Política e economia internacional 2020

“No justice, no peace”. Seja, nos EUA ou na China.
Percebe uma coisa: violência alimenta violência. "Hurt people just hurt people". Seja aqui, na China, em HK, nos EUA, no mais pequeno canto do mundo. Quem se opõe a violência racial não pode estar a favor quando o "papel" se inverte. Na verdade pode, mas não pode estar à espera de ser levado a sério.

Destruir trabalho de vidas de pessoas inocentes, matar o dono duma empresa que estava a proteger a sua propriedade, invadir lojas e roubar empregos não vai resolver absolutamente nada. Simplesmente alimenta um ciclo sem fim de ressentimento e violência alternante. Matar brancos na África do Sul e achar isso normal porque Apartheid é canalhice. Aqui é exatamente o mesmo.

A morte de Floyd está a ser usada para tudo menos para mudar o paradigma. É usado por supremacistas brancos, fascistas "antifas", e um outro sem número de gente sem escrúpulos. E vocês os dois aplaudem.
 
Este dualismo inevitável nos EUA só demonstra uma coisa.

Os EUA não são o fim da história.
A China e a Rússia muito menos.

Paz (relativa) sem justiça foi sempre o paradigma dominante na história da humanidade. Isso e brutal desigualdade económica perpetuada pelas autoridades estatais (ou feudais).

As lideranças russa e chinesa adoram os motins. Não porque estão interessados em igualdade, mas porque os EUA perdem qualquer tipo de legitimidade na exportação de reivindicações democráticas com objetivos geoestratégicos. Os EUA são forçados a descer do pedestal. E mais ninguém tem a mesma capacidade ou vontade para se impor a outros.

Fim da história? Não, de todo. Mas se calhar esse teu sonho socialista e tolerante nem tão cedo se vai concretizar.

Sempre que foi conveniente, os EUA apoiaram ditaduras além-mar. Isso não vai mudar. Mas a exportação em tempo parcial da democracia é muito diferente do abandono explícito e quase completo desse processo. Está-se a falar de um mundo mesmo muito diferente.
 
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2018:

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O problema nos EUA com o consecutivo assassinato de negros às mãos da polícia não é exactamente o crime em si. Os EUA são um país extraordinariamente violento. A polícia mata e mata muito. Mata mais negros do que brancos e com muita mais 'facilidade', como se viu recentemente, mas também mata não negros. O maior problema é a absoluta impunidade. Nada aconteceria ao polícia que assassinou Floyd se o vídeo não se tivesse tornado público. Foi isso que levou ao despedimento dos 4. E a detenção do assassino aconteceu devido a dias de motins. O que se passa agora é a fotocópia do que se passou no início dos anos 90 com Rodney King que nem 'sequer' morreu. Os polícias que se vêem nessas imagens, que já aqui publiquei, e que retratam um bando de selvagens a bater num ser humano no chão foram julgados e absolvidos em 1992 (o ataque foi em 91). Na sequência da absolvição e absoluta impunidade dos quatro animais (sem ofensa para os animais ditos irracionais) começaram os tumultos em LA. Uma fotocópia só que bem mais violenta daquilo a que assistimos hoje. Morreram dezenas de pessoas nesses tumultos. A justiça foi obrigada pelas circunstâncias a abrir um outro processo civil e julgar as quatro bestas. Nesse processo que jamais existiria se não fossem os tumultos, dois dos agressores foram condenados a 30 meses de cadeia e dois foram absolvidos. Foram, também, atribuídos vários milhões de dólares a Rodney King a título de indemnização. Nada disto (que foi muito pouco!) teria acontecido se não fossem os tumultos que só tiveram início após a absolvição dos 4 'polícias'.
Praticamente 30 anos passaram. Nada mudou. Agora todos nós andamos munidos de câmaras de filmar no bolso e isso faz com que mais destes incidentes sejam filmados. No entanto, a impunidade permanece. Ainda recentemente vimos um negro a ser assassinado por pai e filho (pai ex polícia) por estar a correr na rua. Durante praticamente 3 meses, até que as imagens se tornaram públicas e foram partilhadas nas redes sociais, não aconteceu nada. Estes dois assassinos continuaram à solta, fazendo a sua vida normal, com a cumplicidade das autoridades locais, cruzando-se na rua com a família daquele que assassinaram. Há uns anos, 2016, julgo, um jogador de futebol americano negro, Kaepernick, tornou-se famoso não pelos seus feitos desportivos mas pelo seu protesto absolutamente pacífico. Ajoelhava-se durante o hino no início dos jogos em protesto pela desigualdade e brutalidade policial. Acabou dispensado da NFL. Ninguém no seu juízo perfeito gosta de ver motins. Ninguém no seu juízo perfeito gosta de ver lojas destruídas, carros incendiados, negócios perdidos, pessoas feridas. Ninguém no seu juízo perfeito pode dizer que nos EUA os protestos pacíficos têm resolvido o que quer que seja. Pessoas ajoelhadas em eventos desportivos, caminhadas silenciosas, discursos bonitos mas inúteis. Nada resultou. Estarmos em 1991 ou em 2020 é a mesma coisa no que a este assunto diz respeito, tirando o facto de agora as imagens serem de muito melhor qualidade e de existirem redes sociais que permitem que tenhamos visto George Floyd a morrer praticamente em directo enquanto que em 1991 tudo foi mais lento. A impunidade, no entanto, persiste. Sempre que acontece o que temos visto nos últimos dias nas ruas de muitas cidades americanas, há quem se aproveite. Há radicais de ambos os extremos a tentar tirar dividendos. Sempre assim foi, sempre assim será. Não é possível evitar esses aproveitamentos a não ser que todos os que protestam por bem fiquem em casa mas se isso acontecer, nunca nada mudará. O poder não tem medo de pessoas ajoelhadas, de caminhadas silenciosas ou discursos. O poder tem medo de perder poder. Tem medo da crise económica. Tem medo do poder do povo. Se para mudar o status quo for necessário ter de lidar com o aproveitamento de uns quantos mal intencionados, so be it. A intenção de muitos deles é essa: obrigar a maioria bem intencionada a desistir ou, não sendo possível, passando a ideia de que todos quantos protestam são aquilo: apenas bandidos que querem ténis novos de borla. Os burros, claro, engolem, como criaturas acríticas e desprovidas de capacidades intelectuais medianas. Não pode ser. Isto não pode continuar e se depender de quem manda, continuará. E todos sabemos muito bem o que é que faz com que isto persista. E os que não vêem ou fazem de conta que não vêem e não sabem são os mesmos que perpetuam a impunidade.
No justice, no peace. Over and over again.
 
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A questão aqui não é generalizar os Bandidas a toda a gente que está a protestar. Nem é demover quem o faz pacificamente e com boas intenções, querendo mudar a sociedade para melhor e não pilhar a propriedade dos outros, destruir as cidades, instalar o caos, matar por vingança.

A questão é achar que uma especia de guerra civil campal resolver alguma coisa. Quando inclusivamente os ativistas BLM avisam que não se revêm nas pilhagens que estão a acontecer, demovem todos os que nelas participam e distanciam-se deles, achar que apoiar um "no justice no peace" é ajudar o ativismo antirracista é naïve. Ou então conscientemente mal intencionado. Podem pintar como quiserem, mas apoiar supremacistas brancos, antifas ou simples oportunistas ladrões é ser tão pulha como eles.
 
Quando supostamente se é adulto e não se percebe que no peace não é = pilhagens. Well, there is always hope. Not much, though.