Tive uma bisavó que tinha pequenos negócios. Não era muita coisa, mas o suficiente para viver bem acima da média, em tempos de pobreza. Quando falava com o público, a vida para ela estava sempre mal. A saúde era fraca, havia sempre despesas, o dinheiro não chegava, desgraças e sofrimentos não faltavam. Era muito limpa, tomava banho várias vezes por semana, numa altura em que parte da população nem tomava banho, porque não tinha casa-de-banho, mas vestia-se mal, como os pobres. Passava cá para fora um estilo de vida muito austero. Quando já estava perto dos seus 90 anos, perguntaram-lhe por que não gozou a vida. Ela respondeu mais ou menos assim: “isto aqui é um meio pequeno, toda a gente se conhece, e há muita velhaquice, maldade e inveja. Quem tem uma porta aberta não pode se fazer de rico, tem de saber fazer-se de coitadinho, para cativar os clientes, e nunca pode mostrar ou dizer o que tem. E nunca se deve meter na política, nem dizer em quem vota. Se eu não fosse ainda mais velhaca que os outros, nunca teria juntado tanto. E gozei bem a vida, dentro de quatro paredes, quando ninguém estava a ver.”
Ao lado vivia uma rapariga que logo na adolescência deu nas vistas por ser muito bonita. E gostava de se maquilhar, algo que era quase crime naquele meio. Rapidamente o povo começou a dizer que era pxtx. Do outro lado da fronteira era comum as mulheres usarem roupas vistosas, maquilhagem e perfumes, mas em Portugal era quase crime… foi tão difamada e perseguida que por volta dos 19/20 anos emigrou para Espanha, onde casou com um empresário muito rico, e se tornou uma mulher de negócios. Há males que vêm por bem.