O problema nos EUA com o consecutivo assassinato de negros às mãos da polícia não é exactamente o crime em si. Os EUA são um país extraordinariamente violento. A polícia mata e mata muito. Mata mais negros do que brancos e com muita mais 'facilidade', como se viu recentemente, mas também mata não negros. O maior problema é a absoluta impunidade. Nada aconteceria ao polícia que assassinou Floyd se o vídeo não se tivesse tornado público. Foi isso que levou ao despedimento dos 4. E a detenção do assassino aconteceu devido a dias de motins. O que se passa agora é a fotocópia do que se passou no início dos anos 90 com Rodney King que nem 'sequer' morreu. Os polícias que se vêem nessas imagens, que já aqui publiquei, e que retratam um bando de selvagens a bater num ser humano no chão foram julgados e absolvidos em 1992 (o ataque foi em 91). Na sequência da absolvição e absoluta impunidade dos quatro animais (sem ofensa para os animais ditos irracionais) começaram os tumultos em LA. Uma fotocópia só que bem mais violenta daquilo a que assistimos hoje. Morreram dezenas de pessoas nesses tumultos. A justiça foi obrigada pelas circunstâncias a abrir um outro processo civil e julgar as quatro bestas. Nesse processo que jamais existiria se não fossem os tumultos, dois dos agressores foram condenados a 30 meses de cadeia e dois foram absolvidos. Foram, também, atribuídos vários milhões de dólares a Rodney King a título de indemnização. Nada disto (que foi muito pouco!) teria acontecido se não fossem os tumultos que só tiveram início após a absolvição dos 4 'polícias'.
Praticamente 30 anos passaram. Nada mudou. Agora todos nós andamos munidos de câmaras de filmar no bolso e isso faz com que mais destes incidentes sejam filmados. No entanto, a impunidade permanece. Ainda recentemente vimos um negro a ser assassinado por pai e filho (pai ex polícia) por estar a correr na rua. Durante praticamente 3 meses, até que as imagens se tornaram públicas e foram partilhadas nas redes sociais, não aconteceu nada. Estes dois assassinos continuaram à solta, fazendo a sua vida normal, com a cumplicidade das autoridades locais, cruzando-se na rua com a família daquele que assassinaram. Há uns anos, 2016, julgo, um jogador de futebol americano negro, Kaepernick, tornou-se famoso não pelos seus feitos desportivos mas pelo seu protesto absolutamente pacífico. Ajoelhava-se durante o hino no início dos jogos em protesto pela desigualdade e brutalidade policial. Acabou dispensado da NFL. Ninguém no seu juízo perfeito gosta de ver motins. Ninguém no seu juízo perfeito gosta de ver lojas destruídas, carros incendiados, negócios perdidos, pessoas feridas. Ninguém no seu juízo perfeito pode dizer que nos EUA os protestos pacíficos têm resolvido o que quer que seja. Pessoas ajoelhadas em eventos desportivos, caminhadas silenciosas, discursos bonitos mas inúteis. Nada resultou. Estarmos em 1991 ou em 2020 é a mesma coisa no que a este assunto diz respeito, tirando o facto de agora as imagens serem de muito melhor qualidade e de existirem redes sociais que permitem que tenhamos visto George Floyd a morrer praticamente em directo enquanto que em 1991 tudo foi mais lento. A impunidade, no entanto, persiste. Sempre que acontece o que temos visto nos últimos dias nas ruas de muitas cidades americanas, há quem se aproveite. Há radicais de ambos os extremos a tentar tirar dividendos. Sempre assim foi, sempre assim será. Não é possível evitar esses aproveitamentos a não ser que todos os que protestam por bem fiquem em casa mas se isso acontecer, nunca nada mudará. O poder não tem medo de pessoas ajoelhadas, de caminhadas silenciosas ou discursos. O poder tem medo de perder poder. Tem medo da crise económica. Tem medo do poder do povo. Se para mudar o status quo for necessário ter de lidar com o aproveitamento de uns quantos mal intencionados, so be it. A intenção de muitos deles é essa: obrigar a maioria bem intencionada a desistir ou, não sendo possível, passando a ideia de que todos quantos protestam são aquilo: apenas bandidos que querem ténis novos de borla. Os burros, claro, engolem, como criaturas acríticas e desprovidas de capacidades intelectuais medianas. Não pode ser. Isto não pode continuar e se depender de quem manda, continuará. E todos sabemos muito bem o que é que faz com que isto persista. E os que não vêem ou fazem de conta que não vêem e não sabem são os mesmos que perpetuam a impunidade.
No justice, no peace. Over and over again.