Para o provincianismo só há uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando não somos. de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que não o somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando o doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.
Fernando Pessoa
Nas pequeninas povoações encravadas entre montes, daqueles que velavam a paisagem que ia para lá do humilde casario, nasceram os filhos da república; entre a rudeza de gélidos invernos em casernas sem isolamente térmico (que permitisse poupanças energéticas, sim, daquelas que nos salvam do temível aquecimento global), e de verões em que contactavam com os filhos da terra que haviam abandonado o país, cresceu esta insigne geração, que por ora nos conduz.
Um dia, já na cidade, deslumbrados com as indumentárias compradas na 24 de Julho, com os interiores lustrosos das moradias da Lapa, e com o destilar de cultura dos idealistas diletantes da burguesia urbana, aspiraram a pôr de parte a aldeia e assumir uma opulência distante da caserna natal.
Sendo parca a inteligência ou a motivação para per se construir casas que noutras latitudes geravam riqueza e prosperidade, mas dotados das manhas acumuladas por gerações para sobreviver em meio de miséria, encontraram na cultura do bando e da economia de afectos o algoritmo para limpar a aldeia.
Nas universidades dos amigos, ostentaram-se com diplomas; e, nos lugares oferecidos após o rastejo e a trela nova, auferiram os ordenados milionários que deram nova imagem, enxuta e aprazível.
Mas não obstante a nova indumentária vinda das griffes da Baixa, passavam de covas com flores secas e cruz barata para tumúlos caiados.
Agora já tinham casa no Chiado ou em Oeiras, topo de gama ou motorista de táxi, férias em praias junto da linha do equador ou tardes no Eleven e na Bica do Sapato. Já sabiam o nome de um ou outro escritor, ou de um ou outro compositor, pois ostentar conhecimento ajuda à fachada.
Mas a aldeia estava lá. Guardada. E expressava-se na dicção, na ausência de etiqueta, na rápida fuga quando se tocavam em temas onde não estavam à vontade, ah! e tantos, tantos que eram; colavam no discurso opiniões captadas numa palestra, outra dita pelo assessor, e eis um discurso económico digno de registo! Uma crítica literária assaz pertinente! Vede como todos elogiam Saramago... mas experimentai perguntar o porquê de tal gosto literário...ah! como se querem mansos estes jornalistas...
Mas a maior prova da podridão, o cheiro mais nauseabundo, mais pestilento, emanado pelos túmulos, vinha da ausência mais vergonhosa de qualquer código de conduta moral, daqueles valores que presentes nas elites de outras eras e outros territórios fizeram grandes muitas nações.
E era no odiozinho mascarado a quem sempre fora, e não precisava de ostentar para ser, que a aldeia se manifestava em todo o seu esplendor. E do seu discurso, emergia o ódio aos outros ricos, aquela classe opressora e celerada que durante décadas explorara o povo. Mas isso eram os outros ricos, pois a riqueza dos seus era moralmente aceite, e assaz justificável! Afinal, quem zelava pela aplicação do princípio da redistribuição, tão em voga na seita? Oh povo, não há almoços grátis!
Numa triste e voraz delapidação, saquearam o património lusitano, embruteceram ainda mais a populaça, venderam sonhos de riqueza e conforto que a longo prazo eram inconcretizáveis, trouxeram para o Estado toda a perversão, injúria e luxúria da ralé social. Eis que surgiram os BPN's, os sucateiros milionários ou a religião do betão. Eis que veio a demolição e o abandono de milhares de belos edifícios e monumentos, de áreas protegidas e terrenos agrícolas.
O resultado de décadas de ausência de elite, e de inveja primária aos poucos que se aproximam de tal conceito, com concomitante elogio e enaltecer do pior que emanava das cloacas do povo, conduziu a isto. Terão todos aquilo que merecem. Felizmente.