Dentro do Hospital de Viseu, onde “um tsunami sucede a um terramoto”
“Bem-vindos ao inferno. Têm a certeza de que querem entrar?”. Num dos hospitais mais pressionados do país, a urgência acumula gente. Não há camas, não há vagas. Os Cuidados Intensivos triplicaram. Vive-se em xeque-mate, sem mais peças para mover
23 JANEIRO 17:47

Joana Ascensão
Jornalista
Abrem-se as portas para um corredor e ouve-se a voz de uma enfermeira. “Preciso de oxigénio urgentemente!”. Três garrafas, vazias, acumulam-se junto à parede, do lado esquerdo. Do lado oposto, estão empilhados 22 caixotes de resíduos contaminados, para incinerar, que ficaram do turno da manhã. (Ecologia e medidas de controlo de infeção são opostos).
Doentes em macas e em cadeiras de rodas, prostrados, perfilam-se um atrás do outro, atrás do outro. Não poucas vezes olham o chão, embrulhados em robes, alguns com máscaras de oxigénio, outros a tossir continuamente. Ocupam metade da largura do corredor porque escasseiam vagas nas várias salas. Escasseia tudo, em boa verdade. O oxigénio, o espaço, muitas vezes o tempo. Não há vagas para doentes nos serviços de internamento. Não há ali mais camas de reserva. O antigo serviço de ambulatório de ginecologia transformou-se, logo em março, na urgência covid. Há uma semana que lhe chamam inferno.
22 caixotes com lixo para incinerar, à porta da urgência covid do Hospital de Viseu.
RICARDO CASTELO / NFACTOS
Sem ter previsto, o Expresso chegou no “pior dia de sempre”. É possível, dado o avançar dos números, que nesta fase o “pior dia” seja cada dia que passa. Mas aquele, na passada quarta-feira, foi o primeiro desde março em que doentes a precisarem de internamento não tiveram lá espaço. Nem a unidade do Fontelo, aberta esta segunda-feira num Pavilhão Desportivo para acolher doentes menos graves, está a conseguir responder ao fluxo. “Bem-vindos ao inferno. Têm a certeza que querem entrar?”. A pergunta, sincera, vem do médico intensivista e diretor clínico do Hospital de Viseu, Eduardo Melo, seguida de uma explicação. “Até aqui, temos tido sempre a capacidade de jogar com a geometria interna e fazer mover peças. Hoje, a sensação é de xeque-mate”. Entramos.
RICARDO CASTELO / NFACTOS
NA URGÊNCIA.
“PEÇO-LHES, POR FAVOR, QUE DEIXEM SUBIR ESTE DOENTE. NÓS AQUI NÃO TEMOS LUGAR PARA MAIS NINGUÉM”
Enfermeiros, auxiliares e médicos desdobram-se, em piloto automático. O passo é apressado. A aura, pesada. Embrulhados nos fatos de proteção individual, só se distinguem porque têm os nomes escritos a marcador vermelho no fato. Há que acolher cerca de meia centena de doentes, quase todos idosos, alguns queixosos, alguns apáticos. O ritmo torna difícil contá-los, em parte porque estão sempre a chegar sem que haja facilidade em tirá-los dali. “Este senhor é pra subir para aí... Pode subir?”, ouve-se na voz de uma enfermeira ao telefone com um serviço de internamento. O homem é idoso, está numa cadeira de rodas, a receber oxigénio. “Olhe, mas peço-lhes por favor, deixem subir este doente, nem que fique aí sentado, porque nós aqui não temos lugar para ninguém. Temos pessoas sem oxigénio”, reforça a enfermeira, enquanto duas outras pegam em força o corpo de um idoso para o reposicionar de um cadeirão para uma cadeira de rodas. “Ai! Você beliscou-me, homem!”.
Cerca de meia centena de doentes ocupavam a urgência covid, alguns sem espaço para serem internados.
RICARDO CASTELO / NFACTOS
Quase todas as pequenas salas daquele serviço de urgência improvisado há dez meses estão completamente lotadas com doentes. Nalgumas, porém, encavalita-se material, como socas conspurcadas, empoleiradas numa máquina idêntica a uma de lavar a loiça. Os profissionais movimentam-se diretos a um alvo de cada vez, no pouco espaço disponível, e nunca falta o que fazer.
Chega uma ambulância. “Tenho ali uma senhora em paragem [cardio-respiratória]”, avisa o enfermeiro do INEM que acompanhou a doente, octogenária. “Meta cá”, responde um médico. Pode ser preciso “entrar em manobras”. É preciso um procedimento rápido, mas não há camas. A maca entra direta para a Sala do Doente Crítico 2. Para já, é preciso que a senhora seja estabilizada, enquanto os profissionais socorristas explicam que veio de um lar com um surto de covid-19.
“Qual é o nome da senhora?”. Chama-se Adelaide. Os profissionais de saúde tratam os doentes pelo nome. Logo cinco rodeiam a idosa, apática. Colocam-lhe soro “a correr”, depois oxigénio. Medem-lhe a febre: 39,6ºC. “Enfermeira Barata, pedes a Medicina?”. “Estou a pedir!”, responde ela, já de telefone na mão. É preciso chamar à urgência um médico especialista em Medicina Interna. “Quem está aí da Medicina? Temos aqui uma doente mal”.
Por causa de um surto num lar de idosos, uma mulher deu entrada nas urgência em paragem cardio respiratória.
RICARDO CASTELO / NFACTOS
NO INTERNAMENTO.
METADE DOS 1035 DOENTES INTERNADOS EM VISEU CHEGARAM NO ÚLTIMO MÊS
É o enfermeiro supervisor, Jorge Melo, que nos recebe à saída da urgência, com uma expressão impressionada no olhar e uma constatação: “Eles fazem quase magia, lá dentro”. Esta é só a porta de entrada. O caminho habitual para um doente covid que precisa de ser internado culmina, invariavelmente, numa enfermaria.
O segundo maior hospital da região centro do país suspendeu toda a atividade programada não urgente há duas semanas, depois de ativar o nível máximo do plano de contingência. Projetou a resposta para cinco enfermarias covid, depois de ter apenas chegado às quatro na segunda vaga e de não ter passado das três na primeira. Desta vez, já abriu dez, com um total de 230 doentes.
Das 1035 pessoas internadas com covid desde 15 de março, metade (517) foram recebidas no último mês. “A primeira vaga foi mais suave, a segunda vaga já não foi nada simples e esta terceira está a ser catastrófica. É um tsunami a seguir a um terramoto.” A analogia é dada várias vezes por Eduardo Melo nas horas em que o Expresso esteve a observar por dentro o Hospital de Viseu.
Eduardo Melo, médico intensivista e diretor clínico do Hospital de Viseu, faz contas todos os dias e rascunha-as num papel para conseguir mexer peças no internamento.
RICARDO CASTELO / NFACTOS
As vagas escasseiam, mas sobra silêncio. Os cuidados intensivos são a porta de chegada dos doentes que viram a doença controlar-lhes o corpo ao ponto de precisarem de adormecer por tempo indefinido. Apenas o ruído dos fatos dos enfermeiros, médicos e auxiliares interrompem a música de fundo, da rádio. E os ‘pi pi pi’ das máquinas, ritmados, sobrepõem-se, fugindo do compasso apenas quando, de tempo a tempo, é preciso ativar um procedimento num doente, como mudá-lo de posição na cama. Para cada um há um ecrã que espelha as funções vitais. Bate o coração, diz a linha verde. Existe oxigénio a 93% de saturação, diz o traçado azul. Tem febre, dizem os números a laranja.
É preciso transferir um doente internado há mais de 20 dias que deixou de representar perigo de contagiosidade. Não está bem, ainda, para lhe tirarem o ventilador, e por isso irá para a única vaga na UCI não covid. A cama livre que deixou será rapidamente ocupada por outro doente a precisar deste nível de cuidados. Tem 32 anos.
Os Cuidados Intensivos têm sobrevivido sem vagas. Quase todos os dias é preciso aumentar mais uma, duas camas.
RICARDO CASTELO / NFACTOS
Também tem sido urgente contratar profissionais, o que mesmo assim não permite aos existentes tirarem folgas e terem turnos em que horas não se prolonguem para lá dos 60 minutos. Há 90 deles infetados, “uma catástrofe”, adjetiva Nuno Domingues Duarte, o presidente da administração.
Nesta fase, quase diariamente chegam novos contratados. “Uma colega enfermeira que estava a trabalhar em Londres, no Reino Unido, chegou hoje, viu o cenário e disse logo que ficava já a trabalhar, a fazer noite. Esta é a prova da disponibilidade das pessoas. É uma coisa absolutamente extraordinária”, conta Jorge Melo, enquanto sobe um piso para chegar a uma das unidades de cuidados intensivos covid.
NOS CUIDADOS INTENSIVOS.
O IMPROVISO PARA A INCONSCIÊNCIA
Oito camas e um único serviço de cuidados intensivos deixaram de ser suficientes no Hospital de Viseu. Foi preciso triplicar a oferta. Hoje, a mesma equipa desdobra-se em três espaços, dois deles improvisados a partir de “serviços normais”, num total de 22 camas, sendo 17 para doentes covid.
RICARDO CASTELO / NFACTOS
A cada dia é preciso abrir mais uma, mais duas. “Tivemos de transformar enfermarias inteiras”, descreve Eduardo Melo, como a de otorrino e de oftalmologia, no 3º piso, aberta “num maldito sábado, há 15 dias”, para passar a receber doentes covid de cuidados intermédios mas também de cuidados intensivos.
Linhas de adesivo separam o corredor na longitudinal. Veem-se carrinhos com cobertores e lençóis encostados à parede. Uma enfermeira da equipa de cuidados intensivos desfarda-se, ao canto, para ir comer qualquer coisa, à hora de jantar, e reflete. “Aqui não está fácil. Ainda não estamos a arder, mas está quase.”
Ana Albuquerque, médica intensivista, passou de dirigir um para dirigir três espaços de cuidados intensivos. Desdobra-se entre eles e diz sentir-se “cansada, triste e desiludida”. Numa visita ao serviço temporário do piso 3, mostra como o serviço adaptado torna menos exigentes as condições que tinha normalmente nos cuidados intensivos. “Não há espaço por cama. Temos de improvisar tudo. São fichas triplas, são coisas penduradas, não há computadores, não há secretárias, os medicamentos não estão lá dentro, estão cá fora, temos de andar para trás e para a frente.”
Ana Albuquerque é médica intensivista e diretora do serviço de Cuidados Intensivos do Hospital de Viseu.
RICARDO CASTELO / NFACTOS
Tem a cargo uma equipa exausta, sem quaisquer folgas neste momento, e zero vagas no serviço. Olha de relance para o quadro escrito à mão que tem no gabinete improvisado. “70, 75, 73, 63, 74 anos. No outro serviço as idades rondam os 50 e os 60 anos.” Para Ana são todos novos. Perto da secretária tem um relógio, torto, como as horas, e nem o olha. Só vai a casa para se encostar um bocado no sofá. E é tarde. Tem sido sempre tarde. Com o desalento no olhar, por trás da máscara, acredita que “as pessoas não têm noção e não acreditam”. Sem saber, encaixa com uma reflexão do enfermeiro Jorge Melo, quando disse, em jeito de lição, que “a inversão da curva está do lado de fora do hospital”.
https://expresso.pt/sociedade/2021-...iseu,+onde+“um+tsunami+sucede+a+um+terramoto”