Como não gosto de fazer demasiados comentários ou "juízos" sobre assuntos que não domino, vou dar apenas algumas impressões ou ideias que me parecem relativamente claras, aos olhos do comum observador exterior, em relação ao assunto da gestão/ordenamento:
Ponto 1 - sem considerar mais factores, parece-me indiscutível que florestas com mais eucaliptos estão mais susceptíveis a grandes incêndios
Ponto 2 - parece-me pelo outro lado inegável que é mais segura uma floresta com eucaliptos e com bom ordenamento, gestão e dispositivo de resposta, que uma floresta mais "nativa" sem esses outros factores
Assim sendo, há sempre aqui um limite de equilíbrio entre estes dois pontos...
Vamos lá ver, o exemplo de terrenos cheios de eucaliptos geridos por empresas com negócio de madeira, onde pouco arde, e tudo é muito bem gerido, prova precisamente o ponto 2. O problema é... Esse tipo de gestão/cuidado exemplarmente realizado por empresas privadas, é muito provavelmente melhor que o comparável em terrenos estatais, e naturalmente incomparável (noutra galáxia) ao de terrenos de particulares, do "pequeno agricultor/proprietário". Ou seja...
Esse grau de eficiência na gestão/prevenção é virtualmente impossível de implementar num curto prazo a uma escala da floresta nacional, e mesmo no longo prazo.. Não sei, aí deixo a opinião para entendidos, mas eu como leigo tenho as minhas dúvidas, a não ser que seja mesmo uma política e medidas muito eficientes e realmente "duras".
Em relação à nova nomeação, vai no sentido do que digo atrás, e na verdade é um bom tira-teimas a algumas destas questões... Quer dizer, pelo menos na teoria...
Acredito plenamente que a pessoa seja competente e pretenda implementar a uma escala nacional gestão e ordenamento das florestas num modelo semelhante ao existente em empresas como a que geriu. Na teoria, tudo fantástico!
Na prática vamos ver, as dificuldades que encontrará pela frente, as barreiras que lhe serão impostas, e a real possibilidade de num prazo razoável conseguir ter alguns resultados positivos.
Isto leva a outra coisa para mim MUITO relevante. Estamos a falar de incêndios catastróficos, que ocorrem a uma escala temporal de décadas, em termos de período de retorno.
Ou seja, é óbvio que sem políticas CONSISTENTES durante DÉCADAS, de nada servirá. E pior, mesmo algum "método científico" para avaliar resultados não terá qualquer real significado durante bastantes anos, passo a explicar:
Cenário 1 - Vários anos sem grandes fogos - Este cenário nos próximos anos em nada verifica ou comprova boas políticas (mesmo que sejam implementadas). Primeiro, anos como este são raros e excepcionais; segundo, muito do que havia para arder ardeu e vai demorar muitos anos a estar "pronto a arder" de novo; terceiro, só por desonestidade se poderia associar anos "bons" já de seguida à implementação de políticas que demoram muitos anos a obter resultados ao nível florestal;
Cenário 2 - Mesmo apesar disto arde já muito nos próximos anos - Aqui aplica-se o raciocínio oposto, também será má-fé culpabilizar já as novas políticas de gestão florestal sem ter a noção que nunca poderão ter resultado a curto-prazo.
Ou seja, daqui a umas boas décadas, quando se repetirem condições teoricamente tão más como estas, e realmente por uma, duas, três vezes, se provar que ainda assim pouco ardeu e quase ninguém morreu, aí sim, podemos falar em políticas de protecção e gestão da floresta eficazes! Até lá...
Até lá...
...na verdade, no curto-prazo, que é o preocupa as pessoas, e que é o que os sucessivos governos têm falhado, ora porque desleixam quando há vários "anos bons", ora porque agem apenas por reacção quando há "anos maus" sem pensar muito mais à frente, quem realmente manda... (obviamente no actual estado da nossa floresta e da nossa prevencão/combate) é a Meteorologia! Não estou a dizer que é a Meteorologia que acende fogos, estou a dizer que nós humanos vamos sempre fazer asneira e ser negligentes e provocar ignições, e que portanto com o actual estado da floresta, infelizmente estamos basicamente à mercê da Meteorologia...
Ainda assim, e ainda neste curto-prazo, não como solução de fundo e de longo-prazo (esperemos que seja desta), obviamente o dispositivo de combate, e organização da Protecção Civil serão a ferramenta mais eficaz que temos para "minimizar os danos". Não evitá-los, mas sim que sejam menos dramáticos.
Mais uma vez, é um assunto que não domino os meandros, mas sendo simplista, e por mais "ineficiente" que seja o dispositivo de resposta aos incêndios (não estou a dizer que é ou que não é), o facto de estar o mais alerta possível e com o maior número de meios disponíveis claro que é uma ajuda essencial. Fazendo um cenário exagerado (que obviamente não acredito ser real), e com números aleatórios obviamente:
- Mais vale ter 10.000 pessoas integrantes de uma estrutura pouco eficiente a dar tudo o que têm para apagar fogos, do que ter apenas 1.000 pessoas integrantes da mesma estrutura pouco eficiente. Acho que é óbvio não é...?
E não tenho grandes dúvidas que em condições exatamente tão más como as de 17 de Junho ou de 15 de Outubro, mas a ocorrer em pleno "calendário burocrático de fogos", a tragédia não seria nem metade, pelo menos ao nível de perdas humanas.
Não seria fácil, iria haver muita área ardida, pois os meios iriam estar focados em defender populações, e por isso mesmo, e ainda que certamente se contabilizassem algumas mortes, tenho 99% certeza que não acabaria desta forma. Em que nada deu para fazer senão basicamente deixar arder ao sabor do vento...
Parece-me demasiado óbvio...