Caro Orion, peço desculpa pelo atraso no feed-back à sua mensagem, que segue agora.
Sermos ou não fãs da árvore (e eu também não o sou!) não altera as os factos do mundo real. São duas coisas distintas.
Lamento, mas (na minha perspetiva) não tens razão. Provavelmente és vítima - como todos nós, um pouco, de persistentes campanhas de desinformação sobre a realidade do mundo rural e do interior do país, que (sobre)vive com base nas suas matas, sejam elas de árvores autóctones, sejam de árvores introduzidas.
Por razões ideológicas, o eucalipto é hoje o alvo preferido dessas campanhas, como o foi no passado o pinheiro e, antes ainda disso, os matos (aliás na altura apelidados pejorativamente de incultos!)
Quanto ao mel, como é óbvio, o apicultor escolhe a base da flora para as suas abelhas. É a essência do seu negócio. E o mel de eucalipto é dos mais valorizados do ponto de vista da sua qualidade organoléptica, para além de uma característica essencial à viabilidade da apicultura (e à demais fauna polinizadora selvagem): é que o eucalipto floresce sobretudo no outono e inverno, quando há uma enorme falta de flores nas espécies autóctones, assim ajudando a sobrevivência das colmeias e a estabilidade da atividade apícola!
Dúvidas sobre isto? Veja o caso dos produtores de mel da serra do Caramulo, onde se produz em quantidade (aliás insuficiente para a procura) e qualidade dois méis monoflorais: de eucalipto e de urze (arbusto que também existe em abundância nas penedias e nos eucaliptais da serra),
http://apicultoresdocaramulo.blogspot.pt/p/produtos-das-abelhas.html. Estes relatórios universitários são muito bons e merecem ser lidos por quem não está por dentro do assunto:
https://ria.ua.pt/bitstream/10773/3033/1/2008001856.pdf e
http://repositorio.ipv.pt/bitstream/10400.19/3315/1/CARVALHO%2C%20Ana%20Patr%C3%ADcia%20Almeida_Caracteriza%C3%A7%C3%A3o%20f%C3%ADsico-qu%C3%ADmica%20e%20pol%C3%ADnica%20de%20m%C3%A9is%20da%20Beira%20Alta.pdf .
Outro mito que abordas é o da qualidade da madeira do eucalipto. “Quanto muito só deve servir para obras baratas” ???!!!! Onde é que foste buscar esta???
Esse é apenas um arreigado preconceito português, porque aqui ao lado, na Galiza, a mesmíssima espécie é utilizada para os fins mais nobres: construção, marcenaria, etc. E até exportamos para lá muita da nossa madeira de eucalipto, portuguesa, que passa a ser “espanhola”. Felizmente hoje muitos industriais de cá já abriram os olhos e utilizam a madeira do eucalipto vulgar para os fins mais exigentes e bem pagos – é só consultar os seus catálogos, está tudo na net... Um exemplo
http://www.a-martins.pt/imgs/produtos/13/050826_1_9164_catalogo-folheados-finsa.pdf (apesar desta empresa ser uma multinacional espanhola, tem fábricas em PT... interessante a pág. 22)
E já agora vê este vídeo galego
http://www.villapol.com/lam_promocional.php, só como outro exemplo.
Ainda com dúvidas? Pergunta aos madeireiros quais os preços com que vendem para as fábricas o eucalipto para celulose (ou do pinheiro para o mesmo fim ou para aglomerados) e qual o preço do eucalipto para serrar ou desenrolar (este é deixado crescer mais tempo, até 30 anos, e tem troncos maior dimensão). Vais ter uma surpresa: o eucalipto para serrar está ao mesmo nível (médio) do carvalho ou do castanho para o mesmo fim... (não perguntes é a quanto é que o pagam aos proprietários!).
“Novamente, se a árvore não existisse não haveriam grandes consequências nesse domínio”, dizes tu.
Ai é, de giesta, de silvas, de carrascos ou de urzes fazem-se peças de madeira para móveis e casas??? Essa eu desconhecia...
Sinceramente não percebo... Ou então estás-te a esquecer que já demos cabo dos nossos carvalhais e soutos há muitos séculos e que o eucalipto e o pinheiro (pinho de Leiria), plantados nos terrenos agrícolas ou nos tais "incultos" são, hoje em dia, as únicas árvores com que conseguimos produzir madeira nacional de qualidade e boas dimensões para serrar/folhear.
Poderíamos ter outras espécies de árvores? Claro que poderíamos,
e deveríamos, mas mesmo que as plantemos hoje estão boas para cortar daqui a 80 ou 100 anos, se não arderem antes (e podem arder, tal como arderam os carvalhais que os nossos antepassados queimaram para agricultura e pastorícia e usar a madeira).
Mais uma vez, com a vã esperança que alguém o leie e comente, recoloco aqui o posto do Eng. Jorge Capelo, cuja visão simultaneamente ecológica e social subscrevo integralmente:
https://www.meteopt.com/forum/topico/floresta-portuguesa-e-os-incendios.4792/page-11#post-613566
Sabes, sinceramente, o que mais confusão me faz, e o que me leva a escrever estes posts, é o profundo desconhecimento que muita gente demonstra do que são as realidades das terras do interior, de quem (ainda) as habita, do que vivem as pessoas, e quais as expectativas e necessidades que têm para a sobrevivência do dia-a-dia. E o despudorado aproveitamento dos incêndios para forçar uma agenda ideológica, cheia de fake news e “árvores bombeiras”, ao arrepio dos mais elementares conhecimentos técnicos e das evidências das últimas décadas, em que praticamente ardeu tudo em Portugal.
Malta que nem sequer faz a mínima ideia da diferença entre as matas de um parque nacional (que são públicas, do Estado, que as conserva com as receitas dos impostos) e as de um proprietário privado, e que pretende impor o seu modelo, profundamente insustentável nas condições atuais do país (sociais e económicas), como se a floresta fosse só paisagem para deleite dos urbanitas!
Os mesmos que, ao mesmo tempo que criticam a “árvore satânica”, beneficiam de todos os seus produtos!
Caramba, o que é que andarão a ensinar nas escolas?