do século XIX retrata um período verdadeiramente negro da história de um outro Algarve de há 130 anos.

As primeiras referências à terrível seca que se iniciou em 1875 surgem no princípio de Maio daquele ano, mas é a partir de Julho que inúmeras representações do Algarve são enviadas a Sua Majestade, com propostas «tendentes a minorar os males que afligem esta província, causados pela prolongada seca e que afecta não só a classe operária, mas em geral todos os habitantes do Algarve».

As propostas enviadas pelas autarquias de então, verdadeiros apelos de angústia, centravam-se sobretudo na execução de obras públicas, isto é, a abertura de novas estradas e a conclusão do caminho-de-ferro para o Algarve.

As consecutivas solicitações tiveram eco em Lisboa e, a 1 de Julho de 1875, o governo determinou concluir o troço de caminho de ferro entre Faro e São Bartolomeu de Messines (Barranco Longo), reconhecendo a gravidade da situação: «a prolongada seca na província do Algarve tem assumido tais proporções que ameaça causar graves danos à indústria agrícola e fazer a desgraça de muitas famílias; e, sendo indispensável prover de remédio, quanto possível, dando trabalho às classes mais necessitadas, com vantagem das condições económicas do país e da comodidade dos povos».

Conjuntamente, outras vias de comunicação foram principiadas em todo o distrito, quer em estudos de projecto, quer em obra propriamente dita, nomeadamente, as estradas de Lagos a Aljezur, de Lagos a Silves, de Albufeira à Guia, das Ferreiras a Paderne, de Loulé a Quarteira, etc.

Uma outra consequência deste terrível período foi o abastecimento de água às populações. Em Julho de 1876, a então Câmara Municipal de Vila Nova de Portimão oficiou a autarquia de Silves, solicitando autorização para que os barqueiros que abasteciam aquela vila se abastecessem na fonte nova, pois «o modo como se abastecem de água potável para uso dos seus habitantes, achando-se quase seca a Fonte do Gramacho, vão os barqueiros encher suas barcas a uma outra fonte que existe na margem do rio, antes daquela, contudo, tornam a água imperfeita e inconveniente para o uso comum».

A vereação da Câmara de Silves resolveu por unanimidade «que, em vista da escassez de água que há na dita Vila, se concedesse autorização para as barcas que conduzem água para dela se fornecerem provisoriamente na fonte nova, nos subúrbios desta cidade (...), mas que se lembrasse à referida Câmara que, nesta cidade e seus arredores, têm escasseado no presente ano, água, notavelmente nas fontes e poços (...), por isso é conveniente que a mesma Câmara de Portimão trate desde já de descobrir ou explorar alguma outra água».

No final de 1876 (7 de Dezembro), uma outra adversidade abateu-se sobre os algarvios: a terrível cheia no vale do Guadiana, que submergiu quase todas as localidades ribeirinhas do grande rio do Sul, como atestam ainda hoje as inúmeras indicações nos edifícios locais.

Mas, depois da cheia, de novo a seca e, em 15 de Janeiro de 1878, a Câmara de Silves refere em Acta «que os trabalhos não devem faltar à classe que deles mais precisa, a qual já vai sentindo a miséria em consequência da extrema seca da actualidade».
Em representação à Câmara dos Deputados, aquela autarquia lembrava a seca de 1875.

«Abriram-se os trabalhos do caminho-de-ferro, desenvolveram-se os trabalhos das estradas do governo, distritais e municipais; e o povo trabalhou, o povo ganhou o pão, afrontou a miséria à custa de grandes melhoramentos que a um tempo nos salvaram da fome e enriqueceram a província e o país. Pois bem, senhores, renovou-se mais terrível ainda o mesmo flagelo contra esta desditosa província. Os filhos do Algarve precisam, suplicam mais socorros, isto é, querem trabalho em troca de um salário com que matem a fome á família. Ainda a miséria lhes não roubou as forças, mas não tem onde exerçam a sua actividade – oferecem-na em troca do sustento. (...) É pois em nome dos habitantes desta província que vos pedimos não só a aprovação do projecto [da conclusão do caminho de ferro do Algarve], mas também a sua rápida execução, assim como pedimos vos digneis que as obras públicas tenham largo alcance».

Na realidade, a «crise tristíssima que se experimentou nesta província» naquela já esquecida data, acabou por ter efeitos antagónicos, já que todas as obras públicas conheceram um impulso extraordinário naqueles anos, em vez de subsídios combateu-se a crise com trabalho, que enriqueceu sobremaneira o Algarve de então. Contudo, e mesmo assim, o comboio apenas chegaria a Faro com a conclusão da linha-férrea em 1889.

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Fontes bibliográficas:
Actas de Vereação da Câmara Municipal de Silves 1875-1878; «Os Acessos a Faro na segunda metade do séc. XIX», de Luís Santos.

Aurélio Nuno Cabrita
Fonte: Barlavento
 
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