Temporal trágico na Madeira - 20 de Fevereiro 2010

Gerofil

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Fonte: http://iniciativariscos.files.wordpress.com/2012/11/nuno-moreira-ipma.pdf
 

StormRic

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As quantidades de precipitação caídas na Madeira neste temporal não são de modo algum inéditas.
Como exemplo, nesta mensagem são indicados alguns valores extremos superiores ao registado no Areeiro. Na publicação mencionada nessa mensagem, o estudo incide sobre as séries de todas as precipitações diárias máximas para todas as estações do arquipélago.
 
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Fez ontem um ano que a Madeira acordou com um incrível temporal que ceifou 50 vidas principalmente na áreas urbanas do Funchal e Ribeira Brava.

Algumas obras foram feitas ao longo destes 6 anos no sentido de prevenir futuros desastres, as maiores das quais foram a juncão das fozes das ribeiras de João Gomes e Santa Luzia, e a construção de açudes de retenção de material sólido ao longo do curso das ribeiras.

A foto abaixo, da autoria de Raimundo Quintal, mostra que o Funchal será sempre uma cidade um tanto ou quanto vulnerável já que é fácil perceber para onde escorre as quantidades absurdas de água que caem naquelas montanhas sobranceiras ao Funchal em eventos desta natureza.

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algarvio1980

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Resumo meteorológico do dia 20 de Fevereiro, em números. Hoje, com maior sensibilidade para os números do que tinha em 2010, acho-os ainda mais incríveis.

Aqueles 78.5 mm (Areeiro) e 51.3 mm (Funchal) que caíram à mesma hora (entre as 09h e as 10h) foram o principal razão para a tragédia. Quando essa carga monumental de água caíu, os solos já nem estavam a absorver nada. Toda a água que caíu no Areeiro veio desaguar ao Funchal onde também caía chuva diluviana.

De resto, de salientar os 372.4 mm em 12h no Areeiro, mas a estação pifou às 18h. O IPMA na altura não descartou a possibilidade de 500 mm/24h terem caído em alguns locais da ilha. De notar também que o ano hidrológico no Funchal levava, a 20 de Fevereiro, 1011 mm quando a média histórica era de 400 mm...

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https://www.ipma.pt/resources.www/d...WHZhhY/cli_20100201_20100228_pcl_mm_md_pt.pdf
 

joralentejano

Super Célula
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Temporal de 20 de fevereiro de 2010
A meteorologia na Madeira 10 anos depois

Na sequência de episódios de precipitação forte em finais de 2009 e durante o ano de 2010, em particular aquela que esteve associada à bem conhecida tempestade que assolou a Ilha da Madeira no dia 20 de fevereiro de 2010, reconheceu-se desde logo que seria indispensável reforçar a observação meteorológica na Madeira, em particular a rede de estações meteorológicas automáticas (EMAs).

No dia 20 de fevereiro de 2010, o Arquipélago da Madeira contava com 9 EMAs, das quais 2 tinham sido instaladas em 2009 (Caniçal e Santa/Lombo da Terça). Hoje o Arquipélago da Madeira conta com 21 EMAs as quais permitem acompanhar em tempo real (hora a hora) o estado do tempo, em particular no que se refere a episódios de precipitação forte, temperaturas do ar altas e vento forte.

Atendendo à ausência de observações no mar, reconheceu-se também que seria indispensável a instalação de um radar meteorológico e de uma rede de detetores de trovoadas que permitissem, atempadamente e por observação remota, diagnosticar e acompanhar a evolução do estado do tempo, particularmente no que se refere à precipitação.
Assim, com o apoio financeiro de projetos, submetidos ao POSEUR, foi possível a instalação de um radar meteorológico de dupla polarização durante o ano de 2017, tendo entrado em funcionamento operacional no dia 1 de janeiro de 2018, a instalação, em meados de 2019, de um novo sistema de observação em altitude (MW41) que permite a utilização de radiossondas de última geração e ainda, a instalação de uma rede de detetores de trovoadas durante o ano de 2019, a qual se encontra em fase pré-operacional, mas cuja entrada em funcionamento operacional está prevista para meados de março de 2020.

Acresce que a ilha da Madeira apresenta características únicas em Portugal, devido ao facto de ter dimensões relativamente reduzidas, apresentar uma montanha com uma altitude máxima da ordem dos 1850 m, declives muito acentuados e ainda, uma orientação perpendicular à circulação predominante de norte/nordeste. Neste contexto, os modelos numéricos de previsão do tempo apresentam algumas limitações, as quais advêm, nomeadamente, da representação simplificada da topografia da ilha. Deste modo, todos os sistemas de observação referidos permitiram melhorar os desempenhos dos modelos do ECMWF e AROME para a região da Madeira, assegurando, por exemplo, a diminuição dos erros de previsão de parâmetros junto à superfície como a temperatura, humidade relativa e vento, bem como o acompanhamento das zonas onde ocorre precipitação, na qual se inclui a queda de neve.

Outro projeto relevante e transversal, financiado pelo POSEUR, e em implementação no IPMA/sede, consiste num novo Sistema de Visualização Integrada de informação meteorológica que permitirá aos meteorologistas que têm a seu cargo a vigilância e previsão do estado do tempo em todo o território nacional, melhorar a qualidade dos serviços prestados à população em geral, aos órgãos de comunicação social e à Proteção Civil, no que se refere essencialmente à segurança de vidas e bens, designadamente em situações de elevada perigosidade meteorológica.

Uma análise geral ao que tem sido feito na RAM e a nível nacional, permite-nos reconhecer que houve melhorias significativas nos meios de observação e da previsão, para além da reformulação da emissão de avisos meteorológicos no Arquipélago da Madeira que, em princípio, nos podem deixar mais seguros, embora não possa ser posta de parte a elevada vulnerabilidade aos fenómenos extremos, já vividos e que com certeza estarão associados às alterações climáticas, bem visíveis pelo aumento da temperatura média do ar, ondas de calor mais frequentes e alteração substancial dos padrões da precipitação e do vento.

De referir que o maior valor da precipitação anual no Funchal foi registado em 2010 (1477,0 mm) e o mais baixo em 2019 (244,5 mm). A temperatura média anual no Funchal em 2019 foi 20,6 °C, igual ao valor registado em 2004 (20,6 °C), sendo estes os maiores valores médios anuais registados desde 1865.

Fonte: IPMA


Tendo em conta as caraterísticas da ilha, será sempre bastante vulnerável a estes eventos extremos que possam ocorrer no futuro. Quando lá estive no ano passado, fiquei chocado com certas construções que nem deviam ter sido permitidas.
 

StormRic

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Póvoa de S.Iria (alt. 140m)
Relembro estes valores recolhidos de um estudo do IPMA sobre a precipitação na ilha da Madeira: https://www.meteopt.com/forum/topico/cooperacao-com-o-ipma.5253/pagina-5#post-491515

A topografia da ilha mostra claramente que nunca poderiam ser feitas construções e canalizações de ribeiras em certas zonas. A história da urbanização da ilha é muito curta, climática e geologicamente falando. Quanto mais construção for sendo feita maior será a destruição em eventos de precipitação que ciclicamente ocorrem. Mas como as responsabilidades são sempre temporalmente mais curtas do que os períodos de recorrência destes eventos, ninguém vai assumir o controle eficaz das urbanizações e a remoção das que estão em conflito claro com o escoamento das águas e detritos arrastados nas enxurradas. Periodicamente assistiremos a tragédias cada vez maiores. Só não olha para a topografia e não vê a evidência quem não quer.