O problema é que não é isso que realmente acontece... A Europa é um continente multicultural e cheio de clima. Não estou a ver os húngaros a quererem viver no mesmo país em que vivem os polacos ou os portugueses. Seria algo perigoso criar uma União Federal na Europa neste momento, ainda por cima com tantas divergências no combate à pandemia.
O contexto de formação de países federais como os EUA, a Alemanha ou Suíça é completamente diferente do contexto europeu. Os EUA formaram-se após a colonização, período em que milhares de índios foram mortos devido às doenças trazidas pelos europeus. Muita gente do Norte da Europa povoou o leste dos EUA, que era na altura uma colónia britânica, e começaram a adquirir uma identidade própria que não havia em outros territórios do Ultramar britânico, nem na própria Grã-Bretanha. Devido ao clima, os colonos desenvolveram um hábito de trabalho que diferenciava dos hábitos braçais de outras colónias. Ao contrário da Índia, onde havia a prática de trabalho braçal, aonde muitos enriqueciam facilmente, os colonos norte-americanos esforçavam-se para sobreviver e enriquecer, e foi esse hábito que fez com que os EUA conseguissem crescer tanto no século XX.

Este vídeo explica bem a razão pela qual os EUA enriqueceram e o Brasil empobreceu, mesmo tendo sistemas federais semelhantes:
Na Alemanha, o estado federal foi criado após a II Guerra Mundial. Ao contrário do que muita gente pensa, a Alemanha não é propriamente um território unido - aliás, é uma invenção recente, do século XIX. A Alemanha é um conjunto de diversos povos, mas que até certo ponto dão-se bem. Mesmo assim, as diferenças são notáveis: o Alemão das terras baixas (Norte) é bem diferente do Alemão das terras altas (Sul/padrão), e há inclusive quem os considere línguas diferentes! Dentro da Alemanha ainda se fala uma língua minoritária: o frísio, a língua mais próxima do inglês. Para toda esta gente dar-se bem, foi preciso criar uma certa autonomia em cada região. Há que salientar também que a Alemanha do Leste era bem diferente da do Oeste, e a República Federal foi útil na sua convergência económica. Na Suíça acontece o mesmo - existem bastantes comunidades: uma comunidade francesa, que fala dialetos da langue d'oïl, como o francês suíço ou o franco-provençal, uma comunidade italiana, que fala galo-itálico, italiano padrão ou romanche, e uma comunidade alemã, que fala alemão das Terras Altas. No entanto, ambas as culturas são tolerantes e dão-se bem até certo ponto.
Há múltiplos problemas numa federação europeia: há culturas bem tolerantes, como a portuguesa ou a alemã, mas também há culturas pouco tolerantes, como é o caso da cultura húngara ou da cultura polaca. Juntar todas estas culturais seria um desatino e não correria muito bem... E depois há que salientar que o inglês é, neste momento, a língua franca da Europa, mas pouca gente na realidade sabe falar inglês. Portugal até é um país sortudo: 40% da população é fluente na língua inglesa. No entanto, aqui ao lado, em Espanha, apenas 17% da população é fluente. Em França, apenas 12% o é. Em geral, os países europeus, à exceção dos nórdicos e dos anglófonos, têm pouca gente fluente na língua franca (menos de metade é fluente), e isso dificultaria também a formação de uma união federal.