O Estado do País

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Desabafos a propósito deste país pequeno e paroquial*

O abuso dos chips das matrículas

A forma como o Governo conduziu o tema da introdução de portagens nas Scut lembra aqueles condutores que, apesar de verem o muro pela frente, carregam no acelerador. Às vezes esborracham-se, outras vezes ensaiam travagens que os levam a entrar em derrapagem descontrolada.
O erro, é bom recordá-lo, vem desde o tempo de Cravinho e Guterres: apesar de se viverem tempos de “vacas gordas”, inventaram-se as Scut para permitir ao Estado encomendar auto-estradas sem ter de se preocupar com o seu pagamento imediato. O modelo só podia conduzir aonde conduziu: construíram-se estradas que ainda hoje estão subutilizadas (não todas), não se instalaram portagens, fizeram-se contratos com os privados em que todo o risco fica com o Estado, e a pouco e pouco a “renda” a pagar tornou-se incomportável.
Tudo isto foi dito inúmeras vezes, mas a teimosia de Sócrates nunca o deixou ver a realidade nua e crua dos números e dos factos. E quando começou a fazê-lo, as asneiras sucederam-se. Primeiro veio a tentativa de dividir as Scut entre as gratuitas e as que, afinal, podiam ser pagas. O exercício resultou numa mistificação total e na discriminação negativa das Scut do Norte Litoral. Depois chegou o famoso “dispositivo electrónico de matrícula”, o chip, que logo se percebeu que implicaria sempre, por via da sua obrigatoriedade, uma perda de privacidade por parte dos proprietários de veículos. Pelo caminho, houve ainda adiamentos, hesitações e uma enorme trapalhada legislativa.
Por fim, em desespero de causa face à morte anunciada dos chips, o Governo e o PS começaram a dar o dito por não dito e a acrescentar ainda mais confusão a um dossier que já não tinha por onde pegar. Felizmente, apesar de aparentes hesitações, o PSD não cedeu à chantagem de última hora e o modelo de chips consagrado na legislação até agora produzida morreu ontem no Parlamento. Só é pena que, devido ao autismo e à arrogância do executivo, cuja forma de actuar agrava a percepção de que trata o Estado como se fosse propriedade sua, nunca se incomodando quando este deixa de se comportar como um parceiro leal, se tenha chegado a uma situação para a qual não há saída fácil. Mas há saída.

O funeral de Saramago

Harold Pinter, o dramaturgo inglês que ganhou o Nobel da Literatura em 2005, morreu na véspera de Natal de 2008 e nenhum membro do Governo britânico foi ao seu funeral, a 31 de Dezembro desse ano. Nem qualquer representante da Coroa. Não passou pela cabeça de ninguém transformar isso num caso político.
Camilo José Cela, o Nobel da Literatura de 1989, morreu em Janeiro de 2002 e ao seu funeral, em Padron, na Galiza, compareceu o vice-presidente do Governo espanhol, o galego Mariano Rajoy, mas nem Aznar, nem Juan Carlos.
Albert Camus, Nobel da Literatura em 1957, morreu num desastre de automóvel em 1960 e quando foi a enterrar, em Lourmarin, foram os futebolistas do clube local que levaram o seu caixão. De Gaulle, Presidente da França, não estava presente.
Estes três exemplos mostram como tudo se passa com naturalidade nos países adultos quando desaparece uma figura maior das respectivas culturas. Estes três exemplos permitem perceber como só num país irremediavelmente provinciano e de um politicamente correcto sem limites teria sido possível que o tema da ausência do Presidente da República no funeral de José Saramago fosse objecto de uma polémica onde o mau gosto dos “donos da cultura” ultrapassou todos os limites. Poucas vezes estes polícias das consciências alheias, demasiado ocupados para irem eles próprios ao funeral, foram tão impositivos como na exigência de o Presidente aí representar “todos os portugueses”. Por mim, só desejo que José Saramago descanse em paz e que, sem o obstáculo do seu azedume político, seja possível no futuro apreciar melhor o melhor da sua obra.

Iliteracia matemática

Mais de um em cada quatro estudantes que entram no Instituto Superior Técnico não respondem certo sobre quanto é um meio mais um meio. Isto porque os alunos que chegam ao ensino superior estão “viciados no uso da calculadora”, têm cada vez mais dificuldade “na aplicação de conceitos básicos a novas situações” e revelam-se “infantilizados”. A reportagem do PÚBLICO não nos dava propriamente uma novidade, mas obriga-nos a pensar no que não pode continuar a ser uma fatalidade.
O problema já nem está em os alunos não saberem sequer fazer elementares contas de cabeça: está em assistirmos, sem revolta suficiente, à destruição de princípios elementares de exigência e responsabilização em quase todo o sistema educativo. E se não se pede às escolas que formem génios, exige-se-lhes que, no mínimo, se recordem que, como escreveu a Sociedade Portuguesa de Matemática, “dentro de alguns anos, estes alunos terão empregos de responsabilidade no desenvolvimento científico, tecnológico e económico do país”. Ora, as provas nacionais de 2010 estiveram de novo “longe de ter o grau de exigência (…) adequado”. A grande maioria das questões não saía da rotina e pouco se exigia em matéria de cálculo.
Não sendo nova a situação, como é possível que se repita anos após ano? Em primeiro lugar, porque a ideologia dominante no Ministério da Educação é a de que a aprendizagem é um processo lúdico, que não implica esforço. Mas também porque, como se referia na reportagem, temos um problema de “inteligência pública”: convivemos bem com esta degradação dos padrões do ensino e muitos até se sentem aliviados por as “taxas de sucesso” estarem a aumentar. O desastre a que levou a ideologia funesta reinante do sistema educativo nunca provocou o sobressalto público que devia ter provocado, até porque não falta quem continue a pensar que a Matemática é para os outros pois não passa de um mistério…

A mentira como forma de vida

Ainda custa a engolir toda a falsidade que rodeou o funcionamento da comissão de inquérito ao caso PT/TVI. Começa por ser extraordinário como o que devia ser o objecto do inquérito – a dimensão do envolvimento do Governo na operação de compra da TVI para alterar a sua linha editorial – foi transformado na caricatura de saber se o primeiro-ministro tinha ou não mentido no Parlamento. Em condições normais, e não de rábula política, tal tema não suscitaria sequer dúvidas: há muito que as notícias sobre o negócio eram públicas e é sabido que a obsessão controleira do primeiro-ministro nunca deixaria que essa operação fosse realizada sem o seu conhecimento. Afirmar o contrário é fingir que a verdade formal é diferente da verdade dos factos.
Quanto à questão central, esta tem uma resposta clara na declaração de voto de Pacheco Pereira: “Sim, houve participação governamental (em particular com origem no primeiro-ministro e executada por quadros do PS colocados em posições cimeiras em empresas em que o Estado tem qualquer forma de participação directa ou indirecta) numa tentativa de, em ano eleitoral, controlar vários órgãos de comunicação social, nomeadamente a TVI”. Foi esta resposta clara que a comissão quis evitar a todo o custo.
Há meses que, desde o presidente do Supremo Tribunal de Justiça ao procurador-geral da República, passando pelo presidente da Comissão de Inquérito e pelo seu relator, se tenta evitar a conclusão que todos os portugueses tiraram. Porquê? Talvez porque exista em Portugal uma estranha e insalubre conjugação de interesses que conflui num só objectivo: ir sustentando o actual Governo, pelo menos até se perceber que destino dar a José Sócrates. Já ninguém verdadeiramente o respeita, muito menos acredita no que diz, todos sabem que a sua permanência em São Bento é uma questão de tempo, mas ninguém quer dar o primeiro passo. O Presidente da República porque quer ser reeleito. O líder do PSD porque quer escolher a melhor oportunidade. Os partidos da esquerda porque temem uma vitória da direita. O PS porque não sabe já o que quer.
Por tudo isso se manobrou para evitar uma conclusão taxativa da Comissão de Inquérito, por tudo isso se está a condenar o país a viver com um Governo em gestão – e em negação – por mais um ano. Cada ministro diz a sua coisa, muitos ainda nem compreenderam que o seu guião mudou, o chefe do Governo só vive apenas em função do seu minuto diário no telejornal. Cada acto legislativo é numa trapalhada apenas compreensível porque a arrogância levou a um autismo suicida.
Estivesse o país em melhor forma, e este adiamento seria suportável; no estado em que nos encontramos, corrói as suas escassas forças e mina a moral pública, criando padrões cada vez mais baixos, como os que derivam de se admitir que uma inverdade não é a mesma coisa que uma mentira.

Jornalista (www.twitter.com/jmf1957)

*Público, 25 de Junho de 2010

http://blasfemias.net/2010/06/26/desabafos-a-proposito-deste-pais-pequeno-e-paroquial/#more-28228

Absolutamente brutal todos os textos.
 
SCUTS: Polémica no Ministério das Obras Públicas

Assessor dirige firma de chips


Um assessor do secretário de Estado Paulo Campos deixou o Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações para assumir o cargo de administrador executivo em Portugal da Q-Free, empresa fornecedora dos chips de matrícula que o Governo queria usar nas Scut. O gabinete de Paulo Campos diz que as "opções profissionais" do ex-assessor são "da sua inteira responsabilidade".

De acordo com o o semanário ‘Expresso’, Pedro Bento foi assessor do governante até que, em Outubro do ano passado, passou para a administração da empresa pública que gere o sistema de pagamentos nas auto-estradas. O gestor e antigo capitão da Força Aérea pediu uma licença sabática em Janeiro último, e, em Março, assumiu a direcção da representação portuguesa da marca norueguesa que forneceu os equipamentos electrónicos instalados nos pórticos das três Scut que vão ser portajadas e os controversos chips.

Em comunicado emitido ontem, o Ministério das Obras Públicas sublinha que as relações e de trabalho de Pedro Bento com o gabinete governamental cessaram, "a seu pedido" em Dezembro de 2009. O documento adianta que "as opções profissionais tomadas pelo dr. Pedro Bento são da sua inteira responsabilidade e no âmbito das suas escolhas pessoais e éticas".

O gabinete de Paulo Campos considera, ainda, "abusivo" que se associe o secretário de Estado à contratação do ex-assessor pela Q-Free e frisa que o contrato de venda de equipamento foi concluído antes de Pedro Bento se juntar à empresa norueguesa.

Esta não é, porém, a primeira vez que um ex-assessor de Paulo Campos se vê envolvido em polémica. Em 2006, Vasco Gueifão, um dos fundadores da F9 Consulting – empresa a quem foram adjudicados por ajuste directo estudos sobre a introdução de portagens em três Scut –, foi nomeado para assessor na Secretaria de Estado, mantendo o vínculo à consultora.

APONTAMENTOS

PERFIL

Pedro Bento é licenciado em gestão pela Academia da Força Aérea e foi capitão da Força Aérea até 2006, ano em que ingressou na PricewaterhouseCoopers, segundo escreve o próprio nos seus perfis nas redes Linkedin e Facebook.

EMPRESA

A Q-Free é uma empresa norueguesa de equipamento electrónico de pagamento em estrada que, segundo o site da mesma, fez o seu primeiro grande negócio nos mercados internacionais em Portugal, com a Brisa.

PSD AGUARDA AS RESPOSTAS DO GOVERNO

O vice-presidente do PSD Marco António Costa afirmou ter "sérias dúvidas" de que seja possível introduzir portagens no dia 1 de Julho nas três Scut do Norte e que a "responsabilidade é do Governo".

"Aquilo que dependia de nós [PSD] ficou manifestado com clareza no Parlamento. Agora está o País a aguardar que o Governo seja capaz de concretizar e objectivar as afirmações vagas que tem feito relativamente às intenções que tem sobre o modelo que pretende adoptar no alargamento e cobrança das portagens", salientou vice--presidente do PSD. Marco António Costa adiantou que "as pessoas do Norte sentem uma enorme incompreensão pela postura que o Governo tem assumido".

Fonte: Correio da Manhã

Ora, isto só veio comfirmar o que eu suspeitava há muito.:disgust:
 
É verdade. Cientificamente produziram o maior buraco financeiro dos últimos 80 anos mas como as máquinas para imprimir dólares ainda ficam do lado de lá é fácil virar a página...

Não estou a falar em termos económicos. Estou a falar da produção de artigos científicos na área da biologia celular e molecular, bioquímica, farmácia, química, química orgânica, etc.

Quanto à crise financeira,atribuir a culpa apenas aos EUA é ter uma visão muito limitada da crise actual. Mesmo que não houvesse crise nos EUA mais tarde ou mais cedo os países endividados do Sul da Europa iriam cair. Mesmo em cenário de crise há vários países europeus e regiões que continuam com economias saudáveis, como a Suécia, a Alemanha, a Dinamarca, o Norte de Itália, a Suíça, entre muitos outros.

A crise da Grécia, Portugal ou Espanha está em grande medida relacionada com problemas internos. Corrupção, ensino pouco exigente, falta de iniciativa empresarial na área de bens transacionáveis, especulação imobiliária desenfreada, endividamento excessivo no crédito ao consumo, máquina Estatal pesada por comparação à riqueza produzida, entre outros problemas.

E mais um pormenor... mesmo no pico da crise, convém sublinhar que a maior parte dos países continuaram a crescer... a queda foi sobretudo no Ocidente...

Atirar a culpa para os EUA é uma visão muito redutora do que se passou. O Fernando Pessoa dizia que o escol pensa por si com base na análise que faz das opiniões dos outros, mas a classe média repete o que os outros dizem. E o que os jornalistas andam a dizer em Portugal é o que emana das agências de comunicação da esquerda. Os portugueses deveriam ler apenas imprensa estrangeira no que concerne a estes assuntos. O nosso jornalismo é para esquecer.
 
Sobre as SCUTS vinha há dias no blogue Insurgente uns valores interessantes demonstrando a falácia da discussão actual pagador-utilizador. É que os automobilistas já pagam fortunas em impostos.

ANO 2009

Imposto sobre produtos petrolíferos e energéticos - 2.561.000.000€
Imposto Sobre Veículos – 981.000.000€
Imposto Único de Circulação – 130.000.000 €
Multas por infracções do Código da Estrada - 97.459.384€

TOTAL: 3.769.459.384€

Estive a fazer umas contas e este montante daria para construir todos os anos 4 pontes Vasco da Gama ou por exemplo 6 Scuts da Beira interior (A23 entre Abrantes e Guarda)

Ora para onde vai esta fortuna todos os anos ? Vai alimentar o gigantismo do Estado, e não para as estradas, que são todas cada vez mais a pagantes.

Toda esta discussão do utilizador-pagador é irrelevante, não é isso que está em causa, o que está em causa é um Estado que gasta demais, faminto, falido e desesperado por mais verbas ao qual apenas resta saquear cada vez mais os bolsos vazios dos cidadãos. Estado esse que teima no gigantismo e em não cortar onde deve. Opta pelo elo mais fraco, saquear-nos.

A Administração pública está um caos, e para não por em causa o lugar o o salário das clientelas ninguém faz reformas.

Questiono-me, por exemplo, como se avança para a construção de um Museu dos Coches de raiz quando muitos monumentos nacionais e imóveis de interesse público carecem de obras de restauro, estando alguns num estado lastimável.

Outro exemplo de péssima administração são os custos finais excederem largamente os custos previstos, a construção de edifícios novos para entidades públicas quando o restauro é viável, a manutenção de associações sem qualquer relevâncial social ou cultural, entre tantos outros.

Aqui no Hospital de S. João colocaram uma exposição da treta, com maquetes, ecrãs e painéis, pergunto-me quanto custou aquela porcaria aos cofres do Estado. A biblioteca precisa de mais pc's, mas no entanto gastam dinheiro nestas futilidades.

Digo e repito, nós temos um grave problema de organização.
 
Macário Correia ter-se-á queixado do excesso de funcionários na Câmara de Faro. Mas se bem me recordo, não era autarca em Tavira quando foi criada a inútil junta de freguesia de Cabanas de Tavira? A qual, por sua vez, terá provavelmente colocado mais uns nomes na longa lista de funcionários públicos...
 
Não estou a falar em termos económicos. Estou a falar da produção de artigos científicos na área da biologia celular e molecular, bioquímica, farmácia, química, química orgânica, etc.

Quanto à crise financeira,atribuir a culpa apenas aos EUA é ter uma visão muito limitada da crise actual. Mesmo que não houvesse crise nos EUA mais tarde ou mais cedo os países endividados do Sul da Europa iriam cair. Mesmo em cenário de crise há vários países europeus e regiões que continuam com economias saudáveis, como a Suécia, a Alemanha, a Dinamarca, o Norte de Itália, a Suíça, entre muitos outros.

A crise da Grécia, Portugal ou Espanha está em grande medida relacionada com problemas internos. Corrupção, ensino pouco exigente, falta de iniciativa empresarial na área de bens transacionáveis, especulação imobiliária desenfreada, endividamento excessivo no crédito ao consumo, máquina Estatal pesada por comparação à riqueza produzida, entre outros problemas.

E mais um pormenor... mesmo no pico da crise, convém sublinhar que a maior parte dos países continuaram a crescer... a queda foi sobretudo no Ocidente...

Atirar a culpa para os EUA é uma visão muito redutora do que se passou. O Fernando Pessoa dizia que o escola pensa por si com base na análise que faz das opiniões dos outros, mas a classe média repete o que os outros dizem. E o que os jornalistas andam a dizer em Portugal é o que emana das agências de comunicação da esquerda. Os portugueses deveriam ler apenas imprensa estrangeira no que concerne a estes assuntos. O nosso jornalismo é para esquecer.


Desmontando a teoria de viver acima das nossas possibilidades, a teoria da redução dos salários, a teoria dos subsídios para a preguiça... desmontado no fundo a tralha neo-liberal de Hayek:


Não vivemos acima das nossas possibilidades
Por Daniel Oliveira

Segundo um estudo realizado por sociólogos do ISCTE, vinte por cento dos portugueses estão abaixo do limiar de pobreza. Ou seja, não conseguem garantir o mínimo das necessidades familiares. Se não fossem as ajudas do Estado este número passaria para os 40%.

31% das famílias estão no escalão imediatamente acima do limiar de pobreza – ganham entre 379 e 799 euros. 21% não têm qualquer margem para qualquer despesa inesperada. 12% não conseguem comprar os medicamentos que precisa. Muitos deles, apesar de terem mais qualificações que os seus pais, vivem pior do que eles. 35% vivem confrontadas com situações frequentes de escassez, o que inclui a impossibilidade de aquecer a casa ou de usufruir de baixas médicas para não perder rendimentos. 57% vivem com um orçamento familiar abaixo dos 900 euros.

Este povo pobre desconfia dos outros, desconfia do poder (70%), não está satisfeito com as suas condições de vida mas, extraordinariamente, considera-se feliz. Mais de um terço dos insatisfeitos diz que nada faz para mudar de emprego, 63% recusa a possibilidade de emigrar e apenas uma minoria diz que deseja voltar a estudar.

Este estudo diz-nos duas coisas.

A primeira é evidente para quem conheça o País: os portugueses não vivem acima das suas possibilidades. Vivem abaixo delas. Há uma minoria, isso sim, que garante para si a quase totalidade dos recursos públicos e privados. Somos, como se sabe, o País mais desigual da Europa. Temos dos gestores mais bem pagos e os trabalhadores que menos recebem. Somos desiguais na distribuição do salário, do conhecimento, da saúde, da justiça. E essa desigualdade é o nosso problema estrutural. É esse o nosso défice. Ele cria problemas económicos – deixando de fora do mercado interno uma imensa massa de pessoas -, orçamentais – deixando muitos excluídos dependentes do apoio do Estado -, sociais, culturais e políticos.

A segunda tem a ver com isto mesmo: a pobreza estrutural não leva à revolta. Dela não resulta exigência. Provoca desespero e resignação. Resignação com a sua própria vida, resignação com a desigualdade e resignação com a incompetência dos poderes públicos. A pobreza não apela ao risco. Não ajuda à acção. O atraso apenas promove o atraso.

Nos últimos 25 anos entraram em Portugal rios de fundos europeus. Aconteceu com eles o que aconteceu com todas as oportunidades que Portugal teve nos últimos séculos. Desde o ouro do Brasil, passando pela o condicionalismo industrial do Estado Novo e acabando nos fundos europeus, nos processos de privatização para amigos e no desperdício de obras públicas entregues a quem tem boas agendas de contactos, que temos uma elite económica que vive do dinheiro fácil, do orçamento público e da desigualdade na distribuição de recursos. Essa mesma, que em tempo de crise o que pede é redução do salário e despedimento fácil.

Repito: os portugueses não vivem acima das suas possibilidades. Apenas vivem num País onde as possibilidades nunca lhes tocam à porta. O nosso problema é político. É o de uma economia parasitária de um Estado sequestrado por uma minoria que não inova, não produz e não distribui. De um Estado e de tecido empresarial onde os actores se confundem. De um regime pouco democrático e nada igualitário. E de um povo que se habituou a viver assim. De tal forma resignado que aceita sem revolta que essa mesma elite lhe diga que ele, mesmo sendo pobre, tem mais do que devia.

http://arrastao.org/sem-categoria/nao-vivemos-acima-das-nossas-possibilidades/
 
Copio um artigo interessante do ww.maquinistas.org que tem pelo menos o mérito de fazer ponderar quem decide no nosso país.

«Previsões aéreas falharam em Espanha

“A solução mais apropriada e menos arriscada para a realidade portuguesa é, sem dúvida, melhorar a gestão da Portela, para a TAP o utilizar como Hub e investir num aeroporto secundário e barato para as Low Cost.”


Nos últimos anos, a empresa espanhola “Aeropuertos Españoles y Navegación Aérea” (AENA) – equivalente à portugeusa ANA-Aeroportos, – devido ao crescimento do tráfego aéreo que ocorria antes da actual crise económica, decidiu efectuar elevados investimentos, em três infra-estruturas: Barajas, Barcelona e Málaga. Tais investimentos vieram a revelar-se excessivos, depois de se terem gasto cerca de 13 mil milhões de Euros, porque o tráfego aéreo tem vindo a diminuir.

No aeroporto de Barajas, no novo terminal, foram investidos mais de 6 mil milhões de Euros para preparar o aeroporto para 70 milhões de passageiros. O tráfego reduziu-se de 52 milhões, em 2007, para 48 milhões em 2009.

Em Barcelona, para aumentar a capacidade do aeroporto dos 30 milhões para os 55 milhões de passageiros, foram investidos 5,1 mil milhões de Euros, mas o que veio a ocorrer foi uma redução de tráfego de 33 milhões, em 2007, para 27 milhões em 2009.

No caso da modernização do aeroporto de Málaga, foram gastos 1,8 milhões de Euros para aumentar a capacidade dos 12 para os 30 milhões de passageiros. Neste caso, o tráfego também diminuiu de 13,5 milhões, em 2007, para os 11,6 milhões, em 2007.

Por fim, em Ciudad Real, investiram-se mil milhões de Euros num novo aeroporto privado que, em 2009, teve um tráfego de 53 mil passageiros, muito abaixo ao esperado e com resultados financeiros muito negativos.

Resumindo, os investimentos foram:

Madrid – 6 mil milhões de Euros

Barcelona – 5,1 mil milhões de Euros

Málaga – 1,8 mil milhões de Euros

Ciudad Real – Mil milhões de Euros mas com capital privado

Em todos os aeroportos referidos, o tráfego reduziu-se depois de terem sido gastos quase 14 mil milhões de Euros. Significa que vai ser muito difícil, nos próximos anos, recuperar os enormes investimentos efectuados.

Antes da actual crise económica, os investimentos aeroportuários foram baseados no pressuposto de que o tráfego aéreo iria sempre aumentar e que o crescimento económico, ao longo dos anos, era um dado adquirido.

No caso espanhol, o tráfego aéreo, no passado, tinha taxas de crescimento médias da ordem dos 7% a 8% ao ano. Esta foi uma das razões que explicam os elevados investimentos anteriormente referidos.

O Ocidente e a Europa tiveram muitos anos em que perderam parte do seu tecido produtivo para a China e passaram boa parte da última década a consumir e a especular, o que teve, como consequência, um forte endividamento económico.

A Europa, para sair da actual crise, obviamente, vai levar bastantes anos e é muito provável que, na próxima década, o crescimento económico seja muito baixo. O mesmo se deve passar com o tráfego aéreo que depende da taxa de crescimento económico.

Outra nova realidade, que está a contribuir para a diminuição do tráfego aéreo, em Espanha, é a recente rede ferroviária de bitola europeia. Madrid, Barcelona e Málaga já estão ligadas entre si e, no final do ano de 2010, está prevista a entrada em funcionamento da via Madrid-Valência. À medida que novas vias ficarem concluídas, mais tráfego será retirado aos aeroportos.

Em 2007, segundo a AENA, antes da chegada do comboio AVE, o tráfego aéreo na rota Madrid-Málaga foi de 1 milhão e 554 mil passageiros. Em 2009, no segundo ano de existência do AVE, o tráfego aéreo caiu para 788 mil utentes.

Em dois anos, o AVE praticamente manteve o tráfego de passageiros e, na rota aérea Málaga-Madrid, esse valor caiu para metade.

Entre Barcelona e Madrid, o comboio AVE já transporta quase o mesmo número de passageiros que o avião, tendo havido uma transferência de milhões de pessoas deste modo de transporte para o comboio.

A nova rede ferroviária, além de provocar uma redução no tráfego aéreo, está a contribuir para diminuição das taxas de crescimento no mercado do avião.

Como será em Portugal?

Em Portugal, nos últimos anos, foi construído o novo aeroporto de Beja que teve um custo de 33 milhões de Euros. Embora a obra esteja concluída, a realidade é que, até agora, nenhuma companhia aérea o utiliza. Este insucesso, apesar do erro cometido, teve um custo que não é muito elevado.

Nos últimos anos, também está a ser efectuada a modernização do aeroporto da Portela cujo investimento se deverá aproximar dos 500 milhões de Euros. Tem sido anunciado que, quando estas obras estiverem terminadas, o aeroporto será encerrado e os milhares de milhões de Euros ali investidos serão perdidos, para se construir um novo aeroporto em Alcochete que terá um custo superior a 5 mil milhões de Euros.

Consideradas as devidas proporções, o esforço financeiro – no caso português – será ainda muito superior àquele que ocorreu em Espanha. O nosso país arrisca-se a ter que gastar verbas brutais para depois ter um tráfego inferior ao actual. As consequências económicas poderão ser muito mais graves, uma vez que vai ser necessário aumentar as taxas aeroportuárias para recuperar o investimento. Nesse caso, Lisboa será ainda menos competitiva dado que, em média, as taxas em Portugal, actualmente, custam quase o dobro das dos aeroportos espanhóis.

Comentar investimentos à posteriori é sempre muito fácil, mas o que se passou no mercado aéreo espanhol e noutros países da Europa é a prova de que os grandes empreendimentos em infra-estruturas aeroportuárias têm que ser efectuados com muita cautela, devido à actual crise.

A solução mais apropriada e menos arriscada para a realidade portuguesa é, sem dúvida, melhorar a gestão da Portela, para a TAP o utilizar como Hub e investir num aeroporto secundário e barato para as Low Cost.»

Rui Rodrigues

http://jornal.maquinistas.org/?p=549
 
Essa da tralha neo-liberal é a asneirada da década. Se Portugal fosse efectivamente um país liberal não havia SNS, escolas públicas, empresas nas mãos do Estado como a CGD ou a TAP, RSI, segurança social pública, ou teríamos menos de metade dos funcionários públicos que temos. O Estado limitar-se-ia ao Negócios Estrangeiros, Segurança Interna, Justiça, Defesa, Ordenamento do Território e à regulação de alguns sectores como a Educação (exames nacionais, programas, etc).

Estamos muito, muito longe de ser um país minimamente liberal. Nem somos um país ao estilo social-democrata. Somos um país socialista, ponto final. Sem tirar nem por. Repito: socialista.

Ainda ninguém percebeu que criar riqueza implica muitos sacrifícios e poupança. Em Portugal, passamos logo para a fase do consumo, via endividamento... se quisermos ser como a Alemanha, os EUA ou a Holanda, teremos agora de passar muitos anos a trabalhar mais, a produzir mais, a poupar mais e a estudar mais.
 
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O Mundo visto de Paris :lmao:

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Ontem, o governo teve mais uma ideia idiota, mais uma a juntar a outras tantas com as SCUT's. Agora, os concelhos que tiverem riqueza abaixo da média, ficam isentos de portagens.

No caso do Algarve, vejamos: Entrando na A22 em Lagos e rumo a Vila Real de Santo António. Entramos em Lagos e Portimão pagamos portagens, Lagoa e Silves não se paga. Entramos no concelho de Albufeira, Loulé e Faro paga-se portagem. Depois de Olhão a Vila Real de Santo António não se paga.

Mas que grande trapalhada, isto vai dar é uma guerra entre concelhos. Uma idiotice como afirma o Macário Correia presidente da CM Faro.:huh:

Ou será, os habitantes destes concelhos não pagam portagens, em todas as SCut´s eu não percebo nada disto:huh:, mas que o governo anda à nora, disso não tenho qualquer dúvida, Portugal precisa de estabilidade e com este governo não a temos, seria altura de cair o governo e que viesse um governo que pusesse o país com estabilidade que o país precisa e que criasse emprego, isso sim, é mais necessário, mas produzirmos mais e criamos riqueza, não é só ir aos bolsos do povo.
 
Pelo contrário. Esta crise está longe do crédito fácil e do juro baixo. A crise começa na pressão sobre os salários e sobre o rendimento, porque a única forma de criar valor com as regras actuais passou a ser o ataque ao salário, aos impostos, à segurança social e à solidariedade entre gerações, transformando tudo em mercadoria. Não é por acaso que muitas empresas saíram de Portugal para irem para a Roménia, Bulgária, Marrocos, Índia e China. Trabalham as mesmas horas, geram o mesmo valor por cada hora de trabalho mas pagam menos e pagar menos é gerar valor.

Como se percebe por aqui há muitos adeptos do Estado mínimo. Mas duvido muito que tenham sequer dinheiro para entrar num hospital privado, numa escola privada ou que pudessem aviar uma receita na farmácia sem a comparticipação do Estado. Talvez vivessem à luz das velas porque como se sabe o preço da electricidade é REGULADO e está muito longe do preço real.

E não adianta confundir a organização económica de um país feita pelo Estado com a corrupção dentro de um Governo. Quem melhor que o Estado pode gerir as expectativas da economia? Como pode um Estado regular a economia se não tiver as suas próprias empresas? Como foi que o Japão saiu da 2ª Guerra Mundial e construiu a vantagem económica que tem hoje?
 
Ainda ninguém percebeu que criar riqueza implica muitos sacrifícios e poupança. Em Portugal, passamos logo para a fase do consumo, via endividamento... se quisermos ser como a Alemanha, os EUA ou a Holanda, teremos agora de passar muitos anos a trabalhar mais, a produzir mais, a poupar mais e a estudar mais.

Saudades do Estado Novo? :lmao:

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São os residentes desses concelhos que ficam isentos. Obviamente é uma grande confusão sem nexo nenhum. Eu sugeria então que em todo o país os concelhos nas mesmas circunstâncias exigam também deixar de pagar nas AE onde sempre pagaram. Segundo JMF são 86% dos municípios de Portugal.

O país está à deriva, um governo sem rumo que muda as coisas de um dia para o outro, isto hoje é verdade amanhã pode já não ser, uma oposição que não quer governar nem derrubar o governo dado o estado do país, e um presidente que pensa apenas em ser reeleito.

O governo e a oposição andam às aranhas com a questão das SCUTS, nem uma parte nem a outra quer tocar no ponto fulcral da questão: existirem alternativas viáveis à autosestrada!

No que toca à A23, é muito simples: devolvam-nos o traçado completo do IP2 que destruíram! Se nos devolverem o IP2, tudo fica simplificado: quem é pobre ou não tem pressa vai pelo IP2. Quem é "rico" ou tem pressa vai pela A23! Simples não?

Esta proposta do governo até acaba por ser injusta, pois não tem em conta uma região, mas apenas os concelhos por onde passa a A23. Por essa razão ficariam de fora concelhos limítrofes como Idanha-a-Nova, Penamacor,.. Outros tantos de outros distritos! Tem lógica essa discriminação positiva? Claro que não.
 
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