Os próximos 2 ou 3 anos vão ser dramáticos. Todos a discutir uns com os outros, trabalhadores com empresários, empresários com trabalhadores, cidadãos com políticos, regiões pobres a discutir com as "ricas". Tempos caoticos se avizinham.
Só nos podemos queixar de nós próprios. Destruímos a nossa industria no pós 25 de Abril, saqueamos fundos europeus que nos deram um nível de vida com que nunca sonhámos, e continuámos esse nível de vida recorrendo a dívida a um ritmo infernal.
Mais de 50 mil milhões de euros de fundos comunitários em 20 anos e temos um ordenado mínimo de miséria, o peso do Estado ultrapassa metade do PIB, temos que trabalhar 133 dias por ano só para pagar os impostos, para o ano serão ainda mais.
Todos ralham e todos tem razão, e todos ralham e ninguém tem razão. Somos todos culpados, não só diferentes gerações de politicos mas toda a população também. Todos adoramos estádios de futebol, autoestradas gratuitas a passar no nosso quintal, Expo's e campeonatos de futebol, aeroportos vazios no meio do Alentejo, comboios a andar a 300km/h, campos de golfe por todo o lado, autódromos, festas e concertos de fim do ano, autarcas de sucesso que constroem rotundas e estátuas, fazer greves para aumentar salários, etc.
Mentalizem-se de uma coisa. Não há mais dinheiro. A festa acabou. Apenas o primeiro ministro continua a viver em negação, já nem os membros do governo se entendem entre si como se viu nos últimos dias na confusão a propósito de uma simples taxa de 1% de IRS, de concursos anulados mas que afinal são para relançar, etc.
Estas medidas agora anunciadas (as mais leves de todos os países em dificuldade) aumento de IVA e IRS, representam talvez uns meros mil milhões de receita num ano inteiro. Para pôr as coisas em perspectiva, mais do que isso é o que a nossa dívida aumenta a cada mês que passa. Quem julga que estes aumentos de impostos é que são o grande sacrifício da crise não entendeu nada, absolutamente nada. Isto ainda nem sequer começou. A maioria das pessoas ainda não entendeu o que vem aí nos próximos anos e continua a discutir se deve ou não haver portagens e TGV's quando simplesmente já não vai haver dinheiro para coisas bem mais importantes.
As últimas 2 décadas vivemos o paradigma da modernização do país, nos anos oitenta não havia sequer uma autoestrada Porto-Lisboa concluída, na província as ruas de terra batida estavam cheias de bostas de m**** das juntas de bois com moscas por todo o lado, não havia saneamento básico, nem redes eléctricas e comunicações decentes. Esse paradigma da modernização do país foi conseguido, mas nunca passámos daí para a etapa seguinte, o paradigma da produção. Em 2008 o crédito bancário concedido à agricultura, pesca e industria representava apenas 6,6% do crédito total. A construção, actividade imobiliária e à habitação representava 67,9%. Isto não pode continuar, é um absurdo. Deixemos-nos por favor de grandes obras, a nossa prioridade tem que ser produzir.
As grandes obras servem apenas o interesse de grupos bancários e construtores e dos políticos pois alimentam artificialmente (porque são temporários) os índices de crescimento e emprego, servem mordomias, compadrios e expandem a corrupção. Ninguém precisa de uma boa autoestrada ou de um TGV para produzir um produto para vender no mundo. O que é preciso são as ideias e trabalho, muito suor. Quando produzirmos riqueza, então sim, façamos TGV's. Mas não, nos momentos mais dramáticos da história económica mundial desde a crise de 1929 assinaram-se contratos de 2,7 mil milhões em projectos do Pinhal Interior e TGV Caia-Poceirão. Semanas antes um ex ministro (Manuel Pinho) e o BES lançaram uma candidatura da Herdade da Comporta ao torneio de Golf Ryder Cup 2018, que caso vencesse envolveria um investimento de 140 milhões, quando no Algarve temos campos de Golfe de excelência, e em excesso. Está tudo louco
Temo que agora seja tarde demais. O peso do Estado e das grandes corporações privadas chegou a um ponto em que um terço do país tem que trabalhar para manter os outros dois terços em actividades não produtivas. À medida que o dinheiro para alimentar este monstro for escasseando o terço restante vai sendo cada vez mais saqueado até não conseguir mais, por muita vontade que tenha em produzir riqueza.