https://www.cmjornal.pt/domingo/detalhe/antonio-de-abreu-freire-jesus-foi-um-ativista
https://www.paulus.pt/products/jesus-o-cristo-a-biografia-de-um-homem
Escreve que comum era o corpo dos crucificados ir parar às lixeiras…
Provavelmente foi o que aconteceu. A narrativa do sepulcro não tem lógica. De quem era o sepulcro? Quando o corpo desaparece, ninguém pergunta por ele. Jesus tinha de ressuscitar para ser aquilo em que se tornou. Então, Jesus ressuscitou. Foram gregos aqueles que escreveram. Os autores das narrativas não são evangelistas, cujos nomes são fictícios.
Por vezes a fronteira entre facto e opinião é difícil de distinguir.
Os Romanos crucificavam e deixavam as vítimas na cruzes para serem devoradas pelos animais. Como aviso/castigo. Depois enterravam a malta em valas comuns.
Não há assim tanta informação sobre as práticas na Palestina na época de Jesus. O que está escrito foi a norma no império e isso serviu/serve de base para certas opiniões.
Em tempos de conflito, as normas certamente mudavam mas Josefo diz que os romanos permitiam aos judeus enterrarem os crucificados para não 'contaminar' a terra. Era um costume religioso.
A história do túmulo vazio começa com Marco, escrito uns 30-40 anos depois de Jesus. Mateus, escrito 10-15 anos depois de Marco, faz referência a uma alegação de roubo do corpo.
Paulo até é a fonte mais antiga, escrevendo na 1a carta aos Coríntios (20-25 anos depois de J) que Jesus foi enterrado (e ressuscitou no 3o dia). Infelizmente só se tem uma fração das cartas que o tipo escreveu e como é comum nas tradições, mesmo hoje em dia a omissão de certos detalhes é norma quando se fala em algo conhecido por todos.
Outra forma de interpretar a situação é que até é comum pessoas terem experiências (sonhos, cheiros, etc) após o falecimento de um ente querido. Interagir visualmente com um falecido pode explicar a noção de 'ressurreição' (mesmo com o corpo enterrado), tendo a posterior narrativa do túmulo vazio aparecido como a tentativa de pessoas que não fazem a mínima ideia do fenómeno para explicar o que aconteceu a outras pessoas que não fazem a mínima ideia do fenómeno.
Novamente, no tópico só há especulação.
Chama-lhe algumas vezes ativista. Jesus era político?
Sim, foi um ativista. Havia muitos. Aquela zona do Império Romano era muito complicada. Quando foi invadida por Alexandre, o Grande, foi helenizada e até a estátua de Zeus foi posta no templo de Jerusalém.
E era comum esses ativistas terem uma corte à sua volta?
Sim, alguns foram ativistas militares e fizeram as legiões romanas passar maus bocados. Marco António teve de intervir com uma legião inteira, ou seja 6 mil homens. Quem ajudou o Marco António? Herodes, que não é um judeu mas idumeu, que assumiu a responsabilidade e o interesse de defender o povo judaico. E depois havia grupos ideológicos, um deles teve como centro João Batista, que representava aqueles que não gostavam da dinastia herodiana.
Há uns anos atrás, o livro Zelota foi um grande sucesso. Jesus como revolucionário armado.
Como curiosidade, os Idumeus foram à força convertidos ao Judaísmo. De um dia para o outro, incontáveis começaram a ser povo escolhido.
A abordagem mais correta, tendo em conta o que verdadeiramente se sabe, é que tanto Jesus como João Batista foram profetas apocalíticos que anunciavam o fim iminente. Toda a gente se devia arrepender porque o tempo era curto. Foi uma perspetiva aparentemente comum naquele tempo.
Qualquer biografia de Jesus deve enfatizar a distinção entre história e especulação tendo em conta a pouca quantidade de informação. Esperançosamente, o livro é bem melhor que a entrevista...