Floresta portuguesa e os incêndios

Eu não digo que não seja necessário, mas a ideia de serem precisas campanhas a alertar para se ter cuidado com beatas, churrascos e queimadas nas circunstâncias actuais, faz-me temer que grande parte dos cidadãos deste país sejam atrasados mentais, sem qualquer ofensa para as verdadeiras vítimas de atrasos cognitivos. Faz-me ter vergonha alheia e é, de certa forma, quase ofensivo para quem tem mais de 2 neurónios funcionais. O pior é que é, aparentemente, mesmo necessário.

Não diria ser preciso chegar ao rótulo de "atrasados mentais".
Mas usando os adjectivos desatentos, distraídos, despreocupados, ou simplesmente desinteressados, é o suficiente para sim, afirmar que sem dúvida há uma enorme parte da população que precisa ser constantemente avisada de "pormenores" desses, para realmente evitar comportamentos de risco.

A atenção/sensibilidade do cidadão "comum" para a meteorologia é mínima. Sejamos realistas. Se por si só não estão a par das reais condições meteorológicas e funcionam em grande parte quase como o calendário dos "burocratas" tão falado nestes dias por causa da fase Charlie, ou simplesmente com um atraso de 1/2 dias em relação ao tempo que fez de véspera (o típico ser apanhado desprevenido com chuva só porque na véspera esteve calor, ou ir de casaco num dia de 30º porque na véspera esteve fresco ou encoberto ou só porque é Outubro), então será para as consequências secundárias que resultam da meteorologia que vão estar realmente atentas ou sensibilizadas?
ÓBVIO QUE NÃO!

E esperar que isso mude é um erro, e não estou a dizer que as pessoas deveriam obrigatoriamente estar a par disso. Nós somos "maluquinhos do tempo" e somos uns poucos, uma gota-de-água no oceano, e isso é como é, gostos são gostos... Não vai mudar. Portanto ou nós, ou agentes com responsabilidade civil, terem a ideia utópica que as pessoas estão dentro destes assuntos no dia a dia por iniciativa própria...? Isso é um erro crasso, é falta de noção da realidade.
Claro que as pessoas têm de ser alertadas e relembradas dessas coisas por quem de direito! Tal como eu devo ser informado por quem de direito sobre outros assuntos/deveres de importância pública sobre os quais não tenho qualquer conhecimento de causa ou gosto pessoal. Há que ser realista...

É uma realidade que certas coisas por mais "básicas" ou "primárias" que pareçam a pessoas desta área, e/ou a pessoas que têm a iniciativa pessoal de ser informadas, não o são para a maior parte da população.. E se assim é, é preocupante que não haja essa "propaganda" ou chamada de atenção, ou sensibilização, por parte de governo, protecção civil, e bem anunciadas nos meios de comunicação, em particular na TV.

Certamente se em vez de se falar apenas nas belas imagens do furacão no mar e etc etc, nos noticiários, e nos fogos só quando estão a ocorrer, se nos intervalos dos programas da Julia, e do Preço Certo houvesse sensibilização/informação séria e bem coordenada, talvez muita gente tivesse evitado certos comportamentos no dia fatídico, talvez não tivesse havido metade das pessoas a ter comportamentos que levaram a tanto incêndio.
Talvez, ou talvez não, é um bocado incógnita na verdade...
 
Há cinquenta anos as ideias não eram muito diferentes das que existem hoje...
http://www.bombeirosdeportugal.pt/Memoria/incendios-florestais=157

Trata-se de um problema estrutural que nunca foi resolvido e é consecutivamente relegado para segundo plano quando os fogos florestais dão tréguas no início do Outono.
Muito bem recuperado! Há mais de 50 anos já os bombeiros sugeriam como acabar com a maior parte dos incêndios, os meios humanos eram mais os meios tecnológicos eram menos e passaram-se 50 anos e não se fez quase nada...
 
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O Ophelia contribuiu, claro que sim. Mas sem mão humana não havia incêndios.

(passei para aqui a resposta, para ser mais adequado o tópico)

Mas isso nem se põe em questão, isso é uma "não questão". A mão humana está em 90% ou mais dos incêndios. Mais que sabido, com ou sem Ophelia...

O meu comentário não era "lavar de mãos" da responsabilidade humana. Como sempre ouvi dizer: "não tem o cu a ver com as calças". :D
Era simplesmente um comentário factual. Sem a Ophelia, não teriam havido condições meteorológicas "explosivas" como houve nesse dia, e ocorrendo exatamente a mesma mão humana e os mesmos comportamentos, não teria acontecido o que aconteceu.
 
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Por acaso os incêndios em propriedade minha começaram em setembro 1989... de origem negligente porque alguém decidiu amolar um machado à porta de casa. Naquele tempo, sem fundos comunitários, a ajuda do estado cifrou-se num cheque de menos de 10 escudos. Coisas que já ninguém se lembra.

Depois em 1993 ardeu de novo... estava vento sueste forte e duas fases de um cabo de média tensão tocaram-se e começou um incêndio.

Acompanhando as 2 ocorrências milhentas teorias de fogo posto e origem criminosa.
Ontem e hoje, o que mudou? Só a propriedade privada que dividiu em bocados cada vez mais pequenos, as cooperativas agrícolas morreram e o egoísmo que cresceu na proporção inversa assim como o abandono.

Obrigado, por partilhares Agreste!

De qualquer forma a solução deve respeitar sempre o direito à propriedade privada, consagrado na constituição. Vive-se um clima de impunidade total: o estado desresponsabiliza-se e tem uma incompreensível aversão a gastos de prevenção, os municípios não exercem os deveres para que foram mandatados, a justiça não é exemplar e peca por tardia.

O crime por negligência é visto como uma mera falha humana. Houvesse tempo efetivo de prisão e decerto muitos veriam a justiça com outros olhos de ver.

Nota: lembrei-me agora de um episódio relatado na TV, de um caso negligente que roça o ridículo, tal é o medo que se tem da justiça. Imagina só, que vais fazer um churrasco ao campo, e então tens a "feliz" ideia que podes levar já as brasas no carro e assim poupas tempo. Pois bem, ao que parece o dito sr. transportou as brasas numa carrinha de caixa aberta, até ao seu destino. Conclusão: foi responsável por 11 focos de incêndio.
 
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Não diria ser preciso chegar ao rótulo de "atrasados mentais".
Mas usando os adjectivos desatentos, distraídos, despreocupados, ou simplesmente desinteressados, é o suficiente para sim, afirmar que sem dúvida há uma enorme parte da população que precisa ser constantemente avisada de "pormenores" desses, para realmente evitar comportamentos de risco.

A atenção/sensibilidade do cidadão "comum" para a meteorologia é mínima. Sejamos realistas. Se por si só não estão a par das reais condições meteorológicas e funcionam em grande parte quase como o calendário dos "burocratas" tão falado nestes dias por causa da fase Charlie, ou simplesmente com um atraso de 1/2 dias em relação ao tempo que fez de véspera (o típico ser apanhado desprevenido com chuva só porque na véspera esteve calor, ou ir de casaco num dia de 30º porque na véspera esteve fresco ou encoberto ou só porque é Outubro), então será para as consequências secundárias que resultam da meteorologia que vão estar realmente atentas ou sensibilizadas?
ÓBVIO QUE NÃO!

E esperar que isso mude é um erro, e não estou a dizer que as pessoas deveriam obrigatoriamente estar a par disso. Nós somos "maluquinhos do tempo" e somos uns poucos, uma gota-de-água no oceano, e isso é como é, gostos são gostos... Não vai mudar. Portanto ou nós, ou agentes com responsabilidade civil, terem a ideia utópica que as pessoas estão dentro destes assuntos no dia a dia por iniciativa própria...? Isso é um erro crasso, é falta de noção da realidade.
Claro que as pessoas têm de ser alertadas e relembradas dessas coisas por quem de direito! Tal como eu devo ser informado por quem de direito sobre outros assuntos/deveres de importância pública sobre os quais não tenho qualquer conhecimento de causa ou gosto pessoal. Há que ser realista...

É uma realidade que certas coisas por mais "básicas" ou "primárias" que pareçam a pessoas desta área, e/ou a pessoas que têm a iniciativa pessoal de ser informadas, não o são para a maior parte da população.. E se assim é, é preocupante que não haja essa "propaganda" ou chamada de atenção, ou sensibilização, por parte de governo, protecção civil, e bem anunciadas nos meios de comunicação, em particular na TV.

Certamente se em vez de se falar apenas nas belas imagens do furacão no mar e etc etc, nos noticiários, e nos fogos só quando estão a ocorrer, se nos intervalos dos programas da Julia, e do Preço Certo houvesse sensibilização/informação séria e bem coordenada, talvez muita gente tivesse evitado certos comportamentos no dia fatídico, talvez não tivesse havido metade das pessoas a ter comportamentos que levaram a tanto incêndio.
Talvez, ou talvez não, é um bocado incógnita na verdade...

Muitas e boas ideias.
No entanto, não me convences que um cidadão ou cidadã pensante tenha que ser relembrado que é capaz de não ser boa ideia fazer queimadas e churrascadas em meio rural/florestal com trinta e tal graus de temperatura e seca extrema. A seguir vem o quê? Uma campanha a avisar que estar no meio de uma auto-estrada pode trazer perigo de atropelamento? Isto nada tem a ver com ter conhecimentos específicos em determinada área. É apenas e só bom senso. Decência, até.
 
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Todos os dias, os telejornais têm 5 ou até 10 minutos de "notícias" só para encher "chouriços". Antigamente, passava a meteorologia logo a seguir ao telejornal.. Penso que não custava assim tanto, ter uma rúbrica dedicada à meteorologia e aos alertas/avisos diariamente.

Um anúncio de TV ou uma peça de encher chouriços vale mais que uma vida?

Transportar brasas numa carrinha de caixa aberta, se não é revelador de algum atraso mental, anda perto!
 
Eu não digo que não seja necessário, mas a ideia de serem precisas campanhas a alertar para se ter cuidado com beatas, churrascos e queimadas nas circunstâncias actuais, faz-me temer que grande parte dos cidadãos deste país sejam atrasados mentais, sem qualquer ofensa para as verdadeiras vítimas de atrasos cognitivos. Faz-me ter vergonha alheia e é, de certa forma, quase ofensivo para quem tem mais de 2 neurónios funcionais. O pior é que é, aparentemente, mesmo necessário.

Eu no post que escrevi, em que falei das falhas ao longo dos anos, coloquei lá que um dos erros dos sucessivos governos, é mesmo a falta de educação sobre cidadania e civismo, e isso reflecte-se também nisso. Não são atrasados mentais necessariamente, mas não têm qualquer respeito pelo próximo e pelo que é público, e inconscientemente jogam beatas para o chão ou fazem queimadas, e basta andar na estrada para constatar isso mesmo. Não se educa, nem nunca se educou as crianças a saber o que é património público, a ter consciência social e saber proteger o que é deles e o do próximo, a ter pensamento crítico e a ser solidário, entre tantas outras coisas que se notam no nosso dia-a-dia, inclusivamente na forma como se trata este assunto, seja em particular a discussão neste fórum, seja no geral, com o exemplo da Galiza com o associativismo da população para exigir medidas imediatas do governo, quando em Portugal debate-se apenas o porquê de a ministra não ir para a rua ou temos os guerreiros do teclado nas redes sociais que se atacam mutuamente.
 
Isso é falta de noção, se calhar responsáveis também não tem noção. Agora não tenho tempo de procurar mas ainda ontem de manhã havia muitas pessoas a queixarem-se de queimadas num grupo de estrada do facebook, só tinha passado um chuvisco e já havia queimadas por todo o lado, a poucos quilómetros dum grande incêndio ainda em rescaldo a fumegar. E não era uma ou duas, eram dezenas, muita gente partilhou fotografias.
 
Trabalho dos pais. Essa conversa dava para uma tese de doutoramento. Claro está que não se pode transmitir o que não se tem.
Os próprios pais não foram educados, e não, não é só trabalho dos pais. A PROCIV no dia 13 de Outubro faz umas acções com o dia da Terra Treme, para consciencializar a população escolar e através de alguns anúncios a população em geral. Mas com este exemplo, em que gastam algumas centenas (se tanto), e estão presentes em muitas escolas e explicar o que se fazer no caso de um terramoto, também se deve criar mecanismos para que haja uma disciplina, ou alguns professores competentes para falar sobre estes assuntos. (há milhares de opções, é só estudar quais as melhores). Seja como for, a escola é o sítio onde se deve aprender sobre o dever cívico e a ajudar as crianças a desenvolver o pensamento crítico, as autarquias têm a obrigação de educar que não faz parte da população escolar e sim, os pais em casa também têm obrigações, mas não só.
 
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Muitas e boas ideias.
No entanto, não me convences que um cidadão ou cidadã pensante tenha que ser relembrado que é capaz de não ser boa ideia fazer queimadas e churrascadas em meio rural/florestal com trinta e tal graus de temperatura e seca extrema. A seguir vem o quê? Uma campanha a avisar que estar no meio de uma auto-estrada pode trazer perigo de atropelamento? Isto nada tem a ver com ter conhecimentos específicos em determinada área. É apenas e só bom senso. Decência, até.

Óbvio que é bom senso, ou deveria ser, mas......duas coisas:

1) Infelizmente, nem toda a gente tem bom senso. Logo, por mais estúpido que seja, esse bom senso tem que ser "imposto" a quem não o tem. É mais por aí....
2) Acabaste por dizer uma das coisas que eu referi.. A falta de noção/Informação. Se calhar muitas dessas pessoas nem sabem bem as condições, estão "pré-programados" para esses hábitos e nem estão cientes das reais condições. Ou seja, acabamos no mesmo, deveriam saber, deveriam estar informados? SIM! Mas não estão.. Logo que se pode fazer? Tentar o mais possível por todos os meios difundir a mensagem.

Não quero parecer presunçoso, longe disso, pois haverá 1001 assuntos em que sou um total ignorante aparte da meteorologia... Mas achar que maior parte da população vai ser suficientemente consciente para isto, e que vai ter bom senso ou que não vai ser indiferente? É um bocado inocente... Não vai acontecer...
E mesmo que conseguisses miraculosamente incutir esse bom-senso em 90% da população (o que já é por si irrealista) não será suficiente. Basta 10%, ou se calhar 1% ou menos, ter comportamentos sem bom-senso para gerar catástrofes destas num dia excepcional.

No limite... Bastaria 1 maluco VS 9 999 999 pessoas com bom senso para provocar um incêndio capaz de matar 100 pessoas. Não é?

Aparte algum exagero/ironia, se para não haver incêndios graves for preciso ensinar/relembrar a metade da população que "1+1=2", por mais óbvio e básico que seja, então seja! Cabe a quem pode relembrar e "bater no ceguinho" até entrar na cabeça, e especialmente no curto-prazo, na hora, na altura que é preciso evitar os comportamentos.
Porque obviamente para as pessoas que "1+1=2" não for evidente ou não estiver presente no dia a dia, também não vale a pena tentar incutir esse ensinamento a longo-prazo, sem precisar de chamar a atenção nos momentos devidos...
 
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Todos os dias, os telejornais têm 5 ou até 10 minutos de "notícias" só para encher "chouriços". Antigamente, passava a meteorologia logo a seguir ao telejornal.. Penso que não custava assim tanto, ter uma rúbrica dedicada à meteorologia e aos alertas/avisos diariamente.

Um anúncio de TV ou uma peça de encher chouriços vale mais que uma vida?

Transportar brasas numa carrinha de caixa aberta, se não é revelador de algum atraso mental, anda perto!
Eu acho que era necessário um programa tipo TV Rural, moderno que divulgue o mundo rural/florestal com as novas práticas e visões desta rica área. Podia consciencializar e educar!
 
Portugal é o país europeu mais vulnerável a este tipo de fenómenos não só pela sua localização específica mas também devido ao efeito da interioridade e do abandono florestal, caso único a nível europeu. As medidas que deveriam ter sido implementadas há anos continuam em cima de uma qualquer secretária ou dentro de uma gaveta...
 
Para bem da Nação, espero que se volte a plantar a Mata Nacional de Leiria. Vamos ver se não começamos a ouvir sobre operações de loteamento no local!
Eu tb espero! Era o que faltava! Até se pode repensar se só pinheiro ou introduzir outras espécies, mas tem de continuar mata nacional, aliás estas têm de dar o exemplo.
 
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