Cheias no Algarve - 1 Novembro 2015

AnDré

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22 Nov 2007
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Odivelas (140m) / Várzea da Serra (900m)
Não são precipitações horárias que mal tocaram os 20 mm que fazem isto. As próprias estimativas do radar para os acumulados não justificam uma inundação daquela ordem, seriam precisos valores superiores a 40 mm por hora ou mais, ou então a urbanização está tão mal concebida que canaliza tudo de uma área enorme para a baixa de Albufeira.

Reparem bem nas cores da escala de acumulados que atingem a zona de Albufeira ou mesmo para o interior: nunca chegam aos valores rosa de topo, ficam no máximo à volta dos 15-20 mm e já é ser generoso.
Como é que acumulados destes arrastam automóveis e põem 1,80m de água nas ruas?

Isto é de certeza consequência de terem feito desvios e encanamentos de linhas de água, aliado à impermeabilização de uma larga zona periférica da cidade.

Para onde escorrem os 10 centímetros de água que caíram naqueles campos delimitados por: Alpouvar, Vale de Santa Maria, Pátio e Caliços?

hL9AMj1.jpg


Parece-me, assim à partida, que Albufeira é uma barreira à água que ali se acumulou. A água inundou os campos e teve que correr para algum lado.
 

StormRic

Furacão
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23 Jun 2014
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Póvoa de S.Iria (alt. 140m)
Cheias em Albufeira, fenómeno tão antigo quanto a ocupação do vale ribeirinho
http://www.sulinformacao.pt/2015/11...-antigo-quanto-a-ocupacao-do-vale-ribeirinho/

Imprescindível ler isto.

Do qual extraio esta parte. É que não há avisos vermelhos e tragédias passadas que demovam o urbanismo criminoso neste país.

"
Na realidade, a ribeira foi sendo canalizada em conduta ao longo dos últimos 100 anos, e simultaneamente, foram sendo construídas mais habitações/prédios nas “margens” e sobre o seu leito. Ainda em 2009 foi intervencionado mais um troço, uma obra polémica entre o Parque de Campismo e o Centro de Saúde.

Sendo as cheias um fenómeno cíclico e normal no clima mediterrânico, e a função dos cursos de água tão-somente transportá-la, seja ela muita ou pouca, a ocorrência de cheias fluviais em Albufeira são, nas circunstâncias atuais, uma verdadeira “bomba relógio”, de consequências imprevisíveis, que urge corrigir.

Quanto a responsáveis, somente o Homem o é, afinal ocupou, usou e abusou de uma área que não era sua, mas da Ribeira de Albufeira."



Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de História Local e Regional
 

aoc36

Cumulus
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30 Mar 2012
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albufeira- montechoro
Para onde escorrem os 10 centímetros de água que caíram naqueles campos delimitados por: Alpouvar, Vale de Santa Maria, Pátio e Caliços?

hL9AMj1.jpg


Parece-me, assim à partida, que Albufeira é uma barreira à água que ali se acumulou. A água inundou os campos e teve que correr para algum lado.

Ainda falta mais para norte, até a freguesia de Ferreiras onde começa a ribeira.
 

Agreste

Super Célula
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29 Out 2007
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Aljezur (48m) - Faro (11m)
a ribeira está artificial desde lá de cima do parque de campismo... o troço final é que não tem largura suficiente para acomodar estas chuvadas.
 

David sf

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8 Jan 2009
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Oeiras / VN Poiares
Não conheço os locais em causa, mas não me custa a crer que o mau planeamento urbanístico possa estar na origem de parte das inundações. Mas não nos esqueçamos que a quantidade de precipitação registada foi anormalmente alta. Uma análise estatística a partir das curvas IDF retiradas daqui leva às seguintes conclusões:

FARO:

Maior valor em 1 hora: 19,9 mm, valor aproximadamente igual ao do período de retorno (T) de 2 anos para essa duração (19,4 mm);
Maior valor em 3 horas: 45,9 mm, valor entre o de T=5 anos (40,5) e de T=10 anos (49,1) para essa duração;
Maior valor em 9 horas; 96,8 mm, valor entre o de T=50 anos (94,8) e o de T=100 anos (105,9) para essa duração.

PORTIMÃO (comparação com IDF da Praia da Rocha):

Maior valor em 3 horas: 27,6 mm, valor entre o de T=2 anos (21,9) e de T=5 anos (29,0) para essa duração;
Maior valor em 9 horas; 72,2 mm, valor entre o de T=50 anos (65,3) e o de T=100 anos (79,0) para essa duração.

A área mais afectada, entre Faro e Albufeira, não dispõe de IDF calculada, pelo que não se conseguirá calcular com exactidão o período de retorno do evento. De qualquer modo, comparo os valores de Carvoeiro com as IDF de Faro e Praia da Rocha.

CARVOEIRO:

Maior valor em 1 hora: 21,5 mm, T aprox. 2 anos se comparado com Faro e T aprox. 5 anos se comparado com Praia da Rocha;
Maior valor em 3 horas: 53,4 mm, T aprox. 15 anos se comparado com Faro e T aprox. 250 anos se comparado com Praia da Rocha;
Maior valor em 9 horas; 109,5 mm, T>100 anos (105,9) se comparado com Faro e T>1000 (85,3) aos se comparado com Praia da Rocha.

Resumindo, foi um evento que não se destacou pela intensidade da precipitação, valores para duração de uma hora com períodos de retorno não muito altos (2/5 anos), mas que se destacou pela duração de valores elevados de precipitação de forma persistente, com períodos de retorno para duração de 9 horas certamente superiores a 100 anos no litoral entre Faro e Albufeira. Quando passou a frente quente, por volta das 14 horas, já havia muita água acumulada, e o sistema de drenagem (natural ou artificial), não suportou mais.
 
Última edição:

james

Cumulonimbus
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16 Set 2011
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Viana Castelo(35 m)/Guimarães (150 m)
Eventos severos de precipitacao colocam sempre problemas graves de inundações, seja em que região for. Claro que um pior urbanismo irá provocar maiores danos, mas é fantasioso achar que se possa passar incólume por eventos deste género.

Nesta situação concreta no Algarve, o balanço que se deve fazer é ver aquilo que falhou e os melhoramentos que se possam fazer em termos de urbanismo

Uma discussão que seja do género " aí isto não devia ter acontecido " e completamente vazia, pois situações destas vão continuar a acontecer, por muito bem que se esteja preparado ( e podia ter sido ainda pior).
 

David sf

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8 Jan 2009
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Oeiras / VN Poiares
Em teoria, um sistema de drenagem urbana bem dimensionado, acomoda o caudal de ponta gerado por um evento de precipitação com período de retorno de 5/10 anos para uma duração de 15 minutos. Logo, admitindo uma intensidade relativamente constante ao longo dos intervalos de uma hora (que pelas imagens de radar foi mais ou menos o que aconteceu) o sistema de drenagem urbana deveria ter transportado sem qualquer problema as águas pluviais até ao meio receptor (neste caso o mar; desconheço se a maré pode ter alguma influência, mas não deveria ter).

O problema, que se nota pela cor da água, é que o sistema de drenagem fora da malha urbana (natural ou artificial, não conheço), entrou em colapso, e por mau planeamento, a água entrou pela área urbana. Neste caso, o sistema de drenagem urbana, mesmo bem dimensionado, não pode fazer nada. Como o Agreste referiu, a solução para resolver este problema passa por armazenar a água pluvial a montante (bacias de retenção), ou em alternativa, desviar essa água até ao mar fazendo by-pass à área urbana (um caso interessante deste género foi realizado em Valencia, com o desvio do leito do rio Turia, que atravessava a cidade em cerca de 10 km).
 

criz0r

Cumulonimbus
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11 Abr 2008
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C.Piedade/Belver/Porto
Imagens impressionantes e pouco vistas digamos assim nos dias de hoje no Algarve, penso que mais uma vez a culpa disto é do típico Tuga que se encosta há sombra da Bananeira e se esquece que apesar de não ser uma região com pluviosidade do outro mundo, volta e meia é preciso estar-se preparado para este tipo de situações que não são assim tão raras ao longo da história.
 

james

Cumulonimbus
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16 Set 2011
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Viana Castelo(35 m)/Guimarães (150 m)
O Algarve e a região de Portugal que tem o clima mediterrânico mais genuíno ( digamos assim) e, como todos sabem, este clima e propício a regimes torrenciais ( basta ver, ainda este ano, as imagens trágicas das cheias no sul de Espanha e sul de Franca) .

Por isso, não consigo compreender muito bem esta questão, ou nos últimos anos tem chovido realmente pouco no Algarve ou está em discussão o sexo dos anjos .
 

MSantos

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3 Out 2007
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Azambuja / Mte. Barca (Coruche)
Evento extremo de precipitação associado ao mau planeamento, o resultado ficou à vista. Infelizmente creio que nada vai mudar, no curto prazo não vai voltar a acontecer e isto vai cair no esquecimento, até daqui a 10 anos voltar a acontecer. Em Lisboa é igual, quando a caírem 70/80mm em 3 ou 4 horas vai ficar tudo a nadar outra vez.
Infelizmente o espírito tuga é assim... :disgust:
 
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Gerofil

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21 Mar 2007
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Estremoz (401 metros)
Só para lembrar o que já foi referido noutro tópicio:

"Os níveis de precipitação não têm vindo a diminuir ao longo dos últimos anos, no entanto, e analisando os dados diários e horários, verifica-se cada vez mais, a regularidade com que ocorrem situações extremas, isto é, períodos curtos com grandes intensidades de precipitação (horas) seguidos de longos períodos de ausência da mesma (semanas).
Tem-se verificado uma irregular distribuição de precipitação ao longo dos meses da época de chuvas (Outubro a Abril), ocorrendo por vezes concentrada num ou dois meses e nem sempre nos tipicamente mais chuvosos (Dezembro e Janeiro), tendo essa irregularidade sido prejudicial em muitos aspectos, agronómicos e não só."

DRAPALG
 
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Gerofil

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21 Mar 2007
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Estremoz (401 metros)
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frederico

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9 Jan 2009
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Porto
No Noroeste de Portugal são comuns os dias com mais de 100 mm de precipitação e mesmo assim não vemos imagens destas. O problema algarvio é apenas um, mau planeamento urbano.

Desta vez sucedeu no Barlavento, mas poderia ter acontecido no Sotavento. Há uma povoação chamada Alagoa, chama-se assim porque no passado era mesmo uma lagoa e um sapal. A lagoa artificial que lá está é muito menor da que existiu no passado. As pessoas moravam na Altura, chamada assim por estar a uma cota mais alta. No sítio da Alagoa acumulavam-se as chuvas de Inverno, tal como sucedia onde estão agora os estacionamentos da Manta Rota. Vários ribeiros e valas transportavam as águas do barrocal e da serra para a Alagoa e para a Manta Rota, a água da Manta Rota era depois parcialmente drenada para a Ria Formosa. No dia que houver um evento destes no Sotavento veremos as Alagoa com problemas, pois as casas foram construídas em cima de uma antiga zona húmida.
 

Pedro1993

Super Célula
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7 Jan 2014
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Torres Novas(75m)
Albufeira pretende fazer declaração de calamidade pública
| Hoje às 08:34
A Câmara Municipal de Albufeira acredita que estão reunidas as condições para a declaração do estado de calamidade pública, que permitirá injetar dinheiros públicos na recuperação das zonas afetadas pelas inundações.

"Já se percebeu que estamos perante uma calamidade, bem maior do que aquela que aconteceu em setembro de 2008. A nossa preocupação neste momento é sensibilizar a Câmara Municipal para a dimensão dos estragos, que não pense só nos estragos públicos mas também nos estragos dos comerciantes", considerou o presidente da Associação de Comerciantes, Luís Alexandre.

"Era bom que a Câmara sensibilizasse o Governo para a declaração de calamidade para que pudesse haver verbas públicas para resolver muitos dos graves problemas que estão aqui levantados", disse, em declarações à Antena 1.

Também aos microfones da rádio pública, José Rolo, vice-presidente da Câmara de Albufeira disse, esta manhã, que considera estarem reunidas as condições para a declaração de calamidade pública na região, após as inundações que destruíram inúmeras habitações e estabelecimentos comerciais.

As operações de limpeza já estão em curso, envolvendo funcionários municipais, mas essencialmente, as pessoas afetadas pelas inundações, que deixaram um rio de lama. "Há um número significativo de habitações que foi afetado e estamos a falar de uma recuperação que poderá levar alguns dias, senão semanas", disse o comandante dos Bombeiros de Albufeira, à Antena 1.

Bombas para esgotamento de águas, veículos para apoio da remoção de detritos são alguns dos meios dos bombeiros que que vão estar no terreno a ajudar a limpar a zona afetada pelas cheias.

http://www.jn.pt/paginainicial/pais...=Albufeira&Option=Interior&content_id=4865870
 
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