30 anos depois, o PCP encontrou um novo Zenha no PS
O PCP emergiu do 25 de abril disposto a impor a sua hegemonia à esquerda. Daí o PREC, a manifestação da Fonte Luminosa, o 25 de novembro e as eleições democráticas, em 1975 e 1976, que deitaram por terra esse desiderato dos comunistas. Dez anos depois, em 1985, de braço dado com os eanistas do PRD e o dissidente socialista Salgado Zenha, o PCP sonhou de novo suplantar o PS de Mário Soares e tornar-se hegemónico à esquerda. Soares resistiu como poucos, contra tudo e contra todos, derrotou Zenha e o PCP na 1.ª volta das presidenciais (25,4% contra 20,9%) e triunfaria sobre Freitas do Amaral na 2.ª volta (51,2% contra 48,8%).
Dois anos depois, em 1987 – numa situação política e parlamentar muito semelhante à que hoje vivemos, com António Costa e a deriva esquerdista do PS –, os três partidos à esquerda (PS, PRD e PCP), com 140 deputados no Parlamento, derrubaram o Governo minoritário de Cavaco Silva (o PSD tinha 88 deputados e o CDS 22) e tentaram que o Presidente da República nomeasse um Governo das esquerdas – derrotadas nas eleições, mas maioritárias no Parlamento. O Presidente era, então, Mário Soares e travou essa golpada política de secretaria, dissolvendo a AR e marcando novas eleições. Com os resultados que se conhecem.
Daí para cá passaram-se 30 anos, com o PCP remetido ao seu papel de partido de protesto, nostálgico do passado soviético e da sua breve e episódica hegemonia à esquerda no pós-25 de abril. Eis senão quando aparece António Costa a abrir a porta do poder ao PCP e à esquerda radical, esquecendo a matriz antieuropeia e totalitária desses partidos, sujeitando o PS a profundas e dilacerantes divisões internas, arrastando os socialistas para um cenário de pesadelo político a curto prazo.
30 anos depois, o PCP encontrou um novo Zenha no PS. Chama-se António Costa e veio ressuscitar os sonhos comunistas de hegemonia à esquerda.
José António Lima
SOL
Em Abril de 1987, uma moção de censura derrubou o Governo minoritário de Cavaco Silva. O PS, o PRD e o PCP tentaram concertar uma alternativa de esquerda. Mário Soares recusou-a, dizendo que essa maioria “não era coerente”. Provavelmente, Cavaco Silva fará agora a mesma coisa, usará até a expressão de Soares, dizendo que a maioria de esquerda “não é coerente” e pode mesmo evocar esse episódio.
Se assim for, mantém o actual Governo em funções de gestão corrente, até que o novo Presidente da República resolva a questão, provavelmente dissolvendo o parlamento e convocando novas eleições, o que só pode acontecer em Abril do próximo ano.
Sérgio Ferreira Borges
Luxemburger Wort