Diferença de temperatura (In)explicável

Tópico em 'Meteorologia Geral' iniciado por dgstorm 14 Nov 2008 às 00:00.

  1. dgstorm

    dgstorm
    Expand Collapse
    Nimbostratus

    Registo:
    3 Fev 2008
    Mensagens:
    649
    Local:
    Vila Verde (79m) - Braga
    Boas meteoloucos ;)
    Ora bem, abri este tópico juntamente com o meu tio numa tentativa de percebermos a diferença de temperatura que ocorre da minha estação para a dele.
    Muitas são as noites em que estamos no msn ao 'despique' para ver quem vai ter a mínima mais baixa... normalmente ganho eu ! :D
    Eu estou a 70m de altitude mesmo no centro de uma vila, ele está a 170m de altitude num meio mais rural e mais 'montanhoso' e estamos a 4Km de distancia em linha recta mas eu tenho em norma, mais coisa menos coisa, 3ºC a menos em relação à estação dele... também possuo maior humidade.

    Um exemplo concreto... Neste momento a minha estação regista: 4.6ºC e 94% de humidade... a do meu tio: 7,4ºC e 72% de humidade.

    As nossas questões são as seguintes: É normal? A diferença de humidade contribui para a diferença de temperatura?
    Qual a vossa opinião?

    Um abraço de dois mais meteoloucos :)

    [​IMG][​IMG]
     
    Collapse Signature Expand Signature
  2. The_simpson

    The_simpson
    Expand Collapse
    Cumulus

    Registo:
    4 Fev 2008
    Mensagens:
    145
    Local:
    Pico de Regalados - Vila Verde (169m)
    ora aí está o nosso grande dilema... :surprise:

    venham essas opiniões sábias... :D
     
  3. Dan

    Dan
    Expand Collapse
    Staff

    Registo:
    26 Ago 2005
    Mensagens:
    8,574
    Local:
    Bragança (675m)
    Pode ser normal. Em condições anticiclónicas podem ocorrer inversões térmicas. Quando isso acontece, o ar mais frio acumula-se nos locais de menor altitude. O ar mais frio, por ser mais denso, vai escoando das áreas mais elevadas para as de menor altitude. Daí a inversão térmica.
     
    Collapse Signature Expand Signature
  4. AnDré

    AnDré
    Expand Collapse
    Staff

    Registo:
    22 Nov 2007
    Mensagens:
    10,278
    Local:
    Arroja, Odivelas (142m)
    Nestas alturas de tempo anti ciclónico, algo que também faz toda a diferença, é o facto de haver vento ou não. E basta às vezes haver uma brisa para estragar uma boa mínima.
    Normalmente se há vento, a humidade não soube tanto, e a temperatura fica estagnada.
    Com a ausência de vento e com o céu limpo, normalmente a temperatura desce livremente, ao ponto de haver geada.
    Hão-de reparar que não geia com vento!

    A altura em alguns metros, também faz toda a diferença. É nos lugares abrigados que há mais tendência a acumula-se frio e a gear.

    Por exemplo, na terra dos meus pais, é frequente aos 1150m de altitude estar uma brisa gelada e a água nos buracos dos penedos não congelar. E 200m mais a baixo, no vale em que fica a aldeia, até a água das torneiras congela.:p
     
    Collapse Signature Expand Signature
  5. Vince

    Vince
    Expand Collapse
    Furacão

    Registo:
    23 Jan 2007
    Mensagens:
    10,624
    Local:
    Braga
    É normal. Se há coisa que aprendi com o fórum é as diferenças de temperatura mesmo a distâncias relativamente próximas e como cada local tem a sua própria dinâmica e se comporta de diferentes mas previsíveis formas conforma a situação sinóptica. Então quando há fenómenos de inversão as diferenças podem ser significativas.

    Hoje até nem é o caso, mas por exemplo o fsl aqui em Oeiras muitas vezes tem mais uns 2ºC que o Mário, que por sua vez por vezes pode ter por exemplo mais 1 ou 2ºC que o Gil, e por aí fora. Não são 4km, mas são 7, 8 ou 9 entre uns e outros. O Daniel em Moscavide certos dias tem temperaturas mais baixas que estações também de Lisboa bastante próximas dele, o Fil em Bragança muitas vezes está mais quente que outros em Bragança, por exemplo agora está com 4 °C e o Bgc está a reportar 1,5ºC a uma altitude certamente menor.

    [​IMG] [​IMG]

     
  6. rozzo

    rozzo
    Expand Collapse
    Staff

    Registo:
    11 Dez 2006
    Mensagens:
    1,904
    Local:
    Lisboa
    Em relação à tua pergunta dgstorm, penso que é o que foi falado aqui, essencialmente será da diferença de altitude e vulnerabilidade à inversão!
    Claro que há que ter a ressalva de ver em que condições e com que material cada um de vocês mede as temperaturas, alguma diferença vem daí, mas essa diferença até poderia estar no sentido oposto, portanto nem estou a ir por aí! :)
    Quase certamente por estares no sítio mais baixo, não só o local está mais exposto às inversões, como também como se sabe o ar frio mais denso "cai" para os vales, etc etc.. Portanto para teres a certeza bastará comparar as diferenças em noites calmas e noites ventosas chuvosas. Se confirmar que nas primeiras tens graus a menos, e nas segundas estão parecidas ou ele até tem menos.. Então certamente será por isto! ;) Se tal não acontecer, então já seria razoável ver as diferenças nas condições de medição!

    Quanto ao assunto, acho que todos aqui ganhámos já a experiência de perceber uma realidade que antes não tínhamos noção, ou tínhamos, mas sem pensar que pudesse ser tão drástico! Ou seja, as enormes diferenças de temperaturas mínimas em noites calmas em locais tão próximos. E que essencialmente se atribuem à distribuição do terreno e elevações, e há ausência ou não de vento. Isso já sabemos todo e é o essencial penso eu!

    Não há dúvida que numa noite calma sem vento, há condição propícia à formação da camada de inversão, e a maior arrefecimento do solo, e dos locais baixos, enquanto nos locais altos tal não vai acontecer. Também não há dúvida que vales e certos locais "encaixados" arrefecem muito mais que outros nas encostas, isto mesmo até ao pé do mar como já vimos e discutimos aqui em muitos casos.

    Como disse o Vince, já aprendemos muitos desses locais, e já é relativamente previsível esperar em certas situações onde vai ou não arrefecer mais, mesmo em sítios que sem esta experiência empírica que vamos apanhando aqui, à partida pensaríamos não ser possível!

    De qualquer mesmo esta comportamento típico acaba muitas vezes por mudar com pequenas alterações da situação sinóptica, e os sítios habitualmente mais frios que estamos à espera, não o serem em certas noites e aparecer tudo ao contrário. Esta noite na região de Lisboa até foi um pouco assim. Se Lisboa que normalmente pouco arrefece cumpriu a tradição, já locais como a estação do fsl em Oeiras perto do mar arrefeceu mais até aos 7º, já o Cabo Raso "enfiado" no mar desceu aos 6º. e estações como a do Mário em Queluz ou a outra de Oeiras perto do Tagus Park não foram basicamente quase abaixo dos 10º. Neste caso penso que por a inversão ocorreu, mas foi pouco profunda, e apenas locais mais baixos conseguiram escapar à "agitação" do ar e realmente arrefecer, enquanto pontos mais altos nem por isso..

    Onde quero chegar é que se para mim o facto o ar frio "cair" para os vales e estes arrefecerem mais ser simples, o factor vento, que aqui discutimos não o é assim tão simples.
    É verdade que sem vento, não vai haver mistura das camadas de ar, e vai-se formar a inversão, e com vento isto não acontece, logo no primeiro caso há condições para arrefecimento. Isto sem dúvida. basta ver Lisboa que quase NUNCA tem noites de calma, e pouco arrefece, e ver a estação do Hotspot na Moita, com muitas calmarias e grandes arrefecimentos. É um facto.

    Mas onde quero chegar é que frequentemente ao início da noite o vento está calmo e a temperatura a descer a pique, e está uma noite prometedora, mas a certa hora o vento levanta, e lá sobe a temperatura, e dizemos "pronto tinha de vir o vento estragar isto". Mas na verdade, a meu ver, e para entendermos isto tínhamos de ir a modelos de grande resolução espacial e da orografia, para perceber a física e dinâmica, pois o vento que aparece e "estraga" as mínimas, não é por acaso.. É mais uma consequência do tal arrefecimento anterior, é um equilíbrio natural forçado pelas diferenças de temperatura grandes em áreas pequenas. Sabemos que o vento é forçado pelas diferenças de pressão e de temperatura. E tal como no Verão os gradientes térmicos induzem as brisas, ela ocorre mesmo por causa do aquecimento, aqui no Inverno o mesmo acontece. É isso que explica oscilações como as dos gráficos da temperatura esta noite, ou subidas bruscas de quase 10º na estação da Praia da Rainha..

    Portanto é verdade que a ausência de vento favorece a inversão, mas há aqui a questão do "ovo ou a galinha", pois muita vez é o arrefecimento súbito que mais tarde vai gerar o tão "odiado" vento que estraga a mínima, vento que não ocorreria se não tivesse havido o tal arrefecimento localizado e o "desequilíbrio" térmico em tão curta área espacial, mas também o oposto, e isto já ouvi vagamente falado por quem percebe muito do assunto (mas sem ter entrado na parte física e matemática da coisa :P), que é o facto do vento parar nas camadas baixas devido ao arrefecimento.. Daí falar no "ovo ou galinha".. :rolleyes:

    Bom se calhar alonguei-me e não me explique muito bem :confused:
    Peço desculpa se foi o caso..
    Mas resumindo queria só dizer que o que foi falado aqui é verdade, mas que nos esquecemos que o tal vento que estraga as noites frias não vem por acaso, é porque tinha mesmo de ocorrer, para equilibrar a atmosfera.. E que a física da camada limite (inversões,etc) é tão complexa, que embora empiricamente a gente vá conhecendo comportamento de certos locais, há sempre 1001 situações que vão desafiar o que esperávamos em relação a este assunto..
    ;)
     
  7. Paulo H

    Paulo H
    Expand Collapse
    Cumulonimbus

    Registo:
    2 Jan 2008
    Mensagens:
    2,863
    Local:
    Castelo Branco 386m(489/366m)
    Bom dia, meteoloucos!

    "As nossas questões são as seguintes: É normal? A diferença de humidade contribui para a diferença de temperatura?
    Qual a vossa opinião?"

    Relativamente a esta questão, para 2 locais tão próximos, não é o facto da humidade relativa ser alta, que justifica a temperatura ser baixa! É exactamente o contrário, isto é, a humidade relativa sobe à medida que a temperatura baixa, até atingir 100% ocorrendo então nevoeiro.

    A humidade é a mesma, ainda mais nestes dias calmos, sem ventos, sem entradas de massas de ar, mas a temperatura varia, e como a humidade relativa é função desta, sobe! Mas a quantidade de água no ar é a mesma!

    Mas para sermos mesmo cientificamente correctos, seria necessário que as estações meteorologicas fossem iguais, com os mesmos instrumentos e as mesmas condições no seu raio de influencia (se existem sombras, relva, rochas, linhas de água por perto, se a vila está do lado de onde ocorre o vento)...


    Agora acerca da inversão térmica..

    A inversão térmica ocorre de facto quando se reunem certas e determinadas condições iniciais (é importante o termo "condições iniciais"):

    1. Acentuado arrefecimento noturno (noites longas, sem vento e humidade relativa baixa o suficiente para não ocorrer nevoeiro ou neblina que impeça o continuo arrefecimento)

    -> O acentuado arrefecimento noturno ocorre as noites são longas, emitindo-se continuamente radiação, ocorre quando não há vento eliminando-se fenómenos de transporte de calor, ocorre inicialmente sem neblina nem nevoeiro para que a taxa de reflexão seja elevada mesmo que por fim ocorra (se a %HR continuar a subir, inevitavel).

    2. Altas pressões

    -> Penso que não esteja directamente relacionada com o favorecimento da concentração da camada de ar fria junto ao solo, não tenho a certeza, mas acredito mais, no facto de associadas às altas pressões estarem condições meteorologicas de vento calmo ou mesmo ausente, devido ao facto das isobaras no interior de vastos anticiclones se encontrarem muito afastadas (gradiente horizontal de pressão muito baixo).

    3. Relevo inclinado

    -> Aqui, dou importância à inclinação, para que a camada de ar frio junto ao solo nas redondezas seja escorrido "despejado" para locais mais baixos, acumulando-se mesmo em vales, bacias.

    4. Piso com algum albedo, (boa taxa de reflexão)

    -> Um piso/solo com albedo elevado (boa taxa de reflexão) também é importante para gerar a tal camada de ar fria, a escorrer depois para locais mais baixos. Quero com isto dizer, que não só é importante haver boa reflexão de calor nos locais mais baixos, como ainda é mais importante, essencial, que nos locais mais altos haja boa reflexão, pois é daí que provem o ar frio.

    Para finalizar, se estivermos conduzindo pela cidade à noite e estivermos atentos ao termometro, verificamos que mesmo em cidades planas com relevos montanhosos a alguma distância, ocorrem divergencias de temperatura bastante significativas, sem que a razão para tal seja a inversão térmica, vejamos:

    Uma cidade é como um motor que produz calor (veiculos, habitações, industria, população), revestido ainda de uma superfície com baixa taxa de reflexão (piso, telhados, edificios). Mas mesmo numa cidade, passam linhas de água, mesmo que não as vejamos, e o vento esse, venha de onde vier ocorre sempre de fora para dentro da cidade, a diferença é que dependendo do local onde estivermos, teremos uma temperatura algo influenciada por um vento que já transcorreu grande parte da cidade e se aclimatizou, ora estamos passando por uma linha de água onde provavelmente nem aqueceu tanto durante o dia. Daí termos por vezes, variações de temperatura no interior de uma cidade e arredores a apenas 2 ou 3 kms, na ordem de 1 a 4ºC!

    Quando é que estas diferenças se esbatem? É quando chove, nesse caso, as diferenças regionais na temperatura devem-se mais à altitude. Atenção, não falo de aguaceiros, falo de chuva continua. Porquê? Porque os aguaceiros ocorrem mais localmente, e em situações de frente fria, daí que ao ocorrerem a temperatura desça até certo ponto (transporte de calor em altura), e depois volta a subir assim que os aguaceiros cessem. Mas de facto, em situações de chuvisco continuo, é onde os gradientes térmicos verticais se encontram mais estabilizados.
     
    Collapse Signature Expand Signature
  8. fsl

    fsl
    Expand Collapse
    Nimbostratus

    Registo:
    6 Ago 2007
    Mensagens:
    662
    Local:
    Oeiras
    Considero este assunto que tem vindo a ser discutido, de muito interesse e que merece acompanhamento mesmo só empírico.Daí a grande vantagem na existência do RANKING dos valores extremos.
    fsl
     
    Collapse Signature Expand Signature
  9. vitamos

    vitamos
    Expand Collapse
    Staff

    Registo:
    11 Dez 2007
    Mensagens:
    4,588
    Local:
    Lisboa; Costa da Caparica
    Sem dúvida que este assunto é extremamente interessante.

    Já agora deixo uma dúvida ao Paulo H. Ele falou na entrada do vento do exterior para o interior das cidades. Penso que as correntes de convecção não forçada resultantes da reposição do equilíbrio Quente/Frio fazem-se dos locais mais quentes para os mais frios... Se assim for então não seria mais lógico o movimento ocorrer ao contrário?
     
  10. AnDré

    AnDré
    Expand Collapse
    Staff

    Registo:
    22 Nov 2007
    Mensagens:
    10,278
    Local:
    Arroja, Odivelas (142m)

    A zona onde está instalada a estação da Praia da Rainha, é provavelmente o lugar mais ilustrativo para salientar estas diferenças.

    Apesar de não saber exactamente onde se situa, provavelmente está num lugar plano, perto do mar, e ao mesmo tempo rodeada de vegetação, uma vez que toda aquela zona está densamente revestida de pinhal.

    Variação da temperatura esta noite nessa estação vs velocidade do vento:

    [​IMG]

    [​IMG]
     
    Collapse Signature Expand Signature
  11. Daniel Vilão

    Daniel Vilão
    Expand Collapse
    Super Célula

    Registo:
    22 Mar 2007
    Mensagens:
    6,967
    Local:
    Ribafria-Alenquer / Moscavide / Degracia
    Hoje verificou-se mais um desses episódios; acordei às 4h da manhã e estava com 7,2 ºC enquanto a Portela estava nos 10,1 ºC - segundo o wunderground - e ainda não tinha descido praticamente nada.
    Apenas 4 km a Leste do aeroporto, está Moscavide com uma altitude de 22 m contra os 104 m do aeroporto.
    Enquanto o aeroporto mantinha um ritmo de arrefecimento muito lento, a temperatura por aqui descia a pique até tocar nos 6,3 ºC pouco depois das 6h.
    Aqui o vento raramente se manifesta, dada a altitude deste local e isso torna-o mais vulnerável a este tipo de inversões.
    Todavia, é habitual este tipo de coisas acontecerem por cá, mas em escalas pequenas, de 1 a 2 ºC e não como ocorrem na Praia da Rainha, cuja estação me suscita algumas dúvidas. :rolleyes:
     
    Collapse Signature Expand Signature
  12. rozzo

    rozzo
    Expand Collapse
    Staff

    Registo:
    11 Dez 2006
    Mensagens:
    1,904
    Local:
    Lisboa
    Os gráficos que o André pôs ilustram perfeitamente a lógica da estação da Praia da Rainha, todos os picos de temperatura são quando há mistura do ar, com vento. Todo o interior da margem Sul é relativamente plano comparado com a margem Norte, e penso que se aí se estabelece facilmente uma camada de inversão e estabilidade, que por algum motivo de orografia e localização da estação permite que esta "bolha" de ar frio se estenda até junto ao mar ali. Mas ali ao lado está o mar, MUITO MAIS QUENTE, e mais tarde ou mais cedo na zona de fronteira onde está a estação, a estabilidade e camada de inversão vão quase sempre ter de "quebrar", pelo mesmo motivo que se forma a brisa de mar no Verão, mas aqui no sentido oposto obviamente. E aí sim vai-se dar a mistura das camadas de ar, e a temperatura sobe a pique ali pois está no limiar de 2 massas de ar completamente diferentes em temperatura. Já a estação do Hotspot está situada bem no meio dessa zona de inversão bem larga, de tal forma que está longe dos limites, e se consegue manter perfeitamente toda a noite e arrefecer até ao amanhecer. Já na margem Norte, talvez também por haver mais "acidentes" de terreno, digo "altos e baixos", há naturalmente desde o início da noite mais variações espaciais, que induzem rapidamente circulações, nunca permitindo a tal estabilização da atmosfera numa área tão vasta, impedindo assim a formação duma camada de inversão tão marcada e "resistente". É o que penso que aconteça..
    Teoricamente, à mesoscala, quem manda é o gradiente de pressão, pois se for mais apertado, faz mais vento, e logicamente impede estas inversões. À microescala, penso que em situações sinópticas de vento fraco, quando se formam estas "bolhas" de inversão e estabilidade, há como que um processo de feedback positivo: frio-> estável sem vento-> mais frio-> por aí fora.. Que depois se quebram ou não consoante a sua dimensão e consoante pormenores orográficos, topográficos, etc etc. Mas naturalmente na prática, nunca poderemos separar totalmente as escalas. É uma misturada muito grande de factores..
     
  13. Vince

    Vince
    Expand Collapse
    Furacão

    Registo:
    23 Jan 2007
    Mensagens:
    10,624
    Local:
    Braga
    Eu vou pôr esta imagem aqui para comparar a outras nas próximas noites e confrontar com o respectivo comportamento das estações.

    [​IMG]
     
  14. Paulo H

    Paulo H
    Expand Collapse
    Cumulonimbus

    Registo:
    2 Jan 2008
    Mensagens:
    2,863
    Local:
    Castelo Branco 386m(489/366m)
    Vitamos, a tua questão é bastante pertinente, e correcta dependendo um pouco da escala em que falamos.

    Vejamos, é correcto dizer que numa cidade como noutra área qualquer, o vento vem sempre de fora para dentro qualquer que seja a direcção (E,W,N,S), pois o vento terá de atravessar essa área (lógica da batata). Mas eu disse isto, para quando há vento em larga escala e não para situações locais de calmia com ocorrência de brisas.

    É óbvio e correcto que o ar se desloca do local mais frio para o mais quente, pois o local quente torna o ar menos denso, subindo-o e fazendo baixar a pressão (térmica). Nesse caso, o movimento do vento aparentemente é linear mas na realidade se observado numa escala maior, o movimento é ciclónico tendendo a preencher o local "vazio" (com menor pressão) numa questão de balanço energético (dum lado o aquecimento, noutro a deslocação de uma massa de ar para estabilizar).

    Num incêndio, ocorre o mesmo, geram-se ventos locais em torno da linha de fogo (menor pressão, eleva gases quentes), entrando ar "novo" na base da chama em seu torno.

    Numa cidade, as diferenças térmicas (interior/exterior), também devem gerar brisas por mais fracas que sejam! Mas aqui ao contrário dum incêndio falamos de diferenças de temperatura da ordem dos 1ºC a 4ºC numa cidade, enquanto que num incêndio são da ordem dos 1000ºC ou mais! Podemos imaginar que numa cidade com elevado efeito ilha urbana, pode haver brisas em situações de acalmia, de 1m/s (nessa ordem), mas ao afastar-nos da cidade para arredores, essa energia (deslocação de ar) numa área maior ver-se-à reduzida para 0m/s numa questão de 5km à volta. Por isso se diz que uma barragem pode provocar brisas, neblinas e nevoeiros até um máximo de 5km de raio. E neste caso (albufeiras), e posso falar dele, uma vez tenho registos diários de temperatura da água de 2 albufeiras durante 4 anos (necessários como parâmetros a usar em tratamento de água nas ETAS), constatei que a temperatura da água (na tomada, até 6m de profundidade) é aproximadamente igual à temperatura média da semana, e como tal, as albufeiras contribuem para um efeito de ilha de "calor" (calor noturno, frio diurno) da ordem de 0.5 x amplitude térmica diária, sendo portanto, maior o efeito que numa cidade, ex:

    Temperatura da água bruta = 17.5ºC (+/-1ºC)
    Temperatura média do ar (semana) = 17.5ºC
    Temperatura média das máximas do ar (semana) = 25ºC
    Temperatura média das mínimas do ar (semana) = 10ºC

    Neste caso, uma albufeira contribui para um diferencial de temperatura de -7.5ºC de dia e de +7.5ºC de noite, com efeitos a 5km à sua volta.

    Uma cidade com 2km de raio, tem 12.5km2, mas se nos afastarmos outros 2kms, então o raio passa a 4km e a área passará a ser de 50km2, isto é, para o dobro do raio, o efeito do vento (brisa local) será 4 vezes inferior (em vez de 1m/s, passaria a 0.25m/s)!

    Para haver fenómenos de inversão térmica, não pode ocorrer vento significativo, pois quebra a camada de ar frio junto ao solo, misturando-a com as camadas superiores e deixando de haver, portanto, camada de ar fria para se deslocar aos locais mais baixos e encaixados.

    Para mim, uma diferença de 1 ou 2ºC sem vento, originará uma brisa despresível. Para que ocorram brisas, quer de montanha, quer marítimas, falamos de diferenciais de temperaturas locais não inferiores a 3ºC ou 4ºC, daí que um monte com 200 ou 300m de elevação não deverá induzir brisas sobre o vale, mas uma montanha com desnível de 900m (900+550m na base =1450m altitude) sobre a Covilhã já irá induzir brisa significativa.
     
    Collapse Signature Expand Signature
  15. Vince

    Vince
    Expand Collapse
    Furacão

    Registo:
    23 Jan 2007
    Mensagens:
    10,624
    Local:
    Braga
    Qualquer dia tem que se fazer lá uma directa de termómetro na mão :D
    A questão aqui é que também não compreendo que tipo de falha pudesse gerar tal comportamento.
     

Partilhar esta Página