Crescimento da pandemia em Lisboa
Miguel Conde Coutinho
Os dados sugerem que o recrudescimento do número de casos de covid-19 em Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e, concretamente, no concelho de Lisboa, começou depois da festa do título do Sporting. O agravamento pode também relacionado com a "invasão" de turistas ingleses e o avanço da variante delta do SARS-CoV-2 em Portugal, que está a atingir LVT com maior força.
Embora não seja possível estabelecer uma relação direta e definitiva de causa e efeito, parece haver duas datas fundamentais para tentar perceber o aumento de casos na zona de Lisboa:
11 e 17 de maio.
Em Lisboa e Vale do Tejo (LVT), a
Incidência de casos por 100 mil habitantes dos últimos 14 dias, e o
R(t), o
índice de transmissibilidade, estavam abaixo dos níveis nacionais, até que a
festa do título do Sporting, que juntou milhares de pessoas na capital, e a
chegada dos turistas ingleses a Portugal terão alterado a situação pandémica no concelho e na região.
Nos dias seguintes - o tempo de incubação médio da covid-19 é de 5 a 7 dias, dentro de um período máximo de 14 dias -, os
dois indicadores começaram a subir.
Segundo os relatórios semanais (de maio e junho) de
"Monitorização das linhas vermelhas para a covid-19", publicados pelo Instituto Nacional Ricardo Jorge, foi durante esses dias que os casos e o ritmo de transmissão na região de LVT
aceleraram e
ultrapassaram os valores nacionais.
A
12 de maio, o R(t) de LVT passou a ser mais elevado do que no resto do país.
Uma semana depois, a incidência na região também superou a do resto do país.
A análise da
matriz de risco com os valores para o território Nacional e para LVT confirma a tendência: entre 12 e 19 de maio, em Lisboa a situação agravou-se fortemente.
Na zona Norte, que começou o mês com os números de R(t) mais elevados do país, os indicadores, apesar de algum crescimento, mostram que não foi tão afetada.
Se nos centrarmos apenas no concelho de Lisboa, a situação é semelhante.
A partir de 11 de maio, o crescimento de casos piora e o relatório de "Linhas Vermelhas" de 21 de maio chama atenção para
"uma tendência crescente, mais acentuada" em LVT, certamente empurrada por Lisboa.
Em
quinze dias, entre 12 e 26 de maio, o concelho duplica a incidência.
Num mês, subiu 280%.
A nova
variante indiana, chamada Delta (ou B.1.617.2) parece também ter tido uma influência decisiva.
Como nota o INSA, "a variante Delta parece estar associada a um
maior risco de transmissibilidade e talvez de internamento quando comparado com a variante Alpha1 [a variante do Reino Unido]".
O INSA referiu-a pela primeira vez a 14 de maio (reportando a dados até dia 12). Uma semana depois, no novo "Relatório das linhas vermelhas", estimava-se que a variante Delta não teria ainda transmissão comunitária.
As coisas agudizam-se na semana seguinte. De 2 casos detetados em território nacional, passou-se para 37. "A sequenciação genómica revelou várias introduções distintas desta variante em Portugal. A ausência de ligação epidemiológica em alguns dos casos mais recentes pode indicar a existência de transmissão comunitária da mesma.", alerta o INSA.
No primeiro relatório de junho, o INSA salientava que, embora a variante delta tivesse sido encontrada em 9 distritos, "a maioria foi identificada na região de LVT (63,0%)". Uma semana depois, já eram 74% os casos da "delta de LVT. A nível nacional, a prevalência desta mutação rondava os 4%.
No último relatório das "Linhas vermelhas", publicado a 18 de junho (com dados até 16 de junho), era claro o crescimento desta estirpe. Os infetados "residiam maioritariamente na região de LVT (77,7%)", aponta o documento.
Neste momento, segundo o INSA, do total de novos casos registados em LVT, há uma prevalência superior a 60% da variante delta.
Analisando o gráfico abaixo, percebe-se que o andamento de casos "Delta" acompanha o ritmo da incidência em LVT.
https://www.jn.pt/nacional/infograf...-pandemia-dados-sugerem-que-sim-13866689.html