O Estado do País

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Apenas para repescar um artigo do economista João Rodrigues...

«Adam Smith já nos tinha alertado no século XVIII: cada vez que os capitalistas de um mesmo ofício se reúnem para conversar, geralmente é para conspirar contra o público. Adam Smith não tinha visto nada. Alguns grandes especuladores nos mercados cambiais, que desde a abolição dos controlos de capitais se têm entretido a ganhar dinheiro à custa da devastação das economias, encontraram-se recentemente para jantar em Nova Iorque, segundo o "Wall Street Journal". No menu estava a aposta na desvalorização do euro e, qual profecia auto-realizada, a eventual implosão da zona euro.

Saber que à frente da Comissão se encontra um neoliberal da estirpe de Barroso e que o BCE é dominado por fanáticos do monetarismo que hesitam em dar todo o apoio a quem se encontra em dificuldades deixa-nos ainda mais apreensivos.

No entanto, sigamos os apelos ao optimismo e concentremo-nos nas boas notícias nacionais. Em tempos de desemprego e de salários em atraso, não são só os bancos que apresentam lucros elevados: as empresas que controlam o sector da energia ou as auto-estradas também. A fraude que domina o debate económico dá vivas ao empreendedorismo.

Trata-se, na realidade, de antigas empresas públicas privatizadas de forma míope pelo bloco central dos interesses para reconstituir grupos económicos com bases industriais subalternas, com reduzida consciência nacional e que operam em sectores que, dadas as suas características quase naturais, dão sempre grande poder de mercado: infra-estruturas públicas, muita distribuição, imobiliário, especulação financeira, pouca indústria e demasiada liquidez investida no estrangeiro.

Oscilam entre a expropriação financeira de outros sectores (perguntem aos verdadeiros empresários o que se passa na assimétrica relação com a banca, por exemplo), o rentismo fundiário, a captura de reguladores e de pessoal político, mais importação do que exportação: uma lumpemburguesia criada por más políticas e que deu origem a uma economia dependente. Perante a pressão da crise muitos salivam pela fruta doce: os serviços e as infra-estruturas públicas, da saúde aos aeroportos.

A economia portuguesa está então entre a espada dos especuladores desabridos e a parede de betão que abafa a burguesia empreendedora. Como sair daqui? Com política industrial selectiva, controlos de capitais à escala europeia, serviços e equipamentos públicos protegidos de predações privadas e maior controlo público da banca, à mistura com instituições europeias e Estados nacionais (com a Alemanha à cabeça) que assumam as suas responsabilidades.

Aliás, dada a importância dos mercados do Sul da Europa e o peso dos seus títulos de dívida no sector financeiro das grandes economias europeias, a "solidariedade" europeia traduz-se na protecção do seu smithiano interesse próprio...

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas»

Ainda assim não acredito na hipótese da bancarrota. Vamos ter condições de vida mais duras é verdade mas se nos tornarem num país indigente financeiramente é certo que não vão receber os créditos...
 
Não sei até que ponto a bancarrota não será a melhor solução, a longo prazo, para o nosso problema. Uma década de crescimento quase nulo, e nada mudou na sociedade portuguesa. A tentação do betão e das obras públicas continua, os jovens não têm iniciativa empresarial quase nenhuma, as poucas indústrias que restam raramente se modernizam e internacionalizam, a especulação imobiliária sobre os terrenos continua em força, não há mercado de arrendamento, a mobilidade social e territorial é muito escassa, os cargos políticos e de decisão continuam a ser ocupados por indivíduos sem currículo, a corrupção continua em alta, a justiça não funciona, etc, etc, etc.

EDIT: uma nota, a culpa não é dos especuladores, mas sim nossa. É importante frisar bem isto. Se não estivéssemos tão endividados...
 
Uma outra nota. Os EUA, aquele terrível país neoliberal, está a sair melhor da crise que a Europa, e tem melhores perspectivas de crescimento para as próximas décadas... Think about that...
 
Uma outra nota. Os EUA, aquele terrível país neoliberal, está a sair melhor da crise que a Europa, e tem melhores perspectivas de crescimento para as próximas décadas... Think about that...

Por enquanto ainda existem muitas dúvidas sobre a recuperação americana, em virtude dos factores animadores estarem a ser impulsionados pelo conjunto de estímulos lançado pelo governo americano, no valor de 787 biliões de Dólares (cerca de 6,5% do PIB EUA).
 
Uma outra nota. Os EUA, aquele terrível país neoliberal, está a sair melhor da crise que a Europa, e tem melhores perspectivas de crescimento para as próximas décadas... Think about that...

Parte da especulação da divida vem dos EUA... E outra coisa que não percebo como ira a Grécia (ou Portugal) recuperar se o aumento dos juros faz com que para o mesmo valor da divida tudos os meses aumente.

Para um consumidor comum há por vezes flutuações de 300€ no juro mensal no período de um ano para uns milhares de euros, quanto mais para uns milhões de euros.

5% era a taxa de juro da compra do carro a 5 anos atrás para o Zé Povinho...
 
'Rating'. Agência S&P baixou a notação de Portugal em dois níveis, para 'A-', ao considerar que metas orçamentais estão mais longe

A economia portuguesa conheceu ontem mais um duro golpe. A agência de notação financeira Standard & Poor's (S&P) cortou o rating da dívida da República Portuguesa, passando dos anteriores 'A+' para 'A-', um corte de dois níveis de que não há memória no mercado português. O outlook permanece "negativo".
A nova classificação de Portugal, a mais baixa de sempre, coloca o País como o segundo mais arriscado da Zona Euro para se investir, segundo esta agência, logo a seguir à Grécia, que onde também conheceu uma revisão em baixa, de 'BBB+' para 'BB-', o último patamar de risco, classificado como "lixo" (junk), abaixo do limiar mínimo que o Banco Central Europeu (BCE) requer para ceder liquidez.
Para a S&P, a justificação para esta descida está na maior probabilidade de Portugal não conseguir atingir as metas de redução do défice público, associada à previsão de uma estagnação da economia. "A descida de dois níveis reflecte a nossa perspectiva de que Portugal enfrenta riscos orçamentais amplificados", refere a agência, no relatório ontem emitido.
Causa ou consequência, a dívida portuguesa voltou ontem a subir, com os juros da yield (rentabilidade) em alta pelo 11.º dia consecutivo. O spread dos juros das obrigações a 10 anos superaram os 250 pontos-base face aos títulos de referência, ou seja, as obrigações alemães, com os juros nacionais a chegar aos 5,511%.
Também no que respeita ao mercado dos seguros da dívida, os CDS (credit default swaps), o risco de Portugal atingiu um valor recorde, subindo 351,9 pontos-base.
Segundo a S&P, "o pontecial de crescimento económico irá provavelmente permanecer fraco, limitado pela reduzida competitividade internacional, baixos ganhos de produtividade, estagnação do investimento e queda do crédito a nível doméstico, dado o elevado nível de endividamento do sector privado".
Reagindo a este corte no rating, Teixeira dos Santos, ministro das Finanças, afirmou que Portugal está a atravessar "um momento decisivo" e que "o País tem de responder a este ataque dos mercados" (ver texto ao lado).
Sem ter ocorrido divulgação de novos dados económicos nos últimos dias e depois de recentemente a S&P ter dado um parecer positivo ao Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) português, este corte agora anunciado resulta da actual crise qu se vive na Zona Euro, nomeadamente na Grécia, e do efeito contágio desta situação, com os especuladores a apostarem em que Portugal será o próximo país a entrar em dificuldades.
Para evitar este e outros efeitos, a UE já anunciou que vai aprovar o pacote de ajudas à Grécia numa cimeira extraordinária que terá lugar a 10 de Maio.
Por cá, responsáveis e analistas consideram que esta decisão da S&P foi um pouco inesperada. Para Filipe Garcia, da consultora financeira IMF, nem toda a responsabilidade por esta situação "é nossa". O País tem de encontrar alternativas de financiamento, através de empréstimos bilaterais, antes de ir ao mercado financiar-se.
Rui Constantino, do Santander Negócios, considera que a primeira prioridade consiste "em assegurar que não há necessidade de financiamento e recurso aos mercados internacionais".
Para a analista do BPI, Paula Carvalho, a revisão da S&P foi forte de mais, "excessivamente influenciada por uma situação" que nos escapa.
O presidente da CMVM, Carlos Tavares, disse que, na qualidade de regulador dos mercados, não deve comentar o tema, mas não deixou de tecer críticas à demora da criação de regras europeias que emprestem mais transparência ao mercado da dívida
In Jornal Publico
 
Bank of America diz que S&P está a "atirar gasolina para a fogueira"

O Bank of America Merrill Lynch analisa hoje o impacto do corte do “rating” da dívida de Portugal e da Grécia por parte da Standard & Poor’s. O título do estudo é sugestivo: “S&P atira gasolina para a fogueira”.

Numa nota de “research”, a casa de investimento norte-americana refere que a decisão da S&P, que cortou o “rating” de Portugal em dois níveis para A- e o da Grécia em três níveis para BB+, faz crescer o sentimento negativo na dívida dos países periféricos da Europa.

As acções portuguesas e gregas estão hoje de novo em forte queda e os juros da dívida pública em alta, em reacção à nota da S&P.

No caso de Portugal, o Bank of América assinala que o Governo já fez saber que “vai continuar a fazer tudo o que for necessário para eliminar a situação de défice excessivo”.

Apesar de reconhecer o contágio que está a ocorrer da crise da Grécia a Portugal, os economistas do banco assinalam que a acção política por parte dos países da União Europeia vai impedir um maior dano da turbulência que se vive na Grécia.

Para ilustrar o peso diminuto de Portugal e Grécia na União Europeia, o Bank of América salienta que “a China importa muito mais para as principais economias do que Portugal e a Grécia”.

Fonte:Jornal de Negócios
 
S&P CORTA "RATING" DE ESPANHA

A Standard & Poor's anunciou esta tarde um corte no "rating" de Espanha, de AA+ para AA, mantendo o "outlook" negativo. Ontem tinha cortado a classificação de Portugal e Grécia.

Entre as três maiores agências de notação financeira, a S&P era já a única que não atribuia classificação máxima à Espanha. O “rating” foi cortado em Janeiro do ano passado para AA+ e o “outlook” colocado em negativo em Dezembro.

Fonte: Jornal de Negócios

Agora é a vez de Espanha, estamos sob efeito de uma avalanche especulativa, de dimensões globais. Qualquer efeito na Grécia, Portugal, Espanha, "?!próximos?!", terá efeitos nos mercados financeiros por todo o mundo. A Espanha afecta-nos muito mais economicamente do que a Grécia!


Podemos entrar num ciclo de retroalimentação negativa:
(1) -> Avaliação negativa das Agencias de Rating -> Aumento das taxas de Juro da Dívida Portuguesa-> Reflexo no Mercados Financeiros -> Medidas contenção do défice -> Repercussão Económica nas Empresas e no Consumo -> Quebra nos indicadores económicos -> (1)

Quando é que acaba esta especulação? Quando é que deixamos de estar a jeito? Como é que nos podemos proteger deste efeitos?

Penso que se a Comunidade Europeia não se apressar a dar um sinal positivo, concreto de apoio, só perderá! Não podem pensar que só os países chamados de P.I.G.S. (Portugal, Itália, Grécia, Spain), são afectados, também as grandes potencias mundiais serão afectadas.
 
Tretas para a desculpa do ataque especulativo. A culpa não é das agências, é nossa. Agora, ou reduzimos a despesa e mudamos de estilo de vida ou nada feito. Estávamos à espera do quê? Que lá fora fossem complacentes como os tuguinhas que tudo perdoam? Da solidariedade europeia? Ahah
 
Obras públicas: só as auto-estradas do Centro vão ser reavaliadas

O Ministro das Obras Públicas acaba de anunciar que o Governo mantém o objectivo de abrir o novo aeroporto de Lisboa em 2017, e prevê lançar o concurso para a sua construção no segundo semestre deste ano. O TGV Lisboa -Madrid vai avançar, sendo que o contrato Poceirão- Caia deverá ser celebrado para a semana.
O TGV e o aeroporto são investimentos para continuar

Em termos de subconcessões, mantém-se todas aquelas que já estão em curso, porque "o Estado é uma pessoa de bem". Porém, a subconcessão Auto-Estrada do Centro, que já está em curso, mas um pouco mais atrasada (está em fase de análise de propostas) poderá ser reavaliada. António Mendonça admitiu que poderá avançar apenas a ligação Coimbra-Viseu.
Fonte: Publico

Numa altura onde a maioria diz que estamos a caminho da bancarrota, o governo mantém as obras. o Português é um povo muito pacífico mas vamos bater no fundo como os gregos. Nessa altura, ninguém vai andar no TGV porque não temos dinheiro.
 
Numa altura onde a maioria diz que estamos a caminho da bancarrota, o governo mantém as obras. o Português é um povo muito pacífico mas vamos bater no fundo como os gregos. Nessa altura, ninguém vai andar no TGV porque não temos dinheiro.

Não deixa de ser irónico avançar com o TGV Lisboa - Madrid, numa altura em que é encerrada a linha de comboios que liga Lisboa - Évora, para a realização de obras na linha que estão previstas durar um ano.

Mais irónico ainda é saber que parte dessa linha esteve em obras há pouco mais de 2 anos...
 
Tive a comparar as nossas políticas, com as tomadas no século XIX, e cheguei à conclusão que continuamos na mesma, em 200 anos pouco mudou, aliás, penso que isto vem ainda mais de trás, para aí desde que se descobriu o ouro no Brasil com D.João V, encostamo-nos ao ouro que vinha de lá, e desatámos a construir palácios, sendo a coroa de todas as obras o Convento de Mafra.

O que se está a passar nos dias de hoje é mais ao menos aquilo que se passou após as guerras libeiras (1824-1836), com o Fontes Pereira de Melo, o famoso período do fontismo, onde através de empréstimos externos, se construiu os primeiros caminhos ferroviários, a rede telegráfica, portos marítimos e os serviços postais.

Tanta construção megalomona, acabou na banca rota, que só viria a ser recuperada na ditadura militar e por Salazar.

«O ambicioso programa de obras públicas então encetado, com a construção de pontes, estradas e o início da construção da malha ferroviária portuguesa, foi essencialmente financiada com recurso a empréstimos externos, nomeadamente junto da banca inglesa, o que acabaria por levar ao colapso financeiro, e depois político do governo, com o consequente retorno à instabilidade.»

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fontismo

Por isso, agora é esperar pela banca rota :rolleyes:
 
Tive a comparar as nossas políticas, com as tomadas no século XIX, e cheguei à conclusão que continuamos na mesma, em 200 anos pouco mudou, aliás, penso que isto vem ainda mais de trás, para aí desde que se descobriu o ouro no Brasil com D.João V, encostamo-nos ao ouro que vinha de lá, e desatámos a construir palácios, sendo a coroa de todas as obras o Convento de Mafra.

O que se está a passar nos dias de hoje é mais ao menos aquilo que se passou após as guerras libeiras (1824-1836), com o Fontes Pereira de Melo, o famoso período do fontismo, onde através de empréstimos externos, se construiu os primeiros caminhos ferroviários, a rede telegráfica, portos marítimos e os serviços postais.

Concordo, Mário! Mas o que era magalomano há 200anos atrás era gastar todo o ouro do brasil em palácios, e deixar para trás a revolução industrial! Pois é, enquanto a revolução industrial se iniciou na inglaterra, frança, países baixos, por aqui gastava-se dinheiro em nada, a indústria era coisa de pobres, um "mal desnecessário" para Portugal (havia ouro q.b. para a coroa portuguesa e terras para o povo cultivar, importar bens era chique e exportar era coisa até mal vista). A única coisa que se fez bem foi construir hospitais, misericórdias, estradas e os caminhos de ferro. Depois com a independência do brasil e das colónias, acabou o ouro, a mão-de-obra barata. Com salazar, as contas ficaram em dia, controladas, mas sem o investimento necessário, somando os custos das guerras coloniais e de portugal ter ficado fora do plano marshal (por não ter participado na 2a guerra mundial). Actualmente, o que é megalomano é construir um TGV que a maioria dos portugueses não vai usar, é construir auto-estradas norte-sul a triplicar, são os gastos com estudos prévios, são as parcerias público-privadas pouco transparentes, são centenas de fundações subsidiadas pelo estado e que ninguém sabe para que servem, sei lá.. É falta de rumo e de responsabilidade para com a dívida que nos penhora gerações futuras e que nos obrigará a todos muito em breve, a saber viver com o que temos. Actualmente já é um pouco assim, os fundos europeus até 2013 financiam-nos com 80%, só temos que entrar com 20% que obtêmos emprestado a juros cada vez maiores. Quanto mais debêis, mais susceptíveis a especulações financeiras, quanto mais pobres tanto pior. A mesma regra é praticada pelos bancos no crédito: os mais abastados pagam pouco juro, os mais pobres pagam com juros superiores o preço do risco.
 
É um deslumbramento constante e um gastar compulsivo que não vem só desde o século XIX, desde o século XVI que tal sucede e desde aí que a balança não raro tem pendido para o pior lado.

Compra-se o que não se tem e não se produz para compensar os gastos, para quê, os outros produzem e nós compramos nem que seja a crédito; é mais fácil do que ter o trabalho!
E depois surgem estes enormes elefantes brancos que nem este período de tanga faz abrandar o ritmo de consumismo desenfreado, porque afinal se é um escândalo não dar corpo a projectos considerados urgentes desde há vários anos, também não deixa de ser escandaloso se não for dado deferimento aos mais recentes com vista à sua execução, porque já era para ter sido feito ontem!

Mais grave do que tais medidas implementadas em circunstâncias desfavoráveis é a natureza de critérios que regem os poderes de decisão que parecem mais uma vez não ter a noção das questões de fundo que estão na origem da situação que o País atravessa…
 
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