Almeida Henriques, o homem que não se afastava das polémicas e de Viseu: uma vida dividida entre a família, as empresas e a política
Almeida Henriques, autarca de Viseu, numa fotografia de 2017
Tiago Miranda
Joaquim António Almeida Henriques cedo se interessou pela política e pelos negócios, mas manteve a família em primeiro plano. Falecido a 40 dias de completar 60 anos e já confirmado como recandidato à Câmara de Viseu, deixou uma carreira empresarial e uma vida associativa que o levaram por duas vezes ao Governo. Ao longo das mais de quatro décadas de carreira politica esteve envolvido nalgumas polémicas, mas nunca fugiu ao confronto nem ao apego à cidade onde nasceu.
4 ABRIL 20219:42
Amadeu Araújo
Nascido a 5 de maio de 1961 em Viseu, filho de um industrial de relógios e de uma doméstica, Almeida Henriques
faleceu este domingo, vítima de covid-19, que o mantinha hospitalizado há quase um mês.
Teve um percurso muito ligado à política, mas também aos negócios, à terra natal e à família.
Concluiu o ensino secundário, no então Liceu Alves Martins, onde se envolve na vida associativa, iniciando a militância na JSD. Concluído o curso de Direito em Coimbra, em 1982, mantém a ligação ao partido e a Mota Faria e Luís Martins, os homens fortes da máquina laranja no distrito. Com a eleição de Cavaco Silva torna-se adjunto de Couto dos Santos, ministro da Juventude. É indicado por Luís Martins, que na altura era presidente da distrital de Viseu do PSD, onde Cavaco Silva obteve vitória expressiva.
José Ernesto, que nesse ano estava na concelhia viseense, destaca-lhe
“o permanente interesse pelas associações e uma dinâmica invejável”. “Era um jovem quadro, com ligação aos movimentos associativos e foi essa a razão da escolha”, diz Fernando Ruas, que nessa altura, em 1989, estava no primeiro mandato como presidente de Câmara. Almeida Henriques foi o número 2 da lista à Assembleia Municipal.
Fica pouco tempo nos governos de Cavaco Silva, saindo em 1992. Um ano antes tinha sido eleito presidente da Comissão Política da Secção de Viseu do PSD, mas os negócios falavam mais alto. Funda a Gabiforma, uma empresa de telecomunicações, a que mais tarde juntaria a Gabitrónica.
A empresa, uma das pioneiras no negócio das comunicações móveis, viria a crescer e a ditar a ligação aos movimentos empresariais.
Em 1991 está no Conselho Geral da Associação Nacional de Jovens Empresários, é eleito vice-presidente da então Associação Industrial de Viseu (AIRV) e preside ao Conselho Fiscal da Associação de Comerciantes. Em 1994 torna-se presidente da AIRV, cargo que o levaria à vice-presidência do Conselho Empresarial do Centro, onde esteve até 2000. A vida empresarial mantinha a melhor sobre a política e dirige várias sociedades comerciais, ora como acionista, ora como administrador.
É por esta altura que funda a empresa ‘Na onda net’, com Simões Agostinho, que, anos mais tarde, o haveria de envolver na primeira grande polémica.
Continua a apoiar as sucessivas eleições de Fernando Ruas, de quem seria presidente da Assembleia Municipal. Com a morte de Coelho de Araújo, em 2002, “é eleito pelos deputados presidente da Assembleia Municipal”, adianta Fernando Ruas. Manteve o cargo até 2013. Pelo meio, e por duas vezes, foi Presidente da Mesa da Assembleia da Secção de Viseu do PSD: de 1992 a 98 e de 2000 a 2006, ano em que se torna presidente da Assembleia Metropolitana da Grande Área Metropolitana de Viseu.
Eleito deputado em 2002, pelo círculo de Viseu, a politica leva a melhor sobre os negócios e desfaz-se das participações empresariais.
“Esteve com Durão Barroso, na luta pela liderança do PSD”, lembra José Cesário, que presidia à distrital de Viseu. Cesário, que esteve em vários governos do PSD, considera que Almeida Henriques “subiu a pulso, embora no inicio tenha tido as simpatias de Mota Faria”. Apesar de deputado mantém a vida associativa, sendo vice-presidente da Confederação da Indústria Portuguesa e membro do Conselho Geral da Associação Empresarial de Portugal.
Jorge Sampaio atribuiu-lhe a Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial- a distinção do então Presidente da República torna-o Presidente Honorário da AIRV.
Com o mandato parlamentar a decorrer, vende as participações sociais nas empresas que detinha e dedica-se à política em exclusividade.
Nas legislaturas seguintes é eleito sucessivamente deputado: em 2005, 2009 e 2011.No PSD é eleito para o Conselho de Jurisdição Nacional, já com Passos Coelho na liderança e no Parlamento
torna-se vice-presidente do Grupo Parlamentar. Assuntos europeus, económicos, inovação e energia são as comissões que integra, a par da ligação aos grupos parlamentares de amizade com a China, Moçambique, Rússia e Polónia.
A ligação aos movimentos empresariais e a amizade com Álvaro dos Santos Pereira, natural de Viseu, levam-no de novo ao Governo, desta feita com Passos Coelho.
Em 2011 é secretário de Estado Adjunto e da Economia.Em 2013 e com Fernando Ruas a atingir a limitação de mandatos, é escolhido para candidato à Câmara Municipal de Viseu e sai do Governo. “Havia vários nomes, mas os militantes fizeram uma sondagem e acabou por ser escolhido”, diz o atual deputado.
ARGUIDO NA OPERAÇÃO ÉTER
Eleito por duas vezes,
em 2018 é envolvido na Operação Éter, por suspeitas de favorecimento a Simões Agostinho, de quem fora sócio, quando desempenhava funções no Governo. As suspeitas mantêm-se, acaba constituído arguido num processo que envolve o Turismo do Porto e Norte de Portugal, dirigido por Melchior Moreira, que antes tinha sido presidente da distrital de Viseu do PSD. Sofre a primeira baixa na equipa autárquica: Nuno Nascimento, chefe de Gabinete e amigo de longa data, com quem trabalhara nas suas empresas e nos movimentos associativos, demite-se.
Em 2019 nova baixa no executivo camarário. Joaquim Seixas, vice-presidente da Câmara de Viseu e presidente da concelhia local do PSD, demite-se. Em causa um diferendo com um vereador.
Já este ano nova baixa na equipa municipal. O vereador da Câmara de Viseu Jorge Sobrado, que tinha estado com Almeida Henriques no Parlamento e de quem fora adjunto no primeiro mandato, renunciou aos pelouros e deixa de estar a tempo inteiro na autarquia.
Almeida Henriques assume os pelouros, mas não afasta as polémicas.A intervenção arquitetónica no Mercado 2 de Maio, promessa do primeiro mandato, em contradição com o trabalho de recuperação desenhado por Álvaro Siza e António Madureira, desagrada a grande parte da cidade. Sucedem-se os movimentos populares que contestam a cobertura fotovoltaica do mercado e uma antiga vereadora lidera a contestação, que classifica de
“grave e inadmissível atentado patrimonial e urbanístico”.
Indiferente às polémicas a concelhia de Viseu, presidida por um vereador,
indica-o como candidato a novo mandato, escolha sufragada pela direção nacional do PSD.
Casado e com 3 filhos, adepto entusiasmado do Futebol Clube do Porto, aproveitava os tempos livres para estar com a família nos desafios do clube de que era sócio.
Era vice-presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses e presidente da secção de Smart Cities. Mantinha a ligação ao movimento associativo e presidia ao Conselho Estratégico do Portugal Smart Cities Summit, no âmbito da Associação Empresarial de Portugal. Era ainda presidente do Conselho Geral da Fundação para os Estudos e Formação nas Autarquias Locais.
Antas de Barros, militante 24 do PSD e antigo presidente do Politécnico de Viseu, assume-o como “um apaixonado pela sua terra".
"Não fez tudo mas teve um mandato positivo. Deixou uma cidade mais aberta”, elogia Antas de Barros.
Em março, o presidente do PSD apresentou-o para nova candidatura à Câmara de Viseu. Almeida Henriques adiava o anúncio daquela que seria uma certeza e pronúncio. “Sempre disse que estaria disponível para dar 10 anos da minha vida ao meu concelho”. Acabou a dar oito em dois mandatos em que sempre defendeu
“afirmar Viseu pela qualidade de vida”. Há uma semana o concelho foi apontado pela Associação de Defesa do Consumidor como o de “melhor qualidade para se viver”.
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