Cheias dos Rios Tejo, Sorraia e Almansor bem visíveis do espaço. Lagoa de Óbidos também com volume considerável.
O que me salta a vista é como os leitos de cheia estão perfeitamente identificados a olho nu quando se vê de cima. O facto de ficarmos espantados (alguns) com estas cheias é algo que me ultrapassa.
Acontecimentos destes surgem meia dúzia de vezes na vida de uma pessoa. Uns dizem que são raríssimas as ocasiões. A escala geológica, pelo contrário, estes tornam-se rotineiros e frequentes.
O leito do rio Ave, perto de onde me encontro, diz muita coisa. O declive nas bermas fruto de erosão antiga revela bem que outrora certa cheias foram incomparavelmente superiores a qualquer coisa que imaginamos possível hoje.
É fácil identificar o leito de cheias frequente (ele mesmo vai sendo ocupado por construções pois as barragens dão um falso sentimento de segurança) e um patamar superior resultante de eventos excepcionalmente raros. Uns que só acontecem uma vez a cada milénio, mas com força destrutiva suficiente para cavar estas marcas.
Mais ainda, olhando para os sedimentos , ainda se torna mais gritante aquilo que se passou no passado.
Quando vou descendo em direção ao rio consigo apontar exatamente para o local onde começo a observar pedras mais polidas e arredondadas. Isso numa zona ainda mais alta e em locais onde os valados e terras remexidas permitem observação.
Ou seja, este é o nível mais alto onde se verificaram cheias de tal dimensão que para aí foram arrastados aluviões.
Imaginemos que temos 5 eventos como os atuais a cada século. São 50 por milénio. Desde o início do Holoceno (nossa era climática atual) após o degelo da última era glaciar, contamos mais ou menos 12 mil anos.
São 600 (!!!) eventos so nesta pequeníssima amostra Temporal. Em termos geológicos são 0.00027%.
Nestes 600 se 10% forem anormalidades aberrantes, falamos de 60 eventos de proporção épica...
O território tem marcas que contam tudo de forma descarada e óbvia. A conversa a volta das cheias extremas é não sei quê das alterações climáticas passa-me bastante ao lado.
Aliás, o sinal de frequência das tempestades quando ajustado à probabilidade de eventos não registados na era pré satélite, aponta muito claramente para uma frequência maior durante a última mini era glaciar, até ao séc 19.
O que mais nos deveria preocupar sim, é o o ordenamento do território. Mas isso está perdido e só será corrigido quando uma tragédia acontecer.
Porque garanto-vos que quando um evento destes raríssimos, 1 em mil anos, acontecer, não há barragens que aguentem seja o que for. E neste momento será tudo arrasado como foi no passado.
Evidentemente, quem estiver a viver o evento, iludido pela perspectiva insignificante da vida humana, há de afirmar que são sinais do fim do mundo e de que é culpa dos nossos pecados como sociedade etc etc...
Aliás.. Esta história não vos é familiar? Até me parece que existe um certo livro popular que conta EXATAMENTE a mesma história.