Corrente do Golfo: Efeitos do enfraquecimento em Portugal

Tópico em 'Climatologia' iniciado por AnDré 2 Mai 2008 às 15:51.

  1. belem

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    Cumulonimbus

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    O Mediterrâneo aquece mas tb arrefece.
    A Costa da Caparica tem fases do verão em que a água está acima dos 20ºc.
    O que poderá haver é uma continentalização do clima.
     
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  2. belem

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    Cumulonimbus

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    Muito bom post.
     
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  3. AnDré

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    Pois, eu referia-me exactamente àquilo a que denominou de "continentalização do clima", daí não ter incluído os arquipélagos na delimitação da latitude que referi anteriormente.

    Em relação ao Mediterrâneo, escolhi uma cidade mais ou menos à mesma latitude de Lisboa, (Cagliari no sul da Sardenha a 39,11ºN), e constatei que as médias de temperatura da água variam entre os 14ºC em Janeiro e Fevereiro e 26ºC em Agosto, sendo a média anual de 18,92ºC.
    Já em Lisboa, a temperatura da água varia entre 15ºC em Março e 21ºC em Setembro e Outubro, sendo a média anual de 17,83ºC.

    Posto isto, volto a lançar a questão que para mim é pertinente:
    - Se a corrente do Golfo parasse, o atlântico ao largo da costa de Portugal Continental arrefeceria mais no Inverno, mas o aquecimento que se verificaria no verão não poderia ser superior ao seu arrefecimento no Inverno, e assim sendo, a temperatura média anual poder subir ao invés de baixar?
    Note-se que me refiro a uma latitude mais próxima do trópico de câncer do que propriamente do circulo polar árctico.

    Mas já que referiu a latitude dos 30ºN, que modificações na temperatura oceânica iriam sofrer as ilhas selvagens, tão próximas de um trópico, cujo calor não seria distribuído, dada a ausência de corrente? :huh:


    Claro que são tudo suposições e teorias. Não acredito que a corrente possa parar, nem que o seu eventual enfraquecimento nos possa trazer grandes modificações ao nível do nosso clima. Mas agora fiquei com a pulga atrás da orelha!:hehe:
     
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  4. Vince

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    Excelente documento Dan. Já tenho procurado por coisas deste género sem sucesso.

    Mas fiquei um pouco surpreendido, esperava que em plena glaciação as temperaturas fossem menores do que esses 10ºC de diferença.
     
  5. Vince

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    Acho que sim, também atiraria para 15ºC ou 20ºC, mas pelos vistos o Dan mostrou aí um estudo que fala em menos 10ºC em Portugal. Mas aí na glaciação não estariamos a falar de um enfraquecimento da corrente por paragem do motor termohalino (devido ao degelo por exemplo), aí estamos a falar da última glaciação e em princípio as glaciações e as inter-glaciações como a que vivemos agora são explicados por ciclos astronómicos milenares, os movimentos de Precessão, Excentricidade, Intensidade Solar e Obliquidade da teoria dos ciclos de Milankovitch. Embora a teoria de Milankovitch não consiga explicar ciclos ainda mais longos, das Eras do Gelo, mas aí já estamos em escalas de milhões de anos e muita coisa sucedeu na Terra de que nós não fazemos a mínima ideia.
     
  6. Vince

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    Ontem à noite andei a pesquisar por bastante informação, e a maioria dos documentos referem o que já foi referido aqui por outros. O clima da Europa vs. norte americano deve-se principalmente à massas de ar marítimo. A corrente do Golfo é importante mas não é ela a que define o clima da Europa ocidental. Uma coisa que encontrei várias vezes referida e que não sabia foi que além das massas de ar também há o efeito das Rocky Mountains nos ventos que contribuem também para a grande diferença entre os EUA e a Europa.


    Encontrei também diversa literatura sobre o tema do tópico, por exemplo algumas simulações do fim da corrente em modelos e para Portugal indicam os 2 ou 3ºC a menos na temperatura e no limite cerca de uns 10ºC no Mar da Noruega.


    [​IMG]
    http://www.climate.unibe.ch/~stocker/papers/stocker02sci.pdf



    [​IMG]
    http://www.pik-potsdam.de/~stefan/thc_fact_sheet.html
     
  7. Vince

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    As teorias da quebra da corrente foram muito faladas há uns anos atrás, talvez 2004 e 2005. Na altura houve vários estudos (alguns sérios, outros nem tanto) que geraram muitos documentários (o Luper até pôs um deles no forum) até filmes-catástrofe de grande sucesso como o The Day After Tomorrow, muitas notícias alarmistas, sobretudo no Reino Unido, em que a imprensa falava que o país se iria transformar no Alasca ou na Sibéria se a corrente do Golfo morresse.

    As teorias não são descabidas de todo, primeiro porque os Oceanos devem ter mesmo um papel mais importante no clima do que o pouco que sabemos, mas sobretudo porque já ocorreu no passado um evento climático abrupto e a explicação mais plausível seria mesmo a quebra da corrente. A acrescentar à descoberta desse evento temos o facto de estarmos actualmente num periodo inter-glaciário já muito longo, ou seja, olhando para o passado estamos aparentemente atrasados para a entrada numa nova glaciação, e a quebra da corrente poderia ser o mecanismo de disparo, o trigger, de uma nova glaciação. Mas isto de estar atrasado ninguém sabe quanto, poderiam ser 100 anos, mil, ou 5 mil, sabe-se lá.

    Esse evento mais recente foi o Younger Dryas e passou-se há 12800 anos

    [​IMG]

    No entanto isto é apenas uma teoria como centenas de outras. Afinal este evento ocorreu no fim de uma glaciação em que os glaciares estavam no máximo e começaram a derreter e a recuar, enquanto nós à partida agora estariamos próximos do fim de uma inter-glaciação. Além disso a teoria diz que foi um evento catastrófico da ruptura do lago Agassiz nos EUA que provocou a ruptura da corrente. Também tudo indica que não foi um evento global mas regional. E noutros ciclos de glaciações e inter-glaciações não ocorreram eventos abruptos deste género, pelo que falar de algo deste tipo como tendo fortes probalidades de acontecer é já especular mesmo muito muito ... Mas também ninguém pode jurar que não possa acontecer algo assim ou outra coisa qualquer.
     
  8. Mário Barros

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    Se o mapa for realmente um mapa de previsão penso que estamos á beira de qualquer coisa de grande
     
  9. Vince

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    Esse mapa não é uma previsão, é uma simulação de quanto calor poderia hoje atribuir-se à TLC (circulação thermohalina). Ou seja, regressando ao início da conversa no tópico, dos 10ºC de diferença para Nova Iorque apenas uns 2 ou 3ºC (conforme as várias simulações que pûs em cima) poderiam teoricamente atribuir-se à corrente.
     
  10. Mário Barros

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    Pois faltava-me a palavra é isso simulação :D

    Mas se realmente a simulação está-se a começar a aproximar da realidade o que é um pouco assustador mas extraordinário ao mesmo tempo :w00t::w00t:

    O esquesito é a Europa aquecer em vez de arrefecer :confused::confused: ainda por cima o Norte da Europa se ainda fosse o sul o norte não deveria ser o primeiro local a "levar" com uma redução de 10ºC a 12ºC.
     
  11. Dan

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    Se bem entendi, a figura apresenta os desvios de temperatura em relação aos valores que essas regiões deviam ter em função da latitude em que se encontram, mas sem a Corrente thermohalina. Dessa forma, o norte da Europa surge com um acréscimo da ordem de 10ºC por causa da Corrente do Golfo. No nosso país esse acréscimo é bem menor.
     
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  12. AnDré

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    Tem graça, esta projecção poe completamente de lado aquela minha hipótese dos trópicos aquecerem:hehe: Pensava que aqueceriam, dado que o calor que ali chega não seria distribuído em direcção aos pólos.

    Mais estranho ainda é ver todas as implicações que esta corrente provoca ao nivel global. E já nem falo da antárctica, mas da Ásia. Como é que uma corrente oceânica do lado de cá, faz descer tanto a temperatura no continente do lado oposto?:huh:

    Esta corrente tem mesmo muito que se lhe diga :hehe:
     
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  13. Vince

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    Porque é um sistema circulatório global. Daí até ser muito errado nós, as pessoas em geral e os media falarem em Corrente do Golfo, o nome correcto é circulação termohalina ("thermohaline circulation" ou "ocean conveyor belt" ou "meridional overturning circulation", parece que este último é o nome mais correcto em inglês na literatura cientifica).



    [​IMG]
     
  14. belem

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    E para uma Ilha dos Açores há mesma latitude sensivelmente tem dados?
    Penso que ainda varia menos do que em Lisboa.Relativamente à corrente do Golfo é inegável a sua influência, mas também temos um oceano gigante à porta.
    As massar de ar marítimo a meu ver influenciam bastante o clima europeu, tornando-o menos contrastante que o do Leste asiático e Leste americano, dado que nesta região ( Europa, América do Norte, Leste asiático) imperam os ventos de oeste mas no caso dos 2 últimos continentes esses ventos sopram do interior do continente ( na costa leste, gerando um clima continental). O litoral de Portugal, sobretudo costa oeste, tem características térmicas e pluviométricas semelhantes às da costa californiana. Por outro lado ideia que tenho é que o interior de Portugal ( sobretudo Terra quente transmontana, centro e sul) tem um comportamento térmico e pluviométrico muito semelhante ao Mediterrâneo do Leste. E curiosamente os valores de temperatura e precipitação são semelhantes. É o que acontece quando há a continentalização do clima.
    Daí não sei que efeitos terá a diminuição desta corrente. Haverá descida ou subida, não sei. Outra coisa, parece-me confuso haverem Atlas que colocam uma corrente fria ( Canárias) a influenciar a costa ocidental de Portugal, outros colocam e falam da Corrente do Golfo. Mas sei que de certeza existe muito « upwelling» na nossa costa ocidental que transporta as águas fundas e frias, mas cheias de nutrientes, para as camadas superior marítimas e esfria a temperatura das águas e dá uma «segunda oportunidade à cadeia alimentar». Por esta razão, o mar em Portugal apresenta uma diversidade biológica marinha muito superior aos comparativamente mais estéreis Mar Mediterrâneo e Mar Negro.
    Os Açores parecem-me afectados pela Corrente do Golfo, certo?
    A Madeira, tb muitas vezes está com a dita descrição de uma corrente fria das Canárias, mas por outro lado as temperaturas da água são francamente quentes.
    A uma corrente fria geralmente associo muita secura e a uma corrente quente o contrário.
    Embora por vezes devido à latitude ( por exemplo, cintura desértica) tanto faz o tipo de corrente, que o clima poderá na mesma ser seco.
    Há aqui alguma confusão por parte dos orgãos de informação ( acima de tudo sobre as correntes e sua influência, que é um assunto que carece de mais estudo).
    Quanto ao clima logo se verá.:D
     
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  15. Vince

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    Esses esquemas gráficos que vemos aqui e nos atlas são simplificações com a indicação das circulações dominantes mas a circulação oceânica abrange o Altântico inteiro, é complexa e local e sazonalmente diversificada. A distinção mais importante é entre correntes superficiais como a corrente do golfo, que são impulsionadas pelos ventos e depois as correntes profundas impulsionadas por mecanismo termohalino.

    Regionalmente, fazendo parte deste sistema para além da corrente das Canárias tens a corrente dos Açores que é um ramo da corrente do Golfo, que se comporta de forma distinta ao longo do ano.

    E temos também a corrente de Portugal que só por si é bastante complexa e ainda não compreendida na totalidade.


    Em profundidade tens distintas realidade. Apesar de as correntes virem indicadas com fluxos bem definidos a água segue para zonas muito mais extensas do que vemos nestes esquemas simplificados que mostram apenas os fluxos dominantes. Ao largo de Portugal entre os 2500 e os 3000m está a água profunda do Northeast Atlantic Deep Water (NEDAW) que vem dos mares nórdicos e se desloca para sul. Aos 1800 metros há água do Labrador. Pelos 1000 metros há água muito salgada que sai do Mediterrâneo (Mediterranean Sea Outflowater MSOW). Entre os 600 e os 900 a East North Atlantic Central Water ENACW que pode ter origem subpolar ou subtropical. E acima disto tens então as correntes de superficie. Estes mapas são assim apenas ilustradores da circulação dominante.
     

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