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Covid-19 Várias unidades em pré-rutura.
Perante urgência de camas para doentes críticos, presidente da Sociedade de Cuidados Intensivos defende transferência de cirurgias de cancro para IPO e privados
Hospitais de Lisboa pedem ajuda urgente
Texto Christiana Martins Foto Tiago Miranda
Pela primeira vez desde que a pandemia de covid-19 teve início em Portugal, a zona de Lisboa e Vale do Tejo esgotou no último fim de semana a capacidade de resposta aos doentes com o novo coronavírus. No domingo, nenhum dos hospitais da região tinha meios para receber mais infetados e o Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), que tem o maior número de casos, pediu ajuda à Administração Regional de Saúde. A única solução encontrada foi a transferência de cinco doentes para o Algarve e de outros tantos para a Covilhã.
Na véspera, as urgências do Hospital de São José, que integra o CHLC, já tinham sido encerradas para os doentes trazidos por ambulâncias. Na segunda-feira, o Hospital de Santa Maria, um dos maiores do país, registou 426 atendimentos de urgência, muitos dos quais resultado de transferências de outras unidades que já tinham esgotado a capacidade de atendimento. Até aqui, nenhum dos doentes transportados estava em situação crítica, mas a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) está a ponderar a transferência também de doentes em cuidados intensivos a partir de Lisboa para zonas menos pressionadas do país, o que nunca antes aconteceu.
Com a taxa média de ocupação das enfermarias e das unidades de cuidados intensivos a rondar os 95%, e com a maior parte dos hospitais a assumirem falta de capacidade para continuar a expandir o atendimento sobretudo devido à falta de recursos humanos, está a ser equacionada a mobilização de profissionais de saúde de especialidades não envolvidas na linha da frente e de médicos e enfermeiros de outras regiões do país.
“Sabemos que taxas de ocupação superiores a 80% em cuidados intensivos não nos permitem dar resposta a todos os doentes e neste momento a média de ocupação é igual ou superior a 94%”, alerta ao Expresso o presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, João Gouveia, que esteve presente esta semana numa reunião com a ministra.
Perante o agravamento da situação, o responsável diz que deve ser ponderado até o condicionamento das cirurgias aos doentes oncológicos — até agora nunca equacionado — de forma a libertar blocos operatórios, salas de recobro e anestesistas para permitir a expansão das camas destinadas a doentes críticos. Ao Expresso, João Gouveia sustenta que as cirurgias oncológicas devem ser temporariamente concentradas apenas nos institutos de oncologia e nos hospitais privados. “Defendo a concentração da atividade oncológica nos hospitais especializados ou o recurso ao outsourcing de certos serviços nesta área”, diz.
A ministra da Saúde desdobrou-se esta semana em reuniões com os responsáveis hospitalares de Lisboa e Vale do Tejo e acabou por determinar a suspensão imediata da atividade não urgente e a elevação de todos os planos de contingência para o nível máximo. “Todos os hospitais devem garantir a alocação de meios humanos à área dos cuidados críticos, de modo a maximizar toda a capacidade de resposta nesta área”, determinou Marta Temido na passada terça-feira. As Forças Armadas foram ainda ativadas para reforçar a ajuda ao SNS, nomeadamente recebendo doentes na Base Naval do Alfeite doentes com covid-19 assintomáticos e sem condições para fazer o isolamento em casa.
“Nenhum serviço resiste a este crescimento de casos”
Com o maior número de infetados de todo o país, o CHLC tinha há dois dias 204 pessoas internadas, das quais 167 em enfermaria e 37 em cuidados intensivos. Por ocupar estavam apenas seis camas de enfermaria e três para doentes críticos. Dez camas de cuidados intensivos foram criadas na quarta-feira, com a consciência de que não há muito mais por onde aumentar a capacidade de atendimento.
O Centro Hospitalar Lisboa Norte, de que faz parte o Hospital de Santa Maria, esteve sempre muito próximo de atingir a lotação máxima e na segunda-feira registou o terceiro pior dia desde o início da pandemia. Com 98% de ocupação, a situação do Centro Hospitalar Lisboa Ocidental, que integra o São Francisco Xavier, é considerada crítica, com dificuldade para acomodar os doentes que chegam às urgências.
O e-mail enviado terça-feira por Marta Temido ao presidente da ARSLVT, depois de uma reunião com a Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a covid-19, especificava o que tem de ser feito em várias unidades. O Santa Maria — com 135 infetados internados, 35 dos quais em cuidados intensivos — deve converter imediatamente 12 camas não-covid em covid; o São Francisco Xavier tem de criar 53 camas que “ainda não estão totalmente consideradas”; no Hospital de Vila Franca de Xira, “todas as camas críticas poderão ser afetas à covid, utilizando o recobro para não-covid” e no Hospital de Cascais “há mais camas que poderão ser abertas com reafetação de recursos humanos”.
O CHLC não é referido neste e-mail, mas o Expresso sabe que, em última análise, há a possibilidade de transformar o Curry Cabral num hospital exclusivamente dedicado à pandemia, fazendo do Santa Marta, onde são realizados transplantes, numa unidade não-covid. “Ainda não estamos em rutura, mas nos próximos 15 dias a situação que já é preocupante irá agravar-se e poderá tornar-se crítica, porque não há serviço de saúde, por mais sofisticado que seja, que resista a este ritmo exponencial de crescimento de casos, com os recursos humanos esticadinhos ao limite”, garante Fernando Maltez, diretor de Infecciologia do Hospital Curry Cabral.
O Hospital Beatriz Ângelo (Loures), com 106 internados, tem sido um dos mais pressionados desde março, e já ultrapassou o limite. “Devemos estar no décimo nível do plano de contingência, não podemos elevar mais”, explicou ao Expresso a porta-voz, adiantando que um quarto da atividade da unidade está concentrada no atendimento a doentes covid. No Hospital Garcia de Orta, estavam internados na quarta-feira 116 doentes, 15 dos quais em cuidados intensivos. O cenário é semelhante no Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), onde a taxa de ocupação em enfermarias de doentes infetados atingiu 90%.
Todo o país em risco
A situação não se restringe, contudo, à região de Lisboa. O primeiro hospital a dar sinal de esgotamento foi o do Espírito Santo, em Évora, que teve de fechar as urgências no fim de semana durante 12 horas. Na segunda-feira, o Hospital de São João, no Porto, alertou para “um claro recrudescimento do número de doentes”, com mais de 100 casos suspeitos por dia.
Um dia depois foi a vez do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC) sinalizar o esgotamento, com 100% da enfermaria ocupada e a suspensão de toda a atividade não urgente. Na quarta-feira, imagens do Hospital da Guarda mostravam doentes em macas amontoadas nas urgências.
O presidente da secção do centro da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, não esconde a preocupação: “Nunca senti que o SNS estivesse tão no limite. Temo que estejamos perante uma situação catastrófica. E pode não se resolver só com a paragem da atividade programada e a abertura de mais camas.”
Com Joana Ascensão