Mural da CDU nas Escadas
Monumentais gera onda de indignação
Comunidade irritada com propaganda política num espaço que é património e até integra a candidatura da Universidade a Património da UNESCO
As Escadas Monumentais foram pintadas com as cores e a mensagem CDU, num apelo ao voto para as eleições legislativas de 5 de Junho, mas o “serviço” levado a cabo pelos comunistas na noite de domingo para segunda-feira não caiu bem na comunidade, de tal forma que “choveram” protestos contra a acção que muitos denominam ser um acto de puro vandalismo e desrespeito para com um monumento que faz parte da história da Universidade de Coimbra, que até é candidato a Património Mundial da UNESCO.
Na rede social Facebook, multiplicaram-se os comentários contra a acção de campanha da CDU na escadaria e surgiram até vários movimentos, grupos e eventos públicos. “Vamos limpar as escadas monumentais”, hoje, a partir das 16h00, propõe um dos movimentos, enquanto que um evento público, que contava ontem com mais de 1600 participantes, propunha “Obrigar a CDU a limpar as escadas monumentais”. Mas há mais na rede social: um grupo, que ontem à noite contava já com perto de 300 membros, insurgia-se “Contra os actos de vandalismo e censura da CDU Coimbra”. «Vândalos» e «é vergonhoso como se estraga o nosso património com a simples desculpa da campanha eleitoral», lia-se em alguns comentários no Facebook.
Retirar está “fora de questão”
Os estudantes, que diariamente sobem e descem as Escadas Monumentais, também foram “apanhados” pela berrante propaganda política e, por uma outra via, também foram vários os alertas que chegaram ao Diário de Coimbra, de cidadãos que quiseram alertar e mostrar o seu descontentamento com a pintura feita na escadaria. «É inadmissível usar o património da academia e de Coimbra com propagandas políticas, independentemente do partido em causa», considerou um munícipe.
“Nem propinas/ Nem Bolonha/ Mais bolsas/ Leva a luta até ao voto”, lê-se no mural, que ocupa todos os cinco lanços da escadaria, composta por 125 degraus, que liga a rua Castro Matoso ao largo D. Dinis, na universidade. A zona, até costuma ser usada para acções de contestação, através da colocação de cartazes ou outros meios, mas nunca através da pintura, garantiu ontem o presidente da Associação Académica de Coimbra, Eduardo Melo, classificando a atitude da coligação PCP-PEV como um acto de «puro vandalismo». «Sendo a CDU ou qualquer outra força política, pintar uma parte do património é um acto de vandalismo», afirmou o dirigente associativo, mostrando a sua «indignação»
Face à onda de críticas que a pintura gerou, a CDU veio ontem esclarecer que a acção desenvolvida foi «legal» e vem no seguimento do que tantas e tantas vezes foi feito nas Escadas Monumentais. «Desde o 25 de Abril que as escadas são pintadas. Remonta à crise académica de 69, em que os estudantes protestaram contra o regime naquelas mesmas escadas», explicou Francisco Queirós, mandatário da campanha da CDU, falando numa «longa tradição» de pintar aquele espaço e que «a lei permite em campanha eleitoral». «Trata-se da liberdade de expressão», afirmou, referindo ainda que quem está contra será «um movimento organizado, orquestrado contra a CDU», próximo de um «anticomunismo» que julgava «já não existir».
O próprio cabeça-de-lista da coligação às legislativas, Manuel Rocha, desvalorizou as críticas e referiu que se trata de «propaganda política legal». «Não vamos deixar que alguém destrua aquilo, que dura apenas durante a campanha e está previsto nos termos da lei eleitoral», afirmou o candidato, garantindo que se trata de uma pintura com «tinta a água», que «irá desaparecer com a chuva».
Francisco Queirós lembrou, de resto, que a polícia esteve no local no domingo à noite, quando os jovens da Juventude Comunista Portuguesa (JCP) pintavam o mural e «foi embora porque percebeu que a acção era legal». Por isso, reafirmou, retirar as pinturas «está fora de questão». Por sinal, a PSP também esteve ontem à noite no local, numa acção de prevenção a prevenir possíveis incidentes.