David sf
Moderação
Dois anos depois da inauguração da Aguieira nevou em Coimbra. Provavelmente, a percepção das pessoas no início da década de 1980, era que a nova albufeira tinha uma correlação positiva com a ocorrência de neve em Coimbra. A "percepção da população" tende a confundir causalidade com casualidade...Sim, mas nenhuma com tão grande capacidade como a prevista para Girabolhos. E há na região a percepção, se verdadeira ou falsa não faço ideia, de que a construção da barragem da Aguieira nos 70s teve impacto na queda de neve na serra da Lousã, no Açor e partes da Estrela. Sendo de Poiares terás mais noção do que eu relativamente à veracidade disto, de qualquer das formas não tenho confiança nos EIAs feitos e aprovados naquela altura e julgo que talvez esse e outros aspetos merecessem ter sido mais tidos em conta na elaboração do estudo dada a importância económica dos mesmos.
Consigo encontrar outras construções na zona de Coimbra, contemporâneas da Aguieira, que também "podem" ter tido influência na redução de neve na Lousã: troço da A1 entre Condeixa e Coimbra Norte, a ponte-açude, a ponte Edgar Cardoso na Figueira, etc.. Evidentemente que é parvo dizer-se que a conclusão da A1 provocou a redução da neve na Lousã, da mesma forma que o é afirmar-se que uma albufeira situada a uma cota 1000 metros inferior tem alguma influência nas condições climáticas no topo de uma serra.
Todos sabemos a razão para a redução de neve na Lousã, e não é certamente por causa da Aguieira que a temperatura média global aumentou várias décimas de grau desde 1980 até aos dias de hoje, nem é por causa da Aguieira que a ocorrência de siberianas na Europa se reduziu drasticamente.
Da minha casa tenho vista para o vale do Mondego na zona de Penacova, já bem a jusante da Aguieira, e os nevoeiros são extremamente frequentes. Não é certamente por causa da Aguieira que ocorrem. Também no vale do Ceira é frequente a ocorrência de nevoeiros, tal como no vale onde se situam a Lousã e Miranda do Corvo. Junto à albufeira, por razões óbvias, são ligeiramente mais frequentes e demoram mais tempo a dissipar. Mas a influência da albufeira é limitada, não mais do que 10 km desde as suas margens.Do que tenho visto ao longo dos anos, parte da população é a favor, a outra é contra, muitos como eu não sabem, e mesmo no poder local há diferentes perspectivas. A verdade é que o sector agrícola/vinícola é muito relevante nos concelhos de Nelas e Gouveia, e o turístico muito relevante no concelho de Seia. É também certo que o Douro tem várias barragens e não é por isso que o vinho deixou de ter qualidade. Mas também é certo que a envolvente à barragem da Aguieira se tornou com o tempo num eucaliptal contínuo e é uma zona com ocorrência extremamente frequente de nevoeiros, por isso algum impacto ela teve.
É ir perguntar aos concelhos de Reguengos de Monsaraz, Mourão, Portel e Moura como estão a correr as coisas junto ao Alqueva. Dos vários impactes negativos que uma barragem traz, pequenos prejuízos à economia são amplamente compensados com um boom no turismo.Quase ninguém por aqui duvida da utilidade da barragem para o controlo das cheias no Baixo Mondego, as pessoas estão preocupadas é com o facto de isso poder afetar muito claramente a economia destes concelhos, que somados ainda têm mais de 45 mil habitantes. E isso parece-me perfeitamente legítimo. Tendo isso sido devidamente estudado (que como já tive ocasião de dizer, não sei se foi) seria útil que isso fosse devidamente explicado às populações, antes de se avançar à pressa com o projeto como se fosse um remédio miraculoso.
