Olá a todos, Abro este tópico para pedir alguma informação sobre a floresta nativa portuguesa, mais especificamente do litoral centro e, se possível, ainda mais especificamente da zona da Figueira da Foz. Num programa da Biosfera, em que abordaram a temática da floresta portuguesa, falam no sobreiro como a espécie nativa predominante das zonas do litoral, e no carvalho alvarinho nas zonas do interior de baixa altitude. Mas gostava de saber ao certo, que espécies se poderão dar bem nesta zona, e quem sabe, num futuro próximo, fazer uma plantação, ainda que pequena, com essas espécies. Deixo aqui o programa da Biosfera: http://www.rtp.pt/play/p1053/e112783/biosfera-xi/288130
Figueira da Foz? Aposto no sobreiro, pinheiro-manso, carvalho-cerquinho. Mais as espécies arbóreas das galerias ripícolas, mas não sou especialista nesse tema.
Concordo com o Frederico. A ver se ponho aqui mais algumas classificações. Lembro-me que o trabalho de Pina Manique e Albuquerque (1954), até estava razoavelmente completo. E descrevia uma floresta portuguesa, em tempos que esta apresentava um melhor estado de conservação e mais perto do original, do que nos dias de hoje. Aqui está: Efeito bioclimático na vegetação ( descrito para Portugal continental) : Tabela 3.18. Classificação bioclimática de Pina Manique e Albuquerque (Portugal continental) (1954). Símbolo Zona notas Parâmetros climáticos Série transversa (E-W) no norte do país – nível basal A X MA Litoral. Pinheiro-bravo e Quercus robur. Porto. Q2>100 MA Mediterrâneo - atlântica Pinheiro-bravo e Quercus robur. Vilar de Barrô. Q2>100 MA X AM Quercus faginea ssp. faginea. Régua. 600≤P<900 AM Atlante-Mediterrânea Quercus faginea ssp. faginea. Folgosa. 600≤P<900 AM X SM Sobreiro e Quercus faginea ssp. faginea. Pinhão. 600≤P<900 SM Submediterrânea Sobreiro em pleno. Malvedos. 600≤P<900 SM X M X IM Zona de transição. Pluviosidade anual e estival um pouco superior ao observado na zona seguinte (M X IM). Sobreiro, amendoeira e azinheira. Vesúvio. Q2<50 M X IM Clima semi-árido, segundo Emberger. Amendoeira, azinheira. Barca d’Alva. Q2<50 Série transversa (E-W) no norte do país – nível submontano (450 m ) SA X MA Mediterrâneo - atlântica Castanheiro, Quercus, pyrenaica, Quercus robur, pinheiro-bravo. Ribeira de Pena. P>1000 SAXMAXAM Castanheiro, Quercus pyrenaica, Quercus robur, Quercus faginea ssp. broteroi, pinheiro-bravo. Vila Real. P>1000 SA X AM A tlante-Mediterrânea Castanheiro, Quercus pyrenaica, Quercus faginea ssp. broteroi. Sabrosa. P>1000 SAXAMXSM Castanheiro, Quercus pyrenaica, Quercus faginea ssp. broteroi, sobreiro. Alijó. P>1000 SA X SM Submediterrânea Castanheiro, Quercus pyrenaica, sobreiro. Vila Flor. Q2<100 AS X I X SM Castanheiro, Quercus pyrenaica, sobreiro, azinheira. Freixo de Espada à Cinta. Q 2 < 100 Série montana no norte do País BA Boreo-atlântica Juniperus communis. A partir de 1900 m de altitude, na S. Estrela. k>7,0 AO X BA Juniperus communis e bétula. A partir de 1700 m de altitude, na S. Estrela. k>7,0 AO Oro-atlântica Juniperus communis, Pinus sylvestris, bétula, teixo. A partir de 1300 m de altitude, na S. da Estrela. k>7,0 SA X OA Bétula, teixo, Quercus pyrenaica, Quercus robur. A partir de 1000 m de altitude, na S. Estrela. k<7,0 SA Subatlântica Na S. Estrela: bétula, teixo, sobreiro, Quercus pyrenaica. Noutras serras: Quercus pyrenaica. A partir de 700m de altitude. k<7,0 A X SA Zona mais atlântica das representadas em Portugal continental. Castanheiro, bétula, Quercus pyrenaica, Quercus robur. Vertentes cismontanas dos relevos do norte (da Peneda á Estrela). P>1500; Pe>100 I X SA Zona de transição para climas continentais. Carvalho negral e azinheira. Miranda. P<900 I Ibérica Plena continentalidade ( não representa em Portugal continental). Série transversa (E-W) no centro e sul do país MA X AM Elevado grau de oceaneidade. Quercus robur, Q. faginea ssp. broteroi. Cabo Carvoeiro Q2>200 AM Atlante-Mediterrânea Clima húmido, segundo Emberger. Quercus faginea ssp. broteroi. Lisboa. P<550 AM X SM Clima sub-húmido. Quercus faginea ssp. broteroi, sobreiro. Santarém. P < 5 5 0 SM Submediterrânea Sobreiro. Alvega. P<550 SM X IM Azinheira e sobreiro. Ferreira do Alentejo. P<500 IM Ibero- Mediterrânea MediterrânIca semi-árida de tendência continental. Azinheira. Beja. Q2<50 Série do Vale do Guadiana (S-N) M Eumediterrânea Amendoeira e alfarrobeira. Vila Real de Santo António. Pe<10 M X IM Azinheira, alfarrobeira, amendoeira. Alcoutim. Q2<50 IM Ibero- Mediterrânea Azinheira. Moura. Q2<50 Série da Costa Vicentina e Serra de Monchique ÅM Termo-atlante- Mediterrânea Condições climáticas quase insulares ÅM X SM Ambiente subtropical de feição macaronésica, com influências submediterrânicas. Sobreiro, Myrica faia, Quercus canariensis. Zona costeira entre Melides e perto do Cabo de São Vicente; Serra de Monchique, abaixo de 400m. Q2<100 SM X SÅ Myrica faia, Quercus canariensis, castanheiro. Serra de Monchique, 400-600 m. P>1000 SÅ Termo-subatlântica Ambiente serrano com influências atlânticas. Myrica faia, castanheiro. Serra de Monchique, acima dos 600 m. P>1000 Tabela 3.17. Série litoral da classificação bioclimática de Pina Manique e Albuquerque (1954). Símbolo Zona notas Proporção da supremacia A/M Parâmetros climáticos Série litoral (N-S) A Atlântica Atlântica genuína ( não representada em Portugal continental). 100/0 A X MA Atlântica galaico-portuguesa Mesotermia estival; chuvas repartidas por todo o ano; mínimos de aridez. Mediterrânica húmida no sist. de Emberger. Quercus robur e pinheiro-bravo. Caminha. 70/30 Pe > 70 MA Mediterrâneo-atlântica Atlântica de tendência mediterrânica. Quercus robur e pinheiro-bravo. Montemor-o-velho. 60/40 50<Pe<70 MA X AM Zona de equilíbrio. Quercus robur, Quercus faginea ssp. broteroi e pinheiro-bravo. Marinha Grande. 50/50 40<Pe<50 AM Atlante-Mediterrânea Mediterrânica de têndencia atlântica. Quercus faginea ssp. broteroi. Lisboa. 40/60 30<Pe<40 AM X SM Mediterrânica atenuada. Quercus faginea ssp. broteroi e sobreiro. Setúbal. 30/70 SM Submediterrânea Sobreiro e zambujeiro. Alcácer do sal. 20/80 SM X M Amendoeira e sobreiro. Bravura. 10/90 10<Pe<30 M Eumediterrânea Mediterrânica genuína. Inverno suave; estio seco, longo, macrotérmico. Faro. Amendoeira e alfarrobeira. 0/100 Pe<10 Aqui fica uma resenha das formações vegetais principais ou até associações culturais (atenção: a amendoeira não é nativa). Um link interessante: http://www3.uma.pt/alfa/bioclimatologia_pt.html Aqui está um tópico também interessante: http://www.meteopt.com/forum/biosfe...laurissilva-em-portugal-continental-4714.html
Boa noite, Deixo aqui mais um link de trabalho muito recente, que pode ser útil: http://www.icnf.pt/portal/florestas/gf/prdflo/ssp-arb-indig Lá há mais orientação bibliográfica para o que os temas que DMigueis lança. B.
Muito obrigado a todos! Essa informação de certeza que vai ser bastante útil para aquilo que pretendo, que é criar uma área, ainda que muito pequena, com árvores autóctones, para fazer frente aos eucaliptos e acácias que dominam a zona... Entretanto, com uma pequena pesquisa, encontrei um site com informação também bastante útil e interessante. http://www.florestar.net/index.html
Eu conheço mais ou menos a zona e a árvore que me pareceu ter maior potencial de regeneração foi o sobreiro. A norte e sul da Figueira há extensas zonas arenosas que terão sido espaço do pinheiro-manso no passado. O carvalho-cerquinho também existe na região. No vale do Mondego e braços do vale há muitas espécies de árvores típicas dessa ecossistema, como choupos. Não muito longe houve no passado núcleos de carvalho-alvarinho, mas seria uma árvore rara na região. Mesmo nos arredores de Coimbra, onde a precipitação já é mais elevada, domina claramente o sobreiro. Acho que o carvalho-alvarinho só domina a norte de Aveiro.
Artigo muito bom sobre a presença de carvalho-alvarinho na província de Badajoz. Aí a árvore surge acima dos 600 metros de altitude e é muito rara nos dias que correm. http://www.researchgate.net/publica...rz)_A.Camus_en_Extremadura_(Espaa)?ev=prf_pub
Encontrei um trabalho que refere a presença de carvalho-alvarinho na serra da Ossa. A ser verdade vai de encontro à presença da espécie na província de Badajoz. Parece assim que o roble teve num passado recente uma distribuição muito mais vasta. http://www.iambiente.pt/website/estatico/pdf/II_03.pdf
Penso que ainda não foi mencionado aqui, mas neste tópico falam num bosque de carvalho negral que desde pequeno me lembro de ver e achar estranho naquele local : Segundo ouvi dizer, é um resquício de tempos mais frios.
Segundo bibliografia que coloquei acima o roble chegava à serra de Aire. O negral existe na serra de Cádis, portanto não me admira que marque presença nas serras de Aire e Candeeiros.
Bom dia! Qual seria a floresta nativa ancestral em tempos idos, antes da actividade humana, no Alentejo? Sendo o montado uma invenção humana... o que havia antes eram bosques cerrados de azinheiras e sobreiros? Obrigado desde ja
A floresta nativa portuguesa, era composta da mesma variedade de árvores que existe hoje (excepto eucaliptos, acacias e outras árvores tropicais ou sub-tropicais). Temos de imaginar o território sem influência humana, isto é, um território onde as mesmas espécies dominam umas em relação a outras consoante o clima, mais humido ou menos humido, mais frio ou mais quente, próximo ao mar ou de grande altitude. Façamos o seguinte exercício mental, em que vamos plantar em Portugal continental inteiro, em igual proporção, misturadas as seguintes espécies e mais algumas: - sobreiro - azinheira - carvalho (4 ou 5 espécies) - loureiro - medronheiro - pinheiro (3 ou 4 espécies) - teixo - faia - choupo - amieiro - azereiro - piroliteiro - carrasqueiro - salgueiro - etc.. A seguir deixamos todos Portugal, viajando no tempo e voltamos daí a 500 anos. O que iríamos observar? Pinheiros no interior em altitude, com algum clima humido. Azinheiras e sobreiros maioritariamente onde o verão é mais quente e seco, mas um pouco por todo portugal. Carvalhos, cujas diferentes espécies se adaptam melhor, por todos os climas. Ex: quercus pirinaica nos locais mais secos ou de verão quente. Um pouco por todo o país: medronheiros e loureiros. Nas margens dos rios e ribeiras: amieiros, salgueiros, faias, choupos.. Em locais mais humidos e frios, mas de menor altitude: castanheiro, faia, tilia.. Conclusão: temos as mesmas árvores, mas sujeitas a ordenamento florestal. Sem a atividade humana, sobrevivem as que dominem em função do clima, solo, altitude, enfim, segundo as condições edafoclimáticas. Ps: logicamente que não enumerei nem metade das espécies..
..Ao fim de 500anos, o resultado seria óbvio: pinheiros muito menos, azinheiras e sobreiros muito mais. Carvalhos e medronheiros muito mais. Localizados, mas em muito maior número, teríamos loureiros, castanheiros e restantes árvores. Uma pequena ressalva: para além de não poder haver mão humana, teríamos de colocar a correta proporção e número de fauna pré-existente. É que.. A haver fogos naturais, teria de haver fauna que consumisse os matos, caso contrário o pinheiro iria vencer o carvalho e o castanheiro. Sem pastoricia, o teixo ia também vingar na serra da estrela e trás-os-montes.
Eu tenho algumas descrições (que posso colocar aqui para quem quiser) da flora que tivemos em periodos passados até tempos relativamente recentes, e posso dizer que as associações floristicas que existiram são ainda mais complexas do que a maior parte das pessoas pensa. Só para dar uma pequena ideia: apenas na Estremadura, podiamos ter florestas de pinheiros-silvestres, de tilias e carvalhos como de florestas de zambujeiros ou até de laurissilva. A laurissilva estava certamente melhor representada no Mesolítico que nos dias de hoje e ainda que não tão diversificada como há 500.000 anos atrás ou como na Ilha da Madeira. Certas zonas baixas, húmidas e abrigadas davam abrigo a esta reliquía subtropical que em tempos distantes alimentava uma distinta megafauna paleolítica. As árvores no passado também tinham dimensões inacreditáveis para os dias de hoje e é bastante raro ver algum exemplar que lhes faça alguma justiça (mas ainda assim não digo que em média atinjam o mesmo tamanho).
O sobreiro está deslocado dos locais onde existiria antes da intevenção humana, uma vez que foi uma árvore muito cultivada por causa do valor comercial da cortiça. Para além disso, é árvore protegida há séculos, ao contrário dos carvalhos. Do que sei e conheço do Alentejo, a minha aposta é esta. Litoral Alentejano: em solos arenosos, pinheiro-manso e talvez pinheiro-bravo (provavelmente foi introduzido pelo Homem, não se sabe). Sobreiro e nas serras carvalho-cerquinho. No concelho de Odemira, carvalho-de-Monchique e castanheiro, nas partes mais altas das serras. Baixo Alentejo interior: concelhos de Almodôvar, Ourique, Mértola, Moura, Castro Verde ou Barranco. Domínio claro da azinheira e zonas de estepe com clima semi-árido. Sobreiro presente na serra do Mu no concelho de Almodôvar e nos contrafortes da serra Morena na região de Barrancos. Alentejo beirão: região em torno da serra de São Mamede. Carvalho-negral, sobreiro, castanheiro e sub-espécie de carvalho-alvarinho. Azinheira nas terras baixas. Talvez carvalho-cerquinho. Serra da Ossa: carvalho-negral, sobreiro. Carvalho-alvarinho nas galerias ripícolas, sub-espécie que ocorre na Estremadura espanhola e no Alto Alentejo. Peneplanície do Alto Alentejo: sobreiro a dominar as regiões mais ocidentais, azinheira a dominar no interior. Acrescentar espécies de galerias ripícolas e de terras baixas onde há acumulação de água nos meses de Inverno. Originalmente o Alentejo teria um quadro paisagístico mais diversificado.