"Paulo Portas é o melhor Anti.Estadista que este país teve o infortúnio de gerar nos últimos anos. Ao contrário de pautar os seus actos por uma noção de Estado que lhe seria expectável, de colocar Portugal primeiro, Portas é o mestre dos golpes palacianos em prol única e exclusivamente da sua agenda e ambição política desmesuradas.
Faz com Portugal o que, há vinte anos, fazia com o 'Independente': usa.o. Em proveito desta ambição que tenta esconder, não olhando a meios, fidelidades, compromissos, protocolos, ao não assumir atitudes de verdadeiro Homem de Estado, brinca com os instrumentos que lhe estão mais à mão: antes o jornal, agora o País. Ele, a seguir, ele no meio, e no final, ele mesmo. Para trás, a reputação de Portugal, os Portugueses, os seus sonhos, aqueles com quem se comprometeu nas ruas, nas feiras, nos apertos de mão, nos beijinhos, no Governo, com os seus pares, o seu partido, e, por fim, um chuto nos mercados que tanto diz considerar. Todos hão-de sofrer com este tipo de perfídia política. A Portas interessa sim, e apenas, ficar bem na fotografia. Nisso é um mestre. O problema é que no desenrolar dos acontecimentos da última semana, não haverá Photoshop que lhe acuda: o Anti.Estadista mostrou-se. Creio, e espero, que os portugueses não lhe perdoarão. O problema humano de Paulo Portas é simples: jamais mudará. Revela-se a cada dia, como se precisássemos de mais. Portas é um fingidor que finje a dor que não sente.
Ao longo de uma já vasta carreira na política, iniciada enquanto jornalista e pelo poder conferido pelas sempre desestabilizantes ' notícias/intrigas ' que semanalmente caucionava no 'Independente', Portas nunca conseguiu ser de facto eleito para nada não ser para a direcção do Partido que dirige. Sempre minoritário, deixa uma impressão de que ser convidado a participar em governos corresponde mais à teoria do : ' Mantém os teus amigos perto, mas os teus inimigos mais perto ainda'. Assim tem agido todos os que aceitam jogar o jogo em que acabam encurralados. Preferem um Portas à vista, que um Portas algures entrincheirado numa qualquer conspiração. Se há Black Adder na corte portuguesa, aqui o tendes.
Na impossibilidade total de vir algum dia a ser eleito para o quer que seja, sobretudo para primeiro.ministro, para bem de todos nós e para sua grande infelicidade, Paulo Portas dedicou-se à sábia arte da manipulação daqueles que procuram nele apoio institucional. Uma vez no Governo, reinicia todo o processo: conspirar para ascender. E, neste jogo em que a aranha atrai a mosca à sua teia, prende.a. E só a liberta se for para a mosca a ajudar a tecer teia ainda maior onde outras moscas, igualmente ofuscadas e carentes, cairão. Passos Coelho é uma dessas pobres moscas. Uma mosca morta refém de Portas. Uma vez mais.
Nunca cabalmente esclarecido o caso da Universidade Moderna, nunca se tendo revelado os verdadeiros e profundos contornos dos negócios que estão na origem da compra de submarinos, helicópteros e outros equipamentos militares enquanto Ministro da Defesa, o certo é que à mulher de César não chega parecer séria. E enquanto estes processos não forem completamente escrutinados pela justiça, pelos Portugueses, Portas sairá sempre chamuscado. Porque os fantasmas que se levantam, fazem mais sentido de cada vez que, como Anti.Estadista, se torna no protagonista que gosta de ser. Para já fica uma certeza: destes negócios, e das suas contrapartidas, resulta uma factura que todos os Portuguese pagarão durante muitos anos, uma dívida absolutamente escusada que em muito contribuiu para o imenso buraco financeiro e para a ruína do País que, agora, se prepara de novo para ' ajudar a salvar'.
Mumificado, o Presidente da República, também ele mosca enroscada nas mãos daquele que 'quer ser Califa no lugar do Califa', empossará mais um governo sem qualquer respeitabilidade nem legitimidade.
Nas ruas, em casa, no desemprego, nos mínguos salários, na saúde que não tem, na justiça que não chega, nos medicamentos que já não podem comprar, nas escolas de onde tem que tirar os filhos, num governo onde já não se revêem nem votaram, aos Portugueses não faltarão razões de sobra para se revoltarem e indignarem.
Gosto do PP. Simpatizo mesmo com o PP. É um Partido absolutamente essencial. Mas nunca gostei de ' Vichysoise'. No PP há brilhantes e verdadeiros Estadistas, homens e mulheres com ideias bem claras, pragmáticas, e genuinamente honestas. Os Partidos políticos são o maior garante da Democracia porque é deles que sairão para o Parlamento os representantes da Nação por nós eleitos. A questão é que dirigentes escolhem os Partidos e em que condições o fazem. Pode Passos estar sequestrado por Portas. E até o PR, porque já se demitiu há muito tempo de o ser. Mas não pode estar refém dele nem o País, nem o PP, e muito menos a Democracia."
Pedro Abrunhosa