O que mais me chateia nesta resistência à consagração legislativa do crime de importunação sexual não são os neandertais a grunhir que lhes estão a coarctar a liberdade de expressão, nem as mulheres que, pasme-se, se colocam do outro lado da barricada como se, pelo facto de serem mulheres, pudessem ter algo a dizer sobre a forma como EU me sinto em relação aos comentários que me fazem na rua. O que mais me chateia é que esta resistência, como dizia a
Fernanda Câncio, tem tudo a ver com o domínio masculino do espaço público. A primeira vez que eu ouvi um velho com idade para ser meu avô a dizer-me algo demasiado nojento para reproduzir aqui devia ter os meus 7/8 anos. Uma criança, ainda nem com idade para perceber aquela linguagem, e logo senti que embora não fosse aceite, é socialmente tolerado que pelo facto de eu existir e estar num espaço público tenho de me sujeitar a ver o meu corpo e o meu potencial sexual comentado por homens estranhos. Com 7 anos. Noutros contextos, isto é pedofilia. Neste, deixa-se passar. Eu lamento, e de certeza que haverá quem me chame feminazi por isto, mas nenhum homem poderá perceber o que é este fenómeno. Só uma mulher, seja ela feia, gira, magra, gorda. Seja como for. Qualquer mulher quando passa na rua se sujeita a isto, pelo simples facto de existir, de ser. E a razão pela qual os homens nunca vão perceber isto na totalidade é porque provavelmente nunca ouviram, e isso também tem tudo a ver precisamente com o domínio masculino. Os homens nunca ouviram as mulheres da sua vida a serem importunadas, porque quando seguimos na rua acompanhadas de homens, seja o namorado, o pai, o avô, um colega de trabalho, um amigo - ninguém nos dirige nenhum comentário. Porque aquela ali vai com dono. Ninguém que finja que isto é um exagero ou uma efabulação minha - qualquer mulher saberá que isto é verdade. Quando vão com homem, aquelas mulheres já estão ocupadas. É por esta mesma razão que quando saímos à noite e nos abordam, e demonstramos resistência, pedem desculpa ao nosso namorado em vez de nos pedirem a nós. Caros homens - foi o meu espaço, a minha liberdade, o meu consentimento que ignoraste. Não foi o domínio do homem que me acompanha. E as mulheres saberão do que falo, também neste ponto.
Isto trata-se de consentimento - não é a minha existência, nem a minha apresentação em público, que presume o meu consentimento para ser abordada por estranhos. Não fui eu que pedi, qualquer que seja a roupa que uso ou a forma como me apresento. Eu não quero ser abordada. Não gosto. Ponto final. Não chega isto? Temos de argumentar pela inocência dos comentários, pelo facto de ser tradição, por ser impossível de controlar na rua e de provar em tribunal? Basta que eu não queira. Consentimento, sim? Nós precisamos deste artigo no Código Penal, porque desde pequenas que somos ensinadas que "mulher honesta não tem ouvidos". Desde pequenas que somos ensinadas a ir pelo caminho mais iluminado, a não deixar as nossas bebidas no balcão sozinhas quando estamos num bar, a pedir a um amigo que nos acompanhe a casa de noite, a não responder quando um homem da construção civil diz que nos comia todas, porque nos habilitamos a ser violentadas. E no meio disto ainda há comediantes da nossa praça que acham milhões de piada a fazer humor com este ponto em específico. Nunca um homem compreenderá que nos digam para ignorarmos, passarmos ao lado, nem sequer fazer contacto visual, porque isso será pior. O medo, a sensação que temos entranhada que nos diz para termos cuidado, olharmos para trás, acelerarmos o passo, é real. Não nos apercebemos disso no dia-a-dia, mas isso acompanha-nos, sempre. Ontem - não foi no outro dia, foi ontem - saí tarde do escritório e tinha estacionado o carro num parque mais isolado e escuro. E só quando me sentei no carro, tranquei a porta e vi que não estava ninguém à minha volta é que pude racionalizar - nós precisamos disto. Eu precisava.