Crise alimentar

Mário Barros

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18 Nov 2006
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Ameaça de nova crise alimentar mundial no horizonte
O receio de que esteja iminente uma repetição da crise alimentar de 2007-2008 está a crescer a nível global. No mês passado, os preços dos alimentos aumentaram seis por cento nos mercados mundiais e os importadores estão a adquirir sofregamente a colheita de cereais dos Estados Unidos o maior exportador mundial deste tipo de produtos. Uma das principais razões está no facto de a produção dos EUA ter encolhido este ano, drasticamente, devido à seca, fazendo os preços do milho atingir novos recordes.

Um relatório governamental divulgado esta sexta-feira revela que um sexto da colheita de milho dos Estados Unidos ficou destruída em apenas um mês devido à pior seca dos últimos cinquenta anos.

O departamento da Agricultura dos EUA reviu em baixa as previsões para a colheita deste ano, diminuindo em 16,9 por cento as estimativas de julho.

No que respeita à colheita de soja, as previsões também foram revistas em baixa, tendo havido uma redução de 11,7 por cento em relação à estimativa feita no mês passado.

Estes números representam uma quebra, em relação a 2011, de 13 por cento à produção de milho e de 12 por cento, no que respeita à soja.

A presente conjuntura já levou a subidas de entre 25 a 50 por cento dos preços do trigo, do milho e da soja. Sendo que no caso dos últimos dois cereais, os preços já ultrapassaram os da crise de 2007-2008.

"El Nino" piora situação

A somar-se às preocupações está uma previsão do serviço meteorológico do Japão, segundo a qual o fenómeno meteorológico conhecido por El Nino já se começou a produzir e deverá manter-se pelo menos até ao inverno, o que faz supor a continuação de condições meteorologicas desfavoráveis até o final do ano.

Estes dados aguçaram o apetite dos especuladores nos mercados mundiais de alimentos que funcionam como os de qualquer outro produto de consumo. O relatório do governo americano fez com que o preço de referencia dos futuros sobre o milho subisse imediatamente mais de 3 por cento, atingindo um pico recorde de $8.4375 dólares por alqueire.

Face a este panorama, a agência alimentar da ONU está a pôr em guarda os governos para que evitem o tipo de práticas comerciais que, em 2008 contribuíram para agravar a crise.

“Existe o potencial para que a situação se desenvolva da mesma forma que em 2007/2008”, disse à Reuters o economista e analista da Organização da Alimentação e Agricultura Abdolreza Abbasian.

ONU adverte contra repetição das "más políticas"

“Espera-se que desta vez não se venham a produzir más políticas e intervenção nos mercados através de restrições” disse Abassian “ se isso não acontecer, não assistiremos a uma situação tão séria como a de 2007/2008. Mas se essas políticas se repetirem, tudo é possível”.

Recorde-se que a crise de 2007/ 2008 foi provocada por uma mistura de fatores que incluíam o alto preço do petróleo, a cada vez maior utilização de biocombustíveis, o mau tempo e uma série de políticas de exportação restritivas, proibições à exportação e aumento das tarifas, que fizeram disparar os preços dos alimentos e estiveram na origem de motins em mais de 30 países, do Bangladesh ao Haiti.

Segundo Abassian, desta vez, a existência de stocks abundantes de arroz, a crise económica mundial e o facto o preço do petróleo estar mais baixo do que em 2007/2008 pode ajudar a evitar uma subida drástica do preço dos alimentos.

No entanto já há alguns sinais alarmantes, que incluem indícios de que alguns governos estão antecipadamente a adquirir e a armazenar stocks invulgarmente grandes de cereais numa espécie de “açambarcamento” a nível estatal.

As exportações de milho dos EUA na última semana atingiram o segundo pico mais alto dos últimos dez meses, encontrando-se incluída neste número uma operação de aquisição única, quase recorde, feita por importadores do México, que é o segundo maior importador a nível mundial.

Ressurge o debate “alimentos vs combustíveis”

O perigo de uma repetição da crise alimentar, renovou o debate sobre a produção de biocombustíveis que consome uma parte significativa da produção de milho. No caso dos EUA, cerca de 40 por cento da colheita destina-se habitualmente à produção de etanol.

O diretor-geral da Agencia das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, José Graziano da Silva, apelou a uma “suspensão temporária, com efeitos imediatos” do mandato federal dos EUA, que obriga a as companhias americanas de combustível a garantirem que, este ano, 9 por cento das suas reservas sejam compostas de etanol.

“Uma grande parte da colheita já de si reduzida vai ser reclamada pela produção de biocombustíveis, para cumprir com os mandatos federais a esse respeito, o que vai deixar ainda menos [milho] para os mercados de alimentação de pessoas e gado” escreveu Graziano da Silva no jornal Financial Times.

“Uma suspensão imediata, temporária desse mandato daria algum descanso ao mercado e permitiria que uma porção maior da colheita fosse encaminhada para utilizações alimentares e para o gado”.

O diretor – geral da Agencia das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, não é o único a pressionar os Estados Unidos para que afrouxem as quotas de integração de etanol.

Esta semana, 25 senadores dos EUA pediram à Agência de Proteção Ambiental, para que ajuste o mandato, e o executivo-chefe do gigante de produção de cereais Cargill disse que deveria ser o mercado a ditar a utilização de biocombustíveis.

Os primeiros a fazer apelos neste sentido tinham sido os criadores de gado americanos, que são forçados a licitar contra os produtores de biocombustíveis e assim têm de pagar mais para alimentar os seus animais.

No entanto, a Agência de Proteção Ambiental ainda não recebeu nenhum requerimento oficial para mudar as regras, o qual, ao abrigo da lei, só poderia ser feito por um governador de Estado, ou por uma das companhias que se dedicam à mistura de combustíveis.

RTP
 

filipe cunha

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20 Dez 2009
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Boas, com a crise e preços a aumentar constantemente aconselho a quem puder e quiser arranjar um hobby a dedicar-se a cultivar uma pequena horta com couves, alface, tomate, por exemplo não é necessário ser agricultor para se conseguir colher estes legumes :hehe:

Tambem tenho horta, +-100m2s, com muitas arvores de fruto, todos os anos é cultivada, de certa forma é compensador;)
Mas não pense o pessoal que é só semear e no dia a seguir ir colher:lol:
 

Pedro

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.
Por cá, o quintal produz o ano todo, sejam limões, pêssegos, morangos, framboesas, mirtilos, alperces, ameixas, kiwis, laranjas, maçãs, peras, etc.
A nível hortícola, nunca se comprou batata, cebola, alho, tomate e couves.

Este ano vou-me aventurar com alfaces, coentros, e tudo mais. O espaço é muito e o terreno é bom. O tempo é que não é muito e o trabalho é grande, mas compensa... :D
 

Agreste

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E onde é que para o mercado de futuros onde estão milhares de milhões de dólares que fugiram da bolha do imobiliário?
 

Vince

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Braga
Vale a pena ler e reflectir sobre tudo o que se diz nesta notícia, sobre o Reino Unido.


Thanks to the weather ‘wonky’ fruit and veg is back
Misshapen pears, ugly apples and tiny onions will be sold in British supermarkets for the first time in years after the dismal summer weather ruined harvests.

nlvmH.jpg


The wettest June ever recorded, the coldest July since 2000 and hail storms in August have all stunted the growth and damaged the skin of British fruit and vegetables.
However in response to a campaign by farmers not to waste “perfectly tasty” food, supermarkets have been forced to relax their rules on cosmetic standards so scarred potatoes, smaller carrots and blemished plums are allowed on the shelves.
The display of produce will look like shops of the 1950s, before supermarkets started insisting on green apples and straight carrots.
Campaigners now hope that this year’s relaxation of the “nonsensical rules” will encourage supermarkets to start regularly stocking “wonky” fruit and veg rather than throwing it away.
EU rules on “mishapen” fruit and veg were relaxed in 2009 but supermarkets still insist on private product standards.

Lee Abbey, a horticulture adviser at the National Farmers Union, said it has already been a tough year for farmers because yields are below average. Apples are almost a fifth down on last year.
If supermarkets now reject the crop that has survived, it could push many farmers out of business.
“The NFU has been calling on supermarkets to relax their standards because we do not want perfectly good fruit and vegetables rejected,” he said. “Common sense should be applied.”
Apples with an occasional blemish or slight russetting, that makes them too red for the supermarkets, are often rejected.
Other fruits are also dumped for having small marks, despite the fact it does not affect the flavour.
Vegetables have to meet certain size standards but again will taste exactly the same.
This year Waitrose, Sainsbury’s, Asda and Tesco are all promising to sell more “outgrade” fruit and vegetables.
However Tristram Stuart, author and founder of food waste campaign Feeding the 5,000, said not enough is being done to stop good food going to waste.
Even though EU rules have been relaxed, he said farmers are routinely forced to throw away up to 40 per cent of a crop because it does not meet “cosmetic standards”.
The problem is not even measured because the Government does not survey food waste on farms, despite poking around the bins of consumers to analyse consumer waste.
Mr Stuart, who fed thousands of people in Trafalgar Square from rejected fruit and vegetables, said retailers will only take “outgrade” fruit and vegetables because the supply is low this season.
During a normal harvest, farmers will once again be forced to lose profit and dump produce.
“What we are seeing is an informal relaxation of the rules during a poor harvest,” he said. “But supermarkets should be doing this every year!
“The fact that consumers buy this wonky produce demonstrates that people are wiser than supermarkets often make out; people know that fruit and veg will taste just the same, if not better, despite irregularities of colour, shape or size.”
Alan Wilson, Waitrose’s Technical Manager in Agronomy, confirmed consumers do not care as long as the fruit and vegetables taste good.
"This season, from a dry start, has become one of the wettest we’ve ever known which has given farmers all kinds of challenges, from poor germination, crops rotting in the fields to simply not being able to access land to harvest.
“To help our farmers we operate a system that allows us to sell good quality but cosmetically imperfect fruit and vegetables. This can be from simple things such as accepting more mud on peas and beans than usual to shorter carrots, thinner parsnips or smaller strawberries."

http://www.telegraph.co.uk/earth/ag...-the-weather-wonky-fruit-and-veg-is-back.html
 

Paulo H

Cumulonimbus
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Vale a pena ler e reflectir sobre tudo o que se diz nesta notícia, sobre o Reino Unido.

A produção fruticola na inglaterra, caiu em quantidade e qualidade, devido a um verão fora do normal por lá. Referem que os clientes, confiam no sabor dos produtos e vão continuar a comprar as frutas que os mercados ingleses colocarem à venda, apesar de apresentarem um aspecto menos standard (calibre inferior, cor irregular, defeitos).

Não sei se o artigo reflete a realidade, ou se reflete uma intenção de marketing em defesa dos produtos nacionais..

O que sei é que os clientes, perante um preço igual preferem sempre as frutas de melhor aspecto (características chave "brick"), ou aquelas que tenham uma origem em que confiem.

Não posso deixar de pensar que o azar de uns é a oportunidade de outros, pelo que se Portugal fosse mais que autosuficiente em termos de produção de fruta, teria aqui a oportunidade de exportar melhores produtos para inglaterra!
 

Vince

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23 Jan 2007
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Paulo, tu não achas estranho nas grandes superfícies só aparecer fruta/legumes, etc, normalizada e bonitinha ? Para onde vai a restante ? Eu vejo-o muitas vezes, mas por vezes até a ser vendida em circuitos paralelos, de rua, em venda meio ilegal.
 

David sf

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8 Jan 2009
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Paulo, tu não achas estranho nas grandes superfícies só aparecer fruta/legumes, etc, normalizada e bonitinha ? Para onde vai a restante ? Eu vejo-o muitas vezes, mas por vezes até a ser vendida em circuitos paralelos, de rua, em venda meio ilegal.

Uma grande parte deve ir para fazer sumos, até as grandes superfícies já vendem sumos naturais, que devem ser feitos a partir de fruta tocada. Provavelmente aquelas sopas que se compram da Knorr, serão feitas a partir de vegetais mais "feios".

Claro, que uma grande parte vai para a economia paralela, mas acho que ultimamente as grandes superfícies e algumas empresas têm sabido dar um fim mais proveitoso à fruta que não tem os padrões exigidos para ser exposta.
 

Paulo H

Cumulonimbus
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Nunca tinha pensado nisso.. Enfim, tudo é possível, hoje em dia! Roubo, corrupção, fuga aos impostos, mercado paralelo.. Já acredito em tudo! :)

Se os funcionários classificarem lotes de fruta e legumes como perdas, depois não sei o que acontece (dantes ia para o lixo, mas os pobres iam lá recuperar), e hoje em dia já não têm acesso aos contentores de produtos rejeitados.

Como mini-produtor de cereja para cooperativa, sei mais ou menos como funciona. Só aceitam fruta com um calibre superior a X, preferem embalagens maiores (apesar de contra-indicado, dado ser uma fruta sensível ao peso), em especial para colocar a granel onde toda a gente mexe com os dedos e mãos. Assim a fruta conserva-se muito menos, assim como o seu aspecto deteora-se rápido. Mas é assim que eles querem! E caso o lote seja rejeitado volta tudo para trás, e através da identificação do lote identifica-se o produtor (que não irá receber nada).
 

Paulo H

Cumulonimbus
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2 Jan 2008
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Castelo Branco 386m(489/366m)
Uma grande parte deve ir para fazer sumos, até as grandes superfícies já vendem sumos naturais, que devem ser feitos a partir de fruta tocada. Provavelmente aquelas sopas que se compram da Knorr, serão feitas a partir de vegetais mais "feios".

Claro, que uma grande parte vai para a economia paralela, mas acho que ultimamente as grandes superfícies e algumas empresas têm sabido dar um fim mais proveitoso à fruta que não tem os padrões exigidos para ser exposta.

Este ano vendeu-se muito pouca cereja para indústria (cereja de calibre inferior, ou rejeitada sem pé ou pedunculo).

Um importante grupo conhecido, preferiu até ir buscar cereja à Polónia, para destino indústria (conservas, compotas, sumos, concentrados). O incrível mesmo é que o preço de transporte é mais caro que a própria fruta, e ainda assim preferiram importa-la!

Nota: oferta nacional havia, mas ainda assim preferiram importa-la, apesar do marketing nacional que fazem!