Caro AJB,
Há mais tipos de florestas para além dos que referiu... é o caso das "florestas de recreio", como o Parque Florestal de Monsanto (cheia de eucaliptos, mas nem por isso deixando de ser usufruída maciçamente pelos cidadãos...), ou as de enquadramento de infraestruturas especiais, como as matas dos campos de treino e de tiro das Forças Armadas...
Mas não é isto que me traz aqui, é o magnífico texto do
Eng. Jorge Capelo, do Instituto Nacional de Investigação Agrária, que abaixo partilho e que é uma verdadeira lição de inteligência, sólido conhecimento do mundo real (e do Homem) e - sobretudo - bom senso, vinda daquele que é um dos mais conceituados e experientes botânicos da Península Ibérica.
Num período em que, vendo os meios de comunicação social e a blogosfera, sinto que estou a assistir a um concurso de quem diz os maiores disparates (seja por razões inconfessáveis, seja por grosseira ignorância), posições como esta são uma verdadeira "frente de ar fresco" numa discussão cheia de ideias-feitas e preconceitos.
A quem interessar: notas de um ecólogo da vegetação a remoer sobre incêndios.
Jorge Capelo·
Monday, July 3, 2017
Relativamente à vegetação que cresce debaixo das árvores e arde, ele há várias coisas. A primeira é o sub-bosque. Este termo refere-se aos estratos verticais de uma floresta natural (espontânea), que não o das árvores mais altas ou dominantes. É constituído por ervas, arbustos, pequenas árvores e trepadeiras de folhas largas, luzidias e por vezes herbáceas adaptadas ao ambiente sombrio sob o copado. É a chamada flora ‘nemoral’ (i.e. de bosques). Tem uma estrutura vertical e horizontal tipicamente descontínua. Estes estratos são uma parte integrante da comunidade florestal, isto é, são a flora própria do bosque, como as próprias árvores. Diria que arde mal ou muito mal. O busílis é que florestas naturais com esta estrutura e composição são muitíssimo raras e pequenas em Portugal. Há umas florestas secundárias antigas que recuperam ou mantêm alguma desta flora.
Nas matas artificiais, plantadas ou em massas de árvores semi-artificiais, como os montados, soutos, ou florestas secundárias de árvores espontâneas, a vegetação sob as árvores não faz parte da comunidade florestal correspondente. É outra flora. É, numa primeira hipótese, um mato heliófilo (urzal, esteval) resultante de sucessão ecológica e que está no lugar de uma antiga floresta espontânea, entretanto destruída. Pode-lhe ter sido plantado em cima ou regenerado o que quiserem: pinheiros, eucaliptos, rebentos de carvalho, sobreiros, acácias. Pode também, como segunda possibilidade, existir um mato heliófilo que se foi reconstituindo sob coberto das árvores. Muitas vezes é um bocadinho mais pobre em espécies que um mato ao sol, sem árvores. Na prática, para efeitos da estrutura resultante, a origem é indiferente. Por isso, não se designa por ‘sub-bosque’, tratando-se ao invés de ‘vegetação sob coberto’ ou só ‘sob coberto’. Sobretudo no caso da recuperação secundária de carvalhais, mas em geral em qualquer caso, alguma coisa da flora nemoral até pode regressar, se a mata for suficientemente cerrada. Mas, em geral, domina esta vegetação ecologicamente estranha aos bosques naturais, com grande biomassa, continuidade e inflamabilidade. As ericáceas e as leguminosas arbustivas são boas de arder. A maioria dos carvalhais, salvo exceções encontra-se também neste caso. Em geral, a quantidade de mato sob coberto é controlada maioritariamente pela densidade de árvores, isto é, consoante a quantidade de luz solar que atinge o sob coberto. Secundariamente é também controlada por fatores climáticos, como a intensidade de frio e a água disponível ao longo do ano e ainda a trofia do solo; mas o essencial é a densidade de árvores. As árvores, como são grandes e altas, tendem a monopolizar a luz, a água, os nutrientes e o espaço disponível: quanto mais densas, menos sobra para a vegetação sob coberto. A pujança do sob coberto também varia com a gestão, claro está: roças de mato, a sua extensão e frequência, técnica da roça. Isto vale para carvalhais, pinhais, acaciais, sobreirais, eucaliptais e tudo em geral.
Por isso, sendo que a situação acima descrita é largamente dominante (matas artificiais ou carvalhais secundários constituídos por varas e árvores juvenis mais ou menos densas; e as matas análogas a florestas naturais são raras relíquias), a maioria da floresta portuguesa tem matos heliófilos, de biomassa variável, independente da espécie de árvore dominante e dependente da densidade de árvores acima.
Considerando apenas os incêndios em que arde principalmente o mato sob coberto, i.e. excluindo aqueles muito violentamente turbulentos, em que o próprio copado transmite diretamente as chamas (fogo de copa), eu diria que para a maioria do país, é bastante indiferente qual a espécie de árvore dominante no povoamento em termos de probabilidade de ignição e propagação do fogo, porque quase todos tem matos heliófilos por baixo.
Post scriptum: As situações de faixas de folhosas que protegem as aldeias no meio de um inferno queimado, parecem-me uma ‘nuance’, nem sequer vou por serem, talvez, evidência anedótica, escolhidas a dedo entre todos os outros casos em que também as folhosas arderam, não sei. A ‘nuance’ é esta: são pequenas faixas no fundo de vales correspondentes a biótopos temporhigrófilos. Traduzo: zonas de base de encostas sujeitas ao efeito temporário de toalhas freáticas de ribeiras próximas, com solos húmidos no inverno e primavera. Aí a flora nemoral é bastante e dominante (os matos heliófilos, pelo contrário são de ambientes secos) e os teores de água dos tecidos é elevado uma parte do ano. Especulo que a descontinuidade da flora nemoral, aliada à ausência de polifenois (resinas, como as dos pinheiro e eucaliptos) diminua a probabilidade de transmissão do incêndio. Parece-me que tem algum sentido, isto. Mas ainda me lembro que os silvados, em sítios destes também podem transmitir fogo com alguma facilidade. Sorte que não os havia.
Postscritum 2: as acções de silvicultura de restauro de florestas ou paisagens com maior proporção de folhosas espontâneas até atingirem as fases de povoamentos adultos iriam estar cheias de matos heliófilos, que só começam a morrer com sombra intensa.
Post scriptum 3.: Não creio ser realista a reconversão-relâmpago da floresta portuguesa em carvalhais por eucaliptais. Sabeis vós, que eu estudo vegetação natural e é do que mais gosto; mas é tal como termos sido todos felizes quando éramos crianças e não podermos regressar à infância. Vivemos a vida que temos, com o que temos. Na floresta portuguesa, eu gostaria que a proporção de manchas de folhosas, fosse no futuro, gradualmente, a maior possível. Também gostava que o meu país não tivesse sido vítima da circunstância histórica de se ter enchido de matas de pinheiros e eucaliptos ao abandono, sem gestão e sem planeamento. Mas isso é a História. Responsabilidade é construir uma nova floresta mais próxima das pessoas, da Natureza e da Realidade; pelo que julgo que temos que gerir o que temos sobre aquilo que se é cada vez mais e mais uma ruína de floresta, (exótica, pobre, queimada e invadida) ir fazendo uma melhor sobre a batata quente que nos é legada.