A verdade é que eu vejo cada vez mais clareiras por aí. A lei pode até ser clara, mas muito sinceramente duvido que haja por muita gente a cumprir à risca, ou julgam que há muitos que estão para se dar ao trabalho de andar a fazer medições exaustivas entre árvores, tamanho de arbustos, ervas etc?? A falta de formação científica é geral e a falta de dois dedos de testa também é abismal, e não esqueçamos que a população está envelhecida, por isso grande parte das propriedades pertence a mentes que serão na sua maioria obscuras relativamente a estes temas. Muitos nem saberão distinguir espécies de árvores e arbustos, é colocar uma máquina qualquer e que se faça dali um extermínio completo, já para não falar nos que usam herbicida, que é sempre uma decisão extremamente ecológica

. Isto pode ter repercussões gravíssimas nos ecossistemas se pensarmos na extensão destas áreas, é que 50m de exterminação radical multiplicados por toda a área nacional é muita coisa ainda. A destruição das relações bióticas pode ser grave, poderemos até ter um aumento a longo prazo de determinadas pragas de insetos, por falência de algumas espécies. Estes 50m de descontinuidade julgo que não vão impedir que ocorram incêndios nas casas; quando os incêndios por meios convectivos têm capacidade de produzir rajadas fortíssimas, de que valem 50m se as casas, barracões e afins se possuírem debilidades em termos de materiais inflamáveis? Ainda relativamente a isto das casas e dos incêndios, há algo que a mim me faz muita confusão, que é o facto das câmaras licenciarem construções junto de zonas de grande extensão florestal, se por um lado se aceita deliberadamente que essas pessoas corram riscos relativamente aos incêndios, por outro lado está-se a invadir e hipotecar uma parte daquele ecossistema, invasão essa que é ainda ampliada pela limpeza a que os proprietários dos terrenos circundantes ficam obrigados a fazer, especialmente se decidirem cortar tudo quanto seja verde.
A limpeza será importante para evitar situações mais críticas, mas não é de todo a solução do problema, até porque julgo que se continua a pensar na floresta de uma forma muito particular e localizada e não como um todo no qual deveria haver uma gestão coerente e pensada. As faixas de descontinuidade florestal deveriam ser pensadas, sim, mas no sentido de se criarem estradões e outras passagens úteis à circulação dos bombeiros, mas de uma forma que permitisse minimizar os impactos ambientais, só que isto é algo no qual o governo não se quer meter, pois teria que reembolsar os proprietários e ter equipas localmente a estudar os terrenos. E isto vem na sequência daquilo que me parece ser um ponto no qual as leis pecam, porque até 50m das habitações é preciso intervir o mais possível, ao ponto de até ter sido passada a ideia a alguns de que teria que se cortar tudo, e como ficam as restantes áreas fora dos 50m? Corrijam-me por favor se estiver errado, mas o que interpretei da lei é que essas zonas ficam inseridas dentro das áreas dos 100m em torno dos aglomerados populacionais e/ou sob tutela dos planos de defesa florestal das câmaras municipais. Ou seja, não há legislação específica para o resto da floresta

, muito menos como se deve proceder à sua gestão de combustível, ou ao controlo de espécies e inserção de outras. Veremos de facto o que os munícipios vão fazer, mas palpita-me que isto não vai correr muito bem, até porque esta questão dos planos de defesa intermunicipais já não é de agora e viu-se que efeitos surtiu no passado. Em todo o caso, como é possível o estado manter ou deixar proliferar no resto da floresta determinadas espécies que podem ser nefastas, quer pelas suas características quer pela sua abundância? Citem-se as invasoras (especialmente acácias), o eucalipto (e condenem-me, mas eu ao contrário de muitos continuo a ter uma opinião negativa relativamente a esta árvore, ao contrário do sr. eng. Tiago Oliveira, que até veio dizer recentemente que não há problema nenhum dos eucaliptos ardidos estarem a rebentar, esqueceu-se é que no futuro vão sair aos 2 e 3 eucaliptos, em vez de um só), e mesmo os próprios pinheiros e outras espécies do estrato arbustivo.Ora então porque não fazer um controlo gradual e especifico destas espécies nas restantes áreas onde se encontrem em excesso e introduzir outras autóctones que possam ser mais úteis ao nosso tipo de floresta e às populações de seres vivos residentes? Limitar a plantação de uma determinada espécie agora não basta, como é o caso dos eucaliptos, isto porque afinal de contas, continuamos a ter uma mancha muito grande desta árvore. A conclusão que tiro quanto a isto é que deviam existir leis mais incisivas relativamente às restantes áreas florestais e não me parecem existir, claro que haverá determinadas particularidades que só os municípios saberão avaliar, mas penso que isto vai permitir as câmaras andarem muito à deriva.
Não quero que isto pareça uma crónica de conspiração quanto ao eng. Tiago Oliveira, até porque não tenho as suas habilitações no tema e nem gosto de criticar o que não sei, mas a verdade é que até ao momento, pouco o vi a falar relativamente à floresta, mas sim sobre o SIRESP, bombeiros, proteção civil etc etc, que não sendo menos importante, não confere avanços do ponto de vista das florestas, pelo que anseio profundamente ver os resultados do seu trabalho neste último parâmetro, que para já me parecem muito circunscritos.
Ainda relativamente a alguns artigos que têm por aí circulado no que respeita à distância entre copas das árvores nas áreas de 50m, bom creio que de facto estas distâncias sejam algo exageradas especialmente no que toca a eucalipto e pinheiro e à nem sequer referência das acácias (que pela lei podem proliferar à vontade

), veremos se efetivamente esta medida não vai ser uma bomba-relógio, porque vai implicar gastar dinheiro várias vezes ao ano na sua limpeza (e será que os proprietários o têm?), já que a luz solar vai potenciar o crescimento do estrato arbustivo e herbáceo, não esqueçamos que esta lei é líder no mundo, não há nenhum país a legislar tamanhas distâncias

. De acordo com o que o eng.Tiago Oliveira veio também dizer, muito raramente temos propagação de fogo por copas, mas sim pelas ervas e arbusto, ora esta lei até parece ir contra as suas ideias

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