Gado bovino português e o Auroque

belem

Cumulonimbus
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Touro Maronês na Holanda.
 


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Ao longo do tempo, vou-me apercebendo que muito provavelmente houve a introgressão de diferentes auroques, em algumas das nossas autóctones (sobretudo via paterna ou seja com os auroques machos a cobrirem vacas domésticas).
Todos os que temos aparentemente pertencem ao tronco taurino e o ramo do Barrosão/Cacheno, possivelmente representa uma variação muito mais rara, talvez pertencente à variação norte africana (e estudos morfológicos/arqueológicos indicam que o auroque provavelmente teve origem no Norte de África).
Estudos genéticos indicam a possibilidade de vários auroques que existiam no Sul da Europa terem uma relação próxima com os do Médio Oriente e até com os do Norte de África.
A subespécie ophistonomus ou mauretanicus parece não ser válida e não passar de uma variação regional do auroque euroasiático.
Existiram auroques na Europa, com uma armação mais alta do que o normal, tal como vemos no touro Cacheno postado acima, ainda que não fossem os mais comuns.
Na Raça Maronesa e no Touro Bravo, podemos ver uma variação com uma inserção de chifres mais baixa, que em alguns indivíduos ainda permite atingir o mesmo ângulo que existia em alguns auroques.
No touro bravo, existem numerosas linhagens paternais, completamente únicas e que têm sido associadas ao auroque europeu/euroasiático.
A raça Maronesa, apenas partilha parentes paternos com o touro-bravo, com o Barrosão e com o gado Charolais.
Provavelmente um touro português foi usado como semental principal da raça Charolesa, no passado.

Poderá até ter sido relativamente comum a introgressão do auroque em gado doméstico, em particular em locais onde o gado (em regime extensivo) apascentava ao ar livre, em boa parte do ano (pelo menos durante o Neolítico e a Idade dos Metais).
O que mais surpreende nem é a introgressão (porque o gado doméstico é basicamente um auroque domesticado), mas sim manutenção dos descendentes do auroque até aos dias de hoje (sobretudo mesmo até após a Revolução Industrial).
Como devem calcular, para quem quer gado doméstico, pode não ser sempre vantajoso criar gado mais selvagem (o gado fica mais nervoso, ágil e com chifres mais opulentos). Ainda que apresente também algumas vantagens (gado mais independente, de maior talhe e mais resistente às doenças e aos predadores).
No entanto, e em termos mundiais, houve uma diminuição da diversidade genética do gado, assim como linhagens mais domesticadas foram favorecidas sobre as mais selvagens.
Pode ter ajudado a proteger estas linhagens (em Portugal e em Espanha), o facto de teimarmos em manter gado em grande número em zonas menos propícias para agricultura (montanhas) com o objetivo principal da tração animal (tendo o leite e a carne uma importância secundária) onde a mecanização e as raças mais domésticas tinham mais dificuldade em penetrar.
Também porque foi mantido gado para fins mais insólitos como lutas e espetáculos tauromáquicos (que não podia ser substituído por raças estrangeiras, mais domesticadas e especializadas na produção de leite e carne).
No entanto estas linhagens, de grande valor conservacionista, correm risco de desaparecer, mesmo após ter passado o período crítico da Revolução Industrial.
A teoria que defende a introgressao do auroque europeu nas nossas autóctones ficou agora fortalecida com a publicação de um estudo recente em que usaram um genoma de um auroque do Reino Unido para comparar com o gado doméstico Tal como eu tinha sugerido em cima houve sobretudo introgressão por parte do auroque macho. Eu acho que se tivessem usado um genoma de auroque ibérico para comparar a percentagem de introgressão encontrada (20-25%) ainda seria mais alta. Mas deverá ser um desafio encontrar material ósseo de auroque capaz de albergar um genoma completo e intacto na P. Ibérica... Os autores fizeram menção ao touro bravo ibérico, que apesar de (aparentemente) não ser a raça com maior percentagem de genes de auroque no estudo, possivelmente adquiriu genes que são mais responsáveis pela aparência e comportamento, explicando assim o seu grau elevado de semelhança com o auroque. Apesar de eu ainda acreditar que este aspecto só vai ficar mais resolvido com a inclusão de auroques ibéricos nos estudos genéticos (que aparentemente eram diferentes geneticamente) acho isto bastante possível, sobretudo tendo em conta a pressão seletiva que a raça sofreu ao longo dos milénios e o propósito da sua criação. Mas são cada vez mais raros os exemplares que fazem jus a esta reputação. .
 
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Aqui está o estudo: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2023.07.19.548914v2.full
Atenção que 'Spanish Lídia' é praticamente o mesmo que o nosso touro bravo(Lide). Ambos pertencem genética e morfologicamente ao mesmo grupo (ainda que existam algumas peculiaridades em ambos os lados da fronteira) . Existem, por exemplo haplotipos específicos do touro bravo Português, que não ocorrem em mais nenhuma parte do mundo e o mesmo se passa em Espanha.
 
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