Isso da programação televisiva é um tópico muito denso e engloba muitos outros tópicos. Desde logo a clivagem entre a malta mais conservadora (e beata) e a malta mais liberal.
Considero a televisão portuguesa até bastante conservadora mas que inevitavelmente segue a tendência alheia. Vou primeiro olhar lá para fora começando pelo ícone da televisão musical que hoje em dia já não tem a mesma importância que outrora teve: a MTV. Este é um canal que mudou bastante nos últimos 20 anos tendo acompanhado a indústria musical. Aliás, a mudança está a ser tão rápida que as pessoas não têm uma noção completa. Um IPhone há 15 anos seria algo quase inimaginável.
A indústria musical mudou muito. Antigamente, as músicas até podiam ser foleiras (e muitas eram) mas os vídeos permaneciam mais ou menos imunes à nudez, aos palavrões... Hoje em dia é muito diferente. A música continua foleira (especialmente a de discoteca que não é mais que a repetição da mesma coisa) mas a nudez é endémica. Mesmo as cantoras que não são propriamente magras são, aposto eu, forçadas a dançar de forma sensual (e se tivesse que apostar diria que não combina com a sua personalidade; mas são exigências da indústria):
Concordo com as feministas quando elas criticam o sexismo quase institucional (a mulher é sempre a entidade fraca e sexualizada). Isto está patente em tudo incluindo nos jogos de vídeo. Para os homens pode parecer uma realidade estranha mas é o normal tendo em conta o
status quo. A cultura masculina em larga maioria não aprende nem disseca tudo o que envolve a mulher. O homem cresce com uma realidade quase tabu. As queixas femininas são ignoradas ou rapidamente desqualificadas.
Repito que discordo da abordagem feminista. As mulheres nunca conseguirão normalizar a nudez feminina porque esta envolve circuitos biológicos básicos inerentes ao ser humano (à semelhança da fome ou da sede). Não somos seres com ciclos reprodutivos fixos. Daí que interprete as manifestações em
topless como fúteis e contraproducentes. Paradoxalmente, as feministas deviam atacar ferozmente os denominados ícones femininos: Beyoncé, J. Lopez e especialmente a Rihanna que tem pelo menos 1 vídeo (Work) em que mostra quase explicitamente os mamilos. Isto passa na TV a qualquer hora. Apelos aos instintos básicos elicitarão respostas básicas. É como o Trump apelar à violência contra os manifestantes e ficar chocado quando há alguém que efetivamente age. Claro que algumas feministas dirão que é uma restrição da sua liberdade sexual. É um argumento válido. Mas enfatizo a biologia, força motriz da sobrevivência.
Na televisão portuguesa (TVI), há o
Love on Top. Pessoalmente acho o programa um
freak show. Homens e mulheres extremamente sexualizados/as. Depois há sempre as intrigas. Se não surgirem naturalmente a produção certamente inventa algumas. Voltando à MTV, este canal tem um programa muito semelhante: Jersey Shore. O Jersey Shore é o
Love on Top a esteróides. São pessoas que todos os dias saem para as discotecas e os engates frívolos não só são a norma como são glorificados. Não acredito que tal formato chegue a Portugal a curto prazo. Mas temos algo semelhante, nomeadamente as cenas de sexo ocasionais debaixo dos lençóis sem referências explícitas no programa (já vem desde o Big Brother que é apenas o antecessor do
Love on Top com pessoas 'normais'). É o que dá um país onde o catolicismo ainda é forte. Alguma vergonha ainda existe (algo que deve mudar muito brevemente por razões que abordo a seguir).
Ainda na TV portuguesa, considero que o principal canal responsável pela disseminação e enfatização dos valores 'liberais' (refiro-me ao ID do Freud) é mesmo a SIC Radical mediante o seu programa denominado Curto Circuito (desde 1999). A internet inevitavelmente contribuiria mas o programa foi, a meu ver, a semente em Portugal. A televisão portuguesa nunca teve, nem tem, programas atrativos para os adolescentes. Nesse campo o CC foi e é único. O programa não é propriamente muito construtivo (à semelhança dos programas dos 'adultos') e vou resumir os motivos:
Voltando ao princípio, a malta mais conservadora e a malta mais liberal pode, e certamente vai, discordar acerca das liberdades individuais, especialmente no que concerne aos conteúdos televisivos. Mas acho que é inegável para ambas as fações que a cultura influencia todos. A omnipresença da cultura sexualizada tem efeitos bastante visíveis. Crianças muito jovens (
algumas com 7) estão a aprender sobre sexo muito cedo e muito depressa. Antigamente havia sempre um familiar por perto (geralmente a mãe) que restringia a aprendizagem precoce (em segredo sempre houve, claro). Hoje em dia temos uma sociedade com informação a mais (
internet) e supervisão a menos (pais a trabalhar, ausência de avós...). Nos próximos 15 a 20 anos a sociedade será muito diferente. E temo que não será necessariamente para melhor.
Na Polónia foi recentemente empossado um governo de direita. Uma das posições mais polémicas é a importância dada à Igreja, nomeadamente nas
emissões televisivas. Pessoalmente, acho que a caixa de pandora já está aberta e não há forma de voltar atrás. É também para mim um dilema a posição que a Igreja deve ter na sociedade. Jesus enfatizou a escolha livre. Mas um católico pode ser acusado de ambiguidade se tiver um estilo de vida cristão e defender o liberalismo para os outros. É uma temática bastante complicada. A tirania raramente cria crentes verdadeiros (só mesmo se forem endoutrinados desde cedo). E as pressões para que as pessoas ajam de uma determinada forma às vezes criam o oposto (o crescimento brutal do Cristianismo na China por exemplo).
De qualquer das formas, penso que a malta (religiosa) conservadora terá um trabalho hercúleo em tentar passar as suas crenças e virtudes para a geração seguinte. Mas também não acho que a malta liberal vá ter vida fácil. Os conteúdos televisivos e musicais estão permanentemente a apelar aos instintos básicos: violência, consumo de drogas, promiscuidade... E isso torna-se perniciosamente na norma. As culturas asseguram a sua sobrevivência mediante a transmissão de determinados valores e crenças de geração em geração. O liberalismo total não só é utópico como tende a dissolver as ligações entre as pessoas. Uma comunidade que não está unida destrói-se. A família típica está a ser destruída. Claro que a malta mais liberal pode dizer que as pessoas têm o direito de casar como quiserem (verdade) e que a família típica não é necessariamente funcional (também verdade). Mas o que a malta liberal nunca diz é que a instabilidade familiar cria muitas mães solteiras (
2013). E as mães solteiras têm um risco mais
elevado de serem pobres (algo muito visto nas comunidades afro-americanas e reforçado pela subcultura do rap

drogas, violência, mulheres...).
E a pobreza continua a ter ramificações e consequências muito graves. Muito mais poderia escrever, como por exemplo sobre o casamento, mas não vou para a publicação não ficar ainda maior.
Concluo escrevendo que mesmo nos países do sul há pior que Portugal. Como por exemplo a Itália:
Em termos gerais a primeira reação dos homens será de interesse e a das mulheres (assumo eu) será de repulsa. Mais interessante ainda, e como já escrevi, são as consequências perniciosas na cultura e nas crianças, que são os futuros adultos e que podem não ter os recursos cognitivos para assimilar e estruturar a informação. Os adultos, com mente já formada, poderão pensar que para as crianças não faz mal porque não faz a eles. Novamente, quando se apela repetidamente aos instintos básicos sem que haja uma estrutura racional superior e forte o suficiente para os conter (Ego e SuperEgo do Freud) a única coisa que se terá são instintos descontrolados. Aliás, é isso mesmo que acontece na guerra. Os inimigo não é humano nem merece viver (desumanização).
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Acrescento que, e isto é uma repetição (sou repetitivo eu sei), ao contrário da
Sara Sampaio não vejo como é a que a nudez dá poder. Mas mulheres e homens não pensam necessariamente da mesma forma. As mulheres queixam-se mas ao mesmo tempo ganham muito dinheiro à custa do
status quo que as rebaixam continuamente. Infelizmente pagam umas pelas outras (como em quase tudo na vida).
Ando a escrever de mais. Vou mas é de férias de Verão
