O grande Sismo e Tsunami de 1755 em Portugal (M 8.7/9.0)

Vince

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O grande Sismo e Tsunami de 1755 em Portugal

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Outubro de 2005

250 anos do terramoto de 1755
A primeira catástrofe moderna faz exactamente 250 anos no próximo 1 de Novembro. A origem do terramoto de 1755 continua a ser um enigma para os cientistas.

A polémica mantém-se e já chegou às páginas da revista "Science", mas, por enquanto, só existe algum consenso quanto à localização da principal rotura que provocou a catástrofe. Ela tem um nome bem sugestivo: Falha Marquês de Pombal.
Ainda no dia dos horrores, em que o fogo e a água se juntaram à terra para destruir Lisboa e uma parte do país, o Governo, no qual se distinguiu o ministro Carvalho e Melo, deu as respostas necessárias com a rapidez que a situação exigia: "Enterrar os mortos, cuidar dos vivos". Evitar a propagação de doenças, tratar dos transportes e do acesso às zonas do desastre, do abastecimento da população atingida, da segurança. Eis as questões logísticas que, com algumas diferenças, se põem hoje às comunidades humanas concentradas em grandes metrópoles, seja em Nova Orleães ou em Islamabade.

E, depois, é preciso recomeçar. Tal como aconteceu em Lisboa, onde ressurgiu uma cidade voltada para o futuro, inovadora, no ambiente cultural que se criou e até na construção anti-sísmica, outro sinal da evidente modernidade pós-1755. Essa construção surgida na Baixa lisboeta, património que hoje volta a ser ameaçado pelas alterações feitas às estruturas dos edifícios, as chamadas "gaiolas" pombalinas. De tal maneira que muitos especialistas consideram não estar Lisboa e outras regiões do país, como o Algarve, preparadas para um grande terramoto.

A nossa legislação anti-sísmica é uma das mais avançadas da Europa, mas a sua aplicação depara-se com um problema: a fiscalização. As autarquias não têm meios para a fazer em condições, não havendo por isso garantias de segurança, mesmo na construção nova. E nas obras de reabilitação há simplesmente um vazio legal, o que permite tudo, desde o uso de materiais inadequados à supressão de paredes e pilares, ou ao corte das barras de madeira dos edifícios "gaioleiros". Por isso, numa simulação do Laboratório Nacional de Engenharia Civil feita para o EXPRESSO de um sismo como o de 1755, os resultados foram catastróficos. Nas regiões de risco mais elevado - a Área Metropolitana de Lisboa e o Algarve - registaram-se mais de 25 mil mortos e o colapso de 25 mil edifícios. Mas num cenário em que o parque habitacional estivesse em bom estado de conservação, estes danos reduzir-se-iam a metade.


O mistério do epicentro
Há uma polémica científica à volta das origens do Terramoto de Lisboa que não parece ter solução. Para já, só existe um consenso mais alargado quando à principal falha que provocou o desastre: a Falha Marquês de Pombal.


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As origens do terramoto e do maremoto que destruíram Lisboa e o Algarve há 250 anos continuam a ser um mistério, apesar dos avanços científicos alcançados, nomeadamente com as campanhas oceanográficas da década de 90.

A resolução do enigma do epicentro de 1755 não é um capricho académico, um mero assunto de sismologia histórica, mas pode ter implicações na actualidade, porque só conhecendo melhor a região submarina entre o sudoeste da costa algarvia e o golfo de Cádis, onde tiveram origem quase todos os grandes sismos que abalaram Portugal nos últimos dois mil anos, se podem definir com segurança as políticas de prevenção e de protecção das populações.

A única certeza para uma boa parte dos cientistas é que a principal rotura que terá provocado a catástrofe se situou na Falha Marquês de Pombal, 100 quilómetros a oeste do cabo de São Vicente. E que o terramoto terá atingido a magnitude de 8,7 a 9 da Escala de Richter. A partir daqui os especialistas dividem-se.

Maria Ana Batista e Miguel Miranda são um casal de cientistas do Centro de Geofísica da Faculdade de Ciências de Lisboa que se tem destacado nesta área. Tal como o investigador italiano Nevio Zitellini, eles defendem "a conjugação da Falha Marquês de Pombal com as falhas do Banco do Guadalquivir, uma montanha submarina a sul de Faro, para explicar o que se passou em 1755", esclarece Maria Ana Batista. Miguel Miranda admite, no entanto, que "são necessários novos esforços para a identificação da fonte tectónica do terramoto de Lisboa, dirigidos a uma melhor compreensão dos movimentos da fronteira das placas Euroasiática e Africana na zona sul da Península Ibérica".

Outra tese aponta para a associação da Falha Marquês de Pombal com a Falha de Ferradura, localizada a 140 quilómetros a sul do cabo de São Vicente, para justificar a origem do maior desastre natural de sempre ocorrido em Portugal. Os seus mais conhecidos entusiastas são Luís Mendes Victor, António Ribeiro e Luís Matias, todos da Faculdade de Ciências de Lisboa. Luís Matias recorda que "a actividade sísmica da zona a sul do Algarve está ligada à colisão entre as placas tectónicas da Eurásia e de África, e a fronteira entre elas é complexa, se a compararmos com as de Sumatra ou da Califórnia. É por isso que a origem de 1755 ainda não está identificada". O especialista esclarece que "quando falamos do epicentro, referimo-nos ao ponto onde se inicia a rotura de uma placa tectónica, só que não é bem isso que nos interessa em relação a 1755, mas antes a estrutura de 200 quilómetros de extensão que teria de provocar um terramoto de grande magnitude".

A identificação dessa estrutura teve grandes avanços nos anos 90 com o projecto europeu GITEC, que juntou cientistas portugueses, italianos e franceses. Nessa altura concluiu-se que as falhas do Banco de Gorringe, uma grande montanha submarina 300 quilómetros a sudoeste do cabo de São Vicente, não podiam estar na origem da catástrofe como se supunha até então, apesar das suas grandes dimensões, porque se encontram demasiado longe da costa portuguesa, entrando em contradição com os relatos históricos existentes sobre o tempo de chegada do maremoto depois de sentido o terramoto. O GITEC desenvolveu também estudos geológicos sobre os depósitos sedimentares deixados pelo maremoto, e com base neles foi possível determinar a amplitude da sua onda, o tempo de chegada à costa e o sentido do primeiro movimento.

"A Falha Marquês de Pombal não tem 200 quilómetros mas apenas 60 quilómetros de extensão, sendo assim uma parte da solução, mas não a solução completa", argumenta Luís Matias, acrescentando que este é um debate que interessa ao grande público, "porque precisamos de saber onde teve origem 1755 para determinarmos a zona da fronteira de placas tectónicas ainda por romper, que poderá provocar grandes sismos no futuro".

E António Ribeiro considera que "há progressos a fazer nas áreas da geologia e da geofísica marinhas, através do estudo dos perfis de reflexão sísmica, da instalação de sismógrafos no fundo do mar para detectarem a actividade mais pequena, e da geodesia espacial, que analisa o movimento das placas tectónicas por GPS".

Mas há teorias bem diferentes que tentam explicar o desastre ocorrido há 250 anos. O debate chegou à revista "Science", onde o investigador francês Marc-André Gutscher defendeu em 2004 que o terramoto teria sido provocado pelo Arco de Gibraltar, na fronteira entre as placas Euroasiática e Africana. Esta formação tectónica começa na Cordilheira Bética (Andaluzia), atravessa o mar no Estreito de Gibraltar e termina no Rift, em Marrocos, estando a deslocar-se para oeste, como provam os dados científicos mais recentes.

E foi também na "Science" de 1 de Abril de 2005 que João Duarte Fonseca, investigador do Instituto Superior Técnico, publicou um artigo onde sugere a hipótese de uma rotura múltipla no oceano Atlântico (a oeste ou sudoeste do cabo de São Vicente) e no Vale do Tejo para explicar o efeito destrutivo do terramoto em Lisboa. Sendo assim, em 1755 teriam ocorrido dois sismos e não um. Nesse artigo, João Fonseca observa que "o leque de regiões já propostas para a localização do epicentro do terramoto de 1755 estende-se por 600 quilómetros, o que constitui uma surpreendente incerteza, tendo em conta que os danos que o fenómeno causou estão bem documentados". O cientista insiste que "não está a ser dada suficiente atenção às falhas activas em terra no território nacional para encontrar as fontes do sismo de 1755". E adianta que "as falhas geológicas interagem umas com as outras, mesmo quando estão a centenas de quilómetros de distância, e por isso não podem ser analisadas isoladamente".

Pedro Terrinha, do Laboratório de Tectónica Experimental da Faculdade de Ciências de Lisboa, acha que "neste momento é muito difícil chegar-se a um consenso nos meios científicos sobre as origens de 1755, porque os dados com que se joga já estão conhecidos e explorados. Além do mais, são dados essencialmente históricos e não experimentais". O geólogo lembra que "há largas dezenas de grupos de investigadores por esse mundo fora a estudar o terramoto, e mesmo os espanhóis têm formulado diversas hipóteses para explicar a sua origem".
http://aeiou.expresso.pt/o-misterio-do-epicentro=f553562



Um grande sismo no século XXI
O período de retorno do sismo de 1755 é de mais de mil anos, mas o LNEC fez uma simulação para o Expresso como se o retorno fosse hoje, 250 depois.


A maior parte dos especialistas defende que, em Portugal, o período de retorno de um sismo com uma magnitude semelhante ao de 1755 - entre 8,7 e 9 na Escala de Richter - é bastante longo, da ordem dos mil anos ou mesmo mais. Em todo o caso, a previsão em sentido estrito é um conceito que ainda não faz parte do léxico da sismologia, com uma única excepção: os tsunamis. Por enquanto, os cientistas apenas podem fazer estimativas, recorrer ao jogo das probabilidades e simular cenários. Mas neste tipo de exercício, o que aconteceria caso ocorresse no século XXI um terramoto com características equivalentes ao que abalou o nosso país há 250 anos?

O Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) dá-nos a resposta através do seu simulador de cenários sísmicos, um conjunto de programas informáticos associado a um sistema de informação geográfica com base no Censos de 2001, que detalha para todo o território nacional, ao nível da freguesia, os danos humanos, materiais e económicos provocados por um terramoto com uma determinada magnitude. O simulador tem, obviamente, algumas restrições, devido à sua grande complexidade. Uma delas é que, nos danos materiais e económicos, se aplica apenas ao parque habitacional existente e não aos edifícios de uso público como escritórios, superfícies comerciais, hospitais, escolas, instalações desportivas ou industriais. Nem às infra-estruturas de transportes, comunicações, energia, água e saneamento. Outra limitação é que não tem uma componente sazonal e demográfica nos seus parâmetros, ou seja, são postos de lado fenómenos como os movimentos pendulares da população entre o centro e a periferia da Área Metropolitana de Lisboa nos dias de trabalho, ou a maior concentração de turistas nacionais e estrangeiros durante a época de Verão no Algarve. A informação estatística que entra no simulador diz somente respeito à população residente e parte de uma única hipótese: um sismo à noite, com 95% dos portugueses em casa.

Apesar destas condicionantes, numa simulação feita pelo LNEC a pedido do EXPRESSO para as três zonas do país com um nível de risco sísmico mais elevado - a cidade de Lisboa, a Área Metropolitana de Lisboa e concelhos limítrofes (onde se concentra 40% da riqueza nacional), e o Algarve - os resultados obtidos são, sem dúvida, catastróficos. Com efeito, um sismo nocturno com o grau 8,7 a 9 da Escala de Richter provocaria, só nestas regiões, mais de 25 mil mortos, 14 mil feridos, o colapso de 25 mil edifícios de habitação, danos severos noutros 74 mil e perdas económicas equivalentes a 13 % da riqueza nacional (PIB) em 2001!

"O resultado desta simulação tem uma certa margem de incerteza, e ainda que se obtenham danos materiais apreciáveis e perdas económicas catastróficas, mesmo sem considerar os custos indirectos, o número de mortos seria inferior ao de 1755, porque apesar de tudo a população hoje está mais preparada para enfrentar um grande sismo e a Protecção Civil tem feito um trabalho importante na área de Lisboa e a nível nacional", ressalva Ema Coelho. A chefe do Núcleo de Engenharia Sísmica e Dinâmica de Estruturas do LNEC acrescenta que "na simulação entraram parâmetros como as características dos solos, as tipologias construtivas do parque habitacional, a vulnerabilidade sísmica deste parque e a eficácia das operações de emergência da Protecção Civil", mas assinala que "este modelo não quantifica danos em construção moderna não fiscalizada e em construção clandestina legalizada", o que significa que os estragos provocados por um terramoto semelhante ao de 1755 poderiam ser maiores.

Maria Luísa Sousa, investigadora do LNEC envolvida nesta simulação, destaca também o facto de "a avaliação económica dos danos estruturais nos edifícios de habitação não incluir efeitos colaterais, perdas dos recheios e dos materiais neles armazenados, e outros dados, como o seu tempo de reposição ou o tempo de reparação das estruturas, por exemplo". A cientista esclarece que "há autores que afirmam que as perdas nos recheios podem ser superiores a 10% do total desses danos, enquanto outros dizem que esse valor pode atingir os 50%". Por outro lado, "as estatísticas sobre os danos provocados pelos sismos no século XX mostram que cerca de 25% das vítimas mortais não tiveram origem no colapso de estruturas, sendo antes uma consequência de efeitos colaterais, como a liquefacção dos solos, tsunamis e incêndios". Tudo somado, não há dúvida que os resultados obtidos pelo LNEC são dramáticos mas, mesmo assim, encontram-se subavaliados.

Entretanto, o Algarve é a região mais vulnerável do país, como se pode ver pelos resultados da simulação: cerca de 3% da população poderia morrer e 30% dos edifícios de habitação entrariam em colapso ou ficariam gravemente danificados, caso ocorresse um grande sismo. As ameaças não vêm apenas da terra, mas também do mar. Como se sabe, o Terramoto de 1755 foi seguido de um grande tsunami cujas ondas atingiram os seis metros de altura na costa de Lisboa e os 10 a 12 metros no Algarve, provocando mais danos humanos e materiais nas zonas já atingidas pelo abalo sísmico. O Centro de Geofísica da Faculdade de Ciências de Lisboa fez pela primeira vez, a pedido do EXPRESSO, a simulação de um tsunami semelhante ao de há 250 anos, incluindo a sua entrada no Tejo, com os tempos de chegada às várias zonas da costa portuguesa. E o risco é bem evidente para todas as cidades do litoral sudoeste e sul do país, em particular no Algarve.

Pedro Soares, um investigador em mecânica de fluidos que participou na simulação do Centro de Geofísica, observa que neste exercício "a velocidade de propagação do tsunami no oceano é muito elevada e próximo da fonte ultrapassa os 600km por hora". Com a diminuição da profundidade, "esta velocidade diminui, de tal maneira que à entrada do estuário do Tejo baixa para 60km e dentro do estuário reduz-se a 30km/hora". Em todo o caso, "os efeitos dentro do estuário e a interacção com a zona ribeirinha de Lisboa são um pouco mais elevados do que este modelo produz, por efeitos do galgamento das águas e da inundação". Assim, os materiais arrastados pelas ondas "têm um efeito adicional ptencialmente destruidor, tanto na fase de 'run-in' (avanço) como na fase de 'run-out' (recuo)". Na região próxima da fonte do tsunami, no sudoeste do Cabo de S. Vicente, o primeiro movimento da superfície oceânica é muito acentuado, já que a crista máxima tem mais de 15 metros de altura, enquanto a cava está três metros abaixo do nível do mar. Pedro Soares estima que o tsunami inunde a costa oeste do Algarve com ondas de 12 metros de altura, cerca de 17 minutos depois da ocorrência do sismo que o provocou. Quanto à costa oeste de Lisboa, é atingida com ondas de seis metros cerca de 25 minutos depois e Cascais aos 29 minutos. A baixa profundidade do estuário do Tejo abranda o tsunami e a sua amplitude, chegando as suas vagas ao Terreiro do Paço 55 minutos depois do sismo.

Entretanto, um estudo recente de Sebastião Braz Teixeira, especialista da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, apresentado em Maio em Lisboa num seminário internacional sobre tsunamis organizado pela Fundação Luso-Americana, quantifica o risco de tsunami para a costa algarvia. E os números a que chega são muito preocupantes. "O litoral do Algarve, com uma frente de mar de cerca de 250km, é aquele que, pela proximidade, constitui a primeira frente costeira a sofrer o efeito de um eventual tsunami gerado na sequência de um hipotético terramoto com epicentro a 150km do Cabo de S. Vicente", afirma Braz Teixeira no seu estudo. Admitindo "um evento extremo idêntico ao registado na sequência do Terramoto de 1755", o especialista aponta "para uma população máxima em risco de cerca de 200 mil pessoas, na eventualidade do tsunami ocorrer durante o pico de ocupação das praias, a meio de uma tarde de Agosto". E se acontecer durante a noite, este número baixa para 65 mil pessoas. Quanto aos bens em risco (construções, aeroporto, portos, ferrovias, culturas agrícolas, terrenos, embarcações, automóveis), as estimativas obtidas chegam a valores da ordem dos dois a três mil milhões de euros, isto é, o equivalente a metade do PIB do Algarve! Braz Teixeira afirma ainda que "a zona mais exposta da região está localizada na planície costeira de Manta-Rota, abrangendo o litoral até Vila Real de Santo António". E logo a seguir vêm as cidades de Portimão e Quarteira.

O estudo agrupa a costa algarvia em quatro unidades geomorfológicas distintas, em termos de análise de vulnerabilidade à incidência de um tsunami: o litoral de arriba; o litoral baixo e arenoso; os estuários dos rios, lagunas e lagoas costeiras; e as praias. E, à excepção da primeira zona, todas são muito vulneráveis. As conclusões relativamente às praias são mesmo surpreendentes. Assim, a experiência demonstra que "condições de tempestade com incidência de ondas de 2,5 a 3 metros de altura são suficientes para varrer a totalidade das praias. Face a este regime normal, imediatamente se conclui que um tsunami com características menos energéticas do que as verificadas em 1 de Novembro de 1755 é suficiente para promover a imersão completa das praias do Algarve".

Algumas infraestruturas decisivas para o desenvolvimento do turismo na região e para a realização de eventuais operações de socorro em caso de um grande sismo seguido de tsunami, têm um nível de risco impressionante. É o caso do Aeroporto Internacional de Faro, avaliado neste estudo em 500 milhões de euros. No ponto mais próximo do litoral, a pista está construída apenas a cinco metros acima do nível médio do mar e localiza-se a menos de 1,5km da Ilha de Faro. Braz Teixeira conclui, por isso, que "a conjugação da baixa cota de implantação do aeroporto e da proximidade a um dos troços do litoral mais vulnerável ao galgamento das ondas de um tsunami, confere a esta infra-estrutura um grau de exposição muito significativo".

E num debate realizado na Universidade do Algarve pouco depois da tragédia ocorrida na Ásia no final de 2004, João Alveirinho Dias, professor da Faculdade de Ciências do Mar e do Ambiente, considerava que as consequências de um tsunami como o de 1755 seriam "absolutamente catastróficas e dramáticas", devido ao elevado índice de construção e à grande densidade populacional do litoral algarvio, já que cerca de 60% das habitações da região estão concentradas numa faixa de 2km ao longo da costa.
http://aeiou.expresso.pt/um-grande-sismo-no-seculo-xxi=f553551


Não estamos preparados para um terramoto semelhante ao de 1755

Qual é a sua posição sobre as origens do Terramoto de 1755?
Não estou a ver como se pode discutir 1755 apenas com base na rotura principal, que ocorreu na Falha Marquês de Pombal, a oeste do Cabo de S. Vicente. Esta tem entre 50km a 100km, o que significa que é necessário adicionar-lhe outras falhas para chegarmos aos 200km, a extensão que faz sentido para um sismo com aquelas características.

E onde estão essas falhas?
Inclino-me para que seja na zona da Falha da Ferradura, a sudoeste do Algarve, mas falta provar esta tese com trabalhos geológicos que façam a datação de sedimentos marinhos e determinem a sua extensão, e com trabalhos de pesquisa sísmica. Claro que não temos garantias de que a estrutura a pesquisar tenha uma configuração profunda como a Falha Marquês de Pombal.

Há dinheiro para levar a cabo estes trabalhos?
Não tem havido financiamento nem oportunidade para os fazer, a nível nacional ou no âmbito da União Europeia. O navio oceanográfico D. Carlos I não está preparado para isso, apenas o Gago Coutinho, depois de estar concluído o projecto de adaptação em curso. Isto significa que é preciso contratar meios fora do país, e não há muitos navios estrangeiros preparados para tal.

As incertezas sobre 1755 influenciam as políticas de prevenção do risco sísmico em Portugal?
O que já sabemos chega para definir uma política de prevenção e para estabelecer regulamentos anti-sísmicos eficazes na construção. Neste perspectiva, é fundamental que estes regulamentos sejam cumpridos, porque o desordenamento do território nacional é total. Veja-se o que se passa no litoral algarvio...

Estamos preparados para um sismo semelhante ao de há 250 anos?
É claro que não. Repare que não temos uma política de ordenamento adequada nas zonas mais vulneráveis do litoral. Edifica-se à beira-mar e as directivas europeias no sentido de não se construir a menos de 100 metros da costa não são aplicadas. A situação é muito preocupante, em particular no Algarve, uma região pouco povoada há 250 anos mas que hoje tem densidades elevadas. E mesmo assim, o grau de destruição provocado pelo sismo de 1755 foi grande em cidades como Lagos.

O que falta então fazer no nosso país para minimizar os riscos de um grande terramoto e de um tsunami?
É necessário instalar equipamentos de monitorização no mar e em terra suficientes para uma análise científica da cadência dos terramotos e das tendências de acumulação de tensões nas principais falhas. As regiões prioritárias são o Vale do Tejo, que necessita de uma rede de monitorização densa, e a zona a sudoeste do Cabo de S. Vicente.

E bastam os equipamentos?
Não, precisamos também de pessoal habilitado para os utilizar, mas em Portugal há carências importantes nesta matéria. É verdade que as nossas universidades têm capacidade para formar pessoal de geofísica, mas não existem oportunidades nesta área e há mesmo doutorados no desemprego. Tem de haver, nomeadamente, uma abertura do Instituto de Meteorologia, onde não há vagas nos quadros, e uma ligação forte entre este e as instituições científicas.

Tem estado empenhado no estudo do risco sísmico no centro histórico de Lagos...
O estudo de vulnerabilidade está terminado e será publicado em breve. Depois vai ser definida uma política de reabilitação (40% das habitações estão abandonadas), de circulação do trânsito e de promoção de uma cultura de risco. Lagos tem condições para ser o segundo concelho do país a ter um plano de emergência sísmica, depois de Lisboa.

Considera que existe uma falta de acesso da população em geral à informação sobre os sismos?
Sem dúvida, porque não há uma política de divulgação da cultura de risco. O papel dos media é fundamental, mas não vejo essa preocupação no poder central e nas autarquias, apesar das acções de sensibilização que continuam a desenvolver-se nas escolas.

O que aconteceu à proposta que fez em 2002 à Comissão Europeia de desenvolvimento de um projecto relacionado com os tsunamis?
Nessa altura a Comissão pediu-me para organizar em Lagos um encontro internacional relacionado com a matéria, de onde saíu a ideia de lançar um projecto europeu de investigação nesta área. Mas Bruxelas não o considerou prioritário. Só que depois da catástrofe de Sumatra, em Dezembro de 2004, tudo mudou e o projecto foi recuperado, decorrendo neste momento reuniões preparatórias para o relançar.

Que objectivos tem esse projecto?
Destina-se a instalar no litoral Sul da Europa e no Nordeste do Atlântico um sistema para estudar os tsunamis e a actividade sísmica em geral. Claro que se trata apenas de um projecto de investigação, o que significa que são os seus resultados e a concretização de medidas de carácter científico que poderão depois influenciar os poderes políticos a tomarem decisões concretas no campo da prevenção e da Protecção Civil. No fundo, Bruxelas paga a investigação e o resto cabe a cada Estado-membro da EU.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Outubro de 2005
http://aeiou.expresso.pt/nao-estamos-preparados-para-um-terramoto-semelhante-ao-de-1755=f553591
 

AnDré

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O Tsunami

Imediatamente após o terramoto muitos habitantes de Lisboa procuraram refúgio junto ao rio em navios atracados. Mas cerca de 30 minutos depois do terramoto, uma grande onda inundou a zona perto do Bugio, na foz do Tejo. A área entre Junqueira e Alcântara, na parte ocidental da cidade foi a mais fortemente danificada pelas ondas, mas a maior destruição ocorreu a montante. O Cais de Pedra na Terreiro do Paço e parte de edifícios vizinhas foram destruídas.

Um total de três ondas atingiram a costa, arrastando os detritos para o mar e deixando exposto grandes extensões do fundo do rio. Em frente ao Terreiro do Paço, a altura máxima das ondas do mar foi estimada em 6 metros. Barcos superlotados com os refugiados afundaram. Em Cascais, a cerca de 30 km a oeste de Lisboa, as ondas destruíram vários barcos e quando a água recuou, grandes extensões de fundo do mar foram deixadas a descoberto. Nas zonas costeiras, como Peniche, situado a cerca de 80 km ao norte de Lisboa, muitas pessoas foram mortas pelo tsunami. Em Setúbal, a 30 km a sul de Lisboa, a água atingiu o primeiro andar dos edifícios.

A destruição foi maior no Algarve, sul de Portugal, onde o tsunami destruiu algumas fortalezas costeiras e nas zonas mais baixas, as casas foram arrasadas. Quase todas as cidades e aldeias costeiras do Algarve foram fortemente danificadas, com excepção de Faro, que estava protegida por um cordão dunar. Em Lagos as ondas atingiram o topo das muralhas da cidade. Para as regiões costeiras, os efeitos destrutivos do tsunami foram mais desastrosos do que as do terramoto.

Em Espanha, no sudoeste, o tsunami causou danos em Cádiz e Huelva, e as ondas penetraram no rio Guadalquivir, chegando a Sevilha. Em Gibraltar, o mar subiu de repente, cerca de dois metros. Em Ceuta o tsunami foi forte, mas no mar Mediterrâneo diminuiu rapidamente. Por outro lado, causou grandes danos e mortes na costa ocidental de Marrocos, em Tânger, onde as ondas atingiram as fortificações da cidade murada, em Agadir, onde as águas passaram por cima dos muros matando muitos.

O tsunami atingiu, com menos intensidade, a costa de França, Grã-Bretanha, Irlanda, Bélgica e Holanda. Na Madeira e no arquipélago dos Açores foram extensos os danos em navios e muitos estavam em perigo de afundar.

O tsunami atravessou o Oceano Atlântico, atingindo as Antilhas na parte da tarde. Relatórios de Antígua, Martinica e Barbados, indicam que primeiro mar subiu mais de um metro, seguido por ondas grandes.
Traduzido daqui: http://nisee.berkeley.edu/lisbon/



A large earthquake, Modified Mercalli Intensity XI, in Lisbon, Portgual, caused damage to north of Granada, Spain. The earthquake generated a tsunami that affected the coasts of Portugal, Spain, North Africa, and the Caribbean. The tsunami reached Lisbon about 20 minutes after the first destructive shock. It rose to about 6 meters at many points along the Portguese coast and reached 12 meters in some places. It also affected the coast of Morocco where the streets of Safi were flooded. The tsunami reached Antigua about 9.3 hours after the earthquake. Later waves, with estimated runup heights of 7 meters, were observed at Saba, Netherlands, Antilles. The earthquake and tsunami killed between 60,000 and 100,000 people.
http://www.ngdc.noaa.gov/hazard/tsu_travel_time_events.shtml

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Vince

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1755 Lisbon earthquake
The 1755 Lisbon earthquake, also known as the Great Lisbon Earthquake, was a megathrust earthquake that took place on Saturday 1 November 1755, at around 9:40 in the morning.[1] The earthquake was followed by fires and a tsunami, which caused near-total destruction of Lisbon in the Kingdom of Portugal, and adjoining areas. Seismologists today estimate the Lisbon earthquake had a magnitude in the range 8.5–9.0 on the moment magnitude scale,[2] with an epicenter in the Atlantic Ocean about 200 km (120 mi) west-southwest of Cape St. Vincent. Estimates place the death toll in Lisbon alone between 10,000 and 100,000 people,[3] making it one of the deadliest earthquakes in history.
The earthquake accentuated political tensions in the Kingdom of Portugal and profoundly disrupted the country's eighteenth-century colonial ambitions. The event was widely discussed and dwelt upon by European Enlightenment philosophers, and inspired major developments in theodicy and in the philosophy of the sublime. As the first earthquake studied scientifically for its effects over a large area, it led to the birth of modern seismology and earthquake engineering.
http://en.wikipedia.org/wiki/1755_Lisbon_earthquake

New study of the 1755 earthquake source based on multi-channel
seismic survey data and tsunami modeling

Abstract. In the last years, large effort has been done to carry
out multi-channel seismic reflection surveys (MCS) in SW
Iberia to locate the active tectonic structures that could be related
to the generation of the 1755 Lisbon earthquake and the
tsunami. The outcome of these researches led to the identification
of a large, compressive tectonic structure, named
Marquˆes de Pombal thrust that, alone can account for only
half the seismic energy released by the 1755 event. However,
these investigations have shown the presence of additional
tectonic structures active along the continental margin of SW
Iberia that are here evaluated to model the tsunami waves observed
along the coasts of Iberia, Morocco and Central Atlantic.
In this paper we present a new reappraisal of the 1755
source, proposing a possible composite source, including the
Marquˆes de Pombal thrust fault and the Guadalquivir Bank.
The test of the source is achieved through numerical modelling
of the tsunami all over the North Atlantic area. The
results presented now incorporate data from the geophysical
cruises and the historical observation along the European
coasts and also from the Western Indies. The results of this
study will, hopefully, improve the seismic risk assessment
and evaluation in the Portuguese territory, Spain, Morocco
and Central/North Atlantic.
http://www.nat-hazards-earth-syst-sci.net/3/333/2003/nhess-3-333-2003.pdf


The 1755 earthquake in the Algarve (South of Portugal):
what would happen nowadays?

Abstract. The 1755 Lisbon earthquake, which reached a
magnitude of 8.5, remains the most powerful and destructive
to hit Europe so far. Within minutes, many lives were lost,
populations displaced, livelihoods, homes and infrastructures
were destroyed. Although frequently associated to the city
of Lisbon, one of the most important European cities at the
time, this earthquake caused similar damage and casualties,
if not greater, in the southwest of the Algarve, where the seismic
intensity was estimated at IX-X Mercalli Intensity Scale.
Some time later a tsunami increased the number of victims
and the amount of damage. In some locations the tsunami
caused greater destruction than the earthquake itself. The
tsunami hit both coasts of the North Atlantic; however, the
more destructive damage occurred in the Portuguese coast,
south from Lisbon, in the Gulf of Cadiz and in the Moroccan
coast. The downtown of Lisbon was flooded by waves
that reached a height of 6 m. The water flooded an area with
an extension of around 250m from the coast. In the Southwest
part of Algarve the waves reached a height between 10
and 15m and the flooded area was much larger. Through the
analysis of recent research works on the assessment of the
1755 tsunami parameters and the interpretation of the more
reliable historical documents, it is our intention to analyse
the destructive power of the tsunami in the Algarve and delimit
the flooded area. Using simple techniques of simulation
it is our intention to assess the impacts nowadays of the occurrence
of a tsunami similar to the one that hit the Algarve
in 1755, which would probably affect a greater number of
people, buildings and infrastructures. This assessment is an
important instrument not only in terms of disaster preparedness
but also for the integration of risk mitigation measures
in land use planning.
http://www.adv-geosci.net/14/59/2008/adgeo-14-59-2008.pdf

Europe Earthquake
Historical earthquakes, such as the devastating 1356 Basel and 1755 Lisbon
events, highlight the potential earthquake risk in Europe. Relative to other perils,
earthquake losses can be as important, or exceed, those from wind or flood at long
return periods. The RMS® Europe Earthquake suite of models enables clients to
assess earthquake risk for 14 countries across Europe, providing a high-resolution
capability to price and underwrite policies and manage portfolio aggregations.
http://www.rms.com/publications/Europe_Earthquake.pdf

The 1531 Lisbon earthquake
In January 1531, the Tagus River Estuary was hit by a strong earthquake, the intensity of which in Lisbon was, according to relevant authors, greater than that of the 1755 earthquake. It was cited by most of the European annalists of the time and was responsible for the destruction of structures, the loss of lives, and enormous panic, thus making it one of the most disastrous earthquakes in the history of Portugal. If we give credit to the detailed descriptions, the maximum intensity was probably X MSK. According to our study, the seismic event was probably caused by the Lower Tagus fault zone (LTFZ). A critical review of reports from the time has allowed us to discredit the claims of the earthquake's effects quite far away from the epicenter. Thanks to this the magnitude remains within moderate limits. On the other hand, the study of the earthquake's effects outside Portugal and the consideration of geological factors have allowed us to produce a reliable isoseismal map. Study of this historical earthquake may greatly influence the design of structures in the rapidly developing area of the Tagus estuary.
http://bssa.geoscienceworld.org/cgi/content/abstract/88/2/319

Destruction of Atlantis by a great earthquake and tsunami? A
geological analysis of the Spartel Bank hypothesis

Numerous geographical similarities exist between Plato’s descriptions of Atlantis and a
paleoisland (Spartel) in the western Straits of Gibraltar. The dialogues recount a catastrophic
event that submerged the island ca. 11.6 ka in a single day and night, due to
violent earthquakes and floods. This sudden destruction is consistent with a great earthquake
(M . 8.5) and tsunami, as in the Gulf of Cadiz region in 1755 when tsunami runup
heights reached 10 m. Great earthquakes (M 8–9) and tsunamis occur in the Gulf of
Cadiz with a repeat time of 1.5–2 k.y., according to the sedimentary record. An unusually
thick turbidite dated as ca. 12 ka may coincide with the destructive event in Plato’s account.
The detailed morphology of Spartel paleoisland, as determined from recently acquired
high-resolution bathymetric data, is reported here. The viability of human habitation
on this paleoisland ca. 11.6 ka is discussed on the basis of a new bathymetric map.
http://flotte.ifremer.fr/flotte/content/download/4405/103225/file/TV-GIB-publication.pdf



WHY THE ATLANTIC GENERALLY CANNOT GENERATE TRANSOCEANIC TSUNAMIS?
Even though, for administrative purposes, it may be convenient to have a global tsunami warning
system, this is not feasible for scientific and also socio-economic reasons. The Indian Ocean is connected
to the Pacific and Atlantic Oceans in the south through the Southern Ocean, and is not connected to the
Arctic Ocean. The Arctic Ocean is connected to the Pacific and Atlantic Oceans in the north. Because of
very low population density around it, at present, there is no priority for an Arctic Ocean tsunami warning
system. For the Pacific Ocean, the tsunami warning system is in existence since 1948. Until now the
Atlantic and Indian Oceans have no tsunami warning systems because tsunami events are rare in these
two oceans, as compared to the Pacific Ocean.
For convenience, we will define the following three terms. First, a global tsunami is one which not
only propagates throughout the ocean in which it was generated, but also into at least two of the three
other oceans, albeit with small amplitudes. Second, a trans-oceanic tsunami is one that propagates
throughout the ocean in which it is generated and could cause loss of life and damage even far away from
the epicentral area. Third, an ocean-wide tsunami is one which propagates throughout the ocean in which
it is generated, but the loss of life and damage are mostly confined to the epicentral area.
There are several major differences among the three oceans with reference to tsunamis. The Pacific
Ocean generates major global and trans-oceanic tsunamis, as occurred, for example on the 1st of April
1946 (Aleutian tsunami), on the 22nd of May 1960 (Chilean tsunami) and on the 28th of March 1964
(Alaska tsunami). Even though tsunamis are much less frequent in the Indian Ocean, it is capable of
generating global and trans-oceanic tsunamis, such as for example the ones that occurred on the 27th of
August 1883 (tsunami from the eruption of the volcano Krakatoa) and on the 26th of December 2004.
However, the Atlantic Ocean does not appear to be capable of generating global tsunamis, generally
speaking.
There are several well-documented tsunamis in the Atlantic Ocean in historical times. We
numerically modelled several of these tsunamis, as will be outlined with some details in the following
sections. The numerical simulations of all these tsunami events have one thing in common. The Atlantic
Ocean tsunamis generally do not propagate very far with large amplitudes, which is in contrast to the
Pacific and Indian Oceans, where the tsunamis travel over trans-oceanic distances, and seem to suffer less
dissipation. The reason for this could be that the fault zones in the Atlantic are smaller than those in the
Pacific and Indian Oceans. Pacific Ocean, being large in extent, exhibits somewhat different tsunami characteristics from the Indian Ocean, which is much smaller. Reflected waves from distant boundaries
do not contribute significantly to the total water levels associated with tsunami waves in the Pacific
Ocean. On the other hand, in the Indian Ocean, one has to include boundary reflections to determine the
tsunami heights. In the Atlantic Ocean, since most tsunamis occur close to the boundaries, the question of boundary reflections does not arise.
http://home.iitk.ac.in/~vinaykg/Iset_42_tn3.pdf


The impact of eighteenth century earthquakes on the Algarve region, southern Portugal
In the eighteenth century the Algarve was affected by two large and destructive earthquakes. The first occurred in 1722, had an estimated magnitude of between 6.5 and 7.8 Mw and severely affected the coastal zone of the central Algarve. Thirty three years later in 1755 the ‘Lisbon earthquake’ (magnitude c. 8.5 Mw) killed around 12 000 people in Portugal, of whom just over 1000 lived in the Algarve. With an estimated cost of between 32 and 48% of Portugal's gross national product, in financial terms it is the greatest natural disaster to have affected western Europe and its effects on the Algarve, the region closest to the epicentre, were devastating. Using data collected in the field together with archival materials the authors discuss: the economic and social impacts of these two eighteenth century earthquakes and their associated tsunamis on the Algarve; and recovery of the region in the years that followed. Today the Algarve is a major European tourist destination with a resident population of c.430 000, a figure which almost doubles at the height of the tourist season. The 1722 and 1755 earthquakes were not isolated events, but part of a long and destructive seismic history, and today the region is highly exposed to the effects of future earthquakes and tsunamis. The paper concludes with a discussion of current attempts being made by the Portuguese authorities to reduce hazard exposure by means of building codes, the production of hazard maps and emergency plans. In these plans a 1755 type event is viewed as a worst-case scenario, although because of its epicentral location near to the economic heart of the region and in spite of its smaller size, a 1722 type event would be far more destructive.
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1475-4959.2010.00367.x/abstract

Simulations of strong ground motion in SW Iberia for the 1969
February 28 (Ms = 8.0) and the 1755 November 1 (M ∼ 8.5)
earthquakes – II. Strong ground motion simulations

This is the second paper of a series of two concerning strong ground motion in SW Iberia due
to earthquakes originating from the adjacent Atlantic area. The aim of this paper is to use the
velocity model that was proposed and validated in the companion paper for seismic intensity
modelling of the 1969 (Ms = 8.0) and 1755 (M = 8.5–8.7) earthquakes.
First, we propose a regression to convert simulated values of Peak Ground Velocity (PGV)
into Modified Mercalli Intensity (MMI) in SW Iberia, and using this regression, we build
synthetic isoseismal maps for a large (Ms = 8.0) earthquake that occurred in 1969. Based
on information on the seismic source provided by various authors, we show that the velocity
model effectively reproduces macroseismic observations in the whole region.We also confirm
that seismic intensity distribution is very sensitive to a small number of source parameters:
rupture directivity, fault strike and fault dimensions. Then, we extrapolate the method to the
case of the great (M = 8.5–8.7) 1755 earthquake, for a series of hypotheses recently proposed
by three authors about the location of the epicentral region. The model involving a subductionrelated
rupture in the Gulf of C´adiz results in excessive ground motion in northern Morocco,
suggesting that the source of the 1755 earthquake should be located further west. A rupture
along thewestern coast of Portugal, compatible with an activation of the passivewestern Iberian
margin, would imply a relatively low average slip, which, alone, would could not account for
the large tsunami observed in the whole northern Atlantic ocean. A seismic source located
below the Gorringe Bank seems the most likely since it is more efficient in reproducing the
distribution of high intensities in SW Iberia due to the 1755 earthquake.
http://evunix.uevora.pt/~delphine/PubliFCT08/GRANDIN2007a.pdf

The Holocene record of tsunamis in the southwestern Iberian Margin: date and
consequences of the next tsunami
El registro holoceno de tsunamis en el margen ibérico suroccidental: fecha y
consecuencias del próximo tsunami

http://gte526.geoma.net/uploads/122469733580Abstract Geodesia.pdf


LE GRAND TREMBLEMENT DE TERRE DE LISBONNE
Le mécanisme de subduction ayant causé le séisme qui a détruit
la capitale portugaise, il y a 250 ans, aurait été découvert.
http://perso-sdt.univ-brest.fr/~gutscher/pourlascience.pdf

Impact of a Lisbon-type tsunami on the U.K. coastline and the
implications for tsunami propagation over broad continental shelves

http://nora.nerc.ac.uk/5391/1/horsburgh_-_impact_of_a_lisbon_type_tsunami.pdf


The effects of the 1755 Lisbon earthquake and tsunami on the Algarve Region, Southern Portugal
The 1755 Lisbon earthquake (magnitude ~8-5Mw) killed between 15 and 20,000 people, of whom an estimated 1,020 lived in the Algarve. The earthquake cost Portugal between c.32 and 48% of its Gross Domestic Product, probably making it financially the greatest natural catastrophe to have affected western Europe. Using a combination of archival information and data collected in the field, this paper discusses: the devastating effects of the earthquake and tsunami on the economy, society and major settlements in the Algarve; and recovery of the region in the years that followed. Today the Algarve is one of Europe’s principal tourist destinations and a region vital to the Portuguese economy. The 1755 earthquake was not a one off event and the Algarve, which now houses a resident population of over 400,000 – a figure that more than doubles with tourists in the summer months, is highly exposed to earthquakes and tsunamis. An earthquake of similar size (minimum estimated recurrence 614±105 years), is viewed as a worse-case future scenario. Although strict building codes which apply to the whole country were pioneered in Portugal following 1755 and have been revised on many occasions, there is a recognised need for more detailed hazard maps and emergency plans for the Algarve. These have already been produced for Lisbon and in the Algarve a start has been made, where a tsunami risk map has recently been completed for Portimão concelho (i.e. county).
http://research-archive.liv.ac.uk/742/5/742.pdf

The 1755 Lisbon Tsunami in Guadeloupe Archipelago: Source Sensitivity
and Investigation of Resonance Effects

On the 1st of November 1755, a major earthquake of estimated Mw=8.5/9.0 destroyed Lisbon (Portugal) and
was felt in whole Western Europe. It generated a huge tsunami which reached coastlines from Morocco to Southwestern
England with local run-up heights up to 15 m in some places as Cape St Vincent (Portugal). Important waves were reported
in Madeira Islands and as far as in the West Indies where heights of 3 m and damages are reported. The present
knowledge of the seismic source(s), presented by numerous studies, was not able to reproduce such wave heights on the
other side of the Atlantic Ocean whatever the tested source. This could be due to the signal dispersion during the propagation
or simply to the lack of simulations with high resolution grids. Here we present simulations using high resolution
grids for Guadeloupe Archipelago for two different sources. Our results highlight important wave heights of the range of 1
m to more than 2 m whatever the source mechanism used, and whatever the strike angle in some particular coastal places.
A preliminary investigation of the resonance phenomenon in Guadeloupe is also presented. In fact, the studies of long
wave impact in harbours as rissaga phenomenon in the Mediterranean Sea leads us to propose the hypothesis that the 1755
waves in the West Indies could have been amplified by resonance phenomenon.
Most of the places where amplification takes place are nowadays important touristic destinations.
http://www.benthamscience.com/open/tooceaj/articles/V004/SI0042TOOCEAJ/58TOOCEAJ.pdf

Tsunami Calculation of the 1755 Lisbon Earthquake
The generation of destructive tsunamis in the Gulf of Cadiz, at the eastern end of the Azores–
Gibraltar plate boundary, was studied by numerical modelling of the historical 1755 Lisbon
tsunami. The Lisbon Earthquake is one of the first major events of this kind that is relatively
well documented by historical sources in this region. Lisbon earthquake tsunami was the most
deadly tsunamis on Lisbon coasts.
The report shows calculations of wave generation, time of propagation and elevation of the
waves on coastal regions surrounding the Gulf of Cadiz.
http://lunar.jrc.it/tsunami/temp/fi...culation of the 1755 Lisbon Earthquake v2.pdf

Far field tsunami simulations of the 1755 Lisbon earthquake: Implications for tsunami
hazard to the U.S. East Coast and the Caribbean

The great Lisbon earthquake of November 1st, 1755 with an estimated moment magnitude of 8.5–9.0 was the
most destructive earthquake in European history. The associated tsunami run-up was reported to have
reached 5–15 m along the Portuguese and Moroccan coasts and the run-up was significant at the Azores and
Madeira Island. Run-up reports from a trans-oceanic tsunami were documented in the Caribbean, Brazil and
Newfoundland (Canada). No reports were documented along the U.S. East Coast. Many attempts have been
made to characterize the 1755 Lisbon earthquake source using geophysical surveys and modeling the nearfield
earthquake intensity and tsunami effects. Studying far field effects, as presented in this paper, is
advantageous in establishing constraints on source location and strike orientation because trans-oceanic
tsunamis are less influenced by near source bathymetry and are unaffected by triggered submarine
landslides at the source. Source location, fault orientation and bathymetry are the main elements governing
transatlantic tsunami propagation to sites along the U.S. East Coast, much more than distance from the source
and continental shelf width. Results of our far and near-field tsunami simulations based on relative
amplitude comparison limit the earthquake source area to a region located south of the Gorringe Bank in the
center of the Horseshoe Plain. This is in contrast with previously suggested sources such as Marqués de
Pombal Fault, and Gulf of Cádiz Fault, which are farther east of the Horseshoe Plain. The earthquake was
likely to be a thrust event on a fault striking ~345° and dipping to the ENE as opposed to the suggested
earthquake source of the Gorringe Bank Fault, which trends NE–SW. Gorringe Bank, the Madeira-Tore Rise
(MTR), and the Azores appear to have acted as topographic scatterers for tsunami energy, shielding most of
the U.S. East Coast from the 1755 Lisbon tsunami. Additional simulations to assess tsunami hazard to the U.S.
East Coast from possible future earthquakes along the Azores–Iberia plate boundary indicate that sources
west of the MTR and in the Gulf of Cadiz may affect the southeastern coast of the U.S. The Azores–Iberia plate
boundary west of the MTR is characterized by strike–slip faults, not thrusts, but the Gulf of Cadiz may have
thrust faults. Southern Florida seems to be at risk from sources located east of MTR and South of the Gorringe
Bank, but it is mostly shielded by the Bahamas. Higher resolution near-shore bathymetry along the U.S. East
Coast and the Caribbean as well as a detailed study of potential tsunami sources in the central west part of
the Horseshoe Plain are necessary to verify our simulation results.
http://www.whoi.edu/science/GG/people/jlin/papers/Barkan_tenBrink_Lin_Mar_Geol_2009.pdf


Lisbon 1755: A Case of Triggered Onshore Rupture?
It has been widely recognized, both in classical and in modern studies,
that the Lisbon earthquake of 1755 was a multiple event, composed of three shocks
separated by a few minutes (see, e.g., Reid, 1914). Attempts to constrain the location
of the source have led to a diversity of proposals, reflecting apparent contradictions
in the data. The tsunami and damage along the south and southwest Iberian coast
and in Morocco favor an offshore source, whereas the presence of an additional zone
of strong shaking in the Lower Tagus Valley (LTV), near Lisbon, favors a more
northerly location. By combining the contemporary accounts with intensity data from
other earthquakes, we favor a compound source with a large distance between the
faults. We propose that, although the mainshock was offshore, the resulting stress
changes induced the rupture of the LTV fault, at a distance on the order of 350 km
(but subject to large uncertainty in the offshore location), a few minutes after the
mainshock. We favor this model, rather than site effects causing high intensities in the
Lisbon area, because the highest intensities show a negative correlation to soft soil.
Several other phenomena described in the eyewitness accounts can also be explained
by the local rupture now proposed, such as a tsunamilike wave in the Tagus River,
ground deformation affecting the course of the Tagus River, and the spatial pattern
of damaging aftershocks. Recognition of this “missing” episode of rupture on the
LTV fault significantly changes the hazard estimate for the Lisbon area.
http://mahabghodss.net/NewBooks/www/web/digital/nashrieh/bssa/2003/october 93 (5)/2056.pdf

THE EARTHQUAKES AND THE TSUNAMI OF 1755 and 2004 – HISTORIC ACCIDENTS?
This paper is about the interpretation of the 1755 Lisbon earthquake as a
historic accident. The paper is divided in two main parts: the commemoration of the 250th
anniversary of the 1755 Lisbon earthquake in 2005 and the reaction to other times, as
today. Especially a comparison is highlighted, the reaction to the 2004 Sumatra earthquake
and Indian Ocean tsunami in 2005 and today, as, contrary to what happened immediately
after, the 2004 event did not cause a discourse. Also compared to other historical events
mentioned, the Lisbon earthquake remains the only historic accident, and one of the birth
dates of modernity. Some key aspects are discussed, as the issue of ruins, or of rebuilding,
in context of the 18th century and today. Overall, the accent lays on the view from the
Humanities, not of earthquake engineering, and reviews such views at the events and
publications about the earthquake.
http://www.ce.tuiasi.ro/~bipcons/Archive/195.pdf




High Resolution Tsunami Modelling for the Evaluation of Potential Risk
Areas in Setubal

Modeling has a relevant role in today’s natural hazards mitigation planning as it can cover a wide range of natural
phenomena. This is also the case for an event like a tsunami. In order to support the urban planning or prepare
emergency response plans it is of major importance to be able to properly evaluate the vulnerability associated
with different areas and/or equipments. The use of high resolution models can provide relevant information about
the most probable inundation areas which complemented with other data such as the type of buildings, location of
prioritary equipments, etc., may effectively contribute to better identify the most vulnerable zones, define rescue
and escape routes and adequate the emergency plans to the constraints associated to these type of events.
In the framework of FP6 SCHEMA project these concepts are being applied to different test sites and a detailed
evaluation of the vulnerability of buildings and people to a tsunami event is being evaluated. One of the sites
selected it is located in Portugal, in the Atlantic coast, and it refers to Setúbal area which is located about 40
km south of Lisbon. Within this site two specific locations are being evaluated: one is the city of Setúbal (in the
Sado estuary right margin) and the other is the Tróia peninsula (in the Sado estuary left margin). Setúbal city is a
medium size town with about 114,000 inhabitants while Tróia is a touristic resort located in a shallow area with a
high seasonal occupation and has the river Sado as one of the main sources of income to the city.
Setúbal was one of the Portuguese villages that was seriously damaged by the of 1755 earthquake event. The 1755
earthquake, also known as the Great Lisbon Earthquake, took place on 1 November 1755, the catholic holiday of
All Saints, around 09:30 AM. The earthquake was followed by a tsunami and fires which caused a huge destruction
of Lisboa and Setúbal
In the framework of the present study, a detailed evaluation of the site vulnerability to a tsunami event based on the
consideration of the wave heights, buildings type and access routes characteristics was performed. The wave height
and most probable inundation areas was made on the basis of the simulation of three earthquake potential sources
with different level of impact (extreme, moderate and weak) in the Setúbal area. In the case of the extreme event
the selected source for simulation corresponds to an interpretation of the origins of the 1755 earthquake proposed
by Baptista et al (2003).In this study it is suggest that the 1755 tsunami event had two sources: one located in the
Marques de Pombal thrust (MPTF) and a second one located in the Guadalquivir Bank. The other two sources are
based on a study done by Omira et al (2009) regarding the design of a Sea-level Tsunami Detection Network for
the Gulf of Cadiz. In the framework of this study there are analyzed different areas of seismic activity in the South
of Portugal and proposed some possible earthquake sources and characteristics.
The tsunami propagation simulations were performed using MOHID modelling system which is an open source
three-dimensional water modelling system, developed by Hidromod and MARETEC (Marine and Environmental
Technology Research Center - Technical University of Lisbon).
As a result of the study detailed inundation maps associated to the different events and to different tide levels were
produced. As a result of the combination of these maps with the available information of the city infrastructures
(building types, roads and streets characteristics, prioritary buildings, etc.) there were also produced high scale
vulnerability maps, escape routes, emergency routes maps.
http://www.schemaproject.org/IMG/pdf/EGU2010-13241.pdf



The 1755 Lisbon Tsunami: Tsunami Source Determination and its Validation
The Lisbon Earthquake of November 1, 1755, one of
the most catastrophic events that has ever occurred in
Portugal, Spain, or Morocco, caused severe damage
and many casualties. The tsunami generated by this
earthquake is well documented in historical accounts,
it was reported throughout the North Atlantic Ocean,
as it reached not only Portugal, Spain, and Morocco,
but also the Madeira and Azores Archipelagos, England,
Ireland, and the Caribbean. In spite of the importance
of this event, the source of the tsunami remains
unknown. In this paper, the authors reevaluate
some of the historical tsunami travel times obtained by
previous authors. Based on these times, wave ray analysis
is used to determine the location of the tsunami
source area. These results, combined with turbidites
obtained by previous authors at the Tagus and Horseshoe
Abyssal Plains, lead to the conclusion that the
source of the 1755 Lisbon Tsunami could be located
in the area of the Gorringe Bank. Then, a hydrodynamic
simulation is carried out with this area presupposed
as the source. The numerical model results provide
good agreement when compared with both historical
and sedimental records. However, in the past,
the Gorringe Bank has been dismissed as the source of
this tsunami for several reasons. Therefore, these issues
are discussed and discredited. As a consequence
of all these facts, it can be concluded that the origin
of the 1755 Lisbon Earthquake and Tsunami could be
located in the area of the Gorringe Bank.
http://www.fujipress.jp/finder/prev....pdf&frompage=abst_page&pid=1246&lang=English



TSUNAMI PROPAGATION ALONG TAGUS ESTUARY (LISBON, PORTUGAL) PRELIMINARY RESULTS
In this study we present preliminary results of flood calculation along Tagus Estuary, a catastrophic event that happened several times in the past, as described in historical documents, and that constitutes one of the major risk sources for Lisbon coastal area. To model inundation we used Mader’s SWAN model for the open ocean propagation with a 2 km grid, and Imamura’s TSUN2 with a 50 m grid covering the entire estuary. The seismic source was computed with the homogeneous elastic half space approach. Modelling results agree with historical reports. Synthetic flood areas correspond to the sites where there are morphological and sedimentary evidences of two known major events that stroke Lisbon: 1531-01-26 and 1755-11-01 tsunamis.
http://tsunamisociety.org/245baptista.pdf



The Atlantic Tsunami on November 1st, 1755:
World Range and Amplitude According to
Primary Documentary Sources

On Saturday, November 1st, 1755, at about 9:40, Lisbon underwent the strongest
tsunamigenic earthquake ever reported by witnesses in Western Europe. Many people,
attending the religious offices of All Hallows, were killed by the collapse of churches. Some
took refuge on the quays of the Tagus, attempting to escape the fall of debris from
collapsing buildings and to flee on boats: but a tsunami, 5 to 10 m high according to various
accounts, struck downtown Lisbon. Fire outbreaks, lit by houses collapsing on their kitchen
fire, set the town to flames, which raged for almost one week.
The event triggered a competition between Scientific Institutions and between Gazettes to
provide their members or readers with original accounts: a reaction similar to what we
witnessed on the WEB after the December 26th, 2004 earthquake in Sumatra. In that case,
thanks to the speed at which the information now travels, and constraint provided by
photography and video-movies, the result has been the gathering of a rich array of accurate
observations and data. At variance, in 1755-56, under the escalation of the competition
between institutions or journals, with a small number of qualified observers and slow travel
of letters conveying the accounts, the exaggerations of compilers were let loose. The
reliability of the testimonies suffered in the process: many are contradictory, both in terms of
lack of internal consistency and of contradiction between reports.
The Andaman-Sumatra earthquake and tsunami have awoken a public awareness of the risk
of tsunami. The November 1st, 1755 tsunami caused by the Great Lisbon Earthquake,
remains the only destructive event of the kind on the European Atlantic shores to have been
described in some detail in the past, partly supplemented by the tsunami of March 31st,
1761. The primary accounts of the 1755 event are in no danger to loose their documentary
importance : the simulations now attempted to evaluate the tsunami risk to human lives and
coastal settlements must be constrained by "real data, deducted from historical reports"
(Mendes-Victor et al., 2005). But the data gathered from such reports are so dispersed that
they cannot be applied without a critical analysis.
http://www.intechopen.com/download/pdf/pdfs_id/13093




The Opportunity of a Disaster
The Economic Impact of the 1755 Lisbon Earthquake

http://www.york.ac.uk/res/cherry/docs/Alvaro3.pdf

Review of the historical seismicity in the Gulf
of Cadiz area before the 1 November 1755 earthquake.
An intermediate report

The subproject "Review of the historical seismicity in the Gulf of Cadiz area before the 1 Nov. 1755 earthquake" is included in a more vast project - "Review of historical seismicity in Europe" - the aim of which is to establish a common methodology among European seismologists and historians on research of historical seismicity and to get a significant set of data on earthquake potential and effects. In this report, which corresponds to the whole period of the execution of the project (1989-91), are referred the main results obtained. The execution of this project is under the responsibility of the National Institute for Meteorology and Geophysics of Portugal and the National Geographic Institute of Spain. It is believed that the long-term precedent research carried out in Portugal immediately before the beginning of this project (Moreira, 1984; 1991; Runa e Morais Freire, 1985; Themudo Barata et al., 1988; 1989) and by Pereira de Sousa (1919-32) in the second and third decades of the present century led to the acquisition of a large part of the existing data about the earthquakes that occurred after the 16th century. Anyway, research in libraries and archives continued both in Portugal and Spain during the period covered by this project and several reports were produced showing the results. Meetings to examine the state-of-the-art of the project and define the methodology, in which participated Dr. Stucchi, coordinator of the project "Review of historical seismicity in Europe", Dr. Paola Albini, historian who assists Dr. Stucchi, the Portuguese and Spanish groups were held in Lisbon in 1989 and 1990. In 1989 and 1990 was paid special attention to the research in archives and libraries in Algarve and Alentejo - the southernmost provinces of Portugal - the most affected regions by earthquakes which occurred in the period covered by the project. In Spain a research was carried out in 1990 in several archives and libraries of the southwestern part of the country (Moreira, 1990). In the last part of 1990 and 1991 was made an intense research in the National Archive of Torre do Tombo in Lisbon, looking for documentation of the main convents and for documentation left by diarists, journalists, members of the diplomatic body and other erudite people, following the recommendations of Dr. Stucchi in his note of June 1990 "Remarks and recommendations after the first year".
http://emidius.mi.ingv.it/RHISE/i_15sou/i_15sou.html


Impact of a 1755-like tsunami in Huelva, Spain
Coastal areas are highly exposed to natural hazards
associated with the sea. In all cases where there is historical
evidence for devastating tsunamis, as is the case of
the southern coasts of the Iberian Peninsula, there is a need
for quantitative hazard tsunami assessment to support spatial
planning. Also, local authorities must be able to act towards
the population protection in a preemptive way, to inform
“what to do” and “where to go” and in an alarm, to make
people aware of the incoming danger. With this in mind, we
investigated the inundation extent, run-up and water depths,
of a 1755-like event on the region of Huelva, located on the
Spanish southwestern coast, one of the regions that was affected
in the past by several high energy events, as proved by
historical documents and sedimentological data. Modelling
was made with a slightly modified version of the COMCOT
(Cornell Multi-grid Coupled Tsunami Model) code. Sensitivity
tests were performed for a single source in order to understand
the relevance and influence of the source parameters
in the inundation extent and the fundamental impact parameters.
We show that a 1755-like event will have a dramatic
impact in a large area close to Huelva inundating an area between
82 and 92 km2 and reaching maximum run-up around
5 m. In this sense our results show that small variations on
the characteristics of the tsunami source are not too significant
for the impact assessment. We show that the maximum
flow depth and the maximum run-up increase with the average
slip on the source, while the strike of the fault is not
a critical factor as Huelva is significantly far away from the
potential sources identified up to now. We also show that
the maximum flow depth within the inundated area is very
dependent on the tidal level, while maximum run-up is less
affected, as a consequence of the complex morphology of the
area.
http://www.nat-hazards-earth-syst-sci.net/10/139/2010/nhess-10-139-2010.pdf


THE 1755 LISBON EARTHQUAKE AND THE GENESIS OF THE RISK MANAGEMENT CONCEPT
The 1755 Lisbon earthquake is a landmark in the western cultural history by different reasons and perspectives.
In fact, one of the most important cities in Europe was almost destroyed and a large number of people died due to the
buildings collapse, fire and tsunami effects.
Within the European cultural framework of the XVIII century this event was a shock. The scientific,
philosophical, religious and moral consequences of the disaster were discussed and the Lisbon earthquake was a
catalyst for relevant changes.
At the epoch, the risk analysis and management concepts were still not created as disciplines. However, the
Lisbon earthquake can also be considered as a very strong landmark in the genesis of the risk management applied to
disasters as it is now considered. Based on historical sources and narratives this evidence can be shown: the most
relevant actions developed after the earthquake can be interpreted as components of a risk management structure. The
author describes the contributions that can be detected in what concerns: event identification and explanation; crisis
response; mitigation and prevention and vulnerability concept.
http://www.civil.ist.utl.pt/~joana/.../final-artigo ABA-terramoto-internacional.pdf


The record of the tsunami produced by the 1755 Lisbon
earthquake in Valdelagrana spit (Gulf of Cádiz, southern Spain)

Severalwashover fans breaking through the spit of Valdelagrana existing in middle 18th Century in the
Cuadalete estuary (Bay of Cadiz) are interpreted as the trace of the exceptional tsunami generated by the
AD 1755 Lisbon earthquake, based on geological, morphological and historical arguments.
http://eprints.ucm.es/10711/1/1998_2_Tsunami_GG.pdf


Earthquakes and tsunami in November 1755 in Morocco: a
different reading of contemporaneous documentary sources

Tsunami seldom strike the European Atlantic
shores. The great Lisbon Earthquake of 1 November 1755
is the main destructive tsunamigenic event recorded. Since
the mid-1990’s, many simulations of propagation of tsunami
waves from variants of the possible seismic source have been
conducted. Estimates of run-up in Morocco are seldom included
in publications, maybe for want of reliable historical
data to control the simulations. This paper revisits some early
accounts, transmitted as translations to European Chanceries,
Scientific Societies and Newspapers. A critical analysis of
the documents leads us to conclude that the Lisbon earthquake
was overestimated because of amalgamation with a
later Rifian earthquake. Then, the overestimation of the
tsunami through worst interpretation of the scant data available
appeared only reasonable, while the moderate measurements
or interpretations were not given their due attention. In
Morocco the amplitude of the tsunami (i.e. height at shoreline
minus expected tide level) may not have exceed the measurement
given by Godin (1755) for Cadiz, 2.5m above the
calculated astronomical tide, a crest-to-trough amplitude of
5m at most. This age-old overestimation of both the earthquake
and tsunami is detrimental to the evaluation of the risk
for coastal people and activities.
http://www.nat-hazards-earth-syst-sci.net/9/725/2009/nhess-9-725-2009.pdf


TSUNAMI RELICS ON THE COASTAL LANDSCAPE WEST OF LISBON, PORTUGAL
Lisbon and the mouth of the river Tagus (Tejo) are known to have suffered from the great
earthquake and tsunami of November 1st, 1755. Whereas historical sources mention tsunami
waves and describe inundation in Lisbon, field evidence from this event has been found only
along the Algarve coast and the Spanish Atlantic coast in the south. Our observations in the Cabo
da Roca-Cascais area west of Lisbon resulted in the discovery of several very significant tsunami
relics in the form of single large boulders, boulder ridges, pebbles and shells high above the
modern storm level. Deposition of large amounts of sand by the tsunami waves has intensified
eolian rock sculpturing. Abrasion of soil and vegetation still visible in the landscape may point to
the great Lisbon event of only some 250 years ago, but radiocarbon and ESR datings also yielded
older data. Therefore, we have evidence that the Portuguese coastline has suffered more than
one strong tsunami in the Younger Holocene.
http://library.lanl.gov/tsunami/231/scheff.pdf



The 1755 tsunami propagation in Atlantics and its effects on the French
West Indies

http://meetingorganizer.copernicus.org/EGU2009/EGU2009-502.pdf


The Lisbon Earthquake of 1755
– Public Distress and Political Propaganda

This article examines the impact of the Lisbon earthquake on the international political sphere.
The shock waves of the event reflected the basic ideological traits of the eighteenth century. For
the first time in the western world, the press helped to create the illusion of proximity and unity
among the peoples of different European nations. Furthermore, the 1755 earthquake launched
the modern debate on how to think and act in a world where such catastrophes are likely to
occur.
On the eve of the Seven Years’ War, the destruction of the capital of the Portuguese empire also
triggered diplomatic and political reactions. Pombal’s attempt to turn Portugal into a prosperous
and politically strong country contributed towards minimising the disruptions to social and
economic routines. Against the backdrop of the 1755 earthquake, and using the European war
as an immediate cause, the Marquis of Pombal, minister of King Joseph I, laid the foundations
for a press policy commensurate with the scale of the catastrophe.
http://www.brown.edu/Departments/Portuguese_Brazilian_Studies/ejph/html/issue7/pdf/aaraujo.pdf
 
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Gilmet

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12 Dez 2007
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Sismo de 1755 mudou a vida de Voltaire
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Nasceu François-Marie Aroeut (1694-1778), mas o Mundo conhece-o por Voltaire. Tinha na perspicácia a sua melhor qualidade, que usou ao longo da vida para se tornar num conceituado filósofo, escritor e ensaísta. Tinha já mais de duas dezenas de obras publicadas quando em 1755 as suas mais profundas concepções filosóficas sofreram um abalo proporcional ao sismo que, então, atingiu Portugal.

Com a catástrofe portuguesa, Voltaire viu ruir todas as suas concepções do Mundo vigentes à época, pois considerava que tal fenómeno jamais poderia ter ocorrido se a Terra fosse, como até esse momento se acreditava cegamente, uma mera criação divina, regulada pelos princípios de ordem e harmonia.

Voltaire responde à desilusão com a mesma força com que esta se apoderara dele. Para isso usa ?Cândido? (1759), uma comédia romântica que abre uma tensa controvérsia e qual Voltaire preferiu assinar com o pseudónimo ?Monsieur le docteur Ralph? (Senhor Doutor Ralph). A Igreja Católica é o principal alvo da obra, através da qual o filósofo francês demonstra com humor que, após o terramoto que assolou Lisboa, só mesmo alguém muito ingénuo, muito cândido, poderia continuar a acreditar que vivia num mundo de bem, regido pela bondade e misericórdia de Deus.

Alguns excertos de ”Cândido” (1759)

“Cândido aproxima-se, vê o seu benfeitor que reaparece um momento à tona e é tragado para sempre. Quer lançar-se ao mar, mas Pangloss lho impede, provando-lhe que a enseada de Lisboa fora feita expressamente para afogar o anabatista. Enquanto o provava a priori, o navio parte-se ao meio e todos perecem, com exceção de Pangloss, de Cândido e do brutal marinheiro que afogara o virtuoso anabatista; o facínora nadou até à margem, onde Pangloss e Cândido arribaram, agarrados a uma tábua.”

“Depois que se refizeram um pouco, encaminharam-se para Lisboa; restava-lhes algum dinheiro, com o qual esperavam salvar-se da fome, depois de haverem escapado à tempestade. Mal entravam na cidade, chorando a morte do benfeitor, quando sentem o solo tremer sob os seus pés; o mar, furioso, galga o porto e despedaça os navios que ali me acham ancorados. Turbilhões de chama e cinza cobrem as ruas e praças públicas; as casas desabam; abatem-se os tetos sobre os alicerces que se abalam; trinta mil habitantes são esmagados sob as ruínas. Assobiando e praguejando, dizia consigo o marinheiro: — Muito há que aproveitar aqui. — Qual poderá ser a razão suficiente deste fenómeno? — indagava Pangloss.”

“Depois do tremor de terra que destruiu três quartas partes de Lisboa, os sábios do país não encontraram meio mais eficaz para prevenir uma ruína total do que oferecer ao povo um belo auto-de-fé; foi decidido pela Universidade de Coimbra que o espectáculo de algumas pessoas queimadas a fogo lento, em grande cerimonial, era um infalível segredo para impedir que a terra se pusesse a tremer. Tinham, pois, prendido um biscainho que se casara com a própria comadre, e dois portugueses que, ao comer um frango, lhe haviam retirado a gordura: vieram, depois do almoço, prender o Doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação: foram ambos conduzidos em separado para apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol; oito dias depois vestiram-lhe um sambenito e ornaram-lhe a cabeça com mitras de papel”
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/int...tel%E3o&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&page=-1
 

Mário Barros

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Prejuízos do sismo de 1755 calculados em 75% do PIB

Cerca de 100 mil contos da época, correspondentes a 75% do PIB anual português em meados do século XVIII, é o cálculo que José Luís Cardoso, professor catedrático do ISEG, em Lisboa, faz sobre os prejuízos provocados pelo terramoto de 1755.

A catástrofe do dia de Todos-os-Santos foi devastadora e as perdas não se limitaram à derrocada de palácios e igrejas edificados com o ouro do Brasil, no então recente reinado de D. João V. Também há que contabilizar um riquíssimo património móvel, em jóias, obras de arte e dinheiro vivo que na época era só metálico. E as somas a que se chega são tão astronómicas que José Luís Cardoso, professor de História da Economia, verificou uma grande dissonância e notórios exageros quando investigou os valores referidos na época e que vão de 85 mil a 375 mil contos, com os mercadores estrangeiros, sobretudo ingleses, a queixarem-se de perdas na ordem dos 40 mil contos. Numa primeira abordagem, avaliou o volume dos prejuízos em 230 mil contos da época, mas ao confrontar esse valor com o que seria, então, o PIB considerou os números excessivos. Numa estimativa mais apertada aponta, agora, para 100 mil contos, correspondentes na altura a 75% da riqueza total produzida durante um ano em Portugal.

INCOMENSURÁVEL
Sobre os prejuízos do terramoto que estendeu a destruição por todo o Sul do País, desde Vila Real de Santo António a Castelo de Vide, na fronteira espanhola, e até à Ericeira, na costa Atlântica, José Luís Cardoso considera que há muito trabalho de arquivo por fazer. E quando houver resultados ter-se-á de admitir que mesmo os cálculos mais reduzidos podem parecer um exagero, já que os estragos foram incomensuráveis.
José Luís Cardoso tem uma comunicação intitulada ‘Pombal, o Terramoto e a política de regulação económica’, anunciada para dia 4, no colóquio Terramoto de 1755 – Impactos Históricos, promovido pelo ISCTE e o ICS, em que abordará as consequências económicas da catástrofe sob outras perspectivas. A sua apreciação sobre as decisões de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, é muito positiva: ‘A sua preocupação foi evitar que os preços aumentassem, que houvesse um açambarcamento de bens alimentares, naturalmente escassos, ou que os salários subissem, além de tomar medidas de abastecimento, segurança dos cidadãos e saúde pública”, explica José Luís Cardoso, observando que para a reconstrução de Lisboa o reino criou apenas um novo imposto de mais 4% nos direitos alfandegários sobre as mercadorias importadas. Não havia que massacrar mais uma economia portuguesa em fase depressiva. O terramoto acabou até por ajudar ao crescimento.

"ECONOMIA RECUPEROU NUM TEMPO CURTO"
(José Vicente Serrão, presidente do Departamento de história do ISCTE, promove colóquio sobre 1755)


Correio da Manhã – Quais foram as consequências económicas do Terramoto?
José Vicente Serrão – O impacto foi tanto mais dramático quanto se veio inserir numa conjuntura crítica que vinha de trás e, em muitos dos seus aspectos, nada teve a ver com o Terramoto. Para a fase depressiva, que marca a economia portuguesa entre os meados da década de 1750 e os princípios da de 1770, contribuíram o declínio das chegadas de ouro do Brasil, a contracção do comércio externo, as dificuldades do mercado internacional de açúcar e tabaco, a crise de exportação dos vinhos, o extraordinário aumento das despesas inerentes à entrada de Portugal na Guerra dos Sete Anos, entre outros factores.
O Terramoto teve, obviamente, a sua quota-parte, mas estamos longe de poder fixá-la. Em contrapartida, não podemos deixar de assinalar as consequências positivas. A reconstrução abriu novas oportunidades de negócio. Os sectores da construção naval e da construção civil, pública e privada, foram os primeiros a aproveitá-las, para não falar dos reflexos adicionais em todas as indústrias a montante (cal, tijolo, pedra, vidros, ferragens, madeiras). A procura de mão-de-obra dinamizou o mercado de trabalho e de serviços. O mercado imobiliário e o mercado de capitais conheceram uma animação sem precedentes.
– Quanto tempo foi necessário para recuperar?
– Foi muito variável. Dou apenas quatro exemplos. O principal porto da capital, as alfândegas e os respectivos armazéns foram imediatamente transferidos para a zona de Belém e Junqueira e voltaram a estar operacionais em menos de dois meses; o abastecimento da população em bens de primeira necessidade foi restabelecido em poucas semanas ou meses; em contrapartida, 25 anos mais tarde, ainda se faziam contratos de aforamento de quintas sob a justificação de que os seus proprietários não tinham dinheiro para reparar instalações produtivas, arruinadas desde o tempo do Terramoto; no mesmo sentido, a reconstrução do património urbano arrastou-se até bem entrado o século XIX.
Num balanço global, agora à distância de 250 anos, pode dizer-se que a economia recuperou do abalo sofrido num tempo bastante mais curto do que aquilo que se poderia esperar, tendo em conta a dimensão dos estragos.

INICIATIVAS
IMPACTOS HISTÓRICOS

De 3 a 5 de Novembro, decorre no ISCTE, à cidade Universitária, em Lisboa, o colóquio internacional ‘Terramoto de 1755 - Impactos Históricos” que reunirá 70 especialistas de uma dezena de países e tem na comissão organizadora Ana Cristina Araújo (Faculdade de Letras de Coimbra), José Luís Cardoso (ISEG-UTL), José Vicente Serrão (ISCTE), Nuno Gonçalo Monteiro (ICS-UL) e Walter Rosa (Faculdade de Ciências de Coimbra).
REAL ÓPERA DO TEJO
Excertos das óperas estreadas na Ópera do Tejo, que teve só um ano de existência no Terreiro do Paço, junto ao Palácio Real, até à sua completa destruição pelo terramoto, serão interpretados pela Orquestra Metropolitana de Lisboa no dia 1, às 21h30, na Igreja de São Domingos, ao Rossio, em Lisboa. O programa inclui obras de David Perez, António Mazzoni, António Teixeira e João Sousa Carvalho, compositor de um ‘Te Deum’.

ACTOS RELIGIOSOS
Em memória das vítimas do Terramoto de 1755 e de todas as outras catástrofes naturais em todo o Mundo, o cardeal--patriarca D. José Policarpo celebra missa no dia de Todos os Santos, às 9h30, nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, destruído pelo sismo. Para a mesma hora, está convocado o repicar dos sinos de todas as igrejas da cidade. Às 16h00, haverá um concerto e a apresentação das obras de recuperação na igreja da Madalena, na colina da Sé, e às 19h00 será a vez de D. Manuel Clemente, bispo auxiliar de Lisboa, celebrar na igreja de S. Nicolau, onde também decorre uma acção de restauro do património.

CM
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/n...izos-do-sismo-de-1755-calculados-em-75-do-pib
 

Gerofil

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Estremoz (401 metros)
Lisboa ainda não possui uma carta de risco sísmico
Por Fernanda Ribeiro
01.11.2005
Duzentos e cinquenta anos após o terramoto que destruiu grande parte da cidade de Lisboa, a capital ainda não dispõe de uma verdadeira Carta de Risco Sísmico, que cruze toda a informação disponível sobre solos, parque edificado e infra-estruturas subterrâneas. Apenas o Plano de Emergência elaborado pelo serviço municipal de protecção civil dispõe de "uma aproximação muito razoável" desse documento, no capítulo das "áreas críticas de risco", considera Carlos Sousa Oliveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES).


Entre as áreas que seriam mais duramente atingidas por um sismo figuram algumas ocupadas por novas urbanizações, como o Parque das Nações e algumas zonas do Lumiar. A restante zona ribeirinha oriental, desde o Jardim do Tabaco a Xabregas, Beato e Matinha, e a zona ribeirinha ocidental, de Algés a Pedrouços, Alcântara, Santos-o-Velho, S. Paulo e Cais do Sodré, estão também incluídas nas áreas de maior risco.

O Chiado e a Baixa, a colina do Castelo e a Graça, a Av. da Liberdade, Praça da Alegria, Santa Marta e Pena, e ainda a Av. Almirante Reis, do Martim Moniz, passando por Anjos, Arroios, Penha de França seriam igualmente muito afectados, a par do Vale da Estrada de Benfica e alguns pontos do Lumiar, de Carnide e do Vale de Chelas.

"Ter uma carta única seria muito vantajoso, para se ter uma ideia um pouco mais concreta de como planear a emergência e até para ser usada em termos de ordenamento do território", afirma Sousa Oliveira, especialista em engenharia sísmica que foi um dos pioneiros a trabalhar na área da prevenção e da redução do risco e que participou também nos estudos desenvolvidos pela Câmara Municipal de Lisboa.

"O que há são cenários para vários tipos de sismos, obtidos com simuladores. O do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) é mais evoluído e tem dados mais actualizados (ver texto na página ao lado). O da protecção civil municipal, ainda que menos sofisticado, vai mais ao detalhe do quarteirão. Há também uma proposta de classificação de vulnerabilidade dos solos e, além disso, no plano de emergência de Lisboa há as áreas críticas de risco sísmico, que incluem vários parâmetros (tipo de solos, edificado, e acessos) que nos dão já uma boa aproximação do que há-de vir a ser uma primeira carta de risco", salienta este especialista em engenharia sísmica.

Nessas áreas críticas, sublinha Sousa Oliveira, "não se diz à partida que é impossível construir, mas é sabido que teremos que ter outros cuidados especiais, e não basta aplicar os regulamentos existentes".

Quanto à interrogação que muitos se colocam - "estará Lisboa preparada para um sismo ?" -, Carlos Sousa Oliveira, conhecedor da matéria, acha a questão "complicada".

"Se for um sismo muito grande, semelhante ao de 1755, é pouco provável e haverá que pedir ajuda internacional, à União Europeia. Os sismos intermédios já provocam alguns problemas complicados, principalmente no parque edificado mais antigo. Os danos vão depender muito da localização desse parque, se está em zonas melhores ou piores, e depende também do próprio tipo de sismo."

Um outro fenómeno que pode surgir em consequência de um sismo forte é o dos deslizamentos e aí também o plano de emergência detecta áreas da cidade que serão mais atingidas, consoante o tipo de sismo.

A incógnita da qualidade da construção

Além disso, há um factor que é praticamente desconhecido, porque não é fiscalizado: "A qualidade dos edifícios é ainda uma coisa que não conhecemos bem, porque uma coisa é dizer que eles são projectados e construídos segundo as normas e os actuais regulamentos anti-sísmicos, mas outra coisa é não serem cumpridos esses procedimentos" - o que pode ter resultados catastróficos imprevisíveis.

"Nunca foi feito um estudo detalhado, ou por amostragem, que revele até que ponto são cumpridos os regulamentos. E isso é uma matéria que interessa a todos, em particular à Câmara de Lisboa. Esse parâmetro não tem entrado minimamente nos dados introduzidos nos simuladores", diz este especialista, para quem "seria interessante que as seguradoras também pudessem intervir, para se controlar melhor a qualidade".

Para apurar se Lisboa está efectivamente preparada, seria também muito útil testar o plano de emergência. "Ele nunca foi testado, o que seria úti,l porque as primeiras 48 horas após um sismo são críticas em termos de salvar pessoas e bens", salienta Sousa Oliveira.

"O que se tem feito cá são exercícios de gabinete, em que se simulam colapsos de edifícios e que põem muitas entidades a mexer, entre as que habitualmente terão que intervir. Isso também ajuda muito. Um teste real é mais complicado, obrigaria a parar a cidade, o que é difícil", admite Sousa Oliveira.

Mas, recorda, "havia a ideia de criar um cenário de desastre, juntando em dois ou três sítios da cidade as entidades envolvidas na emergência e durante um ou dois dias desencadear acções, mas nunca chegou a concretizar-se. Em Los Angeles, todos os anos fazem exercícios deste género".

Há cerca de um ano, a Câmara de Lisboa anunciara a intenção de levar a cabo um teste, simulando um cenário do Plano de Emergência, mas o que acabou por ser feito, embora útil, simulou um desastre diferente, uma colisão envolvendo um camião transportando materiais inflamáveis e um autocarro. O cenário escolhido foi o Parque da Belavista.

Segundo Álvaro de Castro, presidente do serviço municipal de protecção civil, nesse exercício participaram as mesmas entidades que seriam chamadas a intervir em caso de sismo e foi muito proveitoso, uma vez que permitiu detectar necessidades operacionais.

"É preciso fazer a inventariação dos meios e recursos necessários e aí há um longo trabalho a fazer. No exercício da Belavista é que percebemos a importância de ter esses dados e uma ideia mais exacta do papel de cada uma das entidades numa situação de emergência", disse ao PÚBLICO.

"Se forem precisas duas mil tendas, quem as tem e onde as iremos buscar? Se for necessário transferir doentes de um hospital que seja afectado para outro, qual deles tem capacidade? E onde estão as ambulâncias? É este tipo de dados que temos de ter para acorrer a uma emergência", salienta Álvaro Castro.

Este responsável destaca também a importância de concluir o Plano de Emergência da Área Metropolitana de Lisboa, que está a ser elaborado pelo Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, porque caso haja um sismo muito forte os meios e recursos de um único munícípio, o de Lisboa, não serão suficientes.

Já quanto ao sistema de comunicações a estabelecer, em caso de desastre, Álvaro Castro considera ser hoje em dia uma questão menos problemática, uma vez que o sistema de trunking actualmente disponível permite garantir as necessárias comunicações.

Fonte: Publico
 

Vince

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Braga
Terramoto de 1755
Nove minutos que abalaram o mundo
Por Francisco Neves
31.10.2005
É dia 1 de Todos os Santos e a manhã de sábado, 1 de Novembro de 1755, surgiu límpida e amena, ainda a lembrar um longo Verão sem pinga de chuva. "Os ares da atmosfera estavão mui subtis e puros", registou um lisboeta. "Fazia um tempo sereno e o céu não tinha uma nuvem", descreveu um comerciante inglês. A temperatura ronda os 18 graus. É dia de missas e o povo de Lisboa - muita da nobreza ainda goza o bom tempo fora da cidade - enche as igrejas. D. José passou a noite na Real Casa de Campo de Belém e conta ir aos Jerónimos.


Pouco depois das nove e meia, "um rugido surge das entranhas da terra", como o "som de carruagens conduzidas com violência". Um abalo sacode Lisboa por minuto e meio. Pouco depois, a terra volta a tremer com mais força durante mais de dois minutos. Os edifícios, muitos de três e quatro andares, começam a ruir com estrondo. A acalmia dura um minuto. Segue-se nova réplica, "que dura uma eternidade" - três minutos. O pico da crise sísmica teve três impulsos, demorou nove minutos e, sabe-se hoje, terá tido uma magnitude de 8,7 da escala de Richter.

Um inglês, residente numa casa de quatro pisos, descreve assim os primeiros momentos do abalo: "o movimento era tão violento que eu me mantinha de pé com dificuldade. Toda a casa rachava à minha volta, as telhas chocalhavam lá no cimo; as paredes despedaçavam-se por todos os lados. (...) ouvi aterrorizado a queda das casas à volta e os gritos e choros de pessoas vindos de todos os lados".

Danos incalculáveis

Grande parte de uma das mais opulentas capitais da Europa está no chão. Pouco resta da parte baixa, do Rossio ao Terreiro do Paço as muitas casas de três e quatro andares e os casebres dos bairros sobrepovoados que acompanhavam as colinas vieram por aí abaixo. Os símbolos também caem: o Palácio Real da Ribeira, com os seus armazéns de especiarias e a sua grande biblioteca, desabou em parte e, no Rossio, ruiu o da Inquisição - hoje lembrado na varanda de pedra retirada dos escombros que decora a sede do Grémio Lusitano, do outro lado da praça.

Dos 65 conventos de Lisboa, só cinco ficam em condições de dar abrigo aos milhares de desalojados. No Carmo ficam de pé os arcos góticos, mas as abóbadas despenham-se sobre os crentes que assistiam à missa. Mais de 30 palácios vêm abaixo, como o dos duques de Bragança, o maior de Lisboa (ao fundo da Rua António Maria Cardoso). Cai a Ópera do Tejo, perto da Ribeira das Naus, inaugurada apenas há sete meses. Caem prisões, como a do Tronco e do Limoeiro. Os seis hospitais da cidade estão no chão. No grandioso Hospital de Todos os Santos, no lado nascente do Rossio, dez acamados ficam sob os escombros. Das cerca de 20 mil casas de Lisboa, mais de duas mil foram destruídas e apenas três mil continuam habitáveis. As freguesias mais afectadas são S. Miguel, Sto. Estêvão, S. Paulo, S. Nicolau, Sta. Catarina, Mártires, Sacramento e Encarnação. Das 40 igrejas paroquiais (algumas de interiores riquíssimos, como a Patriarcal) 35 ficam destruídas.

Em Alcântara a terra fende-se, libertando "um vapor sulfuroso". Coisa admirável: o aqueduto, acabado sete anos antes, aguenta-se.

O céu azul desapareceu sob a poeira escura dos aluimentos e a calma do dia santo sob os gritos dos sobreviventes. O resto é um monte de ruínas.

Thomas Chase, outro britânico que sobreviveu, apesar do quarto andar em que se encontrava ter ruído, descreve o que vê ao sair à rua logo após os primeiros tremores: "as pessoas estavam todas em oração, cobertas de pó, e a luz aparecia como se tivesse estado um dia muito escuro". "Nesta aflição se ouvião fervoríssimas confiçõens em público de culpas cometidas", refere outro testemunho.

Outro comerciante, de origem francesa, Jácome Ratton, é quase cinematográfico quando descreve a surpresa com que, ao sair à rua, pôde observar as pessoas correndo ainda em camisa no interior das casas cujas paredes fronteiras desabaram.
Nas ruas correm sobreviventes desvairados, fugindo dos desabamentos que se sucedem. E "nem havia distinção de sexo, idade, nascimento ou fortuna" (mercador Thomas Jacomb). Outros procuram nos escombros familiares aprisionados. Uma menina loura de três anos sobreviverá sete horas ferida sob os escombros. Procura-se segurança nos poucos largos e praças, no alto de Sta Catarina, na Cotovia (ao Príncipe Real), no Campo Grande.

Os que vão para as bandas do rio - uma multidão junta-se no Terreiro do Paço, onde se vêem "pessoas quase nuas" e padres ainda paramentados, e também no Largo de S. Paulo - são colhidos por uma onda enorme que por pouco afogava os vigias do Bugio.

Não se sabe ao certo, mas o sismo terá vitimado dez mil dos cerca de 250 mil habitantes de Lisboa, sobretudo gente das classes mais baixas dos bairros populosos - S. Nicolau, Sta Justa, Socorro, Santos, Encarnação, Alfama ou Castelo. Entre a comunidade britânica, a maior da cidade, registam-se 77 vítimas. Contam-se pelos dedos as figuras de grande destaque que sucumbiram aos abalos. O embaixador de Espanha, entalado sob escombros, é uma delas. Os prejuízos - escreve-se na História de Lisboa, de Dejanirah Couto - ultrapassarão 1500 milhões de libras.

Depois da terra, o mar

Noventa minutos depois do terramoto, seriam umas 11h00, dá-se uma forte réplica e o Tejo, que estava na vazante, retira-se para o largo, ao ponto de se lhe ver o fundo, para logo voltar numa vaga enorme com "mais de 20 pés de altura" (seis metros), varrendo de lama e restos de embarcações as zonas baixas.

"Enquanto a multidão estava reunida próximo da margem do rio, a água subiu a uma altura tal que ultrapassou a inundou a parte baixa da cidade... os barqueiros ao serem sacudidos dos barcos para terra pelo subido avanço da água, saltaram para a margem para se salvarem, sendo os seus barcos imediatamente levados pelo mar em retirada, que vazou e encheu, vazou e encheu, em quatro ou cinco minutos... Foi surpreendente observar vários navios grandes, que estavam em seco na Boavista, a desencalhar e a serem levados rio abaixo" (comandante de navio inglês). Segundo o embaixador dos Países Baixos em Lisboa, "no rio a maré subiu e desceu cinco ou seis vezes".

No Tejo apareceu "uma enorme massa de água a erguer-se como uma montanha" que arrastou muitos com ela. Alguns barcos fundeados, apanhados em redemoinhos, mergulham a pique no fundo. A zona de Belém foi das mais inundadas. O pároco da Cruz Quebrada regista que o mar "três vezes entrou pela terra dentro" e "com tanto ímpeto que botou abaixo as guardas da ponte".

Depois do mar, o fogo

Horas depois dos abalos, outro véu encobre o céu azul. Os círios e as velas dos altares e os fogões das casas atearam fogos que lançam no ar rolos negros de fumo. Arde o palácio do marquês de Louriçal, arde a Igreja de S. Domingos, arde a Boa Hora. A brisa de Nordeste junta os fogos isolados. As cinzas volteiam no ar para se depositarem pelas ruas e praças. Os muitos vagabundos e marginais que rondavam as vielas, ou fugiram das cadeias, assustam com falsos alarmes os moradores que encontram, assaltam-lhes as casas danificadas e propagam os incêndio. Um francês desertor (da Guerra da Sucessão da Áustria) confessará mais tarde ter deitado fogo à riquíssima Casa da Índia. Um "mouro" da cadeia da Galé que ateara chamas em sete sítios. Mas o saque não dura muito. Seis novas forcas são erguidas em Lisboa e com elas "cessou com brevidade o escândalo de tantos roubos", regista em 1758 o arquivista da Torre do Tombo Moreira de Mendonça. Nesse Novembro, 34 suspeitos de pilhagem serão enforcados.

As casas de madeira, que tinham aguentado de pé, sucumbem às chamas. À tarde, a cidade é "um gigantesco braseiro". O incêndio lavra cinco dias e vê-se de Santarém. Chegara "o último dia do mundo", dirá Voltaire. Entontecidas pelo espanto e pelo fumo, assustadas pelos boatos - o terramoto ia repetir-se, o paiol do Castelo ia rebentar - milhares de pessoas em fuga entopem as saídas da cidade. Fogem para os arredores e para as quintas.

De tarde, o centro de Lisboa fica deserto. Só um oficial adolescente, cujos soldados desertaram, se mantém no posto de guarda à Casa da Moeda.

O padre Manuel Portal, que em 1756 escreveu uma História da Ruína da Cidade de Lisboa, estava na Rua Nova do Almada quando se deu o desastre: "Fiquei enterrado, porém sem pedra nem pau me dar na cabeça. Nesta ruína estive enterrado até acabar o terramoto". É salvo por outros membros da sua congregação. Com uma perna ferida é levado em braços por dois homens. Dali até às portas de Santa Catarina (ao Camões) é só escombros. "Voltei ao Loreto, pelo impedimento que achei na travessa da Trindade pois estava derrubada a igreja... Cheguei a São Pedro de Alcântara não encontrando senão mortos e ruínas", descreve.

A vida continua

A cidade pasmou-se e horrorizou-se com a extensão do desastre, mas hoje considera-se que o número de vítimas foi pequeno para a magnitude do abalo.

"Tivesse a consternação geral sido menor, não só muitas vidas como bens poderiam ter sido salvos", critica o comerciante britânico já citado, incomodado com o espectáculo de muita gente, entre cada abalo, "a atormentar os moribundos" com ladainhas e gritos de misericórdia. Só terão acalmado com a notícia de uma aparição da virgem na Penha de França "acenando um lenço branco ao povo".

Lisboa vai tornar-se um enorme acampamento, com tendas feitas de velas vindas da Ribeira das Naus ou os tapetes tirados das casas.

Os padres rondarão as ruínas e à dor juntarão o medo, dizendo que o desastre foi castigo divino e exigindo penitências. Já tinham feito o mesmo em 1531. O futuro ser-lhes-á propício: nos seis meses seguintes serão sentidas mais 250 réplicas. Antes de ser queimado, o missionário Malagrida opunha-se mesmo à reconstrução de Lisboa, que Deus destruíra devido à brandura para com os hereges. Havia mesmo quem acusasse os que se tentavam recompor de "lutar contra o Céu". Para outros, como Cavaleiro (Francisco Xavier) de Oliveira, fora a beatice lusitana e a Inquisição a causa do castigo.

É "notável que um desastre desta dimensão não tenha resultado em fome generalizada ou epidemias", mesmo tendo em conta a cremação causada pelo incêndio de Lisboa, nota o geofísico João Duarte Fonseca na sua obra 1755 O Terramoto de Lisboa. No próprio dia 1 de Novembro dois vereadores foram mandados para o Terreiro do Paço e a Ribeira distribuir à população comida arrancada às ruínas, peixe do Tejo e mantimentos vindos do termo de Lisboa. "Para obstar à especulação foi determinado por edital aos comerciantes que mantinha actividade que os preços dos mantimentos deveriam ser os correntes no fim do mês de Outubro", refere.

O rei fica tão abalado que não voltará a Lisboa nos 20 anos seguintes. E nunca mais habitará casa de alvenaria, preferindo um palácio de madeira, na Ajuda.
http://dossiers.publico.clix.pt/noticia.aspx?idCanal=1543&id=1237405


Primeira onda gigante demorou cerca de hora e meia a chegar a Marvila
Ondas do maremoto avançaram 250 metros por Lisboa adentro
Por Teresa Firmino
31.10.2005
Se, por magia, o actual homem mais rápido do mundo, o jamaicano Asafa Powell, aparecesse em Lisboa na manhã do terramoto de 1755, não conseguiria fugir ao maremoto. Depois do sismo, a primeira onda gigante demorou cerca de hora e meia a chegar a Marvila, no extremo oriental de Lisboa - mas a velocidade que trazia no estuário do Tejo era de 42 quilómetros por hora. Nem Powell, que já correu os 100 metros em 9,77 segundos (36,84 quilómetros por hora), conseguiria escapar-lhe. Muito menos os habitantes da Lisboa setecentista, que viram uma onda de cinco metros a aproximar-se e a avançar 250 metros pela cidade adentro.


Maria Ana Baptista, do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa, foi quem simulou, pela primeira vez, o tsunami que se abateu nas costas portuguesas, espanholas, marroquinas e até das Caraíbas, em Novembro de 1755. Publicou em 1998 a identificação da área inundada pelo tsunami, transposta num mapa da cidade do século XVIII, num artigo na revista Journal of Geodynamics. Lá se vê que a água avançou um máximo de 250 metros, e que as zonas mais atingidas foram o Terreiro do Paço e o que é hoje o Cais do Sodré. Não avançou mais porque havia edifícios e escombros. Não há números exactos das mortes em Lisboa, mas só o tsunami terá causado 900.

O tsunami só demorou 15 minutos até ao Cabo de São Vicente, aí com uma altura de onda de dez metros. "Numa praia entre Vila do Bispo e Lagos encontraram-se destroços [arrastados pelo tsunami] a um quilómetro da costa. Era um vale sem qualquer construção", diz. A duna da ilha de Faro, com dez metros de altura, foi galgada.

E 25 minutos após o sismo já atingia a zona de Oeiras, com uma altura de onda de seis metros, para em seguida avançar pelo estuário do Tejo. Mas aí a velocidade é muito menor, já que o tempo de percurso depende da profundidade. O tsunami propaga-se mais depressa onde o oceano é mais fundo.

Assim, a seis mil metros de profundidade, a coluna de água movimenta-se a 900 quilómetros por hora, a velocidade de cruzeiro de um avião. A 100 metros, a 113 quilómetros por hora e perto da praia, ou num estuário, a dezenas de quilómetros. A 20 metros de profundidade, anda aos tais 42 quilómetros. "Quando vemos o tsunami, é muito tarde para fugir."

Dentro do estuário, até Marvila, o tsunami levou cerca uma hora. Portanto, desde o sismo até à inundação de toda a zona ribeirinha da cidade de então decorreram 90 minutos. Esta simulação é confirmada pelo registo do marégrafo de Cabo Ruivo, também na zona oriental de Lisboa, do tsunami causado pelo sismo de 28 de Fevereiro de 1969. Mostra claramente que até à chegada da onda decorreram 70 a 80 minutos.

Já o Norte de Portugal foi poupado pelo tsunami de 1755, pois no Porto, por exemplo, a onda tinha um metro. Mas os relatos históricos também indicam que o tsunami chegou a Cádis em 78 minutos, com 15 metros. Tal como o tsunami no sudoeste asiático em Dezembro de 2004 atravessou o Oceano Índico, o de 1755 estendeu-se por uma vasta zona. Da Madeira (quatro metros) à Cornualha (dois metros), atravessou o Atlântico e atingiu as ilhas Barbados, ao fim de 470 minutos.
http://dossiers.publico.clix.pt/noticia.aspx?idCanal=1543&id=1237408


Estão agora em confronto quatro hipóteses
Origem do terramoto permanece um mistério

Por Teresa Firmino
31.10.2005
Onde foi a origem do terramoto de Lisboa, um dos mais fortes de que há memória? Duzentos e cinquenta anos depois, poderia pensar-se que os cientistas teriam uma resposta. Nada disso. Esgrimem argumentos sobre o ponto onde a crosta terrestre começou a romper-se e provocou o tremor de terra e um maremoto (tsunami).


Estão agora em confronto quatro hipóteses, de portugueses e estrangeiros, e nos próximos dias, com várias conferências científicas em Lisboa a assinalar a efeméride, irão de novo confrontar hipóteses.

Com 8,7 de magnitude, foi primeira catástrofe considerada global. Nunca mais na Europa houve um sismo tão forte como o de 1 de Novembro de 1755. Afinal, o que aconteceu na crosta da Terra para causar um terramoto tão violento? O busílis começa aqui. Obter consenso é difícil, mas numa coisa os cientistas estão de acordo. O mecanismo por detrás do terramoto é complexo. Procurar a origem, ou fonte, deste terramoto é importante para determinar o risco sísmico de uma zona mal conhecida, a da fronteira entre as placas euroasiática e africana ao largo do Algarve e no golfo de Cádis.

Banco de Gorringe foi o primeiro candidato

Em 1914, o norte-americano Harry Fielding Reid disse que a origem teria sido no Atlântico, a cerca de 100 quilómetros a ocidente de Portugal. Em 1940, um catálogo da sismicidade na Península Ibérica, de um autor espanhol, propunha uma zona um pouco a norte do Gorringe, através das cartas de intensidades dos danos. O Algarve, Lisboa, Sevilha e o Norte de África foram bastante afectados.

Foi o Gorringe, a 200 quilómetros a sudoeste do Cabo de São Vicente e a 300 de Lisboa, que durante muito tempo concentrou as atenções. Esta montanha submarina tem 200 quilómetros de comprimento, está a apenas cerca de 50 metros de profundidade e é rodeada de planícies abissais que descem até aos cinco mil metros.

"É uma estrutura geológica impressionante", diz o geofísico João Fonseca, do Instituto Superior Técnico, em Lisboa. E está numa zona crítica para a tectónica de placas, de fronteira entre as placas euroasiática e africana, que começa nos Açores e se segue com facilidade até ao Gorringe, mas aí deixa de se perceber a transição. "O traço da fronteira desaparece, porque passa a ser distribuído em várias falhas. O ponto onde se dá essa viragem é o Gorringe, por isso chamou tanto a atenção."

Foi na década de 60 que o Gorringe foi claramente considerado como possível fonte do terramoto, pelo português Frederico Machado. "Disse que foi a fonte do terramoto apenas por ser uma estrutura tão evidente na batimetria [morfologia do fundo do mar] da margem continental."

Depois do sismo de 28 de Fevereiro de 1969, com uma magnitude já elevada (7,5) e bem estudado com instrumentação, passou considerar-se que a origem do terramoto de 1755 teria sido a mesma. Ou seja, a sul do Gorringe, na Planície Abissal da Ferradura.

Primeira simulação do tsunami apontou nova pista

Os grandes problemas com a localização no Gorringe ou a sul dele começaram em 1998, quando se simulou a propagação das ondas de um tsunami gerado na Planície Abissal da Ferradura por um sismo com a magnitude do de 1755.

A equipa de Maria Ana Baptista, do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa e do Instituto de Engenharia da Universidade de Lisboa, construiu um modelo de simulação das ondas de 1755. No entanto, algo não batia certo com os relatos da época - desde cartas e crónicas em jornais até aos inquéritos ordenados pelo marquês de Pombal a todas as paróquias sobre o sismo e o tsunami -, cujos originais foram consultados por uma historiadora.

Graças a essa consulta, construiu-se uma tabela com os parâmetros necessários para simular o tsunami de 1755, por exemplo a hora a que o sismo foi sentido e chegaram as ondas.

O pequeno tsunami gerado pelo sismo de 1969 também serviu de comparação, já que foi registado em todas as estações maregráficas de Portugal e não só. Sabe-se bem como se propagou e que a altura máxima das ondas atingiu 1,2 metros, em Casablanca.

As descrições nos relatos não eram reproduzidas: "A chegada à costa dava tempos superiores aos dos registos históricos", conta Maria Ana Baptista. "Daí que eliminássemos este local."

Simularam um tsunami originado num local mais perto da costa portuguesa, e em 1998 apresentaram a nova proposta em dois artigos na revista Journal of Geodynamics. "Propusemos uma primeira fonte que dava tempos de chegada correctos a toda a costa portuguesa, mas atrasados para o golfo de Cádis." Faltavam as provas geológicas, além de resolver o problema de Cádis, onde os efeitos foram muito fortes, como em Lisboa.

Uma falha chamada Marquês de Pombal


Para a nova localização, não se conhecia nenhuma ruptura na crosta que pudesse ter originado o terramoto de 1755. Foi então que apareceu um investigador italiano, Nevio Zitellini, do Instituto de Geologia Marinha, em Bolonha, a montar mais uma peça no quebra-cabeças.

No final de 1998, Zitellini descobriu uma falha geológica, a 100 quilómetros a oeste do Cabo de São Vicente. Chamou-lhe Marquês de Pombal, num artigo publicado em 2001 na revista EOS, assinado também por investigadores portugueses, como António Ribeiro, Luís Mendes Victor, Luís Matias ou Pedro Terrinha, da Faculdade de Ciências de Lisboa. "A Falha do Marquês de Pombal correspondia à localização provável da fonte do tsunami publicada em 1998", lembra Maria Ana Baptista.

O problema é que essa falha, com 60 quilómetros de comprimento, não chegava para gerar um sismo de 8,7 de magnitude. "Se se rompesse todo o segmento do Marquês de Pombal, a energia libertada corresponderia a metade da do sismo de 1755. Tivemos de ir à procura de uma segunda localização", conta a geofísica. Essa segunda zona de ruptura na crosta, em conjunto com a do Marquês de Pombal, reproduziu melhor o tsunami no golfo de Cádis.

Zitellini descobriu depois falhas no banco de Guadalquivir e, em 2003, ele e a equipa de Maria Ana Baptista publicaram um artigo na revista Natural Hazards and Earth Systems Sciences, a propor uma origem dupla para o terramoto: deveu-se a uma ruptura da Falha do Marquês de Pombal, em conjugação com o rompimento da crosta ao longo do banco do Guadalquivir.

Falha da Ferradura é outra das peças

António Ribeiro, que chegou a mergulhar no Banco de Gorringe e nunca encontrou lá provas do sismo de 1755, juntou novas peças ao quebra-cabeças. Defende que a origem do terramoto está na conjugação da Falha do Marquês de Pombal com as da Ferradura e do Cabo de São Vicente. À superfície da crosta podem estar separadas, mas no interior até pode ser o mesmo acidente tectónico. "Provavelmente, as três reúnem-se em profundidade."

António Ribeiro interpreta estas falhas e o sismo de 1755 como o início de um processo em que a placa oceânica começou a entrar por baixo da placa continental, para ser destruída no manto (subducção).
No meio do Atlântico está a ser criado fundo oceânico novo, que se afasta para os lados e terá de ser destruído algures, no manto. Se isso começou a acontecer no sudoeste da margem ibérica, o risco de grandes sismos está aí, mas isto é motivo de discussão.

Gorringe regressa e entra em hipótese com dois sismos

João Fonseca reavivou a hipótese do Gorringe, em 2003, na revista Bulletin of the Seismological Society of America. Disse que houve um primeiro sismo no Gorringe (8,5 de magnitude), que minutos depois induziu um segundo abalo (6,5) no Vale Inferior do Tejo.

Esta é a questão central, para João Fonseca. Com o seu modelo, quer explicar algumas contradições dos relatos históricos. Por um lado, houve um tsunami, o que indica que o sismo foi no mar e longe, já que as ondas levaram 90 minutos até Lisboa (à zona de Marvila). Por outro lado, a intensidade muito alta do sismo na região de Lisboa sugere um epicentro mais próximo. Cita relatos como o do padre de Benavente que viu um barco ficar em terra seca, que indicam que o terreno no Tejo ficou muito deformado. "Estas deformações podem compreender-se se tivermos uma ruptura próxima, mas não se foi a centenas de quilómetros."

Como aposta num sismo induzido no Vale Inferior do Tejo, João Fonseca adoptou o Gorringe como epicentro por ser o mais longe de Lisboa e desfavorável à sua hipótese. Pretendia mostrar que o terramoto de 1755 se encaixa num intervalo de sismos de 200 em 200 anos, em que as falhas do Vale Inferior do Tejo se rompem e causam abalos de magnitude superior a seis: terá acontecido em 1344, 1531 e, depois do abalo induzido em 1755, em 1909.

Mas os dados de Miguel Miranda, director do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa, obtidos com estações GPS nos últimos dez anos, mostram que os dois segmentos de falhas identificados no Vale Inferior do Tejo estão a mover-se muito devagar. "Se estes anos representam o comportamento normal, os sismos que atingem Lisboa são gerados na fronteira de placas e não na região de Lisboa. Esta é a grande polémica", diz, referindo que os seus dados indicam que é no sul, em particular no Algarve, que o risco sísmico está concentrado.

"A falha está a mover-se décimas, senão centésimas, de milímetro por ano. Portanto, não pode gerar sismos com aquela magnitude de 200 em 200 anos", acrescenta António Ribeiro, para quem não houve dois sismos em 1755. Diz que já ninguém acredita na conjectura do Gorringe. Um epicentro ali nunca explicou bem como é que Lagos e Lisboa, a 200 e a 300 quilómetros do banco, tiveram graus de destruição semelhantes. Uma origem mais perto explicá-lo-ia.

Arco de Gibraltar

Para Marc-André Gutscher, da Universidade da Bretanha Ocidental, o epicentro foi no arco de Gibraltar - relatou em 2002, na revista Geology. Considerou que há ali uma zona de subducção ainda activa, na qual um bloco de uma placa velha mergulha e, ao descer no manto, ainda deforma a superfície (dez milímetros por ano). Ali terá nascido o terramoto de Lisboa e é ali que estará o grande risco sísmico.

António Ribeiro rejeita esta solução: diz que essa zona está inactiva há cinco milhões de anos. Outros, ainda, consideram que o grande risco sísmico se deve mais à convergência entre as placas africana e euroasiática (quatro milímetros por ano). E Maria Ana Baptista aponta outro problema: "Gera um tsunami que reproduz bem todos os dados para o golfo de Cádis, no entanto gera tempos de chegada atrasados e ondas pequenas para a costa portuguesa."
http://dossiers.publico.clix.pt/noticia.aspx?idCanal=1543&id=1237410



Aristóteles ainda era uma influência
Electricidade, exalações e ventos no interior da Terra foram explicações da época

31.10.2005
Parecem agora ideias estrambólicas, mas eram tentativas sérias dos contemporâneos do terramoto de Lisboa, como Kant, que procuravam compreendê-lo. Ventos a sair do interior da Terra, gases e fumos originados pela combustão de matérias inflamáveis em grutas ou relâmpagos dentro do planeta eram algumas das causas apontadas. Experiências com electricidade provavam a teoria eléctrica dos sismos, e levaram a que se sugerisse, por exemplo, proteger as cidades com pára-sismos.


A geóloga Filomena Amador, da Universidade Aberta, em Lisboa, leu diversos textos da época sobre as causas dos tremores de terra, nomeadamente portugueses e espanhóis. Se havia autores para quem o terramoto foi um castigo divino - "diziam que havia um ambiente degradado, que em Portugal não eram tementes a Deus" -, outros procuraram causas naturais. "E distinguem as causas primeiras, que teriam a acção divina e não cabia ao homem discuti-las, e as causas segundas, as naturais", conta.

Aristóteles ainda era uma influência, por isso os autores que falavam das causas naturais socorriam-se das ideias do filósofo grego sobre os sismos. "Foi o primeiro a desenvolver o que se pode chamar de uma teoria dos tremores de terra." Segundo essa teoria, que chegou ao século XVIII com algumas modificações, eram ventos no interior da Terra que, quando ficavam aprisionados, provocavam os abalos.

O espanhol Miguel Cabrera, em Sevilha, onde se sentiu o sismo, tentou reconciliar a visão de Aristóteles com novas ideias sobre a propagação dos sismos a áreas muito vastas. O terramoto de Lisboa foi sentido, quase ao mesmo tempo, em Espanha, Inglaterra, França ou Dinamarca. Explicar como o abalo se propagava a uma velocidade tão grande era um problema.
Para Cabrera, no interior da Terra havia câmaras com exalações, e era aí que os tremores eram originados. Para definir a área afectada, apresentava uma explicação geométrica: que se procurassem dois pontos extremos onde o sismo foi sentido e, entre ambos, se traçasse uma circunferência. Essa era a área onde tinha sido sentido, e o diâmetro dessa circunferência era igual à profundidade da câmara que causou o sismo.

Outros defendiam uma teoria eléctrica. Estavam no auge as experiências com a electricidade, para compreender o que era o "fluxo eléctrico". Propagava-se muito rapidamente (como os sismos), e para o demostrar havia as experiências.

Experiências electrizantes

"Fizeram-se experiências perfeitamente loucas." Por exemplo, o francês Jean-Antoine Nollet fez uma com os guardas do Palácio de Versalhes de mãos dadas, com direito a público. Num dos extremos da cadeia humana, provocava-se uma descarga eléctrica, que se ia propagando. "Os guardas davam saltos. Era uma prova que se propagava. A certa altura, a preocupação foi saber quantas pessoas podiam estar ligadas até receber uma descarga eléctrica", conta a geóloga. "Outros pegaram nessas experiências e acharam que podiam ter uma relação com os sismos."

Se na atmosfera há descargas eléctricas, os tremores de terra poderiam ser um processo idêntico. Se existiam emanações internas, poderia haver faíscas. "Era natural que existissem trovões e relâmpagos internos." Cabrera discordava. "Dizia que era impossível e que tinha feito muitas experiências sobre electricidade, e a única coisa que tinha acontecido era ficar a tremer", conta Filomena Amador.

As experiências do francês Abbé Bertholon demonstravam-no: em cima de uma rede metálica punha casas de cartão e barcos em caixas com água, para imitar o maremoto: quando uma corrente eléctrica passava pela rede, o abanão fazia cair alguns dos "prédios". Assim, sugeria um sistema de protecção sísmica: enfiar na terra barras de metal com espigões numa das pontas. "Sugeria que à volta das cidades se devia colocar pára-tremores de terra, porque resultavam de um desequilíbrio eléctrico entre a atmosfera e a Terra."

Kant, que escreveu ensaios sobre o terramoto de Lisboa, também tinha as suas ideias. Inspirado em Nicholas Lémery - para quem os tremores de terra resultavam de uma reacção química entre o enxofre e o ferro, que provocava fendas no interior do planeta -, Kant dizia que dentro da Terra existiam galerias e grutas. A água chegava por fendas, davam-se reacções nos materiais, como o enxofre, que causavam vapores. Estes, ao quererem sair, faziam os tremores.

Kant também deixou uma sugestão em matéria de prevenção. "Dizia que Lisboa devia ser construída na perpendicular ao Tejo, porque achava que as galerias corriam paralelamente ao rio. Estaria mais protegida."

E o médico português António Ribeiro Sanches, obrigado pela sua origem judaica a sair de Portugal, preocupou-se com as questões de saúde pública ligadas aos sismos, já que as exalações podiam ser perigosas. Dizia que se devia plantar árvores. "As raízes iam libertar a Terra dos vapores e iam também libertar os tremores de terra."
http://dossiers.publico.clix.pt/noticia.aspx?idCanal=1543&id=1237413
 

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21 Mai 2007
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Sismo como o de 1755 causaria 3 mil mortos e 27 mil desalojados no Algarve
Um sismo com a mesma magnitude do registado em 1755 causaria hoje no Algarve três mil mortos e 27.000 desalojados, segundo resultados preliminares do Estudo do Risco Sísmico e de Tsunamis para o Algarve (ERSA).

Os progressos do estudo, que vai estar pronto no final de 2008 e permitir elaborar um plano de emergência detalhado para cada município algarvio, foram hoje apresentados em Faro numa cerimónia presidida pelo ministro da Administração Interna.

Se o sismo de 1755 - com epicentro no Banco de Gorringe e uma magnitude de 8,5 graus na Escala de Richter - se repetisse hoje, causaria danos sobretudo no Barlavento, mais próximo do epicentro. Este foi um dos cenários sísmicos apresentados hoje por Carlos Sousa Oliveira, professor do Instituto Superior Técnico (IST) e consultor da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), que frisou tratarem-se de "resultados preliminares".
Outro dos cenários avançados, tendo por base as características do sismo de 1722 - com epicentro em Tavira e magnitude de 7,8 graus na Escala de Richter -, aponta para uma estimativa de 12.000 mortos e 18.000 edifícios destruídos, com o Sotavento a ser mais afectado. Contudo, segundo o professor do IST, o número de mortes imediatas só poderá ser diminuído quando se trabalhar na prevenção, sendo que o estudo que está a ser desenvolvido permitirá fomentar acções preventivas.

"Temos de olhar para o problema sísmico de uma maneira preventiva, tal como na Medicina, em que apanhamos vacinas para não deixar entrar vírus ou bactérias", observou, dizendo que a principal preocupação são os equipamentos de saúde e escolas. "Não podemos imaginar que há um sismo que vem destruir hospitais e escolas, esta será uma primeira linha de prevenção e de reforço", disse, acrescentando que já estão a ser feitos levantamentos.

Testado no terreno em 2009

Segundo disse aos jornalistas a directora nacional de Planeamento de Emergência, Susana Silva, o plano de emergência decorrente do estudo estará igualmente pronto no final do ano e será testado no terreno em 2009. De acordo com aquela responsável, o principal objectivo do plano é conseguir que as diferentes entidades se articulem para dar resposta nas primeiras 72 horas, sobretudo aos feridos mais graves.

Susana Silva realçou ainda que de acordo com as experiências que recolheu de outros países, nas primeiras horas "é muito difícil as pessoas organizarem-se na própria região", pelo que a ajuda tem que vir de distritos ou até países vizinhos. No que respeita às consequências de um tsunami (maremoto) no Algarve, o estudo está a incidir sobretudo nas zonas da costa identificadas como mais vulneráveis, nomeadamente Sagres, Lagos, Armação de Pêra e Quarteira.

Com uma população residente de 400 mil pessoas, o Algarve tem 60 mil edifícios e 277 mil alojamentos, dos quais 70 mil são em betão armado, 50 mil em alvenaria com pavimento em placa, 23 mil em alvenaria de pedra e 15 mil em alvenaria, precisa o estudo.
http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=25196&op=all
 

Gil_Algarvio

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No dia 1 de Novembro de 1755 | Descrição do dia por Jacome Ratton
“Entre os acontecimentos extraordinários da minha vida não devo omitir a meus filhos o que passei na ocasião do memorável terramoto de Lisboa, que teve lugar no 1.º de Novembro de 1755, pelas nove horas e meia da manhã; e como fosse dia de Todos os Santos, tinha eu ido à missa à Igreja do Carmo, cujo tecto era de abóbada de pedra, e derrubado matou muito povo que ali se achava, de cujo perigo escapei por ter ido mais cedo, e me achar na dita hora nas águas furtadas das minhas casas, mostrando a um comprador uma partida de papel, que nos tinha vindo avariado, e ali se tinha posto a enxugar. Ao sentir o primeiro abalo me ocorreram muitas reflexões tendentes a salvar a minha vida, e não ficar sepultado debaixo das ruínas da própria casa, ou das vizinhas, se descendo as escadas fugisse para a rua; mas tomei o partido de subir ao telhado, nas vistas de que abatendo a casa eu ficasse sempre superior às ruínas. Já quando eu tomei este expediente era tanta a poeira, que, à maneira do mais denso nevoeiro, impedia a vista, a duas braças de distância; só passados alguns minutos, que a dita poeira se foi dissipando, é que eu pude ver o interior das casas vizinhas, por terem caído as paredes fronteiras, até aos primeiros andares, ficando os telhados apenas sustidos pelas paredes divisórias. Seus habitantes, alguns ainda em camisa, correndo espavoridos de uma a outra parte imprecavam os auxílios do Céu, e dos homens, em seu socorro. À vista desta horrível cena, me resolvi descer as escadas, e fugir para a rua, a fim de buscar alguma parte aonde me julgasse mais seguro. Ao descer as escadas encontrei meus pais, que aflitos me buscavam nas ruínas de um grande pano de chaminé que tinha caído, e debaixo do qual me julgavam sepultado. Foi inexplicável o nosso contentamento quando nos encontrámos; mas eu sem perder tempo lhes pedi que me acompanhassem para o largo mais próximo, que era ao fundo da Rua do Alecrim; e encontrando de passagem D. Maria Castre, nossa vizinha, pouco mais ou menos da minha idade, que também fugia, a tomei pelo braço, e seguimos a Rua dos Remolares por cima de entulhos, e muitos corpos mortos, até à beira-mar, aonde nos julgávamos mais seguros. Pouco depois de ali termos chegado, assim como muita gente, se gritou que o mar vinha saindo furiosamente dos seus limites: facto que presenciámos, e que redobrou o nosso pavor, obrigando-nos a retroceder pelo mesmo caminho, e a procurar, pela Rua de S. Roque, o alto da Cotovia, então obras do Conde de Tarouca, depois Patriarcal, e hoje Erário novo, aonde também vieram ter, por diversos caminhos, meus pais, e os parentes da dita senhora, todos na maior inquietação por não saberem uns dos outros, como aconteceu a imenso povo, que procurou aquele sítio descampado, então terras de pão, desde o alto da Rua de S. Bento até à Travessa de Pombal e Cardais de Jesus, havendo apenas algumas casas na rua que vai desde o Pátio do Tijolo, ou obras do Conde de Soure, até à fábrica da seda, que já existia, assim como também a casa de D. Rodrigo, actualmente Imprensa Régia, e o Convento dos Jesuítas, hoje Colégio dos Nobres. O descampado daquele alto dava lugar a descobrir-se a cidade por todos os lados, a qual, logo que foi noite, apresentou à vista o mais horrível espectáculo das chamas que a devoravam cujo clarão alumiava, como se fosse dia, não só a mesma cidade, mas todos os seus contornos, não se ouvindo senão choros, lamentações, e coros entoando o Bendito, ladainhas, e Miserere. Por fortuna o céu se conservava claro e sereno, e o terreno enxuto; por não ter até então havido chuvas, nem as haver por oito dias mais, o que deu ocasião a fazer cada um os arranjos, que lhe permitiam as circunstâncias.
Na madrugada do dia seguinte me convidou meu pai para o acompanhar às nossas casas, e ver se delas podíamos salvar alguma coisa, principalmente o precioso, livros, e papéis de maior importância. Não foi sem bastante trabalho que nos saímos bem desta empresa; por quanto descendo pela Rua de S. Bento, ainda com poucas casas, atravessámos do Poço dos Negros para o Poço Novo, tomámos a Calçada do Combro, e Rua do Loreto, para descermos ao fundo da Rua do Alecrim, de cujo lugar avistámos já em chamas a propriedade pegada com a nossa casa, restando-nos apenas tempo para tirar os artigos acima ditos, que metemos em um baú, que meu pai por uma banda, e eu por outra trouxemos, por entre chamas em que ardiam as ruas do Alecrim, S. Roque, e S. Pedro de Alcântara, até ao alto da Cotovia, aonde minha mãe nos esperava.
Dali partimos com o baú em uma besta de carga, que por fortuna apareceu, e nos dirigimos a uma quinta de pessoa da nossa amizade, sita na estrada do Lumiar, adiante do Campo Grande, aonde fomos bem recebidos, e alojados no jardim, debaixo de uma barraca feita de lençóis, e alastrada de colchões, sobre os quais dormiam promiscuamente, e sem se despir, tanto a gente da casa, como a de fora; porque ninguém se animava a dormir debaixo de telha. Os hóspedes eram muitos, e o pouco, comer porque todos tinham receio de se demorar na cozinha, que havia pago em comum era mal feito; e houve tanta escassez de pão, que meu pai, e eu fomos com uma besta de ceirão buscar uma carga a Linhá Pastora nas vizinhanças de Barcarena. Naquela quinta nos demorámos somente os dias necessários, para nos refazer do vestuário indispensável, principalmente roupa branca; visto que não foi possível a cada um salvar mais do que aquela que tinha no corpo.”

Recordações de Jacome Ratton,Lisboa, (1.ª edição: Londres, 1813) pág. 30-33

Ler mais sobre este sismo em Revelar Lx: http://bit.ly/1r6dtRN

Fonte:
https://www.facebook.com/camaradelisboa/posts/885212821498669
 

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Nimbostratus
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Simulação do tsunami do sismo de 1755

Resumo em animação de como um sismo, tsunami e incêndio destruiu Lisboa

A ZDF (canal alemão) produziu um documentário (parece ser bem interessante) sobre o sismo e tsunami de 1755, à cerca de dois anos contactei a ZDF sobre o documentário, responderam a dizer que contactaram os canais portugueses. mas nenhum se mostrou interessado em transmitir o documentário (?).
Se alguem tiver interessado, que envie um email a algum canal português a perguntar se podem transmitir o documentário a 1 de Novembro do próximo ano (Talvez o National Geographic Portugal poderia estar interessado).
http://zdf-enterprises.de/en/catalo...istory-biographies/1755-the-lisbon-earthquake
 
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StormRic

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Simulação do tsunami do sismo de 1755

Resumo em animação de como um sismo, tsunami e incêndio destruiu Lisboa

Interessante reconstituição embora o tsunami progredindo no Tejo em comparação com as naus me pareça exagerado, teria que atingir 30m de altura pelo menos para produzir aquele deslocamento dos navios o que não é compatível com a profundidade do rio naquele local, a frente teria já rebentado.
 
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camrov8

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não tens bem noção do que é um tsunami, não a frente da onda que traz problemas mas sim o período, nascido dum dos sismo de maior magnitude não deve ter sido nada bonito, não te esqueças que por pouco não a campo de ourique, daí o ditado rez vez campo de ourique, pega no google earth e vê a cota
 
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