Vou explicar basicamente como isto funciona, de maneira muito grosseira.
Um pequeno investidor se quiser construir numa zona agrícola, parque natural ou reserva ecológia não pode. Mas os grandes projectos que são aqueles que têm maior impacto ambiental, no nosso país, têm todos aprovação garantida. São considerados Projectos de Interesse Nacional e avançam.
Entretanto, os investidores normalmente são pessoas ligadas ao círculo do poder. Conseguem financiamento via BES, CGD ou BCP. Ou melhor, conseguiam. Entretanto, há um intermediário local que recebe uma comissão e consegue negociar com os donos dos terrenos.
O empreendimento avança e os campos de golfe são cavalos de Tróia, tal como a hotelaria, para o que realmente interessa, o imobiliário. Entretanto, profissionais que têm rendimentos elevados garantidos -médicos, gestores de empresas públicas, funcionários de fundações, administradores do sector Estado e do Estado paralelo, arquitectos, advogados- endividam-se na Banca para comprar segunda habitação. Outro alvo apetecível são os clientes estrangeiros, mas aí tudo se complica pois outros países como Grécia, Itália ou Espanha oferecem alojamentos com melhor qualidade arquitectónica em «iconic regions» como a Toscânia, com melhor relação qualidade/preço.
É assim um negócio chorudo que beneficia:
- autarquias e ju8ntas de freguesia, que se aproveitam destes aprovamentos para falar em emprego e desenvolvimento(?), para além disso as autarquias recebem o dinheiro dos impostos diversos que estes empreendimentos pagam;
- Banca, que empresta dinheiro e recebe os lucros dos juros;
- intermediários do forte sector imobiliário local;
- empresários com ligações à Banca e ao poder político.
Indirectamente, estes empreendimentos dependem do Estado, via CGD, programas de desenvolvimento ou funcionários do Estado e Estado paralelo, com remunerações elevadas e emprego garantido. Os pequenos, médios e até grandes empresários que conheço não compram segunda habitação nestas condições, pois dão outro valor ao dinheiro e muitos nem têm férias, aliás quem tem negócios que envolvem exportação com frequência nunca pode tirar férias e tem de estar disponível todos os «business days» para tratar dos assuntos com os clientes.
Muitos destes grandes empreendimentos estão tecnicamente falidos ou à beira disso. Não acreditem na propaganda, conheço por exemplo um mega PIN que tem quase todas as habitações por vender há mais de 5 anos e o campo de golfe quase não tem clientes! Ainda se está a manter porque a Banca portuguesa é paciente...
Outro caso que se fala é o empreendimento dos Salgados, ao que parece está falido mas há quem queira avançar com outro PIN na lagoa dos Salgados, uma área protegida. É de loucos, e fica a questão: se o mercado está há muito saturado, por que motivo a Banca portuguesa ainda financia estes projectos?
Fala-se que a Comporta, de Ricardo Salgado, não foi o sucesso previsto, tal como Tróia. Antigamente negócio do imobiliário no Algarve era sustentável, vendiam-se quintas e casas velhas que os estrangeiros restauravam, e os empreendimentos feitos de raiz eram de pequena dimensão e adequados ao cliente habitual da região, as classes médias do Reino Unido, Holanda ou Alemanha, pois as classes altas preferem outros destinos, o Sul de Itália, as ilhas gregas ou o Sul de França, o Algarve não tem tradição nas classes altas europeias nem nunca terá.
Vejo por isso com muitas preocupação a situação da nossa Banca, financiaram mega projectos na costa algarvia ou na costa alentejana, e elefantes brancos como o Autódromo do Algarve, e agora têm este «lixo imobiliário» sem compradores. Em breve as moradias de luxo começarão a ficar velhas e degradadas, e aí então os potenciais clientes de classe alta fugirão ainda mais destes empreendimentos.
O chumbo dos empreendimentos do Alqueva denota que há uma mudança de política na CGD, apareceu logo o Basílio Horta que era muito socrático na TV, se ainda estivesse o PS no poder estes empreendimentos avançariam, mas depois se corressem mal quem pagaria a factura? Se na costa algarvia há n hotéis e empreendimentos falidos ou à beira disso, alguém acredita na viabilidade destes mega projectos no Alqueva? Quem quereria comprar um vivenda de luxo no Alentejo, uma região sem iniciativas culturais de relevo ou comércio decente, quando pode comprar no Sul de Itália a preços mais reduzidos e ter acesso a zonas com festivais de ópera, grandes museus ou comércio de luxo? Os empresários, banqueiros e políticos portugueses vivem num mundo de ilusão e são na sua maioria uns incompetentes.