Cheias no Algarve - 1 Novembro 2015

james

Cumulonimbus
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Espero que, se o Estado decidir dar algum tipo de apoio nesta situação, que seja criterioso com o dinheiro dos contribuintes e que não prejudique quem tenha feito algo seguro, apoiando - o exatamente da mesma forma ( e exatamente com a mesma quantia ) que aqueles que não tenham seguro.

Em relação à certidão de óbito ter que esperar 10 anos para ser emitida após o desaparecimento, este artigo tem como principal objetivo a protecção de um desaparecido, que pode regressar e poder ainda reaver o seu património.

Claro que não é um caso de alguma tragédia, mas convém referir que uma mulher ( ou homem) não tem que esperar 10 anos par voltar a casar, por exemplo e, na maior parte das vezes, passado pouco tempo de alguma tragédia, a viúva já está a receber das seguradoras aquilo a que tem direito.
 
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Cumulonimbus
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10 Abr 2008
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Albufeira, um terrível conto de Haloween

Tal como o mais amplo dos sorrisos pode, por vezes, esconder o mais terrível dos dramas, também o Algarve tem uma enganadora face solarenga que leva a que, frequentemente, e com consequências devastadoras, nos esqueçamos de outros aspectos que igualmente o caracterizam.

Como, por exemplo, o regime pluvial torrencial. Basicamente, este regime caracteriza-se por intensa precipitação concentrada num curto intervalo, originando caudais elevados nas linhas de água, que rapidamente passam a escoar com grande violência.

Esta particularidade climatérica não é nova, tal como não é novo o reticulado da rede hidrográfica da região, que, apesar de não possuir grandes rios, é marcada por uma miríade de pequenas linhas de água, que passam a maior parte do tempo secas.

A variável está então ao nível da autêntica rebaldaria que progressivamente (e desde há pelo menos 30 anos) se instalou nas bacias hidrográficas das nossas linhas de água, de montante a jusante. A nível nacional este é um problema de primordial gravidade, que interfere com tudo, desde a segurança de pessoas e bens até à própria competitividade das regiões.

E, nesse campeonato, o Algarve é um dos exemplos mais dramáticos de desordenamento paisagístico.

Tome-se por exemplo o calamitoso caso de Albufeira, localidade particularmente fustigada pelo recente temporal. A principal linha de água que contribuiu para o cenário dantesco verificado é a Ribeira de Albufeira, uma pequena ribeira com pouco mais de três quilómetros de extensão, mas cuja bacia hidrográfica, relativamente estreita, se estende até zonas a Norte das Ferreiras.

No quadro das linhas de águas limítrofes mais significativas (Ribeiras de Alcantarilha, a Poente, e de Quarteira, a Nascente), esta é uma bacia pouco expressiva. No entanto, foi suficiente para originar um rasto de destruição.

Se imaginarmos o trajecto percorrido por uma gota de chuva, desde o momento em que aterra num qualquer determinado ponto da bacia hidrográfica de uma linha de água, até ao momento que encontra o oceano, verificamos que não há grandes opções: ou se infiltra ou escorre superficialmente – coloquemos de parte a hipótese de evaporação, face às temperaturas mais reduzidas e ausência de sol…

Não se infiltrando, a gota, a par dos milhões de congéneres, inicia um processo de aceleração e acumulação de energia, numa mistura de Fangio com o Hulk, que só acaba nessa grande reunião familiar que é o mar. E tal como numa pista, quanto melhor o piso, maior o peso no acelerador.

Nesse sentido, a bacia hidrográfica da Ribeira de Albufeira é um verdadeiro circuito de Monza…

Se no limite setentrional da bacia ainda existem áreas propícias à infiltração das águas, a par de outras completamente impermeabilizadas, à medida que nos deslocamos para Sul, e entramos na linha de água da Ribeira de Albufeira propriamente dita, o cenário complica-se dramaticamente.

Não apenas a sua bacia drenante se encontra profundamente alterada, com elevados índices de impermeabilização (gerando o tal efeito de aceleração), como está privada dos elementos naturais de regulação hídrica, sejam os meandros do seu trajecto, as bacias de retenção e dissipação naturais ou a vegetação da respectiva galeria ripícola, entre outros.

A pedra de toque surge com a canalização do troço final da ribeira, e subsequente encaminhamento através do célebre (ou infame) caneiro, ao longo da Avenida da Liberdade, desembocando no Largo Engº Duarte Pacheco e prolongando-se depois ao longo da Av. 25 de Abril até à Praça dos Pescadores.

Sabendo-se que a manutenção não é o nosso forte, estas estruturas, já por si ideias erradas e subdimensionadas – porque a água que o sistema transporta no limite será sempre muito superior à capacidade das mesmas – padecem de falta de limpeza, acumulação de sedimentos e lixo, ligações ilegais de esgotos, entre outras situações que reduzem ainda mais a sua eficácia.

Temos portanto um excesso de água, encaminhado rapidamente e com enormes quantidades de energia acumulada para estruturas com deficiente capacidade de drenagem, encontrando ainda, no caso de localidades litorais, o “obstáculo” da preia-mar: eis os ingredientes de uma catástrofe anunciada.

E se há verdade incontornável no imparável trajecto da água é que, dê por onde der, encontra sempre uma saída.

Neste caso, violenta, colmatando e assoberbando rapidamente os frágeis sistemas de drenagem e espalhando-se pelas suas áreas de inundação natural – os vales como aquele em que o caneiro se insere são isso mesmo –, também conhecidos como leitos de cheia, hoje copiosamente ocupados.

Tudo em nome de um conceito de progresso de betoneira e de um modelo económico baseado no vampirismo, cuja expressão em termos de construção de paisagem é a proliferação desregrada e descontrolada de edificação, da qual Albufeira é somente um exemplo, ao qual se poderiam juntar muitos outros, já que este é um processo que no Algarve deixou poucas excepções.

Nestes momentos de aflição, destruição e verdadeira tragédia para todos aqueles que perderam os seus bens, meios de subsistência e até a vida, estas questões tornam-se gritantemente importantes. Mas, ultrapassado o drama, e regressado o Algarve solarengo, e a necessidade de amontoar mais e mais camas turísticas, o assunto não ocupa lugar de destaque nas preocupações da sociedade.

Daí que o exercício de procura de bodes expiatórios, porque circunstancial, não passa de uma vã caça às bruxas.

Outra coisa seria se fosse levado a cabo um diagnóstico sério e profundo das reais causas do problema, acompanhado de vontade, coragem e recursos para rectificar tudo aquilo que está mal e, já agora, prevenir a repetição do erro, o que não acontece.

Repito-me afirmando que Portugal, e o Algarve em particular, embalado por um clima geralmente generoso, espera sempre o melhor, preparando-se para o óptimo, quando outros, mais batidos nestas coisas, esperam o pior, e preparam-se para o péssimo. É por isso que massificamos alegremente a ocupação litoral, e não nos preocupamos com as construções em zonas sensíveis, como sejam leitos de cheias de cursos de água.

Se com a figura da Reserva Ecológica Nacional não foi possível evitar este estado de coisas, após a sentença de morte que foi já passada a esta figura de gestão territorial, e que marca o fim de um conjunto de aspirações a País civilizado que Portugal em tempos teve, a coisa só tende a piorar.

Infelizmente, este não foi o último capítulo desta história.

http://www.sulinformacao.pt/2015/11/albufeira-um-terrivel-conto-de-haloween/


 

jonas_87

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De noite, procurava apenas perceber o que teria acontecido. Não fazia intenções de publicar. Trata-se apenas de um rascunho.

kgxR7a8.jpg

Para onde escorrem os 10 centímetros de água que caíram naqueles campos delimitados por: Alpouvar, Vale de Santa Maria, Pátio e Caliços?

hL9AMj1.jpg


Parece-me, assim à partida, que Albufeira é uma barreira à água que ali se acumulou. A água inundou os campos e teve que correr para algum lado.

Aqui vai a carta militar, ainda que um pouco antiga, ajuda a perceber bem o relevo e fundamentalmente a rede hidrográfica bastante densa diga-se.
Claro que área urbana aqui presente pouco representa a actual cidade de Albufeira, mas sempre temos o google earth / Bings maps para completar essa parte.
Encostas com declive valente, muitos valeiros com respectivas linhas de água, a convergir para uma ribeira entubada, ou então a rede hidrográfica foi alterada pela CMA lol

9QxaavR.jpg


Mais a norte

vurxllP.jpg


Com zoom centro de Albufeira

8b15kw2.jpg
 
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Agreste

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vamos ter de assistir ao ridículo de ser a CMA a destruir o parque urbano pelo ambiente natural que lá estava 6 anos depois da obra. Aprendemos todos e talvez o problema se resolva com 1 ou 2 milhões de euros.
 
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Alguém já ouviu as pérolas de um sr que ao que parece é ministro da adm. interna?

Calvão da Silva: o que aconteceu em Albufeira foi "uma força demoníaca ou como dizem os ingleses um act of god"

"Não faz ideia as pessoas que já me disseram "sr ministro ja ativei o seguro". Cada um tem um pequeno pé de meia, em vez de o gastar aqui ou além, paga o seguro"
Jornalista - Então e quem não tem seguro?
"Quem não tem seguro aprende em 1º lugar que é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro"

...

Até, em certa medida, concordo com o ministro da Administração Interna, a maioria está sempre dependente do Estado, para pagar os seus próprios prejuízos, quando existe seguro para esses fins.

Quem devia pagar os prejuízos era a Câmara Municipal, ela é que é a culpada do que sucedeu ontem, fazer obras como canalizar ribeiras para construir em zonas de leito de cheia, depois querem que o governo declare estado de calamidade, estado de calamidade é o que a Câmara criou em Albufeira. A natureza vai sempre buscar o que é dela. Em 2008, já tinha acontecido mas com menor severidade, mas também causou prejuízos.
 
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Algarve tem problemas de ordenamento e falta de esgotos pluviais - Especialista

Um especialista em ordenamento do território defendeu hoje que o Algarve tem "muitos problemas" de organização urbana, com impermeabilização de "vastas áreas" e esgotos pluviais desadequados ao crescimento das localidades, e sem capacidade para suportar chuvadas mais fortes.

"Temos muitos problemas de desordenamento no Algarve, temos um território muito mal organizado e isto é agravado pelo facto de as infraestruturas, neste caso dos esgotos pluviais, não terem acompanhado o crescimento urbano", afirmou hoje o professor da Universidade Nova de Lisboa João Joanaz de Melo.

"O que fizemos foi impermeabilizar vastas áreas com edificações e estradas e não se acompanhou isso com infraestruturas de esgotos pluviais, capazes de suportar uma chuvada um pouco maior", salientou.

João Joanaz de Melo, também dirigente do GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente), falava à agência Lusa a propósito das chuvas intensas que atingiram o Algarve no domingo e provocaram inundações em vários concelhos, nomeadamente em Loulé, Albufeira, Portimão, Olhão e Silves.

Um dos casos mais problemáticos deu-se em Albufeira, onde a Proteção Civil teve de retirar pessoas de habitações e estabelecimentos comerciais inundados.

O professor de engenharia do ambiente da Universidade Nova de Lisboa disse que é necessário ter a noção de que, "quando há pequenas bacias hidrográficas quase completamente impermeabilizadas, isto é inevitavelmente uma receita para o desastre, em caso de chuva forte".

"No Algarve, temos, de uma forma muito desorganizada, áreas urbanas extensas impermeabilizadas e, muitas vezes, mal servidas também por sistemas de saneamento", insistiu.

Nas situações em que se regista uma grande quantidade de precipitação num espaço curto de tempo, "quanto mais impermeável está o terreno, mais água escorre à superfície em vez de se infiltrar" no solo, e quando existem ruas e estradas, explicou João Joanaz de Melo, "essa concentração é muito rápida".

Por isso, "nas cidades estamos a ter cheias mais graves do que no campo porque no campo a maior parte da água vai infiltrar-se na terra".

A juntar às questões da impermeabilização do território e à dimensão desadequada do saneamento, o dirigente do GEOTA refere a construção em leito de cheia.

"Um outro aspeto, especialmente significativo no Algarve, é o problema da construção em leito de cheia", área ao lado de um rio ou ribeira, que só inunda em episódios de chuva muito intensa, concentrada em pouco tempo.

João Joanaz de Melo alerta ser "muito importante que o leito de cheia não tenha construções permanentes" e seja antes utilizado para jardins ou parques.

Fonte: LUSA
 

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Cumulonimbus
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29 Nov 2010
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Vila Velha de Ródão
No caso de Albufeira e respectivo Polis, aparentemente alguém se esqueceu de consultar as estações do INAG em redor!

Dados extraídos da estação de ALGOZ (31H/02C) ( http://snirh.pt/index.php?idMain=2&idItem=1&objCover=920123704&objSite=920685954 ), para precipitações diárias (mm) superiores a 50 mm. Dá para pensar o porquê?

SNIRH - SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÃO DE RECURSOS HÍDRICOS
ALGOZ (31H/02C)
,Precipitação diária (mm),FLAG,Precipitação diária máxima anual (mm),FLAG,Precipitação horária (mm),FLAG,
04/12/1990 09:00,105.5,(vco),105.5,,,, 105,5
21/12/1983 09:00,81,(vco),81,(vd),,, 81,0
19/10/1979 09:00,78.4,(vco),78.4,,,, 78,4
11/11/1988 09:00,77.5,(vco),77.5,,,, 77,5
04/12/1989 09:00,69.5,(vco),69.5,,,, 69,5
20/11/2005 09:00,67.1,(vau),67.1,(vc),2.6,, 67,1
08/03/1996 09:00,66,(vco),66,,,, 66,0
11/12/2001 09:00,66,(vau),,,6.2,, 66,0
06/12/1984 09:00,64,(vco),64,,,, 64,0
22/09/2001 09:00,63.7,(vau),,,0,, 63,7
01/11/1993 09:00,63.5,(vco),63.5,,,, 63,5
07/11/1982 09:00,59.5,(vco),59.5,,,, 59,5
12/12/2001 09:00,59,(vau),,,0,, 59,0
18/12/1997 09:00,54.4,(vco),54.4,(vc),,, 54,4
16/09/1986 09:00,53,(vco),53,,,, 53,0
06/05/2000 09:00,51.5,(vco),51.5,(vc),,, 51,5
 

Aristocrata

Super Célula
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28 Dez 2008
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Paços de Ferreira, 292 mts

Interessante.
Reparei também naquela "ponte" a meio da ribeira, já a estrangular aquilo. Obviamente que já faziam asneiras, mas não como nos últimos 30 anos...
Repare-se que a ribeira tinha uma dimensão assinalável, certamente tendo sido responsável por tal o fluxo das inundações com períodos centenários de retorno.
 

Agreste

Super Célula
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29 Out 2007
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Aljezur (48m) - Faro (11m)
o que é a lagoa dos salgados senão uma bacia de retenção para conter a cheia do barranco que passa pelo zoomarine? o zoomarine também ocupa área inundável ou não?