Biodiversidade

Kodiak

Cumulus
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Depende de que passado estamos a falar. Finais do século dezanove, quando os serviços florestais iniciaram a plantação dos baldios com pinheiro bravo? Meados do século vinte? Décadas de sessenta e setenta do século vinte? Neste último período de facto o território ardia bastante menos, cerca de 16000 hectares ao ano, se não estou em enganado, que passaram a mais de 100000 ao ano após 1974. Neste caso as razões são fáceis de adivinhar: início do desmantelamento da estrutura dos Serviços Florestais e diminuição da autoridade do Estado.
Relativamente ao coberto vegetal, à área florestada, depende também da época. Se estamos a falar do periodo anterior a meados/final do século vinte o coberto vegetal era bem menor. Por essa altura a maioria da floresta autóctone já tinha desaparecido, por força dos fogos e pela exploração da madeira, e as nossas montanhas eram uma verdadeira ruína. Bem ou mal (e eu considero que houve erros mas também houve coisas bem feitas) foram os florestais que iniciaram as plantações que resistiram até 1974.
Finalmente não percebo porque é que o abandono do território potencia os incêndios. Tenho muitas dúvidas quanto a este assunto.
 

Dan

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.
Finalmente não percebo porque é que o abandono do território potencia os incêndios. Tenho muitas dúvidas quanto a este assunto.

Antigas áreas de exploração agrícola ou pecuária estão agora cobertas por vegetação e nem sempre com as espécies que mais se adequam ao nosso clima.
Seja por acção criminosa, incúria ou causa natural, num clima como o nosso os fogos florestais acabam por ocorrer. Temos assim reunidos alguns dos principais ingredientes para um grande incêndio: desordenamento do território, grande quantidade de combustível e condições meteorológicas favoráveis.
 

Kodiak

Cumulus
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7 Fev 2009
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Se existem antigas explorações agrícolas ou pecuárias com espécies estranhas é porque foram lá colocadas. A política florestal portuguesa é uma política errada. Continuam-se a plantar grandes áreas de espécies exóticas como o eucalipto e o resultado são os grandes incêndios florestais.
Nos tempos de hoje é impossível ter um coberto vegetal baseado unicamente em espécies autóctones. Mas é possivel praticar uma silvicultura diferente. A chamada floresta compartimentada é a meu ver a mais acertada porque satisfaz os produtores florestais e ao mesmo tempo os ambientalistas. E é um tipo de floresta que evita os grandes incêndios florestais.
Relativamente à desertificação humana do território, conheço uma aldeia que foi riscada do mapa há mais de cinquenta anos. Os habitantes viviam da pastorícia e os incêndios eram frequentes. Depois do abandono os carvalhais começaram a expandir-se e cobrem hoje alguns vales e colinas com uma densidade de corço nunca vista. E não é exemplo único.
 

psm

Nimbostratus
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25 Out 2007
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estoril ,assafora
Se existem antigas explorações agrícolas ou pecuárias com espécies estranhas é porque foram lá colocadas. A política florestal portuguesa é uma política errada. Continuam-se a plantar grandes áreas de espécies exóticas como o eucalipto e o resultado são os grandes incêndios florestais.
Nos tempos de hoje é impossível ter um coberto vegetal baseado unicamente em espécies autóctones. Mas é possivel praticar uma silvicultura diferente. A chamada floresta compartimentada é a meu ver a mais acertada porque satisfaz os produtores florestais e ao mesmo tempo os ambientalistas. E é um tipo de floresta que evita os grandes incêndios florestais.
Relativamente à desertificação humana do território, conheço uma aldeia que foi riscada do mapa há mais de cinquenta anos. Os habitantes viviam da pastorícia e os incêndios eram frequentes. Depois do abandono os carvalhais começaram a expandir-se e cobrem hoje alguns vales e colinas com uma densidade de corço nunca vista. E não é exemplo único.





Sim é verdade está acontecer muito no interior de Portugal esse avanço do carvalho negral, e está a ser incentivado tambem por um programa que existe da DGF com fundos da CE para sua expansão.
Quanto aos outros carvalhos com a logica exepção do sobreiro e azinheira, está-se verificar uma pequena expanção do cerquinho. Conheço um local perto de Sintra em que se vê todos os estados de crescimento do carvalho cerquinho, e que está ocupar terras abandonadas pela agricultura, essa zona fica na Cabrela perto de Montelevar e tem aproximadamente uns 40 hectares em encosta. Este local ao nivel de biodiversidade é um paraiso, não contando numa outra encosta oposta aquela que menciono, haver um carrascal quase arboreo que não deve arder à mais de 50 anos.
Felizmente em Cascais a camara está a fazer plantações na encosta sul da serra de Sintra pela Cascais Natura, mas para quem perceba um pouco de engª florestal, ao plantar estas especies irão estar muito dependente das condições meteorologicas, para que vinguem.
 

Kodiak

Cumulus
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7 Fev 2009
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Sim, as áreas de carvalho negral estão a aumentar em alguns locais do interior, concretamente em Trás-os-Montes. Mas no caso da aldeia que desapareceu (e não só) os carvalhais em expansão são de carvalho-alvarinho Quercus robur, com todo o seu elenco florístico. E essa é a parte mais interessante porque o carvalhal parece evoluir para uma etapa climácica.
 

frederico

Super Célula
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Antes dos incêndios de 2004 havia em vários locais das serranias algarvias uma grande regeneração nos terrenos agrícolas abandonados, com o crescimento e formação de pequenos bosques de azinheira, sobreiro e medronheiro, e galerias ripícoloas com freixeiros e choupos. Para além disso, agora a serra está a voltar a ser cultivada com trigo, por causa das reservas de caça. O problema é que os solos são de xisto-grauvaque e muito inclinado, por isso o pouco solo que se regenerou após as campanhas dos trigo vai desaparecer nos próximos anos...
 

belem

Cumulonimbus
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Sim, as áreas de carvalho negral estão a aumentar em alguns locais do interior, concretamente em Trás-os-Montes. Mas no caso da aldeia que desapareceu (e não só) os carvalhais em expansão são de carvalho-alvarinho Quercus robur, com todo o seu elenco florístico. E essa é a parte mais interessante porque o carvalhal parece evoluir para uma etapa climácica.

Sim e curiosamente, alguns carvalhais que para aí caminham (etapa climácica) começaram por crescer à sombra dos pinheiros e eucaliptos.
Felizmente essa regeneração tem sido possível, mesmo por caminhos inesperados.
Em algumas partes, as formações vegetais nativas resultantes de desflorestação como o maquis ou o esteval/urzal/tojal, também fornecem sombra, nutrientes e mais humidade, a pequenos carvalhos de várias espécies.
Aves, como o gaio, são notáveis dispersores.
 

stormy

Super Célula
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Sim e curiosamente, alguns carvalhais que para aí caminham (etapa climácica) começaram por crescer à sombra dos pinheiros e eucaliptos.
Felizmente essa regeneração tem sido possível, mesmo por caminhos inesperados.
Em algumas partes, as formações vegetais nativas resultantes de desflorestação como o maquis ou o esteval/urzal/tojal, também fornecem sombra, nutrientes e mais humidade, a pequenos carvalhos de várias espécies.
Aves, como o gaio, são notáveis dispersores.

muito interessante:thumbsup::D
 

psm

Nimbostratus
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estoril ,assafora
Sim e curiosamente, alguns carvalhais que para aí caminham (etapa climácica) começaram por crescer à sombra dos pinheiros e eucaliptos.
Felizmente essa regeneração tem sido possível, mesmo por caminhos inesperados.
Em algumas partes, as formações vegetais nativas resultantes de desflorestação como o maquis ou o esteval/urzal/tojal, também fornecem sombra, nutrientes e mais humidade, a pequenos carvalhos de várias espécies.
Aves, como o gaio, são notáveis dispersores.



Não eram só os gaios que são os mestres na dispersão de bolotas, mas era antigamente e antes de serem extintos, os esquilos.
 

Kodiak

Cumulus
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7 Fev 2009
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Os maiores dispersores são os homens, infelizmente. Mas falando deste assunto há um caso muito interessante, a relação entre o teixo e uma série de espécies animais. O teixo todo ele é venenoso, excepto nos frutos, adocicados e de uma intensa coloração vermelha. No fim do Verão os frutos fazem parte da dieta alimentar de melros, tordos, fuinhas e principalmente martas. A semente é altamente venenosa mas com é muito dura não é digerida e é expelida junto com os dejectos, normalmente longe do local onde o fruto foi consumido. E o mais interessante é que as sementes "tratadas" no intestino germinam mais rapidamente e têm uma percentagem de sucesso superior. Há anos recolhi cerca de duas centena de sementes de teixo, tratadas (de dejectos de marta e fuinha) e não tratadas. Consegui uma percentagem de mais de vinte por cento e alguns teixos nasceram precocemente (na Primavera seguinte). Ou seja o "venenoso" teixo dá de comer a uma série de espécies e as espécies "agradecem" propagando-o.
 

Kodiak

Cumulus
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7 Fev 2009
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É normal que os carvalhos cresçam à sombra de pinheiros e eucaliptos. São espécies nativas. Em qualquer pinhal do Minho, por exemplo, é frequente observarem-se pequenos carvalhos a surgirem do nada (é provável que as bolotas tenham sido deixadas pelos gaios). Se por hipótese deixarmos o pinhal desenvolver-se normalmente, até os pinheiros definharem, o meio transformar-se-á, com o tempo, num carvalhal. O que acontece é que os produtores florestais cortam os pequenos carvalhos, para dar espaço aos pinheiros.
 

belem

Cumulonimbus
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Os maiores dispersores são os homens, infelizmente. Mas falando deste assunto há um caso muito interessante, a relação entre o teixo e uma série de espécies animais. O teixo todo ele é venenoso, excepto nos frutos, adocicados e de uma intensa coloração vermelha. No fim do Verão os frutos fazem parte da dieta alimentar de melros, tordos, fuinhas e principalmente martas. A semente é altamente venenosa mas com é muito dura não é digerida e é expelida junto com os dejectos, normalmente longe do local onde o fruto foi consumido. E o mais interessante é que as sementes "tratadas" no intestino germinam mais rapidamente e têm uma percentagem de sucesso superior. Há anos recolhi cerca de duas centena de sementes de teixo, tratadas (de dejectos de marta e fuinha) e não tratadas. Consegui uma percentagem de mais de vinte por cento e alguns teixos nasceram precocemente (na Primavera seguinte). Ou seja o "venenoso" teixo dá de comer a uma série de espécies e as espécies "agradecem" propagando-o.

Mencionava dispersores naturais...
O Homem estava fora dos meus parâmetros. lol
 

stormy

Super Célula
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É normal que os carvalhos cresçam à sombra de pinheiros e eucaliptos. São espécies nativas. Em qualquer pinhal do Minho, por exemplo, é frequente observarem-se pequenos carvalhos a surgirem do nada (é provável que as bolotas tenham sido deixadas pelos gaios). Se por hipótese deixarmos o pinhal desenvolver-se normalmente, até os pinheiros definharem, o meio transformar-se-á, com o tempo, num carvalhal. O que acontece é que os produtores florestais cortam os pequenos carvalhos, para dar espaço aos pinheiros.

é de facto muito triste os homens matarem os pequenos carvalhos:sad:mas tambem num pinhal abandonado os pinheiros nao desaparecem assim tao facilmente pois eles reproduzem-se com grande facilidade estado o solo de pinhais como o da lagoa de sto andre cobertos de pinheiros juvenis:shocking:
na lagoa de sto andre tambem há cedros "selvagens" ( aqueles que por vezes aparecem nos cemiterios altos e finos) penso que foram introduzidos e agora veem-se bastantes e alguns deles juvenis ( nesta fase assemelham-se a pinheiros).
é verdade tambem que na lagoa aparecem por vezes sobreiros e azinheiras no meio do pinhal mas sao relativamente poucos sendo que adultos há mesmo muito poucos e os juvenis acabam mortos quando o pinhal é limpo :sad::mad: