mas podemos voltar a 1974 onde a vida sincera foi abruptamente interrompida...
«Convencido da sua razão e da virtude absoluta do antigo regime, Marcelo Caetano não se interessava e quase não comentava o que ia acontecendo em Portugal. Quando deixava cair a sua opinião, era em geral com um desprezo militante e um ressentimento mal escondido. O PREC ainda o "angustiou" e o levou a falar em finis patriae. Mas já não "partilhou" o "optimismo" da emigração política no Brasil com o 25 de Novembro: "Receio que a terapêutica em curso não vá por diante e que dentro de um a dois meses ocorra um novo golpe e de maior violência. Tudo resulta do equívoco que se criou na vida nacional com o 25 de Abril, na onda de falsa liberdade em que uns destroem a pátria e os outros, mesmo quando se opõem, colaboram nessa destruição."
Em Portugal nada podia correr bem, porque, se corresse, ficava em causa a presuntiva excelência da ditadura. Na véspera da primeira eleição para a Assembleia da República, Marcelo escrevia: "Pela via aritmética, clamando que são eleitos pelo voto popular, vemos alçados ao poder analfabetos, traidores e desonestos que conhecemos de longa data. Alguns nem serviam para criados de quarto e chegam a presidentes da câmara, a deputados, a governadores civis e mesmo, quando não querem, a ministros." A democracia portuguesa era necessariamente uma farsa.
E farsantes por definição as personagens que a representavam. Quando Soares foi ao Brasil, Marcelo escreveu: "O tal Soares aqui deu o espectáculo da sua mediocridade, da sua demagogia parva, e andou no meio da praticamente total abstenção dos portugueses, a fazer gestos vãos e gaffes valentes." Apareceu Eanes, numa visita oficial, e o ódio voltou: "Anda por cá agora o Generalíssimo (graduado) dessas bandas. Seco, cara de pau, com ar permanentemente zangado neste país de cordialidade e bom humor, é um desastre diplomático, mas representa bem a má consciência de um exército fujão e de regime que arruinou Portugal."
Nem a direita (da democracia, claro) lhe merecia mais benevolência. Continuava a acreditar em Diogo Freitas do Amaral, apesar do seu "complexo de esquerda", como "o único arrimo" da oposição ao PS e ao PC e achava que, se ele se entendesse com Sá Carneiro numa "frente antimarxista", "haveria talvez uma réstia de esperança". Mas tratava invariavelmente Sá Carneiro com uma certa desconfiança e desdém. Quando se fundou a Aliança Democrática (cuja "vitória" ele, de resto, desejava) mostrou logo o seu cepticismo: "O Sá Carneiro chefe de Governo? Não tem estofo, nem envergadura para isso e os seus colaboradores imediatos também pouco valem para governar o país. O Diogo tem muito mais categoria mas ainda está mais desamparado de figuras de segunda linha."»
Isto é do Vasco Pulido Valente mas no geral deve assentar bem aqui...
