Floresta portuguesa e os incêndios

"Uns correram , outros morreram...
Os fogos de 15 de Outubro de 2017 levaram quase tudo...
Ficaram as memórias!!"

Um trabalho fantástico do Rodrigo e do Tiago para quem quiser seguir! Muito triste ,mas muito realista e de uma ótima realização, parabéns e obrigado a eles por também serem independentes;)

http://15memoriasdofogo.pt/#oprojeto
 
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Sobre memórias no relatório numa página referem a situação 300 de pessoas num comboio intercidades que ficaram retidas na estação de Santa Comba Dão e acabaram por ser evacuadas em condiçoes dramáticas por um motorista solitário de autocarro que fez múltiplas viagens entre o fumo e fogo,
Nunca soube deste herói anónimo até ter lido este documento, como é possível?


Marta MagalhãesparaCP - Comboios de Portugal
16 de Outubro de 2017 ·
Podíamos ter sido nós, nós passageiros que apanhámos o comboio inter-cidades procedente da Guarda com destino a Lisboa Santa Apolónia ontem, dia 15 de outubro de 2017 às 18h09. Tudo corria bem, até começarmos a chegar à estação de Mangualde (Viseu) e a nuvem de fumo ser cada vez mais negra e intensa. Apesar disso e de algumas questões por parte dos passageiros, o comboio continuou a circulação até que já não passou da estação de Santa Comba Dão (Viseu), quando o revisor da CP alerta que vamos ficar parados devido ao incêndio que deflagrava perto das estações seguintes e que obrigou ao corte da linha da Beira Alta perto das 20h. Entretanto já estávamos sem energia e o bar do IC tinha esgotado todos os seus mantimentos. Passadas 4h a agitação começa a sentir-se na estação. Era perto das 00h20 quando o pânico começa a tomar conta de alguns e quando se começa a presenciar um nevão de cinzas e fagulhas incandescentes. O comboio foi evacuado e os passageiros permaneceram dentro da sala de espera por autocarros que iriam proceder à evacuação dos civis para um local seguro. Começaram-se a ouvir soluços, choros e pairava o desespero de pensar que poderíamos ser as vítimas de outro “Pedrogão”. Deixei-me contagiar por algumas lágrimas, mas rapidamente consegui controlar (teve de ser). Entretanto um anjo apareceu a conduzir um autocarro, um anjo que arriscou a sua vida num domingo à noite a salvar cerca de 100 a 200 pessoas que estavam presas numa sala de espera, sentadas ao molho, no chão para conseguirmos respirar melhor. Como não sou idosa, não estou grávida e não tinha crianças comigo, fui no segundo autocarro que seguiu conduzido por aquele herói, ao qual não sei o nome. Aí, o pesadelo começou a tomar conta das nossas mentes “para onde nos leva? É seguro? Como é que consegue conduzir com este fumo? Não se vê nada...”. Ao entrar na estrada com labaredas do lado esquerdo e cinzas ativas do lado direito, este anjo-herói benzeu-se e acelerou o máximo que conseguiu, o pior já tinha passado e depois de sentir o calor de todas aquelas chamas ao nosso lado, estava tão em choque que nem consegui chorar de alegria. Estávamos a salvo e fomos levados para a Casa da Cultura no centro de Santa Comba Dão onde apesar de não haver luz, sentia-se carinho e ajuda. Senti-me quase num campo de refugiados, idosos de pijama que tinham sido “arrancados” das suas habitações, famílias com bebés e crianças, pessoas com os seus familiares de quatro patas, etc. Comida e água nunca faltou, felizmente, o qual agradeço. Agradeço também aos revisores da CP que apesar da grave situação e de todo o pânico que se sentiu, conseguiram manter a mínima calma entre os passageiros e a coordenação de todos, ao anjo-herói que arriscou a sua vida a salvar mais de uma centena, aos escuteiros voluntários, ao apoio social, aos bombeiros, à proteção civil, aos estabelecimentos de restauração que nos facultaram comida e água e ao meu namorado que passou quase a noite em claro mais preocupado que eu. Este foi um resumo da história da noite passada dos passageiros que circulavam no comboio n.º 518 contada em primeira mão.
P.S.: depois do comentário do Sr. Luís Lima, ficámos a saber que o motorista herói chama-se João Silva.



Pelos caminhos do fogo, com o "anjo" de Santa Comba Dão
http://visao.sapo.pt/actualidade/so...inhos-do-fogo-com-o-anjo-de-Santa-Comba-Dao-1
 
Totalmente de acordo @criz0r ,a negligência penso que terá 30% de incidência nos IF no nosso País , e refiro.me ás queimadas e não só! Mas as queimadas não é só quem as faz que temos que punir e responzabilizar, terá que começar a existir punição para aqueles que tem o dever de informar , sensibilizar quem não tem acesso a informação que nós temos, grande parte dessas queimadas acabam por ser feitas por pessoas já idosas , não é por acaso que algumas perdem a própria vida nas mesmas , essas pessoas ainda se estão a regular pelo "antigamente" , e o clima de hoje é bem diferente do que que tínhamos no passado, eu não estou a desculpá.las , mas a tentar fazer.me entender que não podemos comparar negligência com intenção dolosa! Agora a lei da punição para quem comete estes crimes tem efectivamente que ser alterada! O que o @Paulo H escreveu subscrevo totalmente , mas não acredito que sem medidas de informação mais exaustivas para estas pessoas , o simples (conhecimento popular) chegará! Em relação a tua pergunta @Orion , o @MSantos já te respondeu por todos nós, e quem melhor que ele, que trabalha na floresta todos os dias ;) mas não é esse o nosso maior causador de ignições de IF em Portugal!

Tive a dar uma vista de olhos neste quadro e não encontro um único IF destes que tenha resultado de uma queimada descontrolada, o único que me lembro de algo parecido foi a negligência de funcionários da CME no IF de Tavira em 2012 , mas sem danos a nível de justiça para a empresa!
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O numero de ocorrências (ignições) tem estatisticamente vindo a baixar em Portugal, infelizmente menos ocorrências não tem significado menos área ardida. Os distritos tradicionalmente com mais incêndios, Porto, Braga e Lisboa estão longe de ser aqueles em que arde mais área. É importante reduzir o numero de ocorrências, seja por mais controlo e fiscalização, seja por penas/multas mais severas aos prevaricadores. No entanto só isso não chega para resolver o nosso problema.

Temos um problema de fundo na floresta em Portugal, o problema é complexo e tem muitas abordagens possíveis, há muitas coisas para fazer para minimizar o problema, minimizar, porque fogos vão sempre ocorrer, fazem parte da nossa floresta/ecossistema e as nossas espécies estão preparadas para o fogo, mas não para a recorrência de fogos que temos tido.

Não adianta toda esta limpeza (corte desenfreado de árvores e mato) se for uma medida isolada, de pouco servem medidas deste tipo se toda a estrutura de combate não for reformulada e continuarmos a apostar quase exclusivamente em espécies de rápido crescimento. É preciso trazer actividades económicas que valorizem a floresta, o estado de abandono em que se encontra a nossa floresta é razão do problema. Não há soluções fáceis, mas é preciso criar valor na floresta seja com exploração de madeira, resina, cortiça, pinhas, mel, caça, cogumelos silvestres, turismo etc.
 
O numero de ocorrências (ignições) tem estatisticamente vindo a baixar em Portugal, infelizmente menos ocorrências não tem significado menos área ardida. Os distritos tradicionalmente com mais incêndios, Porto, Braga e Lisboa estão longe de ser aqueles em que arde mais área. É importante reduzir o numero de ocorrências, seja por mais controlo e fiscalização, seja por penas/multas mais severas aos prevaricadores. No entanto só isso não chega para resolver o nosso problema.

Temos um problema de fundo na floresta em Portugal, o problema é complexo e tem muitas abordagens possíveis, há muitas coisas para fazer para minimizar o problema, minimizar, porque fogos vão sempre ocorrer, fazem parte da nossa floresta/ecossistema e as nossas espécies estão preparadas para o fogo, mas não para a recorrência de fogos que temos tido.

Não adianta toda esta limpeza (corte desenfreado de árvores e mato) se for uma medida isolada, de pouco servem medidas deste tipo se toda a estrutura de combate não for reformulada e continuarmos a apostar quase exclusivamente em espécies de rápido crescimento. É preciso trazer actividades económicas que valorizem a floresta, o estado de abandono em que se encontra a nossa floresta é razão do problema. Não há soluções fáceis, mas é preciso criar valor na floresta seja com exploração de madeira, resina, cortiça, pinhas, mel, caça, cogumelos silvestres, turismo etc.
Concordo totalmente contigo, mas só acredito mesmo nessa luta se o nossos principais meios de combate às muitas ignicoes que ainda temos para o tamanho do nosso País forem profissionalizados, dou.te um exemplo de um concelho que conheço muito bem porque tenho lá casa, Arganil não tem um número de ocorrências muito grande, aliás já não tinha um incêndio digno desse nome desde Setembro 2012, e mancha florestal em montanha não existem muitas como ali! Agora la está , como tu dizes e muito bem! Ali vivia.se da floresta, cuidava.se da mesma e fazia.se um grande turismo com toda a beleza que nos rodeava! Se tivéssemos tido o mesmo dispositivo que tivemos até ao último dia de Setembro de 2017, muita coisa teria sido diferente, mesmo perante a exceção meteorológica que tivemos em Outubro, nomeadamente no dia 15! Se eles fossem profissionais, teríamos tido a presença deles para nos ajudar , e assim não tivemos , porque o patronato do trabalho precário deles, entendeu que eles já não faziam falta naquela altura! Agora andam a fazer de conta que aprenderam com os erros, que andam a limpar florestas, mas já estou a ouvir o discurso de desculpas, a dizer que os IF deste Verão foram culpa das chuvas tardias, e que existe muito combustível fino para arder, o que provoca uma grande propagação da velocidade dos incêndios! Esperemos todos que não

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A longo prazo a tendência do numero de ignições tenderá a diminuir, dado o "esvaziamento" das atividades ligadas ao "mundo rural"!
No que há área ardida diz respeito, acredito que anos como 2003/2005/2006/2013/2016/2017 serão frequentes e se o sistema nacional de DFCI não for capaz de se especializar...bom, cada vez mais poucas ignições implicarão elevada área ardida!
Estes 2 relatórios da CTI colocam, de forma insuspeita, a nu as enormes debilidades de um sistema assente no voluntariado, na fraca qualificação e na mitologia do incendiarismo!
Não posso deixar ainda de referir que toda a sociedade deveria ter um papel mais exigente com o sistema de DFCI...se em vez de culpar os desconhecido ou de fazer peditórios, fizessem debates e se informassem, seguramente estaríamos num patamar mais elevado!
 
A grande desmatação de 2018

Testemunho de uma professora da Universidade do Algarve que descreve os males feitos nos terrenos daquela escola superior e também em todo o barrocal, onde se estão a dizimar majestosas alfarrobeiras.


Na Universidade do Algarve, fomos todos convocados pelos Serviços Técnicos, e nossas famílias, para participar na acção de voluntariado que teve lugar no passado sábado, de “limpeza de mato e recolha de material sólido combustível” no campus de Gambelas. “Material sólido combustível” – é assim que agora se designam as árvores e outra vegetação e seres que neles habitam. Pobre pinhal do campus de Gambelas!

No caminho que faço diariamente para a Universidade, nas última semanas, foram reduzidas a tocos centenas de oliveiras e alfarrobeiras, muitas seculares, hectares de terreno foram totalmente descarnados. A lei das limpezas veio apressar estas razias, que têm acontecido nos últimos anos devido a estar tudo à venda e os priprietários cortarem as árvores para lenha quando vendem os terrenos. Na vila de S. Brás de Alportel, as únicas árvores de grande porte que ainda não tinham sido decapitadas em espaço público, que eram oliveiras e alfarrobeiras, foram arrazadas há duas semanas, perto do quartel da GNR, para dar o exemplo aos munícipes. Em Espanha, onde as alfarrobeiras e oliveiras centenárias são protegidas por lei, a poda de UMA alfarrobeira centenária é notícia de jornal. Aqui, no barrocal algarvio, perante a indiferença de todos, as majestosas alfarrobeiras, que podiam ser o ex-libris do Algarve, têm sido dizimadas na última meia dúzia de anos.Com elas, há aves que vão desaparecer, como os papa-figos. São “árvores de grande porte” e como tal uma ameaça pública.

Vale a pena ver o vídeo da visita do primeiro-ministro, porque, ironicamente, nas casas ardidas por onde o primeiro-ministro Costa e sua comitiva passam, e onde faz o seu discurso, a única coisa que não ardeu foram as árvores e arbustos mesmo junto às paredes, que dão a única nota de vida e alegria num cenário devastado. Os telhados e o interior arderam, até o betão vergou – pelo que se depreende que o fogo deve ter vindo do ar, de algum eucaliptal ali perto. Como este ano o crescimento de pastos começou mais tarde, as limpezas que agora estão a ser feitas, com mais luz no chão sem a sombra das copas e arbustos cortados, com chuva, vão resultar num vigoroso crescimento de ervas que vai cobrir tudo e estar no ponto de palha em Julho. O rastilho perfeito para iniciar fogos. E quanta natureza vai ser destruída até lá, quantas árvores, quantas aves?

https://observador.pt/opiniao/a-grande-desnatacao-de-2018/
 
Esse artigo, tanto quanto saiba, foi para ja o unico a surgir sobre este problema.

Isto deveria ser discutido semanalmente. Ninguem fala no assunto.

Esta em marcha uma destruicao de patrimonio ambiental ao nivel das campanhas do trigo.

É mesmo a actual "campanha" de limpeza, se é que se possa chamar assim, é mesmo um verdadeiro atentado, a semana passada fui a um apiário com um apicultor, que já leva perto de 30 anos desta vida, e só agora em pouco tempo já perdeu mais de 70 colmeias, e já anda a alimentar as abelhas desde o fim do verão passado.
Na zona envolvente a este tal apiário, em numa zona sobretudo de mato e montado, composto por muito rosmaninho, urze, tojo, alecrim, entre outras tantas plantas, em cerca de 30 hectares, em zona de encosta, que não sobreviveram, pois foram todas dizimadas por grades de discos, com recurso a maquinaria pesada.
Este tal apiário dele, era sempre o mais forte que ele tinha, e a partir de agora ficaram as abelhas rodeadas de deserto e eucaliptos, ele está ja pensar em reduzir o nº de colmeias, ou até mesmo desistir de vez, pois o prejuízo é imenso.
As abelhas mortas no exterior das colmeias, são tantas que até se conseguem varrer.

Eu possui aqui uma colmeia inserida, no meu terreno de agricultura biológica, e desde o início do Outono até agora já plantei mais de 400, plantas, muitas delas árvores de fruto e outros arbustos que lhes servem de alimento ao longo do ano, e tenho ainda para plantar outras 100 plantas até ao próximo mes.
 
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Uma alfarrobeira da rendimento mais de um seculo.

Uma alfarrobeira com a copa destruida que rendimento da? Trata-se de uma arvore que demora decadas a crescer, tao estrategica quanto o sobreiro. Na minha freguesia ja comecam a ser poucas as alfarrobeiras de grande porte. Trata-se de uma arvore que so atinge grandes dimensoes em solos profundos do litoral algarvio. A nivel global e uma arvore que ocorre em poucos locais.

Os idosos estao estupefactos com as podas e cortes de copas de arvores de sequeiro, alfarrobeiras, figueiras, oliveiras. Nunca viram nada assim.

Parece que a lei seria apenas para pinhais e eucaliptos mas por motivos obscuros nao esta a ser interpretada assim.
 
Eu acerca desta lei já ouvi e vi de tudo, já vi gente a quimar sobrantes de um quintal de 50 m2 ontem, rodeado de casas á volta, porque no dia 1 de Abril seria o último dia para se poder queimar, tenho aqui outro vizinho que anda a cortar os ramos dos cedros até aos tais 4 metros de altura, sendo que eles seguram uma encosta nas traseiras de casa, onde desde que me lembro nunca os cortou, e só o está a fazer agora, isto fora de zona de risco, pois num lado é só haitações, e do outro é vinha e olival tradicional, no outro lado da estrada.

Pelo que me apercebo continua a existir muita falta de informação, pois o diz que disse sobretudo, envolvendo pessoas mais idosas, em conversas de café, e pronto lá vai cada um agarrar nos serrotes e cortar tudo o que lhe aparece pela frente, sem olhar seja lá o qual for a espécie.

Quando se devia de proteger as nossas espécies autóctones, sobretudo essas de grande porte, em regime de sequeiro, mas não se entende por que raio fazem os contrário, o nosso país está sempre "anos-luz" atrasado, em relação a muitos países da Europa e do mundo, no que toca á proteção de árvores e toda a natureza em si.
 
A escala europeia poder-se-a afirmar que estamos perante uma especie de "africanizacao" da paisagem.

Portugal e neste momento o pais com a paisagem mais adulterada da Europa Ocidental apesar de nunca se ter verdadeiramente industrializado.
 
Esta lei deveria ser apenas para especies invasoras, e deveria especificar as especies, uma por uma.

Separadamente, deveria existir outro regulamento para eucaliptal e para pinhal que protegesse os interesses dos pequenos produtores e da paisagem.

Aqui ha gato escondido com rabo de fora, e o artigo da professora da Universidade do Algarve levanta um pouco o veu.