Como enquadras numa Igreja de Esquerda o marxismo cultural?
Na teologia cristã não há propriamente linhas orientadoras para a economia. Por exemplo, há certas denominações que obrigam os fiéis a doarem parte do rendimento. Na Alemanha há um
imposto religioso. E em outros
países também. Não tenho conhecimento de que tal coisa exista em PT.
Penso que o problema da Igreja é um problema de comunicação. É como classificar quem critica os EUA como anti-americano, quem critica os israelitas como anti-semita... Há muita generalização. Os problemas têm que ser analisados em partes e não na sua generalidade.
O problema dos conceitos económicos é que entre estes há uma linha muito ténue. Como defender o individualismo e preservar a identidade solidária? Como incitar as pessoas a criarem riqueza e ao mesmo tempo exortar para que a mesma seja partilhada? Adota-se uma perspetiva darwiniana de que os ricos são ricos porque trabalharam para isso e os pobres são pobres porque não trabalharam o suficiente? Adota-se uma perspetiva mais absolutista de que os ricos ficaram ricos porque são maus e exploraram os pobres e os pobres são sempre as vítimas dos ricos? Ou adota-se uma das inúmeras perspetivas intermédias?
Dou um exemplo
concreto:
A senior cardinal chosen by Pope Francis to manage the Vatican’s finances has launched into a spirited defence of free markets, countering the perception that the Catholic church under the Argentine pontiff
has turned against capitalism and business.
George Pell, the head of the Holy See’s secretariat for the economy, told a conference hosted by
The Global Foundation in Rome on Sunday that “no better model is available at the moment” than market economies, citing their capacity to “rejuvenate” after the Great Depression and recent global financial crisis, and their failure to produce the “massive alienation” predicted by Karl Marx.
A discussão acerca do que é um mercado livre é certamente muito extensa e é algo não existe hoje em dia. Desde tarifas e acordos comerciais até regulações para a segurança alimentar, há muita coisa que não se coaduna com o 'mercado livre'. Em que é que ficamos? Mercado livre ou anti-negócios? E quais são as perspetivas intermédias?
Ainda no marxismo cultural, que entendo como a homogenização da população, não sei qual é a surpresa. A Igreja é uma instituição passível de exercer poder político. Nesse campo é equivalente às outras ideologias políticas. A igreja de hoje em dia nada tem a ver com a igreja antiga. Hoje em dia não só é tudo voluntário como está sendo dilacerada pela reduzida adesão. Assiste-se a uma personalização da religião que evolui ao mesmo tempo com o secularismo (as pessoas dizem que não são religiosas mas espirituais). Exclui-se as ideias que são mais inconvenientes (casamento gay, divórcios e subsequentes casamentos...). Eventualmente restará uma caricatura da antiga atitude ultra-conservadora.
Os judeus de antigamente divorciavam-se. Jesus disse-lhes que tal foi só permitido para que eles não se alienassem da fé. No Novo Testamento apela-se a uma atitude menos hipócrita e absolutista para com os outros (não criticar quando se faz o mesmo por exemplo; isto foi especialmente dirigido aos padres da altura). Mas em nenhum lado há a 'liberalização' da fé. Cada um é livre de acreditar no que quer. Mas quando se adota uma determinada fé não faz muito sentido moldá-la à nossa vontade e manter o mesmo nome. Algo semelhante seria um capitalista neoliberal introduzir conceitos marxistas e continuar a chamar a sua teoria de neoliberal.