Os políticos não conhecem a realidade social do país e ao aumentar o salário mínimo estão também a aumentar todos os outros salários... e estão a provocar falências. Vou dar um exemplo prático.
Imagine-se que há duas padarias num concelho alentejano a produzir pão de tipo alentejano de 800 gramas. A padaria A vende o pão a 1 euro e a B a 1.50 euros. Vamos então perceber a origem desta diferença enorme no preço.
PADARIA A
É gerida por um casal de ex-emigrantes que se reformaram e voltaram para a aldeia. Contudo as filhas do casal estão no desemprego e decidiram abrir o negócio para ajudar as filhas e os netos, que estão em Lisboa. A senhora Laurinda faz o pão com a ajuda da irmã, uma senhora de 70 anos. O marido, o senhor Manuel, vende ao domicílio, com uma carrinha de distribuição, pelos aldeias e vilas da região. Não pagam salários, compram a farinha a preço reduzido à moagem local e não declaram parte das vendas. A padaria foi feita numa garagem anexada à moradia, à saída da aldeia. Teve licença há dez anos e não cumpre a maior parte das regulamentações de higiene e segurança actuais, mas como fica num sítio isolado e a produção é muito baixa, passa despercebida às autoridades.
Como não pagam salários nem declaram parte das vendas, e não cumprem regulamentações de higiene e segurança, os proprietários conseguem vender o pão a um baixo preço. Os lucros são baixos, mas não se preocupam pois têm uma aposentação de França, e o que ganham chega para ajudar as filhas e ir pagando a farinha, a lenha do forno e o gasóleo.
PADARIA B
Fica na cidade, sede do concelho. Foi construída ainda no tempo do Estado Novo, numa altura em que os proprietários tinham de ser organizar em cooperativas. Naquela altura foi construída fora da cidade, mas entretanto esta cresceu e agora está rodeada de prédios. Recentemente um emigrante comprou um apartamento perto do edifício e fez uma queixa por causa do fumo. Os proprietários foram obrigados a fazer obras nas chaminés que custaram 10 mil euros.
A padaria B tem 10 empregados e paga os salários recomendados pela associação do sector. Ninguém recebe o salário mínimo, mas sempre que este sobe os salários sobem. Além do salário mínimo, há que pagar a Segurança Social, os seguros, o subsídio de alimentação, a Medicina no Trabalho, o 13.º e o 14.º mês. Nos empregados com contrato a prazo, quando este não é renovado, a lei obriga ao pagamento de uma compensação que pode ascender aos 750 euros ao fim de dois anos.
A padaria B tem 4 carrinhas de distribuição. Recentemente uma avariou e a conta ascendeu aos 2000 euros. A despesa em gasóleo em elevada, assim como em seguros e arranjos.
A ASAE já visitou várias vezes a padaria B. Não houve problemas, uma vez que a padaria paga serviços a uma empresa de segurança e higiene, que custam mais de 1000 euros por ano. É obrigada a tal, pois fornece grandes superfícies. Além disso, tem de analisar a água e o pão e apresentar as análises a alguns clientes. Em obras para cumprir as regulamentações actuais, já gastou mais de 50 000 euros nos últimos anos. O último forno que comprou custou ainda 40 mil euros. A amassadeira avariou há um ano e os proprietários foram obrigados a comprar uma em segunda mão por não terem fundos para uma nova.
A padaria B não foge ao fisco. Apesar de ter uma produção elevada, nos últimos anos todos os lucros foram gastos em obras, arranjos e carrinhas de distribuição novas. Por tudo isto, o pão é vendido a 1.5 euros, o preço praticado nas capital do distrito. Contudo, os clientes têm descontos que podem ascender a 40%, portanto o preço médio de venda é muito inferior ao preço de venda ao público. Se a padaria B descer o preço, tendo em conta que dificilmente conseguirá renegociar os descontos, terá prejuízo.
Em meses de menor produção e com pagamentos de subsídios ou com obras, os proprietários têm tirado pouco mais que um salário médio. Tem sido assim desde que começou a crise. Se os salários aumentarem, serão obrigados a aumentar o preço do pão. Contudo dada a concorrência de padarias como a padaria A, correm o risco de perder ainda mais clientes, depois de terem perdido uma elevada quantidade desde que as padarias como a padaria A proliferaram.